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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Do alto de nossas torres


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...


As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...



Nesta semana, por acaso, esbarrei nesta bela peça de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), conhecida desde minha já distante juventude. Ismália é um dos poemas mais emblemáticos da literatura brasileira e Alphonsus um grande nome da poesia nacional. Não pude, então, deixar de alimentar a minha antologia de poemas preferidos com ele, que já é o oitavo. Os outros todos estão aqui.

Apesar de ter vivido Afonso Henrique da Costa Guimarães, Juiz de Direito, com a esposa e os quinze filhos na, hoje calamitosa, cidade de Mariana (MG), carregava Alphonsus Guimaraens a alcunha de "o solitário de Mariana", dado a grande carga de solitude, tristeza e misticismo em seus versos, tanto que costumavam encomendar-lhe os epitáfios dos amigos. Tal discrepância entre a vida de Afonso e poesia de Alphonsus sugere, ou melhor, comprova que a persona do poeta não é a mesma do humano que a carrega.

O poema Ismália foi publicado no livro "Pastoral aos crentes do amor e da morte", póstumo, organizado por seu filho João Alphonsus e publicado pela editora Monteiro Lobato & Cia em 1923. Percebe-se, em seus versos, magicamente equilibrados a leveza da descrição com o peso da cena descrita. Ismália, louca, coloca-se no alto da torre, símbolo de inflexibilidade e arrogância, e sofre com a dúvida entre os tantos quereres; entre a real, mas intocável lua do céu, e a ilusória, e também intocável, lua refletida no mar; entre o possível e o impossível. Sofre tanto, tão imensamente, mas prefere abster-se da necessária escolha e, na tentativa de ter tudo sem desfazer-se de nada, põe fim à própria vida.

É interessante ver que, por causa da tamanha leveza com a qual foram construídos os versos, pela genialidade do poeta, a agonia da personagem jamais será alcançada completamente pelo leitor. Ao final do poema é difícil ficar tão pesaroso com o corpo que jaz no mar, pois o alívio com a alma que sobe ao céu é inevitável. Parece-me que, mesmo quando o corpo escolhe mal, preferindo o ilusório, a alma sabe fazer a melhor escolha, sabe onde está a verdade.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

No Interior


Cheguei na beira do porto onde as ondas se 'espaia'
As 'garça' da meia-volta e senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia

Quando eu vim da minha terra, despedir da 'parentaia'
Eu entrei no Mato Grosso, bem em terras Paraguaias
Lá tinha revolução, enfrentei forte 'bataia' 

A tua saudade corta como aço de 'navaia' 
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia' 
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia' 


Cuitelinho é como se chama o Beija-flor em algumas partes do Brasil interiorano, e também é o nome dessa belíssima canção, composta por Bento Costa, em 1932. Dizem que ganhou notoriedade depois que Paulo Vanzolini, famoso biólogo e compositor (de "Ronda", "Volta Por Cima") a trouxe para os holofotes. Disse o próprio Vanzoline que, durante uma pescaria na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, seu amigo Antônio Xandó chamou sua atenção para a bela canção que um barqueiro cantava. Inspirado pelo primeiro verso que ouvira, compôs os outros dois. Do Bento Costa, pouco se sabe.

Não escondo o sentimentalismo, e fica cada vez mais evidente que a saudade é um dos meus temas favoritos. Na Cuitelinho as saudades vêm de um soldado brasileiro que abandona a família para ir lutar na gerra do Paraguai (1864-1870) ou, pelo menos, é o que se dá a entender.

No meio das saudades todas que ele carrega, surge o que, na minha opinião é a melhor descrição dos efeitos da saudade que já constou no cancioneiro popular brasileiro. Falo do terceiro verso, que repito aqui:

A tua saudade corta como aço de 'navaia'
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia'
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia'

A beleza poética da imagem é imensa, mas é delicadamente escondida atrás da linguagem simples. Simples, como é simples sentir saudades; como é simples o personagem que entoa os versos. O dialeto caipira e, em algumas versões da música, o som choroso do ponteado da viola caipira, potencializam muito as emoções dos versos. A soma disso tudo me remete às minhas próprias saudades dos tempos passados no interior, nas casas e sítios da 'parentaia' do Norte Pioneiro do Paraná.

