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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

No Interior


Cheguei na beira do porto onde as ondas se 'espaia'
As 'garça' da meia-volta e senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia

Quando eu vim da minha terra, despedir da 'parentaia'
Eu entrei no Mato Grosso, bem em terras Paraguaias
Lá tinha revolução, enfrentei forte 'bataia' 

A tua saudade corta como aço de 'navaia' 
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia' 
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia' 


Cuitelinho é como se chama o Beija-flor em algumas partes do Brasil interiorano, e também é o nome dessa belíssima canção, composta por Bento Costa, em 1932. Dizem que ganhou notoriedade depois que Paulo Vanzolini, famoso biólogo e compositor (de "Ronda", "Volta Por Cima") a trouxe para os holofotes. Disse o próprio Vanzoline que, durante uma pescaria na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, seu amigo Antônio Xandó chamou sua atenção para a bela canção que um barqueiro cantava. Inspirado pelo primeiro verso que ouvira, compôs os outros dois. Do Bento Costa, pouco se sabe.

Não escondo o sentimentalismo, e fica cada vez mais evidente que a saudade é um dos meus temas favoritos. Na Cuitelinho as saudades vêm de um soldado brasileiro que abandona a família para ir lutar na gerra do Paraguai (1864-1870) ou, pelo menos, é o que se dá a entender.

No meio das saudades todas que ele carrega, surge o que, na minha opinião é a melhor descrição dos efeitos da saudade que já constou no cancioneiro popular brasileiro. Falo do terceiro verso, que repito aqui:

A tua saudade corta como aço de 'navaia'
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia'
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia'

A beleza poética da imagem é imensa, mas é delicadamente escondida atrás da linguagem simples. Simples, como é simples sentir saudades; como é simples o personagem que entoa os versos. O dialeto caipira e, em algumas versões da música, o som choroso do ponteado da viola caipira, potencializam muito as emoções dos versos. A soma disso tudo me remete às minhas próprias saudades dos tempos passados no interior, nas casas e sítios da 'parentaia' do Norte Pioneiro do Paraná.

Me emociona, também, como graças à poesia e a cultura popular, conseguimos acessar esse microuniverso sentimental de um evento gigantesco que foi a gerra do Paraguai, considerada, inclusive, o maior conflito armado que já houve na América do Sul. Também foi o mais sangrento. Entretanto, no meio de tiros de canhão e gritaria, havia ali, num coração surpreendido pela batalha, decerto aflito, um santuário de calmaria e saudade, um relicário, um altarzinho aconchegando tudo aquilo que se ama.




sábado, 3 de dezembro de 2016

O meu Amor, em Neruda

Tenho a mania de conceituar as coisas. Talvez, inconscientemente, esteja usando do artifício de nomear para controlar, que tantos teóricos da psicologia e sociologia comentam. Apesar de supo-lo eficiente, não me parece tão saudável assim. E tento, ainda sem sucesso, minimizar um pouco o costume.

Dia desses, recebi uma ajuda importante no tema preferido: o Amor. Deparei-me com o Poema 44, do livro Cem Sonetos de Amor (Cien Sonetos de Amor, 1959), de Pablo Neruda. Neste livro, o poeta descreve o Amor, o Romance e seus derivados de cem formas diferentes e, neste poema, em especial, como um sentimento tão primordial e imenso, que transcende a si, que é e está em tudo, inclusive na sua própria ausência. Afinal, se em tudo que existe também existe o seu oposto, há amor mesmo quando não se ama; persiste a atitude mesmo quando cala-se o ato.


Poema XLIV

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Comentário sobre o poema Caro Data Vermibus


Este é um poema que gosto muito. Primeiro, por ser bonito; segundo, pela sua feitura ter sido um processo longo. Finalizá-lo foi uma alegria imensa.

Da sua concepção, num papel rascunho do "Ministério Público do Paraná, em 2001, ao seu fechamento, para o livro, em 2013, descontados uns prováveis e não mais do que 4 anos de gaveta, foi quase uma década. Sim, talvez o poema mais demorado que já fiz. Mas foi realmente preciso vivenciar muitas coisas para condensar as idéias e imagens que ele me pedia. Foram anos de tentativas e retomadas e desistências na lida com estes versos.

É um poema que retrata um amadurecimento: do desespero do jovem desiludido ao racionalismo do quase adulto, ainda desiludido, mas um tanto mais forte.

Quase 10 anos em 14 versos. Até eu mesmo fico espantado!

Aproveite e leia o poema: Caro Data Vermibus

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Ouvindo estrelas

Via Láctea - Soneto XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".


Este soneto, do Olavo Bilac (1865-1918), herdei da primeira namorada. Poderia ter sido das provas de poesia do colégio Alfa, lá em Umuarama, quando a professora Eny nos dava notas por decorar e declamar poemas na frente da sala. Lembro-me claramente das inúmeras vezes que ouvi estes versos sem arrepio qualquer. Sequer pensei em declamá-la, também. Mas foi ouvir, da primeira namorada, que essa era sua poesia preferida para que, imediatamente, me colocasse a decorá-la para poder declamá-la em qualquer situação que permitisse. O amor deixa a gente assim mesmo, tresloucado, como diz o poema, principalmente o amor primeiro, juvenil e explosivo.

