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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O pé de valsa





Essa história aconteceu em meados dos anos 70, numa pequena cidade ainda jovem, muito religiosa e conservadora, no interior do Paraná, algo bem comum naqueles tempos da colonização do estado. Era época de quaresma, período de quarenta dias após o carnaval, no qual os católicos ficam em resguardo, orando. Nesse período a igreja não aconselha festas, pois os santos, os anjos e demais elementos do exército celeste também estão em resguardo ou ocupados com outras coisas e deixam de cuidar de nós, os mortais, ficando livre o caminho para as forças do mal irem à forra com os descuidados.

Mas o Manoel, também conhecido como Mané, dono do salão de baile mais famoso da cidade, não dava a mínima pra isso de igreja e também não achava a idéia de ficar quarenta dias sem abrir seu salão de balei muito boa. “Quem vai pagá o meu feijão, pô?!” – dizia ele.

Então Mané resolveu fazer o baile, normalmente, naquela primeira sexta-feira de quaresma. O padre excomungou, as beatas esconjuraram, todo mundo olhou torto pra ele. Mesmo assim o Bailão do Mané lotou e o rastapé comeu solto a noite toda... ou quase toda. Dizem que por volta das onze da noite apareceu um forasteiro, um cara elegante, de paletó claro, camisa branca sem gravata, sapatos brancos lustrosos, bigode charmoso e babosa no cabelo penteado pra trás. O sujeito chegou calado e foi direto ao bar tomar um trago, e cada movimento seu era acompanhado pela atenta vigilância dos homens do salão. Os olhos de todas as garotas brilharam de desejo.

Não demorou muito e o forasteiro pé de valsa estava rodando o salão, dançava com uma, com outra, mais outra... estava literalmente dando um baile no pessoal e deixando as moças ouriçadas, que o cercavam querendo mais. Chegou um ponto em que todas elas só queriam dançar com o tal cara do bigode, deixando os homens do recinto tão indignados, que foram tirar satisfação. Aí a coisa ficou feia. O Ademar da quitanda, um cara enorme e esquentado, já chegou empurrando o forasteiro de lado e perguntou:

– Quem diabos é você, cumpadi? Vai chegando e atrapalhando o nosso baile, pegando nossas garotas... Cê acha que é quem?

O forasteiro, deixando educadamente de lado a moça com a qual dançava, olha firmemente para Ademar durante uns 5 segundos, sem esboçar qualquer reação. Então responde, sorrindo:

– Quem diabos, Ademar? Quem diabos?!?! E começa a rir.

A risada vai aumentando cada vez mais até ecoar por todo o salão e encobrir a música. A banda para de tocar e todos, assustados, olham para o risonho forasteiro. As luzes então começam a piscar desordenadamente; apagam e acendem ao som daquela gargalhada ameaçadora até que, finalmente, tudo escurece. 

Ao acender das luzes o forasteiro não está mais ali na frente do Ademar, mas em cima das caixas de som ao lado do palco, e continua rindo. Enquanto gargalha feito um lunático levanta suas duas mãos para cima, se consome numa labareda de fogo e desaparece. Todos que estavam no salão imediatamente saem correndo desesperados, deixando na sala apenas um forte cheiro de enxofre e um Ademar preocupadíssimo, repetindo sem parar enquanto também fugia : "Ele sabia o meu nome... Ele sabia o meu nome... Ele sabia o meu nome..."

Dias depois tomaram coragem para voltar ao salão, foram acompanhados pelo delegado e pelo padre que, armado de água-benta e crucifixo, ia benzendo o caminho à frente. Revistaram todo o salão, mas a única coisa que encontraram como prova daquela noite sinistra foram as marcas de dois cascos de bode queimadas sobre a caixa de som de onde sumiu o forasteiro. No jornal do dia seguinte, na primeira página, publicaram a foto das marcas e a seguinte manchete: “Baile do Demônio - o dia em que o Capeta veio pra dançar.".

quinta-feira, 11 de março de 2010

Espanando as Teias de Aranha.

Pra que os mecanismos do Blog se mantenham saudáveis, vou aqui com mais um dos contos que publiquei no Culturanja de 28 de Fevereiro. Teremos vários.