Me emociona, também, como graças à poesia e a cultura popular, conseguimos acessar esse microuniverso sentimental de um evento gigantesco que foi a gerra do Paraguai, considerada, inclusive, o maior conflito armado que já houve na América do Sul. Também foi o mais sangrento. Entretanto, no meio de tiros de canhão e gritaria, havia ali, num coração surpreendido pela batalha, decerto aflito, um santuário de calmaria e saudade, um relicário, um altarzinho aconchegando tudo aquilo que se ama.




sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Ascendam as luzes


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


O poema acima, Versos Íntimos, é de Augusto dos Anjos (1884-1914), e foi publicado em seu único livro “Eu”, em 1912. Comprova o que não é novidade pra ninguém: vivemos, e não é de hoje, em tempos obscuros. A vaidade, a hipocrisia, o egoísmo, o orgulho, o materialismo, e outros tantos tipos de conduta humana são como nuvens densas, cortinas espessas que bloqueiam a luz do sol da verdade e da vida e espantam o calor do amor que se propaga em suas ondas.

Se analisarmos os noticiários, poderíamos concluir que regredimos intelectual e moralmente, e isso nos afeta o pensamento e as atitudes cotidianas. Nas palavras do poeta : “O Homem, que, nesta terra miserável, mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera”. E muitos assim o são a contragosto, lutando contra intuições e consciência, fazendo o mal ao outro e um ainda maior a si mesmo, pelo medo de serem marginalizados, no afã de serem aceitos.

É claro que existem os que agem mal por conta própria, mas assim o fazem por ignorar o bem que podem fazer ou, ainda, por ignorar as implicações funestas que tais atos trazem para si. Se soubessem, se fossem despertados, convidados e convencidos a fazerem o bem, não por discursos hipócritas, mas por atitudes reais no cotidianos, fariam o bem sem dúvidas.

Há, na Bíblia, uma passagem na qual Jesus diz: “Ninguém, depois de acender uma candeia, a cobre com um vaso ou a põe debaixo duma cama; pelo contrário coloca-a sobre um velador, a fim de que os que entram, vejam a luz”. E é de focos de luz o que precisamos nesta hora escura pela qual passamos. 

Voltando aos noticiários, agora com mais atenção e focados no bem, é perceptível nossa evolução. A maioria das manchetes pedem pelo fim de más atitudes, antes consideradas normais. Nos tempos de Augusto dos Anjos, famílias se reuniam para assistir à enforcamentos em praça pública; jogavam gatos vivos, dentro de sacos, em fogueiras, para deleite e riso; os duelos de morte entre cavalheiros eram grandes eventos sociais; antes ainda, era costume assistir animais selvagens despedaçarem e devorarem seres humanos.

É bom ver que Hoje já não somos mais assim, apesar de  ainda existirem alguns resquícios disso. O sangue e a dor alheia ainda atraem atenção, conforme diz o historiador Leandro Karnal, pelo alívio de constatar que a vítima da vez não fui eu. É instinto. Mas, como ele também diz: “isso passa”. E está passando, é questão de tempo e trabalho, como demonstra a história. 

Se a hora é escura, façamos luz. Acendamos e ascendamo-la!  Sem esconde-la debaixo da cama da preguiça, da mesa da vaidade ou detrás das cortinas do medo. É preciso que quem tenha a luz ilumine o máximo possível.


PS: Se gostou desse texto, sugiro a leitora deste aqui.

sábado, 3 de dezembro de 2016

O meu Amor, em Neruda

Tenho a mania de conceituar as coisas. Talvez, inconscientemente, esteja usando do artifício de nomear para controlar, que tantos teóricos da psicologia e sociologia comentam. Apesar de supo-lo eficiente, não me parece tão saudável assim. E tento, ainda sem sucesso, minimizar um pouco o costume.

Dia desses, recebi uma ajuda importante no tema preferido: o Amor. Deparei-me com o Poema 44, do livro Cem Sonetos de Amor (Cien Sonetos de Amor, 1959), de Pablo Neruda. Neste livro, o poeta descreve o Amor, o Romance e seus derivados de cem formas diferentes e, neste poema, em especial, como um sentimento tão primordial e imenso, que transcende a si, que é e está em tudo, inclusive na sua própria ausência. Afinal, se em tudo que existe também existe o seu oposto, há amor mesmo quando não se ama; persiste a atitude mesmo quando cala-se o ato.