O Soneto XIII, intitulado Via Láctea, também é conhecido como “Ouvir Estrelas”. Foi publicado, pela primeira vez, no livro "Poesias", o primeiro de Olavo Bilac, lançado quando ele tinha 23 anos de idade. Bilac, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, é considerado um dos expoentes do Parnasianismo, movimento poético que se preocupava mais com a forma e a objetividade do que com a parte subjetiva de um poema, mesmo tendo, grande parte de seus poemas, uma alta incidência de subjetivismo. Parnasiano na forma e romântico no conteúdo, uma mistura muito acertada.

Às vezes, penso que este soneto seja "o pequeno príncipe dos poemas", que quase todo mundo encontra cedo na vida e, alguns mais sensibilizados, o acolhem por motivos muitos. E, assim como a fábula de Saint-Exupéry, ele tem imagens tão bem construídas que, até mesmo uma interpretação superficial, quase literal, é agradável. Receita óbvia pra alguns, enigmático para outros – como todo bom poema – o Via Láctea descreve a imagem com bastante clareza, desenha o simbolo em detalhes, mas deixa uma interpretação ampla quem o lê.

Até hoje, ao olhar as estrelas no céu noturno, ou procurar por elas durante o dia – no sentido literal ou figurado –, ouço, lá do fundo da alma, o cético a me chamar de "tresloucado amigo", mas o poeta que ali também está, sempre mais sensível, logo rebate, com toda a razão e certeza do universo: "só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas".

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Retratos Poéticos


São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.


Os versos acima são a fala de abertura para o primeiro ato da peça o "Orfeu da Conceição" (1956), escrita por Vinícius de Moraes e musicada por Tom Jobim. Foi primeira parceria entre os dois, parceria que, mais tarde, geraria uma revolução na história da música popular Brasileira. Posteriormente, em 1967, foram publicados como "Soneto do Corifeu", na segunda edição ampliada, do Livro de Sonetos, como um dos 25 poemas acrescentados aos 35 da primeira edição, de 1957. Ambas as edições foram organizadas pelo próprio Vinícius de Moraes. Mais tarde, pelas mãos de Toquinho, outro parceiro do poeta, o soneto se transformou em música e, sob o título de "São Demais os Perigos Dessa Vida", dá nome ao disco de 1971 de Toquinho e Vinícius.

Minha história com o Vinícius de Moraes é antiga. Ele se ausentou do mundo um mês antes do meu nascimento, em 1980 e, mesmo não tendo compartilhado o palco da existência com ele, desde a mais longínqua memória de infância, me recordo do sentimento de carinho que despertava em mim aquela gravura que o retratava, grisalho e calvo, com um nariz de batata, no encarte do disco "A Arca de Noé". E, enquanto crescia, continuei a descobrir, em sua obra, ecos perfeitos para os meus sentimentos, o que fez com que o carinho infantil se tornasse a admiração e respeito de um pupilo pelo mestre. Inevitável, tornei-me poeta.

Há semanas atrás, através de um exercício para um curso de poética que estou fazendo, procurando meus poemas preferidos para montar uma antologia, reencontrei o Soneto do Corifeu. Diria que ele não é só um dos meus poemas preferidos; ele é o mais importante deles. Foi o primeiro que, lá longe, na tenra juventude, me tocou fundo na alma; foi o primeiro que decorei e, sem jamais esquecê-lo, ainda o declamo decor. Hoje, menos leigo sobre a língua portuguesa e a poética, me espantei ao perceber que herdei, dos versos do Corifeu, importantes elementos líricos da minha poesia: a lua, testemunha silenciosa de todos nós, pura, intocável e inevitável; a solidão da noite, cuja calma, silêncio e solidão amplificam as mínimas e mais íntimas marolas sentimentais em tsunamis invencíveis; os perigos da paixão; a beleza constante da mulher e uma tristeza inerente a todo ser vivente, mas que é leve, expressa na cadência melancólica de cada palavra versificada.

E você, tem algum poema preferido, ou que foi importante na sua história? Que tal eleger alguns e aproveitar o acesso a regiões interiores, que só a poesia dá, para se conhecer ou se reencontrar? Faça a sua antologia de poemas e surpreenda-se quando vir, nela, um belo retrato seu.


Aproveite e ouça a canção "São Demais os Perigos Dessa Vida", de Toquinho e Vinícius, com direito ao Vinícius declamando o Soneto do Corifeu logo na introdução.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Aos sempre jovens poetas



Nos tempos da Faculdade, uma amiga, sabendo da minha inclinação à poesia, me emprestou o livro "Cartas a um Jovem Poeta". Uma compilação da pequena, mas bela correspondência entre o poeta tcheco Rainer Maria Rilke e o jovem austríaco Franz Kappus. Trocada vagarosamente entre 1903 e 1908, talvez seja uma das melhores coletâneas de conselhos a um jovem – ou a qualquer um com dúvidas e angústias, que dá no mesmo – que eu já tive notícias. Desnecessário dizer a gratidão que tenho a essa amiga e o quanto essa leitura me marcou e inspirou na poesia e na vida.