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E estamos nós, outra vez, num dos períodos que eu mais gosto do ano: a Quaresma. Só seria melhor se ao invés do calorão do verão, esses quarenta dias se passassem no inverno, sem toda essa transpiração desnecessária.

É durante estes quarenta dias que, enquanto os santos, os anjos e todo mundo lá das altas rodas está ocupado em penitência, meditando e refletindo, os espíritos matreiros saem pra atazanar as simples pessoas e acabam gerando aquelas ótimas histórias de assombrações. É o tempo do Saci-Pererê, do Lobisomem, da Mula-sem-cabeça e do Curupira. É quando as bruxas saem pelas cidades escolhendo seus alvos, os demônios ficam a cochichar nas nossas orelhas e nos colocando em enrascadas, isso quando não aparecem na nossa frente, loucos para negociar alguma coisa em troca da nossa alma.
Halloween que nada! Onde já se viu trocar 40 dias de pura festança sobrenatural por uma noitezinha de novembro, com sustos aqui, travessuras acolá. Sou do Movimento Viva a Quaresma (mesmo que na morte!). Pra completar, deixo vocês com a primeira história sobrenatural de algumas que virão:

O Ramalhete de Flores do Campo.
Gravura por Paulo Tanoeiro

Seu Orlando tinha uma floricultura que ficava de frente pro cemitério. Seu negocio ia de vento em popa, afinal, morre gente todos os dias e não tem lugar mais propício para uma floricultura do que ali, em frente ao cemitério. Já perdeu a conta de quantas consciências salvou, pelos mais de 10 anos que estava ali, ao vender uma flor para aquele ente querido e quase esquecido.

Diferentemente dos clientes emergenciais, ele tinha alguns costumeiros, como a dona Olga, que aparecia todas as quartas-feiras, próximo do horário de fechar a floricultura, lá pelas seis horas da tarde. Ela era uma senhorinha, nos seus setenta e poucos anos, mas aparentava muita saúde e lucidez. De passos firmes, chegava no balcão e pedia o seu ramalhete de flores do campo, conversava um tiquinho com o Orlando, saia em direção ao cemitério e entrava pelo portão.

Pelo pouco que conversaram, Orlando concluiu que Dona Olga era viúva há muito tempo e, decerto levava flores ao finado marido todas as quartas-feiras. A única queixa que Olga fazia era sobre a ausência dos seus filhos e netos, faziam muitos meses que eles não a visitaram e ela estava se sentindo só e abandonada. “Ainda bem que ela tem o túmulo de seu marido para visitar” pensava Orlando, algum exercício de afeto para ocupar seu cotidiano.

Num dia cinzento desses, morreu um grande amigo do Orlando, e ele manteve a floricultura aberta apesar da dor no coração. Mandou uma bela coroa de flores para fazer-se presente no funeral, mesmo estando do outro lado da rua. O enterro seria perto das seis da tarde, naquela terça-feira.

Quinze pras seis da tarde Orlando fechou a floricultura e foi ao enterro de seu amigo. Depois do sepultamento veio caminhando aleatoriamente pelo cemitério e ficou espantado com o numero de conhecidos seus que estavam lá, mortos. Também conseguia reconhecer alguns dos arranjos de flores saídos de sua floricultura, definitivamente era um bom negócio. Parou estarrecido em frente a um túmulo.

As flores do vazinho já estavam secas, a foto era de uma senhora de ar imponente e sério, mas de olhar feliz. Olga Albuquerque do Nascimento (17/08/1932 - 23/11/2005). Era a Dona Olga, sua cliente contumaz da floricultura. A data da morte já completava alguns anos.

Ainda pálido e com o pensamento a mil, foi até sua floricultura, reabriu as portas, fez um belo ramalhete de flores do campo e o levou até aquele tumulo. A partir desse dia, Orlando repetia o ritual: às quartas-feiras levava um ramalhete de flores do campo para a Dona Olga, e jamais percebeu qualquer sinal de outra pessoa, parente ou amigo, visitando sua singular cliente. Sentia-se contraditoriamente feliz ao perceber que Dona Olga nunca mais apareceu pra comprar um ramalhete de flores do campo.