Poema XLIV

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Inspirações


Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

                                                (Emergência, de Mário Quintana)



Tenho me voltado à poesia como quem se volta para a luz do sol após dias nublados. Como quem persegue aquele mísero raio de luz que, tímida, mas heroicamente, escapa por entre as nuvens e atinge a terra úmida e fria, que até então mortificava corpos e almas, para nele se aquecer, respirar fundo e, de braços abertos, peito estufado, deixar-se aconchegar em todas as dimensões do ser.

Insisto no poema como fator conectante entre o humano e o infinito; como uma estrada para o Belo, entre o que humanamente idealizo e o que infinitamente é; percurso que, em sinuoso aclive, descortina cada vez mais amplas e completas paisagens a se descrever; como construção íntima; como jornada de purificação.

Salvo-me nos versos como um naufrago em tudo o que flutua; como no colo de uma mãe, ou no abraço de um pai; na mão amiga que guia; na palavra de consolo que acalma; na brisa que acaricia a face; na segurança da chuva que disfarça a lágrima e lava a alma.

Se na vida rimas ou não rimas, é opção que ela mesma traz, tanto faz. Mas o ritmo, esse sim, inevitável capataz, açoita quem destoa da cadência, sem não antes avisar. Mas por ser, também, amigo, premia sempre a quem souber dançar.

É por isso que a arte é necessária à vida, como a pausa à música e, ao texto, o ponto e a vírgula. É preciso despertar-se ao sensível, ao invisível, ao metafísico. Redescobrir o que não se vê, saber dizer o que não se diz, tocar o intangível. Reconectar-se com essa esfera sutil por onde comunicamos tanta coisa, mas que, num oceano de amor revolto, em meio a tantas e turbulentas ondas de rancor, as inúmeras marolas de carinho passam despercebidas.

Acalmemos os amores, meus amores. Controlemos os tsunamis da paixão, acabemos com os vendavais, os tremores e a gritaria. Atentemo-nos às leves marolas, à brisa carinhosa, aos suspiros pacíficos da paz que nos convida incansavelmente a comungá-la. Ela não está distante, ela fala baixo. Sejamos nós os poetas ou os poemas, os artífices ou a matéria-prima, inspiremo-nos! Ouçamos, em silêncio, o Universo a recitar-se amorosamente.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Amor pelas paredes

Tarde da noite, voltando pra casa, cansado por um dia inteiro de trabalho, deparei-me com esse soneto em uma das paredes do metro Vila Madalena, aqui em São Paulo. Ele é nomeado pelo seu primeiro verso, pois o seu criador, o grande Luís Vaz de Camões (1524 - 1580), não colocava título em seus sonetos.


Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, é tudo vosso,
E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.


Depois de alguns minutos de maravilhamento, percebi que, sem mencionar sequer uma vez a palavra amor, Camões descreve o que seria o tipo de amor mais bonito, que poucos acreditam existir e, até mesmo, se aventurar a experimentar. É um patamar do sentimento quando ele subsiste por si, se retroalimenta, que é seu próprio motivo e finalidade. Amor que se dá pelo simples motivo de que se dar amor é bom, por isso não depende de qualquer tipo de retribuição, presente ou futura, de quem quer que seja.

Desvinculado de qualquer motivação externa a si mesmo, esse tipo de amor sobreviveria ao tempo, à inevitável hora quando a jovem e bela companhia se transformar no velho e retorcido transtorno; permitiria, mesmo ausente o companheiro, estar presente o carinho, a lealdade e a fidelidade; e, destituída a posse doentia, inexistiria o ciúmes venenoso.

Este deveria ser, e talvez seja, o amor ao qual todos deveríamos buscar. Esse que, quanto mais se dá, mais se quer dar, como se vertesse de uma fonte infinita. É claro que nessa busca é preciso atenção e coragem. Sentimentos e necessidades psicológicas e físicas podem nos enganar, e nos levar a perceber, tarde demais, pelas dores, que o que achávamos amor não era nada além de tesão e vaidades, que os amores eram, na verdade troféus. Para que isso não aconteça, sugere-se sempre, antes de tudo, conhecer-se e saber sobre o que se passa dentro de si, o que se deseja da vida. Nada mais do que o exercício básico de um viver consciente.