O jovem Kappus, aluno de um colégio militar, tinha dúvidas sobre se deveria seguir o seu coração e abraçar a carreira de poeta, que tanto lhe realizava a alma, ou se deveria seguir a militar, que lhe daria segurança financeira e agradaria a sua família – ora, a dúvida que nos une a todos! –. Ao saber que Rilke, o famoso poeta, também havia estudado no mesmo colégio, resolveu escrever-lhe uma carta na qual abria seu coração e perguntava se seus versos eram bons o suficiente para seguir o seu intento poético.

O poeta, mais experiente, entre rápidas digressões acerca do processo da escrita, da poética e dos versos de Kappus – que aparecem hora ou outra pelas cartas –, prefere aconselhá-lo para a vida, talvez a única forma de ajudá-lo de verdade, pois a vida não deve ser nada mais do que nossa melhor poesia. E, assim como na vida, o trabalho na poesia exige fé e análise constante de si mesmo, o poeta se destrói e se reconstrói dia a dia. É uma atividade que acontece pela necessidade de nascer do verso, e não o contrário. Por isso, deve o poeta, antes de tudo, estar em conexão consigo, com o que borbulha dentro de si, e ter forças para trazer isso à luz da melhor maneira. É o esforço hercúleo e inevitável de dar vida, da gestação e parto, tão comum e sagrado na natureza.

E não apenas se conhecer intimamente, mas ligar-se à natureza, inteirar-se do ritmo do mundo e saber deixar tudo amadurecer antes de colher. Ter paciência, viver plenamente o agora, como vivem todas as coisas no universo, entender as limitações inerentes ao humano na magnitude do infinito, perceber seu lugar e função no jogo. Isso acalenta a alma e afasta a angústia da criatividade e do próprio viver, pois “as coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível", senti-los pode ser mais importante do que entendê-los.

Por isso devemos amar as nossas dúvidas, vivê-las agora e sem medo, pois, talvez passemos, "gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas". Entender que "quase tudo que é sério é difícil, e tudo é sério", sem sentir medo, mas, pelo contrário, fazer disso um convite à introspecção e fortalecimento, pois, “talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo terror não passe, em última instância, do desamparo que requer nossa ajuda.”

Viver uma vida sincera em essência e meditativa pode nos fazer sentir solitários, distintos do mundo, mas, longe de nos desestimular, a dificuldade de encarar-se só deve nos impulsionar. Ser solitário é bom, "pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la".

Enfim, como já sugere Kappus, no prefácio do livro, o tom dessa correspondência ecoa tão universal que é impossível não a tomarmos como nossa. Nós, tão distintos e, ao mesmo tempo, tão semelhantes... E a cada leitura deste livro, nos tornarmos mais preparados para soltarmos as rédeas do mundo e segurarmos firmes as nossas, e entender a simplicidade funda destas últimas aspas de Rilke que vos trago:"De resto, deixe a vida acontecer. Acredite em mim: a vida tem razão, em todos os casos."

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Álbum : A Love Supreme [1965, John Coltrane]



Desde os tempos imemoriais da humanidade a meditação e a oração são sugeridas como meio de contato do homem consigo mesmo e com o Cosmos, ou seja, orar ou meditar com energia proporciona a conexão entre a esfera mais íntima e minúscula de cada ser e a esfera mais exterior e infinita do Cosmos, unindo criatura e criador, a parte com o todo e, através dessa sintonia com todas as coisas, o praticante é iluminado e libertado.

Dos muitos seres de luz que já passaram pela história humana sugerindo a prática íntima e constante da oração ou meditação, podemos citar um que é, no mínimo, curioso: John Coltrane, saxofonista e lenda do Jazz.

Foi, coincidentemente, no dia de aniversário de sua morte (17 de Julho) que terminei de ler o livro "A Love Supreme" (Barracuda, 2007), escrito por Ashley Kahn e bem traduzido para o português por Patricia de Cia e Marcelo Orozco. O livro traz um panorama bem completo de todo o processo musical de Coltrane até chegar à criação, gravação e desdobramentos de uma das maioers obras primas do Jazz, de todos os tempos: a suíte A Love Supreme, lançada num álbum homônimo em 1965.

Acertadamente o livro não se prende apenas ao processo do disco, mas acompanha toda a trajetória musical de Coltrane, desde que saiu do Rehab e se tornou abstêmio de álcool e entorpecentes; sua passagem por diversas bandas, como a de Miles Davis, até formar a sua própria, com a qual disco a disco vai caminhando para libertar sua música das amarras estéticas e teóricas que tanto o incomodavam. Nele também encontramos depoimentos de amigos, parentes, parceiros musicais, produtores fonográficos, fãs e trechos de entrevistas que nos facilita visualizar, com mais amplitude, o que inspirava e movia Coltrane na sua busca que, além de músical, era evidentemente espiritual. 

