Chega uma hora na vida de todos nós, quando o sofrimento é imenso; quando tudo parece não fazer mais sentido; quando reina na alma o sentimento de se estar perdido; quando o desconforto beira, ou até mesmo extrapola, o insuportável. Nessa hora é muito comum dizer que "a vida nos dá golpes fortes", como se ela fosse um tipo de entidade com vontade própria. Assim, usamos mais uma vez a nossa tradicional transferência de responsabilidades que deveriam ser nossas, mas legamos para a vida, para as pessoas, para as leis e, até mesmo para o clima.
Assim, nos enganando e falsamente isentos de responsabilidade, nos sentimos mais leves para continuar vivendo as mesmas ilusões, mantendo os mesmos comportamentos e nutrindo, inevitavelmente, os mesmos vícios até que se torne insuportável.
E é no insuportável que estamos chegando, mais uma vez, na história humana. O materialismo, relação primitiva que temos com as coisas já não é o suficiente para nos completar os anseios e nos dar o bem estar que procuramos, pelo contrário, atualmente só nos tem provocado o oposto: tristeza, dores, ansiedade, doenças psíquicas e físicas.
Tragédia atrás de tragédia. Mas todo sofrimento é um convite à mudança, insistir nos mesmos erros só perpetuará as dores. A ressaca vem para avisar que é pra beber menos da próxima vez; a gastrite vem pra avisar que é melhor comer menos e ficar menos nervoso. É nesta hora escura e difícil da existência, pela qual estamos passamos, que é preciso mudar a forma de agir e de pensar.
Enquanto for "a sociedade" que precisar mudar para o mundo melhorar, nada mudará. A sociedade não é ninguém, não é um ente que faz algo, ela não vai me ouvir, refletir e decidir se acata ou não o meu pedido. Quem muda e deve mudar sou eu. Sou eu que, mudando a mim mesmo, influencio os meus arredores e, após algum tempo, arrisco a perceber alguma mudança em maior escala.
Enquanto a mudança que desejo não acontecer, é sinal de que não mudei o suficiente ou não influenciei suficientemente os meus arredores. Então é preciso continuar o esforço, persistir infinitamente, até que o mundo se torne o bem que desejo, refletindo a mim o bem que eu faço a ele, conforme a Lei Universal que, invariavelmente e infelizmente, também vale para o mal. Portanto, vale sempre lembrar que o gatilho de qualquer mudança sou eu. E o mesmo se aplica a você. Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, já davam a dica: primeiro é "um por todos" para que, depois, possa haver o "todos por um".
E continuando entre as boas influências de grandes humanos que, no trabalho de evolução individual, mesmo em meio a tropeços e inúmeras dificuldades, o que certamente acontecerá com todos os que se dispuserem a viver melhor, tentaram sugerir caminhos e influenciar os seus arredores para o bem, lembrei da sugestão do Michael Jackson, na belíssima "Man in the Mirror" que, apesar de estar num disco de nome "BAD", tem uma mensagem muito bonita. Aqui vai um trecho:
"O que você faz é o motivo para você estar aqui". Essa frase soou feito uma bomba, mais uma que o contato com a vida e obra de John Coltrane me trouxe. Não me lembro quem disse, acho que foi o Jimmy Heath, durante uma de suas falas no documentário Chasing Trane, de John Scheinfeld.
Documentário carinhosamente criado e montado, que explicita ainda mais o processo de vida e criação de John Coltrane, que se misturam. Na verdade, são a mesma coisa. Na vida e na obra, Trane usa a música como instrumento de transformação, de superação do humano, em busca do sublime, do inefável; reflete sobre a responsabilidade do artista sobre o que ele transmite.
Curando-se a si mesmo pela música, e dando vazão à voz de seu espírito sempre pacífico, saiu dos labirintos dos vícios ao infinito de possibilidades que uma consciência integral permite. Quis curar o mundo. Tanto que, mesmo chegando no ápice da integração entre música e sentimento, com sua obra prima "A Love Supreme" (1965), não se deu por satisfeito e foi além, dando passos que poucos, ou até mesmo ninguém foi capaz de seguir.
Na emoção do reencontro com esta figura tão elevada, recupero uma publicação antiga, mas que pode dar alguma dimensão, se é que isso é possível, à transcendência de John Coltrane. Elevem-se.
Imagino os arrepios de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) ao desfrutar dos atuais modos de difusão de informação, dando aquela olhada no Facebook, nos portais de notícias e semelhantes, pela internet. Ele que, em 1922, publicou o livro Tractatus logico-philosophicus no qual filosofava, entre várias coisas, sobre a Linguagem.
A linguagem é o meio de interação entre o mundo e os seres. É uma criação intelectual, um arcabouço de símbolos e significados que nos permite entender e significar o mundo, e a forma pela qual expressamos nossas impressões dele. Portanto, todo entendimento, toda construção social e cultural é dada através da linguagem em suas mais diversas formas de manifestação.
Entendendo a limitação da linguagem, por ser vinculada à nossa capacidade intelectual limitada, Wittgenstein acreditava que "o método correto, em filosofia, seria propriamente: nada dizer a não ser o que pode ser dito”, cunhando, assim, célebre máxima: "sobre o que não se pode falar, deve-se calar", à priori sobre as coisas transcendentes, além da nossa compreensão, assuntos que ele nomeia de "Místicos", mas eu não deixaria de lado a sugestão e aplicaria tal regra à qualquer assunto. Portanto, seguindo esse raciocínio, conclui o filósofo que não existem problemas filosóficos genuínos, pois estes são resultados de confusões, distorções de conceitos, gerados pela nossa limitada capacidade de entendimento do universo. Ou seja, o fato de não entendermos a real mecânica da realidade, não significa que ela tenha problemas. As problemáticas filosóficas profundas, são criações nossas, pela nossa incapacidade de transcender.
Sugere, então, Wittgenstein, uma postura de fé sem palavras, de controle da nossa tagarelice, de silêncio respeitoso frente à questões de dimensão místicas, transcendentes, que estão fora do nosso alcance intelectual, sob risco de incorrer em erro, problematizando o que não é um problema de verdade.