Mas, independente dos riscos que corremos, das maldades do mundo, e da inevitabilidade dos tropeços, a mensagem primordial que me tocou fundo o coração através do soneto de Camões, é que ser amado é secundário, é resultado. O que não se pode, nunca, de forma alguma, por motivo algum, é ter medo de amar.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A Boa Morte


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.



A alegria de Fernando Pessoa, que assina o poema acima, "Quando vier a Primavera", como Alberto Caieiro, é a alegria que também busco. Essa paz de saber-se mortal, finito e não se abalar; pelo contrário, sentir-se livre e tranquilo com o inevitável destino. E não só eu, é a paz que a humanidade persegue desde tempos imemoriais, quando surgiram, pela primeira vez, as dúvidas sobre o que é a morte.

Nasceram, então, dos questionamentos, um infinito de mitos, medos, dogmas, traumas, ansiedades, remorsos, festas, lágrimas. Tristemente, principalmente no mundo ocidental, a morte se tornou algo ruim, que desperta medo, que não se deve falar ou pensar sobre. E hoje, colhemos frutos amargos desse que é um dos maiores erros da cultura contemporânea de negação da morte. Vivemos despreparados para os adeuses, que são tantos e sempre serão.

Para os Budistas, os Espíritas e outros reencarnacionistas, o bom pensar na morte resulta num bom pensar na vida e, por consequência, um melhor viver; é bom e necessário. Afinal, como diz outro poeta, Vinícius de Moraes, no Poema de Natal: "Por isso temos braços longos para os adeuses". Somos feitos pra isso.

Caso ainda não saiba, qualquer um de nós pode morrer a qualquer momento, é inevitável. Estar doente ou a saudável não alteram as probabilidades de óbito, o próximo passo não é garantido para ninguém. Quantas vezes já passamos triscando pelo nosso quase último momento e nem percebemos, ou percebemos e continuamos a mesma vida postergadora, confiando na ilusão do amanhã.

Foram tantos alertas mais leves que não me fizeram aproveitar melhor o tempo! A vida é urgente, sim, e eu precisei ganhar duas cicatrizes físicas que me lembram disso a cada vez que tiro a camisa. Hoje agradeço aos autores delas, tanto ao agressor quanto ao médico que me salvaram. Sim, salvaram, os dois. O primeiro, de que eu desperdiçasse a vida; o segundo, de que eu perdesse a vida. Mas espero que a maioria de nós não precise de algo tão drástico para melhorar a forma de viver.

No Cristianismo existe a figura da Ressurreição, que é voltar da morte com o mesmo corpo. Clínica e fisicamente impossível, por motivos óbvios – pelo menos até agora –, mas metaforicamente viável, além de um belo conceito. Ressuscitamos quando, por motivos tantos, deixamos morrer o velho Ego e, no mesmo corpo, ressurgimos renovados. Ou, de forma mais simples, a cada novo dia, que nos é dado em branco, para fazermos algo melhor do que no dia anterior. Foi o que aconteceu comigo.

Uma nova vida num mesmo corpo é possível. Talvez seja essa a mensagem, a princípio esdrúxula, da ressurreição bíblica que, agora, já me faz melhor sentido. E ressuscitemos hoje, que é o único tempo que existe. Sem medo da morte, morremos e ressuscitamos todos os dias, sem sofrer, conforme nos sugerem vários dos grandes avatares que já caminharam por essa Terra. Afinal, voltando ao Vinícius de Moraes, no já citado Poema de Natal: "da morte, apenas nascemos, imensamente."

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Ouvindo estrelas

Via Láctea - Soneto XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".


Este soneto, do Olavo Bilac (1865-1918), herdei da primeira namorada. Poderia ter sido das provas de poesia do colégio Alfa, lá em Umuarama, quando a professora Eny nos dava notas por decorar e declamar poemas na frente da sala. Lembro-me claramente das inúmeras vezes que ouvi estes versos sem arrepio qualquer. Sequer pensei em declamá-la, também. Mas foi ouvir, da primeira namorada, que essa era sua poesia preferida para que, imediatamente, me colocasse a decorá-la para poder declamá-la em qualquer situação que permitisse. O amor deixa a gente assim mesmo, tresloucado, como diz o poema, principalmente o amor primeiro, juvenil e explosivo.