O livro também não deixa de lado as informações sobre o music bussines da época, técnicas de gravação e mixagem. Assinalo a participação de Rudy Van Gelder, engenheiro de som do A Love Supreme e outras belas obras do jazz, que tem até capítulo à parte pela fundamental importância para a sonoridade do disco, bem como para que o livro se tornasse muito mais interessante. Foi uma surpresa colossal saber que vários discos de Miles Davis, Duke Ellington, Thelonious Monk e outros grandes nomes do Jazz dos anos 1950 foram gravados na sala de estar da casa dos pais de Rudy, à noite, após ele sair do trabalho em uma ótica e enquanto seus pais dormiam. Isso é algo que eu e muitos músicos fazemos e achamos uma incrível novidade. Doce ilusão, os grandes do Jazz (e não podemos esquecer do velho Les Paul) já tinham seu home studio e faziam obras primas atemporais. 

O que chama atenção no Rudy é que o som que ele conseguiu captar dessas gravações é de altíssima qualidade, sensacional até hoje. Enfim, há informações pra todos os níveis de interesse e, mesmo pra quem não "entende de música", Ashley Kahn coloca a informacão técnica de forma a fazer sentido para que qualquer interessado possa entender a influência de cada elemento, técnico ou artístico, na obra de Coltrane.

Durante a leitura do livro entendemos a dedicação quase monástica ao estudo e prática da música a que Coltrane se submetia, numa intenção nunca secreta de dominar a técnica e as linguagens para depois subvertê-las e expandí-las, como se emulasse Sidarta Gautama ou Jesus Cristo, em meditação e prática constante no deserto, buscando iluminação – que, de fato, como ouvimos no disco, conseguiu – e puxava para o mesmo caminho os músicos que o cercavam. Desta forma, como um Messias e seus seguidores, pregação após pregação pelos teatros e bares do mundo, o quarteto formado por Coltrane no sax (barítono e tenor), Mckoy Tyner no piano, Jimmy Garrison no Contrabaixo e Elvin Jones na Bateria, se transforma numa das maiores expressões do Jazz, referência não só da época, mas de tudo o que veio depois deles.

Com a coesão do quarteto comprovada no álbum Crescent (1964), Cotrane sentiu-se seguro para dar o próximo passo de sua jornada libertadora das notas musicais e de sua alma, criando um álbum extremamente Espiritual. Em A Love Supreme, todos se expressam mais do que musicalmente, eles se conectam entre si e com o Universo tocando a música que ressoa em suas almas, livres, dando graças ao criador pela oportunidade de estarem vivos.

Os sons que estão imortalizados nos fonogramas são os que foram gravados na noite de 09 de Dezembro de 1964, já no estúdio construído por Rudy, em Englewood Cliffs (New Jersey), e não mais na casa de seus pais. E a notícia de que houve uma sessão extra, na noite seguinte, com um Sax extra (Archie Shepp) e um Baixista extra (Arthur Davis), que desapareceu pra sempre, vai me arrepiar pelas próximas vidas. Interessante, também que as únicas fotos existentes (muitas estão no livro) são da sessão do dia 10, pois dia 09 não houve fotografo registrando. Ou seja, temos as fotos de um dia e o som de outro dia.

Uma suíte é um formato da música clássica, um conjunto de músicas que giram em tordo de um mesmo tema, no caso de A Love Supreme é homenagear Deus. Coltrane mesmo define sua suíte como uma oração e, por ser músico, se expressa melhor usando notas musicais, facilitando assim a conexão com o criador e com o Amor Supremo no qual ele se sentia envolvido e reverberando. 

O nome das faixas, Acknowledgment (Reconhecimento), Resolution (Resolução), Pursuance (Busca, Persecussão) e Psalm (Salmo, Prece, Oração), mostram o caminho sugerido pelo Jazzman para que nos sintonizemos com Deus, ou seja: Reconhecer a existência Dele; Resolver-se como filho do Criador; buscá-Lo sem descanso até visualizá-Lo e agradecê-Lo, em oração sincera pela graça da existência e das possibilidades de trabalho, estudo e evolução que nos foram dadas.

Ashley Kahn nos presenteia com 40 páginas de descrição detalhada de como cada uma das quatro faixas da suite se desenvolvem, abrindo-nos uma outra gama de entendimento sobre cada segundo de música. Mas Psalm, o salmo de Coltrane, tem uma história à parte. Ele é um poema escrito pelo próprio músico que, ao invés de declamá-lo no disco, tocou sílaba a sílaba no seu sax barítono. De uma sinceridade ímpar, é o momento mais iluminado do disco, com notas arrepiantes e lindas de se acompanhar ao mesmo tempo em que se lê o poema.

Faça isso você, agora:



Ou por esse vídeo da própria Coltrane Church (sim, existe).






E pra facilitar de vez a experiência, uma versão cantada de um trecho do Salmo:



Em algum dia de 1964, durante sua pratica diária, John Coltrane entendeu algo, sentiu algo e, mais que isso, ele colocou em prática, gravou um disco e espalhou a idéia. Utilizou a sua melhor forma de agir para se comunicar e se conectar com o Deus e Cosmos, recebendo e enviando amor. Depois de ler o livro e ouvir atentamente ao disco, foi impossível não ficar tocado ou, ao menos, pensativo, sobre estar mergulhado num grande mar de Amor Supremo e de energia infinita, mas não estar acessando isso tudo. Se como Coltrane, eu também posso melhorar minha conexão com esta infinita reserva de energia boa usando a meditação e a oração. 