Reconhecer o indizível, o inexprimível não é novidade. Os Egípcios já manifestavam essa postura respeitosa em alguns templos, nos quais a figura do Deus dos Deuses, a Suprema Causa de Tudo, nunca era iluminada pelo sol, ao contrário das outras figuras, que eram iluminadas, cada uma em uma época do ano, simbolizando que, havia coisas que a luz do conhecimento jamais iluminaria. O mesmo símbolo nos acompanha nos "Santo dos Santos" do Templo dos hebreus; que nos remete ao interior mais recôndito da nossa alma, à escuridão do infinito do Universo ou no microcosmo intangível das partículas minúsculas. Tudo nos sugere a existência de uma mecânica além da nossa compreensão e fora do nosso controle, frente à qual só nos resta o silenciar, o ouvir e nada falar.
Como na letra de João Ricardo e Luhli, para a belíssima canção "Fala", do álbum de 1973 dos Secos & Molhados. Decerto é uma letra sobre o momento certo de falar e de calar, escolhendo o silêncio nos casos de reconhecida ignorância. Sinal de humildade. Então, gostaria, aqui, de deixar a sugestão para que tenhamos a mesma postura humilde frente ao Universo: antes de montarmos em nossa arrogância e orgulho, que prefere teorias absurdas à possível simplicidade das verdades, silenciar humildemente, e apenas ouvir o infinito, senti-lo, assumindo que existe, no invisível, o inalcançável, o indizível.
Cheguei na beira do porto onde as ondas se 'espaia'
As 'garça' da meia-volta e senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia
Quando eu vim da minha terra, despedir da 'parentaia'
Eu entrei no Mato Grosso, bem em terras Paraguaias
Lá tinha revolução, enfrentei forte 'bataia'
A tua saudade corta como aço de 'navaia'
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia'
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia'
Cuitelinho é como se chama o Beija-flor em algumas partes do Brasil interiorano, e também é o nome dessa belíssima canção, composta por Bento Costa, em 1932. Dizem que ganhou notoriedade depois que Paulo Vanzolini, famoso biólogo e compositor (de "Ronda", "Volta Por Cima") a trouxe para os holofotes. Disse o próprio Vanzoline que, durante uma pescaria na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, seu amigo Antônio Xandó chamou sua atenção para a bela canção que um barqueiro cantava. Inspirado pelo primeiro verso que ouvira, compôs os outros dois. Do Bento Costa, pouco se sabe.
Não escondo o sentimentalismo, e fica cada vez mais evidente que a saudade é um dos meus temas favoritos. Na Cuitelinho as saudades vêm de um soldado brasileiro que abandona a família para ir lutar na gerra do Paraguai (1864-1870) ou, pelo menos, é o que se dá a entender.
No meio das saudades todas que ele carrega, surge o que, na minha opinião é a melhor descrição dos efeitos da saudade que já constou no cancioneiro popular brasileiro. Falo do terceiro verso, que repito aqui:
A tua saudade corta como aço de 'navaia'
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia'
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia'
A beleza poética da imagem é imensa, mas é delicadamente escondida atrás da linguagem simples. Simples, como é simples sentir saudades; como é simples o personagem que entoa os versos. O dialeto caipira e, em algumas versões da música, o som choroso do ponteado da viola caipira, potencializam muito as emoções dos versos. A soma disso tudo me remete às minhas próprias saudades dos tempos passados no interior, nas casas e sítios da 'parentaia' do Norte Pioneiro do Paraná.
Me emociona, também, como graças à poesia e a cultura popular, conseguimos acessar esse microuniverso sentimental de um evento gigantesco que foi a gerra do Paraguai, considerada, inclusive, o maior conflito armado que já houve na América do Sul. Também foi o mais sangrento. Entretanto, no meio de tiros de canhão e gritaria, havia ali, num coração surpreendido pela batalha, decerto aflito, um santuário de calmaria e saudade, um relicário, um altarzinho aconchegando tudo aquilo que se ama.
Dizem que Nicolò Paganini (1782 - 1840) foi o maior virtuose do violino que já existiu. Possuía uma técnica e criatividade que jamais foi igualada por alguém. Também era muito feio, mas tinha uma boa visão de negócio. Ficou muito rico aproveitando-se de sua aparência soturna, cabelos longos, nariz pontudo, muito magro, usava sempre roupas escuras, fazia suas apresentações com pouca luz e teatralmente sombrias. As peças que executava, escritas por ele mesmo, desafiavam a técnica, necessitavam de movimentos de arco e de dedos jamais imaginados até então. Dentre essas peças, está o conjunto de "24 Caprichos" que são interessantíssimos, mas não muito fáceis de se ouvir.
Por todo o frisson que causou em sua época, Nicolò Paganini influenciou muitos outros músicos, seus contemporâneos de Romantismo, como Schubert, Chopin, Schumann e Liszt, que trouxeram para o piano – e para o pesadelo de quem estuda piano – aquele virtuosismo fenomenal que viam em Paganini, que era tanto que chegou a espalhar-se a lenda de que ele tocava daquele jeito por ter feito pacto com o diabo ou, ainda, de ser o filho do próprio tinhoso.
Com todos esses predicados, se vivesse hoje em dia ele seria um desses guitarristas "fritadores" do Metal, que fazem muitas notas por segundo e, também, muitas caretas. Inclusive, há relatos de que Paganini conseguia executar, ao violino, a fantástica quantia de doze notas por segundo. É, talvez ele seja o "fritador" original.
Mas antes passar a "fritadeira" para gente mais moderna como Malmsteen ou Satriani, Paganini tocou os ouvidos e o coração de um outro cara: Sergei Rachmaninoff (1873 - 1943) que resolveu fazer uma Rapsódia com 24 variações sobre o "Capricho n. 24 em Lá menor" de Paganini, o Capricho mais famoso. É de uma dessas variações que quero falar.