O Soneto XIII, intitulado Via Láctea, também é conhecido como “Ouvir Estrelas”. Foi publicado, pela primeira vez, no livro "Poesias", o primeiro de Olavo Bilac, lançado quando ele tinha 23 anos de idade. Bilac, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, é considerado um dos expoentes do Parnasianismo, movimento poético que se preocupava mais com a forma e a objetividade do que com a parte subjetiva de um poema, mesmo tendo, grande parte de seus poemas, uma alta incidência de subjetivismo. Parnasiano na forma e romântico no conteúdo, uma mistura muito acertada.

Às vezes, penso que este soneto seja "o pequeno príncipe dos poemas", que quase todo mundo encontra cedo na vida e, alguns mais sensibilizados, o acolhem por motivos muitos. E, assim como a fábula de Saint-Exupéry, ele tem imagens tão bem construídas que, até mesmo uma interpretação superficial, quase literal, é agradável. Receita óbvia pra alguns, enigmático para outros – como todo bom poema – o Via Láctea descreve a imagem com bastante clareza, desenha o simbolo em detalhes, mas deixa uma interpretação ampla quem o lê.

Até hoje, ao olhar as estrelas no céu noturno, ou procurar por elas durante o dia – no sentido literal ou figurado –, ouço, lá do fundo da alma, o cético a me chamar de "tresloucado amigo", mas o poeta que ali também está, sempre mais sensível, logo rebate, com toda a razão e certeza do universo: "só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas".

segunda-feira, 30 de maio de 2016

El Mapa de Todos


Emocionado pelo filme "Neruda - Fugitivo" (2014, Manoel Basoalto) e por todo o esforço poético, literário e de vida que o poeta teve na tentativa de unificar a América do Sul ou, pelo menos, criar um sentimento Sulamericano comum, senti-me envergonhado por ser um tanto alheio à cultura e, principalmente, à música tradicional desta fatia de continente que me cerca. Coloquei-me, então, numa jornada de reconhecimento da vizinhança, da qual, afora o Tango e a Música Contemporânea Argentina, do imbatível Astor Piazzolla, sei muito pouco. Saí, então, do Chile de Neruda, Violeta Parra e Atahualpa Yupanqui, passei pelo Paraguai, revisitei a Argentina e cheguei ao Uruguai, onde encontrei Daniel Viglietti (Montevideo, 1939).

Durante a segunda metade do Sec. XX, parecia que a America do Sul estava infectada pelo vírus dos governos ditatoriais e, naqueles tempos de terror, entre revoluções e governos totalitários, assim como no Brasil, haviam, em toda parte, movimentações estudantís, artísticas e políticas que lutavam por libertar o povo do estado repressor. Pelo que entendi, Daniel Viglietti foi como o nosso Geraldo Vandré, que armado com seu violão, música e poesia, cantava a liberdade durante os duros anos da década de 1960.

Minha canção preferida de Viglietti é "Milonga de Andar Lejos", do disco "Canciones para el Hombre Nuevo", de 1968. Nessa milonga, um tipo de canção que adoro, por ser lenta e melancólica, Viglietti canta o amor pela sua terra cujo sangue é mestiço e que, apesar de muitas e diferentes bandeiras, tem a mesma pobreza. Por isso, cantava ser preciso derrubar as fronteiras, expandir o mapa, criando "el mapa de todos", uma América do Sul unida. Independente do posicionamento político de Viglietti, sinto que esta canção transcende a política e a própria América do Sul na luta contra os "invasores" ou "colonizadores"; ela fala de um anseio humano universal, de nos transformar-nos em algo maior do que um mero conjunto de nações, que nos transformemos apenas em humanos num mesmo planeta, criando uma grande terra de todos, sem fronteiras, um corpo único e complexo do qual todos são parte essencial. É uma luta solitária, mas como diz a canção, "uma gota faz pouco, muitas gotas fazem tempestade".