Se todos somos capazes de criar as melhores coisas quando nos esforçamos usando só a nossa própria força, imagino o quanto melhor faríamos se estivéssemos agindo movidos pelas forças de todo o Cosmo. Qual seria a minha obra prima?

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Arthur Rimbaud : Poesia Completa e Correspondência

Revirando o baú, encontrei uma antiga resenha que escrevi sobre dois deliciosos volumes que li no final de 2006: Rimbaud Complete (Poesias Completas de Rimbaud) e I Promisse to Be Good : The Letters of Rimbaud (Prometo Ser Bom : As Cartas de Rimbaud). Livros muito bem traduzidos do Francês para o Inglês por Wyatt Mason, estudioso e especialista em Rimbaud.


Capas dos livros Rimbaud Complete e I promisse to be good : The Letters of Rimbaud, de Wyatt Mason


Posso dizer que estes livros salvaram minha pele – ou melhor, minha alma – naqueles tempos longe da família, solto no mundo, onde qualquer vida era possível e eu ainda não sabia muito bem qual delas eu queria viver. E não só pela gratidão, mas também pelo prazer que tive em ler estes livros, resolvi revisar e atualizar a resenha antiga e republicá-la. Adicionei mais informações sobre as traduções dos dois volumes em português (traduções de Ivo Barroso, que já tive o prazer de ler alguns trechos) e tive uma ótima surpresa, descobri que, no Brasil, publicou-se um outro volume além dos dois que eu já conhecia, também traduzido pelo Ivo Barroso e dedicado exclusivamente à Prosa Poética do Rimbaud (Uma Temporada no Inferno; Iluminações; Um Coração Sob a Sotaina; Os Desertos do Amor; Prosas Evangélicas).



Sem mais delongas, à resenha!

Arthur Rimbaud na juventude.

Revolucionar a poesia francesa dos 16 aos 21 anos de idade e morrer doente aos quase 37, após vários anos desbravando o norte da África como empreiteiro e comerciante de armas. Esse é o resumo, superficialíssimo da vida de Jean-Nicolas-Arthur Rimbaud, nascido em 20 de outubro de 1854, na pequena cidade de Charleville, que fica na região de Champagne-Ardene, noroeste da França, fazendo fronteira com a Bélgica. Interessante é a bandeira dessa província: dois corações, um verde e um amarelo, entrelaçados – brasileiríssimo.

Interessantemente a influência deste jovem poeta, na época apelidado até de L'enfant Shakespeare (o jovem Shakespeare) não morreu junto com ele, pelo contrario, continua crescendo, e. até hoje muitos – não só poetas – conclamam Rimbaud como uma importante influência. Nesse time estão pessoas do quilate de Vinícius de Moraes; os Simbolistas e Surrealistas quase todos; Cazuza; Jim Morrisson e outros tantos Beatniks como Jack Kerouac, William S. Burroughs e Allen Ginsberg, além de uma infinidade de artistas de outras áreas. A ideologia libertária da juventude revolucionária das décadas de 1960 e 1970 encontrou respaldo na poesia e na própria vida de Rimbaud. Enfim, o conceito de liberdade na cultura ocidental tem um toque desse revolucionário poeta menino.

Apesar de várias poesias esparsas já existirem em português, não havia nada tão meticuloso relacionado a ele no pais. O trabalho do tradutor e também poeta Ivo Barroso, estudioso de Rimbaud desde a década de 1950 quando publicou a tradução do “Soneto das Vogais” no suplemento dominical do Jornal do Brasil. Já na década de 1970, publicou a tradução de “Une Saison En Enfer” (Uma Temporada no Inferno) e finalmente, em 1994, publicou, pela Topbooks, o primeiro volume da coleção sobre a qual falamos: a Poesia Completa de Arthur Rimbaud, em edição bilíngüe (Francês-Português).

Neste primeiro volume, é possível perceber a preocupação do tradutor em preservar a métrica, o ritmo, a rima e o máximo possível das sutilezas dos versos e da personalidade do poeta francês. Afinal, todo bom leitor sabe que uma tradução literária é muito mais do que só transcodificar uma língua em outra e, se mal feita, pode destruir tudo o que o autor original tem de brilhante e transformar o texto de um gênio em um monte tedioso de palavras empilhadas. Enfim, para respeitar a essência da poesia de Rimbaud, Ivo dedicou muitos anos integralmente à esta tradução, garimpando livros mundo afora, variantes, dados biográficos de Rimbaud e de pessoas que o circundavam. Nesse livro se percebe bem a foça das idéias e versos que contaminaram o espírito de milhares de outros poetas e artistas posteriores à Rimbaud. Aqui vai um exemplo:

Le Bateau Ivre

Comme je descendais des Fleuves impassibles,
Je ne me sentis plus guidé par les haleurs:
De Peaux-Rouges criards les avaient pris pour cibles
Les ayant cloués nus aux poteaux de couleurs.

J' étais insoucieux de tous les équipages,
Porteur de blés flamands ou de cotons anglais.
Quand avec mes haleurs ont fini ces tapages
Les Fleuves m'ont laissé descendre où je voulais.

...................................