Esse é o Capricho n. 24 :
A Rapsódia de Rachmaninoff, completa, deve durar entre 20 e 25 minutos e é considerada uma peça de dificílima execução, mantendo assim o nível Paganini de esmero técnico. E entre imensos exercícios de criatividade, inversões melódicas, rearranjos e contorcionismos musicais, surge o que, talvez, seja uma das músicas mais bonitas que já ouvi na vida: a "Variação n. 18 Andante cantabile em Ré bemol maior". É impressionante a metamorfose daquele tema tão espertalhão do Paganini em algo tão delicado, que beira o sublime.
Ouça:
Conheci a Variação n. 18 na trilha sonora do filme "Em Algum Lugar No Passado", um filme que gosto muito, e já falei dele por aqui. Penso o quanto não gostaria de estar na pele do John Barry, responsável pelo resto da trilha, que deve ter suado muito pra a música tema à altura dessa beleza de Rachmaninoff. John, você está de parabéns, pois ouvir o "Tema de Em Algum Lugar no Passado" é de um prazer indescritível.
Sinta:
Mas, por que toda essa história? Primeiro, para espalhar boas músicas, que deixam os humores mais relaxados. Precisamos muito. Segundo, para deixar a reflexão sobre coragem, criatividade e determinação; e de como tudo, por melhor que pareça, pode ser sempre melhorado ainda mais. Fiquemos atentos ao cotidiano e não percamos as chances de trabalho.
Nas últimas semanas, todas as noite, assim que as missões diárias são cumpridas e estou voltando pra casa, me surge na cabeça a canção "Going to California", do Led Zeppelin. É inevitável, automático, quando me dou por mim, já estou cantarolando aquela melodia linda e nostálgica do Robert Plant, imaginando aqueles mandolins todos do John Paul Jones beliscando os acordes de violão do Jimmy Page e uma enxurrada de boas lembranças e sentimentos começam a escorrer da memória pelo corpo todo.
Mas, por que diabos "Going to California"? Sim, é uma música linda, mas faz anos que não a escuto. Não podia ser aquela do Sinatra que ouvi centenas de vezes na semana passada? Por quê meu subconsciente está indo buscá-la tão longe? Então a resposta vem clara quando me deparo, na letra da canção, com os versos que abrem este texto: "Em cima de um dos monte da minha montanha de sonhos; dizendo a mim mesmo que não é tão difícil quanto parece".
Obrigado, subconsciente! Então você está tentando me dizer, todas as noites, pra eu ficar tranquilo, pois ao escalar minha montanha de sonhos, por mais difícil que pareça, quanto mais alto eu chegar, menos difícil parecerá o trajeto até ali? E você tem razão! Os amigos alpinistas podem, com certeza, confirmar esse sentimento.
Quem tem sonho tem força. A humanidade não caminha sem estímulo, nada segue em frente sem estímulo. Foi assim que fomos forjados, sobrepondo sonhos e necessidades aos desafios que se apresentaram a cada momento. Da agricultura às tecnologias espaciais, todos os passos importantes na evolução humana foram dados para eliminar desconfortos. Seguimos abrindo portas, antes derrubando-as, agora, fazendo as chaves; galgamos os degraus da evolução com passos cada vez mais firmes.
Citando, também, J. R. R. Tolkien, grande influência na vida e música de Page e Plant, que escreveu na abertura do livro "O Hobbit" : "Um passo a frente e você já não está no mesmo lugar". Percebemos que, às vezes o passo é pro lado errado, mas isso é natural de quem está se sentindo incomodado, procurando por uma saída, uma solução urgente e, no calor do momentos só se preocupa em sair dali. E após o passo, num novo lugar, é inevitável que novos desafios se apresentem. É preciso estar sempre preparado e atento para este ciclo infinito de estímulos e possibilidades para exercitarmos nossa criatividade e força, tanto como indivíduos quanto sociedade humana.
Por isso tudo, antes de sentarmos e chorarmos desesperados, cansados e desanimados com as dores pelo corpo, com o desânimo na alma, tiremos os olhos do chão, e de cima de um dos montes da nossa montanha de sonhos, façamos como sugere a canção, apreciemos a paisagem e percebamos o quão alto chegamos. Relembremos dos desafios vencidos pelo caminho até aqui e de como, independente das dores que trouxeram, eles serviram para provar a nossa capacidade de superarmos obstáculos e sermos ainda melhores do que supomos ser. E é verdade, Robert, daqui de cima, não é tão difícil quanto parecia ser.
E aí está ela. Going to California, ao vivo em Earls Court, Londres, 1975 :
Em 1994, os Guns n' Roses lançaram o single "Since I Don't Have You", o terceiro do disco "The Spaghetti Incident?". O disco é uma coletânea de covers que, dizem, a banda tocava "antes da fama". Quando uma banda faz isso, de voltar às raízes, é sinal de que estão tentando se reencontrar, reencontrar aquela "magia de antigamente". Não encontraram. Foi o último disco com a formação clássica.
Separados, depois de décadas foi que se encontraram. Reuniram-se, esse ano, para uma turnê mundial que está sendo ótima, tanto para os nostalgicos quanto para os que nunca haviam visto o Guns, de verdade, no palco.
Versão de uma música de 1958, dos Skyliners, "Since I Don't Have You" não tem quase nada de Guns n' Roses, como eles mesmos não tinham mais quando a gravaram. Mas traz, sempre muito vivo, esse sentimento, essa reflexão sobre as ausências. Pode uma coisa só valer por tudo o que se tem? Eu não tenho nada se não tenho você? A resposta é simples e lógica, mas como toda resposta simples e lógica, não se internaliza tão fácil.
Apesar da gente insistir, brigar, chorar pra que seja o contrário, é não tendo o que se quer que se descobre o que se precisa.
Após receber péssimas críticas ao o seu primeiro concerto, o russo Sergei Rachmaninoff (1873 - 1943) entra em uma profunda depressão e bloqueio criativo que duraram vários anos. Ao sair desse tenebroso ciclo, compõe essa excelente peça, que é o Concerto n.2 em Dó Menor que, inclusive, é dedicado ao médico Nikolai Dahl, figura importante na sua recuperação psicológica. Considerada uma de suas melhores e mais famosas peças, foi tão aclamada que colocou o compositor, finalmente, entre os grandes concertistas da história.