E foi há dias atrás que uma bela coincidência me fez reviver essa viagem espiritual pela Sudamérica. Meu amigo-irmão Nevilton, ao regressar de Montevideu, trouxe-me, de presente, um livro que sempre quis ter na língua original: Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, do Pablo Neruda. Além da emoção pelo presente em sí, um desejo antigo realizado, logo vi o grande círculo simbólico que estava em minhas mãos: Foi Neruda quem me levou do Chile ao Uruguai de Viglietti e, dias atrás, o Uruguai de Viglietti me trouxe de volta ao Chile de Neruda. E com o tempero extra do livro ter sido publicado na Espanha, um dos grandes e cruéis colonizadores da América Latina. Que grande viagem, funda na alma Sulamericana, em apenas um livro de poemas! Obrigado, Nevilton!






Qué lejos está mi tierra
Y, sin embargo, qué cerca 
O es que existe un territorio 
Donde las sangres se mezclan.

Tanta distancia y camino,
Tan diferentes banderas 
Y la pobreza es la misma 
Los mismos hombres esperan. 

Yo quiero romper mi mapa, 
Formar el mapa de todos, 
Mestizos, negros y blancos, 
Trazarlo codo con codo. 

Los ríos son como venas 
De un cuerpo entero extendido, 
Y es el color de la tierra 
La sangre de los caídos. 

No somos los extranjeros 
Los extranjeros son otros; 
Son ellos los mercaderes 
Y los esclavos nosotros. 

Yo quiero romper la vida, 
Como cambiarla quisiera, 
Ayúdeme compañero; 
Ayúdeme, no demore, 
Que una gota con ser poco 
Con otra se hace aguacero. 


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Retratos Poéticos


São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.


Os versos acima são a fala de abertura para o primeiro ato da peça o "Orfeu da Conceição" (1956), escrita por Vinícius de Moraes e musicada por Tom Jobim. Foi primeira parceria entre os dois, parceria que, mais tarde, geraria uma revolução na história da música popular Brasileira. Posteriormente, em 1967, foram publicados como "Soneto do Corifeu", na segunda edição ampliada, do Livro de Sonetos, como um dos 25 poemas acrescentados aos 35 da primeira edição, de 1957. Ambas as edições foram organizadas pelo próprio Vinícius de Moraes. Mais tarde, pelas mãos de Toquinho, outro parceiro do poeta, o soneto se transformou em música e, sob o título de "São Demais os Perigos Dessa Vida", dá nome ao disco de 1971 de Toquinho e Vinícius.

Minha história com o Vinícius de Moraes é antiga. Ele se ausentou do mundo um mês antes do meu nascimento, em 1980 e, mesmo não tendo compartilhado o palco da existência com ele, desde a mais longínqua memória de infância, me recordo do sentimento de carinho que despertava em mim aquela gravura que o retratava, grisalho e calvo, com um nariz de batata, no encarte do disco "A Arca de Noé". E, enquanto crescia, continuei a descobrir, em sua obra, ecos perfeitos para os meus sentimentos, o que fez com que o carinho infantil se tornasse a admiração e respeito de um pupilo pelo mestre. Inevitável, tornei-me poeta.

Há semanas atrás, através de um exercício para um curso de poética que estou fazendo, procurando meus poemas preferidos para montar uma antologia, reencontrei o Soneto do Corifeu. Diria que ele não é só um dos meus poemas preferidos; ele é o mais importante deles. Foi o primeiro que, lá longe, na tenra juventude, me tocou fundo na alma; foi o primeiro que decorei e, sem jamais esquecê-lo, ainda o declamo decor. Hoje, menos leigo sobre a língua portuguesa e a poética, me espantei ao perceber que herdei, dos versos do Corifeu, importantes elementos líricos da minha poesia: a lua, testemunha silenciosa de todos nós, pura, intocável e inevitável; a solidão da noite, cuja calma, silêncio e solidão amplificam as mínimas e mais íntimas marolas sentimentais em tsunamis invencíveis; os perigos da paixão; a beleza constante da mulher e uma tristeza inerente a todo ser vivente, mas que é leve, expressa na cadência melancólica de cada palavra versificada.

E você, tem algum poema preferido, ou que foi importante na sua história? Que tal eleger alguns e aproveitar o acesso a regiões interiores, que só a poesia dá, para se conhecer ou se reencontrar? Faça a sua antologia de poemas e surpreenda-se quando vir, nela, um belo retrato seu.


Aproveite e ouça a canção "São Demais os Perigos Dessa Vida", de Toquinho e Vinícius, com direito ao Vinícius declamando o Soneto do Corifeu logo na introdução.