Plus douce qu'aux enfants la chair des pommes sures,
L'eau verte pénétra ma coque de sapin
Et des taches de vins bleus et des vomissures
Me lava, dispersant gouvernail et grappin.

Et dès lors, je me suis baigné dans le Poème
De la Mer, infusé d'astres , et lactescent,
Dévorant les azurs verts; où, flottaison blême
Et ravie, un noyé pensif parfois descend;

...................................

Si je désire une eau d'Europe, c'est la flache
Noire et froide où vers le créspuscule embaumé
Un enfant accroupi plein de tristesses , lâche
Un bateau frêle comme un papillon de mai.

Je ne puis plus, baigné de vos langueurs, ô lames,
Enlever leur sillage aux porteurs de cotons,
Ni traverser l'orgueil des drapeaux et des flammes,
Ni nager sous les yeux horribles des pontons.

/\/\/\
O Barco Ébrio

Como descesse ao léu nos Rios impassíveis,
Não me sentia mais atado aos sirgadores;
Tomaram-nos por alvo os Índios irascíveis,
Depois de atá-los nus em postes multicores.

Estava indiferente às minhas equipagens,
Fossem trigo flamengo ou algodão inglês.
Quando morreu com a gente a grita dos selvagens,
Pelos Rios segui, liberto desta vez.

...................................

Mais doce que ao menino os frutos não maduros,
A água verde entranhou-se em meu madeiro, e então
De azuis manchas de vinho e vômitos escuros
Lavou-me, dispersando a fateixa e o timão.

Eis que a partir daí eu me banhei no Poema
Do Mar que, latescente e infuso de astros, traga
O verde-azul, por onde, aparição extrema
E lívida, um cadáver pensativo vaga;

...................................

Se há na Europa uma água a que eu aspire, é a mansa,
Fria e escura poça, ao crepúsculo em desmaio,
A que um menino chega e tristemente lança
Um barco frágil como a borboleta em maio.

Não posso mais, banhado em teu langor, ó vagas,
A esteira perseguir dos barcos de algodões,
Nem fender a altivez das flâmulas pressagas,
Nem vogar sob a vista horrível dos pontões."


Neste poema (parcialmente citado), Rimbaud cria a figura do barco louco, embriagado de infinito, navegando ao acaso, rumando ao desconhecido. O barco é, na verdade, uma metáfora para si mesmo, navegando entre as incerteza da vida.

Incertezas e dilemas que podem ser examinadas em detalhes e entendidas num outro volume, o terceiro da trilogia de Ivo Barroso (O segundo é o dedicado exclusivamente à Prosa Poética de Rimbaud). Em "Arthur Rimbaud - Correspondência", publicado em 2009, também pela Topbooks, encontramos as cartas que Arthur Rimbaud mandava para sua família e amigos. As cartas datam do início de 1870 até 09 de novembro de 1891, um dia antes de sua morte, doente de tifo, sem uma perna, num hospital em Marselha, na França, acompanhado da família, logo depois de completar 37 anos de idade.

Quando iniciou sua correspondência, em 1870, Rimbaud tinha apenas 16 anos, e em suas cartas discutia a poesia em profundidade e a coerência entre a vida do poeta e sua obra. São cartas maravilhosas, onde se percebe a genialidade do garoto. É nessa fase que ele inicia sua relação homossexual e turbulenta com Paul Verlaine, também um grande poeta francês, com o qual vai morar em Paris. Também é possível ler, em várias das cartas, versões de alguns poemas ainda inacabados, para os quais Arthur pedia sugestões a outros amigos poetas. Estas discussões estéticas, filosóficas, simbólicas, e até mesmo questionando a qualidade da literatura que se fazia na França, proporcionam ao leitor de suas cartas a chave para decodificar de forma mais correta os símbolos e imagens de seus versos. Veja um trecho da famosa "Carta do Vidente" (15 de Maio de 1871), texto onde definia o seu método de viver e criar sua poesia, e que certamente influenciou várias gerações de "poetas malditos":

(…) um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; buscar a si, esgotar em si mesmo todos os venenos, a fim de só lhes reter a quintessência. Inefável tortura para a qual se necessita toda a fé, toda a força sobre-humana, e pela qual o poeta se torna o grande enfermo, o grande criminoso, o grande maldito, — e o Sábio supremo! — pois alcança o insabido.

Interessante é ver a mudança no assunto das cartas a partir de 1875, quando Arthur, durante uma longa caminhada pela Europa (sim, à pé mesmo!) começa a se desinteressar pela poesia e, progressivamente, a correspondência do poeta que decretou a necessidade de se “reinventar o amor” torna-se a correspondência de um homem comum, destinada a sua família distante. Nesta segunda fase de sua vida não há mais poesia, apenas pedidos de livros de agrimensura, dicionários de árabe, reclamações sobre o calor infernal da região e demais aspectos do choque cultural que sofria. Mas mesmo em meio a tantos assuntos cotidianos, ainda se vê muita reflexão sobre o que efetivamente é a vida e pra que ela serve – uma constante em Rimbaud. São trechos esparsos, mas tão envolventes quanto seus versos da juventude, que exalavam rebeldia, agonia e erotismo.