O segundo movimento é uma das coisas mais lindas que já ouvi na vida. Imbatível, de tirar lágrimas e arrepiar até os mais embrutecidos, com um tema melancólico e leve, que começa na flauta, toma forma no clarinete e vai crescendo e respirando até contagiar toda a orquestra e cada célula de quem está ouvindo.
Na música, as tonalidades menores são consideradas tristes, enquanto as tonalidades maiores são consideradas felizes, ensolaradas. Então, também é muito simbólico o concerto ter sido escrito em Dó menor. Mas, o mais bonito de tudo, é que o concerto começa em Dó menor e termina em Dó maior, como se simbolizasse, no desenvolver da peça, a luta e a vitória do compositor sobre a sua depressão.
Nas primeiras apresentações desse concerto, entre 1900 e 1901, o próprio Rachmaninoff foi o solista, ao piano. Nesse vídeo podemos ver a destreza e a maravilhosa interpretação da Anna Fedorova, ao piano, com a Filarmônica do Noroeste Alemão (Nordwestdeutsche Philharmonie), com regência de Martin Panteleev.
Sério... durante o segundo movimento, separe um lenço.
Na hora de acordar, difícil é ficar de pé. O mundo inteiro cheira café e a gente vai trabalhar". Todos os que ouvem se identificam com o refrão da música Noite Alta, do Nevilton, segunda faixa do disco Sacode. Se você ainda não o conhecia, prepare-se para, à partir de agora, nunca mais esquecê-lo!
Há pouco mais de um ano, em abril de 2015, foi publicado um videoclipe super especial pra essa música, idealizado por Leo Longo e Diana Boccara, o casal maravilha do projeto Around The World In 80 Music Videos, pelo qual estão rodando o mundo gravando clipes, e mais, unindo e divulgando artistas, países e culturas sob as asas dessa bela ideia.
Aproveitando o aniversário do clipe, Nevilton preparou um EP com 5 versões diferentes de Noite Alta, além da versão original. Novas abordagens e experiências pra uma canção que é sempre recebida com muito carinho pelo público. Carinho que, certamente, será quintuplicado.
A versão 1972 é inspirada na sonoridade da Motown Records e da Stax Records, gravadoras norte-americanas que definiram o som dos anos 70, com seus belos discos cheios de groove e alma. A versão Semi-acústica foi como despir a canção, aproximando-a do espírito das rodas de violão, dos bares e pubs, pra todo mundo cantar e bater o pé no chão. A versão original vem pra matar a saudade e a versão ao vivo pra trazer toda a energia dos shows, que até então só quem viu podia se gabar. Inclusive, esse é o primeiro registro oficial em áudio ao vivo, lançado pela banda. Fecham o EP dois remix, o "NEV Remix" produzido para um projeto do site MúsicaPavê e o Fabz Zonatti Remix produzida pelo DJ da cena indie-rock e eletrônica paulistana. A capa no melhor clima amanhecer-hora de acordar é ilustração de Pietro Domiciano.
Cheio de surpresas e carinho, Nevilton lança mais esse trabalho, preparando os fãs para o um próximo álbum que está em fase de gravação. E como diz o próprio Nevilton: "É um EP de versões. De versões e diversões!". Divirtam-se.
Os versos acima são a fala de abertura para o primeiro ato da peça o "Orfeu da Conceição" (1956), escrita por Vinícius de Moraes e musicada por Tom Jobim. Foi primeira parceria entre os dois, parceria que, mais tarde, geraria uma revolução na história da música popular Brasileira. Posteriormente, em 1967, foram publicados como "Soneto do Corifeu", na segunda edição ampliada, do Livro de Sonetos, como um dos 25 poemas acrescentados aos 35 da primeira edição, de 1957. Ambas as edições foram organizadas pelo próprio Vinícius de Moraes. Mais tarde, pelas mãos de Toquinho, outro parceiro do poeta, o soneto se transformou em música e, sob o título de "São Demais os Perigos Dessa Vida", dá nome ao disco de 1971 de Toquinho e Vinícius.
Minha história com o Vinícius de Moraes é antiga. Ele se ausentou do mundo um mês antes do meu nascimento, em 1980 e, mesmo não tendo compartilhado o palco da existência com ele, desde a mais longínqua memória de infância, me recordo do sentimento de carinho que despertava em mim aquela gravura que o retratava, grisalho e calvo, com um nariz de batata, no encarte do disco "A Arca de Noé". E, enquanto crescia, continuei a descobrir, em sua obra, ecos perfeitos para os meus sentimentos, o que fez com que o carinho infantil se tornasse a admiração e respeito de um pupilo pelo mestre. Inevitável, tornei-me poeta.
Há semanas atrás, através de um exercício para um curso de poética que estou fazendo, procurando meus poemas preferidos para montar uma antologia, reencontrei o Soneto do Corifeu. Diria que ele não é só um dos meus poemas preferidos; ele é o mais importante deles. Foi o primeiro que, lá longe, na tenra juventude, me tocou fundo na alma; foi o primeiro que decorei e, sem jamais esquecê-lo, ainda o declamo decor. Hoje, menos leigo sobre a língua portuguesa e a poética, me espantei ao perceber que herdei, dos versos do Corifeu, importantes elementos líricos da minha poesia: a lua, testemunha silenciosa de todos nós, pura, intocável e inevitável; a solidão da noite, cuja calma, silêncio e solidão amplificam as mínimas e mais íntimas marolas sentimentais em tsunamis invencíveis; os perigos da paixão; a beleza constante da mulher e uma tristeza inerente a todo ser vivente, mas que é leve, expressa na cadência melancólica de cada palavra versificada.
E você, tem algum poema preferido, ou que foi importante na sua história? Que tal eleger alguns e aproveitar o acesso a regiões interiores, que só a poesia dá, para se conhecer ou se reencontrar? Faça a sua antologia de poemas e surpreenda-se quando vir, nela, um belo retrato seu.
Aproveite e ouça a canção "São Demais os Perigos Dessa Vida", de Toquinho e Vinícius, com direito ao Vinícius declamando o Soneto do Corifeu logo na introdução.
Dizem que o tempo é uma invenção do homem. Dizem que o tempo sequer existe. Dizem, outros, que o tempo é uma dimensão psicológica. Será mesmo que o tempo passou a existir por nossa causa, à partir do momento em que começamos a observá-lo e marcá-lo?
Observar o tempo nunca foi o suficiente, e desde que o percebemos pela primeira vez, também tentamos domá-lo, como fazemos com tudo o que conhecemos. Mas quem nunca teve a vontade de controlar o tempo? Domesticá-lo, viajar através dele, ao futuro para precaver-se dos golpes da vida, anotar os números da loteria; ou, quem sabe, voltar ao passado e refazer o curso das coisas, talvez até reencontrar um amor que se perdeu ou viver, por mais tempo, um amor que já se encontrou, como na deliciosa Valsa Brasileira, do Chico Buarque.
Apesar de tudo o que dizem, o tempo não parece tão abstrato assim, ele se manifesta fisicamente na natureza. Os corpos celestes em suas orbitas, as estações do ano, o crescer da árvore, o amadurecer dos frutos, o nosso envelhecer, tudo é resultado de um "sair daqui e chegar ali". O tempo é, de alguma forma, espaço. E Albert Einstein esteve aí para confirmar.
Albert Einstein, Richard Matheson e o Iron Maiden! Os três pensaram o tempo de forma semelhante, em diferentes setores do pensamento. Einstein pela Teoria da Relatividade; Matheson, pelo livro e filme "Em Algum Lugar no Passado", cujo nome original é Somewhere in Time (Em Algum Lugar no Tempo); e o Iron Maiden, por um disco muito legal, que também se chama Somewhere in Time.
O filme "Em Algum Lugar no Passado" (1980, Jeannot Szwarc), é muito bonito e traz, no título, essa ideia de que o tempo – no caso, o passado – pode ser um lugar. A história de Richard Collier que ao se apaixonar pela mulher de um antigo retrato, tenta de tudo, até que viaja no tempo para encontra-la e mostrar o seu amor, é emocionante. E, tudo isso, somado com uma das trilhas sonoras mais lindas que já ouvi, composta por John Barry e reforçada pela inspiradíssima "Rapsódia Sobre um Tema de Paganini", do Sergei Rachmaninoff, tira lágrimas até das paredes. Mas se você não tem paciência para algo tão suave, pode ouvir o disco do Iron Maiden, que também é muito bom.
Enfim, desde sempre pensamos em formas de alterar o curso da história, em como seria bom refazer, melhores, muitos dos passos já dados. Mas, dada a impossibilidade física da viagem no tempo, ficamos nostálgicos e frustrados. Entretanto, esse pensar no tempo nos traz um bem inestimável: valorizamos o presente. No fim, não importa muito se o tempo é um lugar no espaço, um lugar psicológico, se não é lugar nenhum ou sequer existe, só temos a certeza presente é bem real. Fica claro, então, que, se o passado não se muda e o futuro não se alcança, só nos resta o agora como único momento de atuação, no qual temos total poder de verdadeira mudança. E se podemos e queremos mudar nossas vidas, a nossa história, que seja agora. Só pode ser agora.
Foi um belo amanhecer da Sexta-Feira Santa de 1857 que decantou, da genialidade de Richard Wagner, finalmente, as primeiras anotações da ópera Parsifal, na qual já vinha pensando há alguns anos. Terminada 25 anos depois, esta foi a sua última ópera completa.
Numa ambientação medieval, como era de costume, Wagner conjuga temas cristãos como auto-renúncia, reencarnação e compaixão e símbolos como o Santo Graal e a lança que Longino, um soldado romano, usou para ferir o Cristo na cruz.
Bastante longa, solene e densa, a ópera causou, e ainda causa, grande emoção quando é assistida ou ouvida. E é preciso perseverança para completar essa missão nas quase 4 horas de duração da peça. À época do lançamento, em 1882, o filósofo Nietzsche, como de praxe, reclamou do conteúdo moral cristão; mas outros gênios, como Debussy e Mahler, mais sensíveis à mensagem, se manifestaram entorpecidos pelos belos sentimentos que a obra despertara em suas almas. Ouça e escolha o seu lado.
Para compreender conjugação entre leveza e densidade desta obra prima Wagneriana, aqui vai a minha parte preferida do Parsifal: o Prelúdio, lindamente executado pela Orquestra Sinfônica da Radio Frankfurt, dirigida pelo maestro Jérémie Rhorer.
Se quiser assistir a ópera toda, aqui vai uma versão legendada em inglês:
Albert William Ketèlbey me lembra a infância. Meu pai sempre ouvia aquele LP de capa exótica, com um mercador oferecendo flores a um monge, enquanto estudava, à noite, após um dia de trabalho. Inclusive, dias desses me surpreendi fazendo o mesmo: estudando e ouvindo Ketèlbey, um grande flashback. E foi assim, ainda pequeno, através do meu pai, que ouvi pela primeira vez sobre como um compositor pode descrever uma cena, um cenário, através de uma música.
Com o Ketèlbey foi fácil de entender, ele é muito bom em cenas musicais. Tão bom ele era, que foi o primeiro músico britânico a ficar milionário através da música, principalmente através desses pequenos temas chamados de "light orchestral music", nos quais ele era especialista. O tema musical "Bells Across the Meadows" (pra ouvir aí embaixo) foi eleito pelos ingleses, em 2003, como a 36ª música mais memorável de todos os tempos.