Arthur Rimbaud, em idade adulta.
Foto tirada no terraço do Hotel Universo, em Áden, Iêmen.

Acompanhamos agora Rimbaud, já não mais poeta, em sua jornada – quase uma fuga de tudo e todos –, pelo norte da África, empresário, construtor, mercador de armas, e nunca satisfeito com onde estava ou com o que estava fazendo, reflexo de uma alma inquieta, que cada vez mais se sentia desconectada de tudo e, solta no universo, compreendia verdadeiramente não pertencer a lugar algum.


Poesia Completa
Correspondência
Prosa Poética
A trilogia 'Rimbaudniana' de Ivo Barroso.


Seja para simples deleite em boa poesia ou por uma busca mais profunda sobre a essência da alma; seja para buscar inspiração pra tocar a vida em frente ou criar coragem para mudá-la radicalmente; encontrará nestes volumes, na vida de Arthur Rimbaud (poeta ou não), inspiração de sobra. Como já aconteceu e ainda acontecerá com muita gente.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Livro : Incidente em Antares [1971, Erico Veríssimo]


As famílias Campolargo e Vacariano lutam pelo domínio da pequena cidade de Antares, no Rio Grande do Sul, desde que foi fundada no quase imemorial passado dos pampas. Mas a situação política e social do Brasil inspiraram a classe operária a se rebelar contra a Burguesia local e declarar uma greve geral.

Para o azar de sete moradores da cidade: Quitéria Campolargo, a matriarca da cidade; Barcelona, o sapateiro anarquista; Cícero Branco, o poderoso advogado; João da Paz, jovem pacifista que foi torturado; o bêbado Pudim de Cachaça; o pianista suicida Menandro Olinda e a prostituta Erotildes, todos falecidos no mesmo dia, os coveiros da cidade também estão em greve e se aproveitam dos mortos insepultos para pressionar ainda mais os “donos da cidade”.

Apesar do desconforto, tudo correria normalmente se os sete mortos não resolvessem se levantar de seus caixões, deixados no portão do cemitério, e voltar à cidade para exigir um enterro descente e o descanso eterno. Aproveitando-se da liberdade que a morte lhes deu, se vingam dos desafetos e usam o coreto da cidade para revelar os podres dos cidadãos de Antares, de fatos políticos a aventuras sexuais e traições.

Esta história aconteceu em 1963, na fictícia cidade e Antares, local escolhido por Erico Veríssimo, para ser o cenário de seu livro “Incidente em Antares”. O livro já foi Mini-Série da Rede Globo em 1994, série que foi compilada num longa metragem que você pode assistir no final dessa resenha.

Erico Lopes Veríssimo, considerado um dos maiores romancistas do país, é pai do Luis Fernando Veríssimo, também famoso escritor brasileiro. Nascido em Cruz Alta, interior do Rio Grande do Sul, em 17 de dezembro de 1905, teve muitos empregos diferentes durante a juventude, até que em 1930 começa a publicar seus textos. Daí pra frente se dedica cada vez mais à literatura. De livros infantis à traduções de clássicos da literatura para o português; passando por coletâneas de contos seus, até ensinar literatura brasileira em Universidades Norte-Americanas, Erico sempre se mostrou apaixonado por seu trabalho, paixão que reflete diretamente na qualidade de seus textos e no capricho com o qual são feitos.



O Magnânimo Erico enquanto criava.

Em 1949 publica o primeiro volume da trilogia “O Tempo e o Vento”, um marco em sua carreira, considerado sua obra-prima. É uma trilogia com mais de 2.200 páginas, que consumiu quinze anos de trabalho. Esse ‘Senhor dos Anéis dos pampas’ conta a história do estado do Rio Grande do Sul de 1680 a 1945 (fim do Estado Novo), através da saga das famílias Terra e Cambará. É considerada a obra mais importante sobre o estado gaúcho e é dividida em três tomos: O Continente (1949), O Retrato (1951) e O Arquipélago (1962). Continuou produzindo muito e ganhando muitos prêmios nacionais e internacionais, mas em 28 de novembro de 1975, o escritor falece subitamente, deixando inacabada a segunda parte do segundo volume de suas memórias, além de esboços de um romance que se chamaria “A Hora do Sétimo Anjo”.

Incidente em Antares, publicado em 1971, foi o ultimo romance de Erico. Influenciado pelo ambiente criado pela ditadura que marcava o Brasil de Vargas, propõe uma crítica ao regime totalitário que valoriza a instituição em detrimento do homem. É sem dúvida um romance político, que narra a disputa pelo poder e critica a sociedade e seus conceitos de honra e exploração econômica.



Capa de uma edição antiga do Incidente em Antares.
Inclusive, foi essa que eu li.

O livro é dividido em duas partes. A primeira conta a história da fictícia cidade de Antares, desde os seus primeiros registros, quando ainda era apenas uma propriedade rural na margem esquerda do Rio Uruguai. A grande sacada desta parte do livro é a forma que o autor casa perfeitamente a evolução do “Povinho da Caveira” - que se tornará Antares - com a história real do Brasil e dos pampas, incluindo a presença de grandes autoridades políticas do pais na cidade. Aspectos geográficos, sócio-políticos, costumes e curiosidades, tudo está lá, o autor consegue trazer a fictícia Antares para a realidade de uma forma mágica.