O intermezzo da Ópera "Pagliacci" de Ruggero Leoncavallo (minha ópera favorita, inclusive) é, sem dúvidas, umas das peças musicais mais belas que já ouvi. Ele é tocado no intervalo (intermezzo, em português) do primeiro para o segundo ato da ópera e consegue, ao mesmo tempo que emociona pela música, captar e sintetizar tudo o que aconteceu e sugerir o que acontecerá nas próximas cenas da trágica história do Palhaço que, mesmo com o coração partido pela Colombina, deve subir no palco e fazer o público rir. Mas, Leoncavallo alerta: o perdão não é tão fácil assim; e o orgulho, esse veneno que destilamos todos os dias, pode nos transformar em monstros ferozes. Cuidado!
Pra quem não conhece e quiser assistir à ópera inteira, tem essa versão dirigida pelo Franco Zeffirelli, com Placido Domingo e Teresa Stratas. A regência da orquestra é do Georges Petre que, inclusive, conquistou meu coração nessa super emotiva regência do já comentado Intermezzo:
Conversando com a Marina Aoki Elias, uma grande amiga que também gosta de música clássica, falamos do Beethoven. Ele é o artista "do ano" na temporada do Theatro Municipal de São Paulo. Não teve jeito, cheguei em casa e mergulhei na música desse gênio. Beethoven gostava muito de sonatas, foi um dos maiores sonatistas da música mundial. Só pra Piano ele escreveu 32. A mais famosa talvez seja a inconfundível "Sonata ao Luar", que estremesse o coração dos tristonhos. Mas, a mim, me toca mais a "Patética", principalmente o seu segundo movimento (no 9:46 do vídeo) tenho até um poema que foi escrito com ele tocando em loop interminável de fundo.
Sem mais blablabla, temos aqui o mestre Daniel Baremboim, dando um show ao piano, executando os 3 movimentos da Patética de Beethoven. Agora, abrace aquele livro, deixe o computador de lado e só ouça essa maravilha.
É famoso o Terceiro Movimento (Clair de Lune, que vc pode conferir lá no 9:25 do vídeo), mas a íntegra da Suite Bergamasque do Claude Debusy é um calmante sonoro em meio a tanta folia obrigatória e carnaval invasivo. Apesar do risco de viciar, ele é bem menor que dos calmantes farmacológicos.
Nesta quarta-feira, dia 23, começou a Primavera e não resisti, coloquei o Vivaldi, na vitrola. Entre as suas "Quatro Estações", conjunto de quatro concertos que descrevem musicalmente, cada um, uma estação do ano, existe uma bela imagem musical da primavera.
Minha versão preferida destes concertos está no álbum Eight Seasons (Oito Estações), no qual também estão as Quatro Estações Portenhas, do mestre Astor Piazzolla. Excelente trabalho do violinista e maestro Gidon Kremer e sua orquestra de câmara, a Kremerata Báltica. Execução e sonoridade perfeitas.
Interessante perceber que tanto para Vivaldi do sec. XVIII, quanto para o Piazzolla do sec. XX, cada estação desperta o mesmo tipo de sentimentos, muito bem musicados, inclusive. Talvez por causa da universalidade dos sistemas da natureza, da invariabilidade dos ciclos naturais e essas coisas que a ciência sempre observou. Ora, se fazemos parte do mesmo sistema universal, a primavera, o verão, o outono e o inverno seriam, para a natureza, o mesmo que o nascer, crescer, envelhecer e morrer são para nós humanos. Foi assim que cheguei nas outras 4 estações, que completam as 12 do título: as quatro estações humanas.
Se a vida começa na fecundação, a primavera é a mãe fecunda, espalhando a vida. É gestação e nascimento. Quando os brotos se tornam flor e mostram suas cores ao mundo, prontos para os primeiros passos da jornada. É a infância de tudo, é vida nova pulsando alegre em todo canto, crescendo para enfrentar a próxima estação.
O verão, tempo pleno de energia, quando o sol e a vida estão em sua potência máxima. É juventude, aprendizado, luta e sobrevivência em meio a tanta abundância de sentidos e caminhos. Tudo brilha, tudo chama urgentemente, inclusive a irresponsabilidade.
Não tarda vir outono, quando a beleza é sutil. As folhas, adornos, agora secas e enrugadas, caem. A energia não é mais tanta, as cores e sabores não são mais tantos. É preciso saber escolher e economizar, é preciso ser maduro e ponderado, adulto. Hora de acertar as contas e perceber que o ciclo está perto do fim.
Chega o inverno com as noites mais longas e os dias mais frios. Menos luz, já não resta mais tanta vida, os frutos há muito já se desprenderam dos galhos, espalhando as sementes e a herança. Que germinem em terra boa para que a linhagem prossiga. Em breve, apenas lembrança da potência que existiu, galhos secos, nossos ossos.
Mas no ciclo infinito das estações também está a mensagem de esperança da Universo: se tudo é feito pra renascer, e em cada novo ciclo, a vida retorna à dança com a Primavera. Renasçamos com ela! Se o ciclo dos dias que, como as estações, vai da manhã das possibilidades à noite da exaustão, podemos renascer diariamente. Se o cosmos do qual fazemos parte permite tantas “mortes” e “vidas”, certamente nos cabem as mesmas oportunidades de renovação. Só é preciso que queiramos, que nos religuemos à essência universal e nos façamos melhores em cada renascer.
Aproveite para ouvir :
As Quatro Estações Portenhas, de Astor Piazzolla (versão do álbum Eight Seasons, de Gidon Kremer e Kremerata Baltica)
As Quatro Estações, de Antonio Vivaldi
(não é a versão do Gidon Kremer, mas tá bonita também)
Desde os tempos imemoriais da humanidade a meditação e a oração são sugeridas como meio de contato do homem consigo mesmo e com o Cosmos, ou seja, orar ou meditar com energia proporciona a conexão entre a esfera mais íntima e minúscula de cada ser e a esfera mais exterior e infinita do Cosmos, unindo criatura e criador, a parte com o todo e, através dessa sintonia com todas as coisas, o praticante é iluminado e libertado.
Dos muitos seres de luz que já passaram pela história humana sugerindo a prática íntima e constante da oração ou meditação, podemos citar um que é, no mínimo, curioso: John Coltrane, saxofonista e lenda do Jazz.
Foi, coincidentemente, no dia de aniversário de sua morte (17 de Julho) que terminei de ler o livro "A Love Supreme" (Barracuda, 2007), escrito por Ashley Kahn e bem traduzido para o português por Patricia de Cia e Marcelo Orozco. O livro traz um panorama bem completo de todo o processo musical de Coltrane até chegar à criação, gravação e desdobramentos de uma das maioers obras primas do Jazz, de todos os tempos: a suíte A Love Supreme, lançada num álbum homônimo em 1965.
Acertadamente o livro não se prende apenas ao processo do disco, mas acompanha toda a trajetória musical de Coltrane, desde que saiu do Rehab e se tornou abstêmio de álcool e entorpecentes; sua passagem por diversas bandas, como a de Miles Davis, até formar a sua própria, com a qual disco a disco vai caminhando para libertar sua música das amarras estéticas e teóricas que tanto o incomodavam. Nele também encontramos depoimentos de amigos, parentes, parceiros musicais, produtores fonográficos, fãs e trechos de entrevistas que nos facilita visualizar, com mais amplitude, o que inspirava e movia Coltrane na sua busca que, além de músical, era evidentemente espiritual.
O livro também não deixa de lado as informações sobre o music bussines da época, técnicas de gravação e mixagem. Assinalo a participação de Rudy Van Gelder, engenheiro de som do A Love Supreme e outras belas obras do jazz, que tem até capítulo à parte pela fundamental importância para a sonoridade do disco, bem como para que o livro se tornasse muito mais interessante. Foi uma surpresa colossal saber que vários discos de Miles Davis, Duke Ellington, Thelonious Monk e outros grandes nomes do Jazz dos anos 1950 foram gravados na sala de estar da casa dos pais de Rudy, à noite, após ele sair do trabalho em uma ótica e enquanto seus pais dormiam. Isso é algo que eu e muitos músicos fazemos e achamos uma incrível novidade. Doce ilusão, os grandes do Jazz (e não podemos esquecer do velho Les Paul) já tinham seu home studio e faziam obras primas atemporais.
O que chama atenção no Rudy é que o som que ele conseguiu captar dessas gravações é de altíssima qualidade, sensacional até hoje. Enfim, há informações pra todos os níveis de interesse e, mesmo pra quem não "entende de música", Ashley Kahn coloca a informacão técnica de forma a fazer sentido para que qualquer interessado possa entender a influência de cada elemento, técnico ou artístico, na obra de Coltrane.
Durante a leitura do livro entendemos a dedicação quase monástica ao estudo e prática da música a que Coltrane se submetia, numa intenção nunca secreta de dominar a técnica e as linguagens para depois subvertê-las e expandí-las, como se emulasse Sidarta Gautama ou Jesus Cristo, em meditação e prática constante no deserto, buscando iluminação – que, de fato, como ouvimos no disco, conseguiu – e puxava para o mesmo caminho os músicos que o cercavam. Desta forma, como um Messias e seus seguidores, pregação após pregação pelos teatros e bares do mundo, o quarteto formado por Coltrane no sax (barítono e tenor), Mckoy Tyner no piano, Jimmy Garrison no Contrabaixo e Elvin Jones na Bateria, se transforma numa das maiores expressões do Jazz, referência não só da época, mas de tudo o que veio depois deles.
Com a coesão do quarteto comprovada no álbum Crescent (1964), Cotrane sentiu-se seguro para dar o próximo passo de sua jornada libertadora das notas musicais e de sua alma, criando um álbum extremamente Espiritual. Em A Love Supreme, todos se expressam mais do que musicalmente, eles se conectam entre si e com o Universo tocando a música que ressoa em suas almas, livres, dando graças ao criador pela oportunidade de estarem vivos.
Os sons que estão imortalizados nos fonogramas são os que foram gravados na noite de 09 de Dezembro de 1964, já no estúdio construído por Rudy, em Englewood Cliffs (New Jersey), e não mais na casa de seus pais. E a notícia de que houve uma sessão extra, na noite seguinte, com um Sax extra (Archie Shepp) e um Baixista extra (Arthur Davis), que desapareceu pra sempre, vai me arrepiar pelas próximas vidas. Interessante, também que as únicas fotos existentes (muitas estão no livro) são da sessão do dia 10, pois dia 09 não houve fotografo registrando. Ou seja, temos as fotos de um dia e o som de outro dia.
Uma suíte é um formato da música clássica, um conjunto de músicas que giram em tordo de um mesmo tema, no caso de A Love Supreme é homenagear Deus. Coltrane mesmo define sua suíte como uma oração e, por ser músico, se expressa melhor usando notas musicais, facilitando assim a conexão com o criador e com o Amor Supremo no qual ele se sentia envolvido e reverberando.
O nome das faixas, Acknowledgment (Reconhecimento), Resolution (Resolução), Pursuance (Busca, Persecussão) e Psalm (Salmo, Prece, Oração), mostram o caminho sugerido pelo Jazzman para que nos sintonizemos com Deus, ou seja: Reconhecer a existência Dele; Resolver-se como filho do Criador; buscá-Lo sem descanso até visualizá-Lo e agradecê-Lo, em oração sincera pela graça da existência e das possibilidades de trabalho, estudo e evolução que nos foram dadas.
Ashley Kahn nos presenteia com 40 páginas de descrição detalhada de como cada uma das quatro faixas da suite se desenvolvem, abrindo-nos uma outra gama de entendimento sobre cada segundo de música. Mas Psalm, o salmo de Coltrane, tem uma história à parte. Ele é um poema escrito pelo próprio músico que, ao invés de declamá-lo no disco, tocou sílaba a sílaba no seu sax barítono. De uma sinceridade ímpar, é o momento mais iluminado do disco, com notas arrepiantes e lindas de se acompanhar ao mesmo tempo em que se lê o poema.
Ou por esse vídeo da própria Coltrane Church (sim, existe).
E pra facilitar de vez a experiência, uma versão cantada de um trecho do Salmo:
Em algum dia de 1964, durante sua pratica diária, John Coltrane entendeu algo, sentiu algo e, mais que isso, ele colocou em prática, gravou um disco e espalhou a idéia. Utilizou a sua melhor forma de agir para se comunicar e se conectar com o Deus e Cosmos, recebendo e enviando amor. Depois de ler o livro e ouvir atentamente ao disco, foi impossível não ficar tocado ou, ao menos, pensativo, sobre estar mergulhado num grande mar de Amor Supremo e de energia infinita, mas não estar acessando isso tudo. Se como Coltrane, eu também posso melhorar minha conexão com esta infinita reserva de energia boa usando a meditação e a oração.
Se todos somos capazes de criar as melhores coisas quando nos esforçamos usando só a nossa própria força, imagino o quanto melhor faríamos se estivéssemos agindo movidos pelas forças de todo o Cosmo. Qual seria a minha obra prima?
No início destes ano, recebi o convite para me juntar a um time de grandes amigos músicos que, unidos dariam forma à banda de apoio de Edu Franz, jovem compositor, multi instrumentista de Cianorte (PR) e, também, um grande amigo.
Foi impossível negar a chance de ser baixista numa banda que contaria com o Éder Chapolla (velho companheiro de estrada) na bateria e Johnny Monster (um artista que admiro muito, há tempos) nas guitarras. Com três músicos tão diferentes em seus referenciais, o resultado imprevisível dessa mistura é sempre excitante. E pudemos comprovar que a química funcionou durante as sessões no Estudio Costella, para a preparação e gravação das 7 músicas que vão fazer parte de um EP a ser lançado em breve.
Good vibes at Costella's
O primeiro single foi lançado no dia 08 de Abril de 2015 e se chama Before You Go. Dançante e inspirado num rock mais moderno, já está sendo bem tocada nas rádios do interior do Paraná, e logo atingirá mais e mais lugares. O EP completo e mais outros materiais saem em breve, é só se manter conectado através do facebook para não perder as futuras boas notícias.
Bom, é isso. É com muita satisfação que apresento mais esse trabalho que pude colaborar como músico, produtor e tudo mais que foi preciso. Divirtam-se!
Domingo, dia 12 de Abril, assisti à premiere brasileira do documentário "What Happened, Miss Simone?", biográfico de Nina Simone, grande pianista, vocalista e compositora do Jazz e do Soul, um mito da música contemporânea, além de influente ativista dos Direitos Civís nos EUA. Extremamente emocionante, o documentário me ajudou a entender de onde vinha tanta força e complexidade nas músicas de Nina, que não estava ali só fazendo um número. Ela insistia em agir e dizer o que sentia, e toda essa vontade de se fazer entender ressoava com sua música, inclusive, em uma entrevista ela disse querer que o público saísse aos pedaços de suas apresentações, feridas, emocionadas. E é o que ela faz.
Aí entendi o motivo de haver dias impossíveis de ouvi-la, apesar da vontade. Não estou na mesma freqüência que as canções e todo o seu conteúdo emocional. Ainda bem que há dias em que as mesmas músicas me abraçam e me preenchem com os melhores dos sentimentos. Entendi a complexidade da vida que construiu a artista, e fatos concretos que inspiraram as suas canções, pude ver o por que de "The Other Woman" e "He Needs Me", minhas preferidas dentre tantas dela, soarem tão sinceras e emocionantes. É que ela está realmente sentindo e cantando o que está nas canções. É a vida ela, sinceramente apresentada em música. Nina Simone não era só artista, ela era a sua própria arte, ela dava a si mesmo, integralmente para o público. Deixou muitos sonhos de lado, sofreu muito por isso, enlouqueceu por isso, mas também é imortal por isso.
Uma cena marcante do documentário: depois de muitos anos em auto-exílio na Libéria, ela volta a tocar e se apresenta no Festival de Jazz de Montreaux de 1976. No palco, questiona o que todos estão falando sobre ela desde que voltou a tocar: de que Nina Simone já foi uma grande estrela e agora está decaída e essas coisas. Resolveu, então, que tocar uma música seria o jeito mais fácil de explicar o que ela pensa e sente sobre isso tudo e, após chamar atenção de uma garota na platéia, para que se sente (percebe-se aí a importância do momento para Nina), toca uma versão da música Stars, da Ian Janis, música com uma letra muito pertinente sobre as engrenagens do showbiz, da vida de artista e a relação que existe entre ele, o público e as expectativas que todos criam. Não pôde ser diferente, como sempre, dá pra perceber em detalhes como ela se sente sobre a sua vida, dá pra ver nos olhos dela, dá pra sentir na voz e em cada nota do piano, ainda mais com as adaptações que ela faz na letra, aproximando-a da sua história.
Foi um prazer realmente conhecê-la, Nina Simone. Ou se você preferir, Eunice Kathleen Waymon.
Aqui vai o vídeo. A letra [tentei escrever os improvisos dela, que estão em itálico], segue abaixo:
Stars, they come and go.
They come fast, they come slow.
They go like the last light of the sun,
All in a blaze.
And all you see is glory.
But it gets loney there,
When there's no one here to share.
We can shake it away,
If you hear a story.
People lust for fame,
Like athletes in a game.
They break their collarbones,
And come up swinging.
Some of them are crowned
Some of them are downed,
Some are lost and never found.
But most have seen it all.
They live their lifes in sad cafes and music halls.
And they always have a story.
Some make it when they're young,
Before the world has done it's dirty job.
And later on, someone will say,
"You've had your day, now you must make way."
[...] always.
But you'll never know the pain
Of using a name you never owned.
Or the years of forgetting
What you know too well.
That the you who gave the crown,
Have been let down.
You try to make amends without defending.
Perhaps pretending.
You never saw the eyes
Of young men of twenty-five,
That follow as you walked,
Ask for autographs,
Or kiss you on the cheek.
And you never could believe he really loved you. Never.
Some make it when they're old
Perhaps they have a soul they're not afraid to bare.
Perhaps there's nothing there
But anyway that isn't what a meant to say.
I'd tell you about a story, since we all have stories
I can't remember it anyway
So I'm telling about I moved within the United States
Today and permanently, even in Switzerland, it goes...