A segunda  – e menor – parte do livro se chama “O Incidente” e ocupa, interessantemente, só o último terço do volume. É ela nela que está história dos mortos-vivos, iniciada no fatídico dia 13 de dezembro de 1963, sobre a qual comentei no começo desta resenha.

Sem dúvida alguma, é um livro delicioso, tradição da família Veríssimo. As duas partes são escrita com esmero e cuidado para que o leitor se mantenha atento, interessado e envolvido na narrativa. Para quem quiser algo mais, veja esse resumão do livro, mas eu recomendo firmemente a leitura da íntegra, é um prazer que você não pode negar a si mesmo.

E pra quem é cinéfilo, deixo aqui o longa-metragem feito à partir da mini-série Global:



terça-feira, 25 de novembro de 2014

Livro : Moby Dick [1851, Herman Melville]

ou "As Aventuras de Herman, o Marinheiro".



Herman já tinha sido bancário, professor e fazendeiro, tudo para ajudar sua mãe e sete irmãos a não passarem muito aperto depois que o pai morreu. Um dia resolve ser marinheiro e, à bordo vários navios, vive muitas aventuras pelo oceano pacífico, participa de motins e chega até mesmo a viver alguns meses com a tribo de canibais Typee, das Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa. (um pouco mais sobre as Ilhas Marquesas)

Em 1844 abandona a vida de homem do mar. Casa-se, em 1847, com Elizabeth e aproveita a bagagem cheia de histórias para escrever alguns livros, que foram grandes sucessos na segunda metade dos anos de 1840, o que garantiu a Herman e sua família algum status e conforto.


As Ilhas Marquesas. Aí até eu, heim Herman!

Apesar de parecer, o Herman de quem falamos não é um personagem fictício, ele é o escritor norte-americano Herman Melville, que em 1851, escreveu Moby Dick, ou A Baleia. O livro, publicado em três fascículos, foi um fracasso na época e levou nosso amigo Herman ao ostracismo. Quando ele faleceu, em 28 de setembro de 1891, há exatos 117 anos atrás, o obituário do New York Times registrava o nome de Henry Melville e ninguém se importou, de tão apagada estava sua fama.

Entretanto, o maior fracasso de critica e público de Herman Melville é o livro pelo qual ele é mais lembrado hoje em dia. O romance Moby Dick conta a história do jovem Ismael que, decidido a trabalhar na marinha mercante embarca no Pequod, navio baleeiro do capitão Ahab e o desenrolar da história transforma o livro numa obra de arte, que eu, sem titubear, coloco entre os 10 melhores livros da minha lista pessoal.

Talvez as divagações de Ismael (personagem narrador do livro), as significações metafóricas de cada personagem e o viés psicológico que permeia todo o texto, tenham deixado o pessoal de 1851 – ainda não apresentado à Psicanálise, pois Freud nasceria apenas em 1856 – bastante entediado e por fora do assunto. O desinteresse causado pela distância entre a obra e o público pode explicar o grande fracasso, naquela época, de um livro tão interessante e tão bem escrito que é, nos dias de hoje, um marco na literatura ocidental.


Arte para a capa e contra-capa da primeira edição de Moby Dick.

A riqueza de detalhes sobre barcos, métodos de pesca de baleias e curiosidades marítimas em geral, escrito com total domínio de causa – já que, como dito antes, Melville passou anos de sua vida trabalhando na marinha mercante dos Estados Unidos –, somada com a atemporariedade do tema, cria uma relação de credibilidade entre o autor e o leitor, que se torna sedento por cada nova página de Moby Dick.

A vontade doente de vingança do Capitão Ahab; a tripulação alucinada que entra na onda do chefe, colocando em risco a própria vida; as opiniões de Ismael, que dentre todos é o mais bem nutrido de razão, tudo isso se apodera do leitor e o leva junto à caça daquele feroz diabo branco, que pode ser uma simples baleia albina, ou o símbolo das mais variadas obsessões humanas. E cabe ao leitor, munido da sua própria história de vida, decidir quem é  quem.





Originalmente publicado no Culturanja de 3 de outubro de 2008.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Livro : O Sacy Pererê [1918, Monteiro Lobato]



Saci-Pererê e Monteiro Lobato - o resultado de um encontro

A preocupação com a preservação da cultura e folclore nacionais não é nova. Em 1917, o grande Monteiro Lobato, criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, publicou uma pesquisa no Estadinho (apelido carinhoso da edição vespertina d’O Estado de São Paulo) e pediu para seus leitores lhe enviarem relatos de experiências com o Saci-Pererê. Para tanto era só enviar uma carta com o seguinte questionário respondido: Como o leitor havia descoberto o mito? Como é a crença nele nos dias atuais? E quais experiências passadas pessoalmente ou ouvidas o leitor poderia contar?

O resultado desta enquête foi o livro Saci-Pererê - O resultado de um inquérito, publicado no ano seguinte (1918), com quase 300 páginas cheias de histórias do endiabrado 'muleque perereca'. Alguns o descrevem como um demoniozinho feioso, alguns como um moleque sacana e perneta. Com gorro, com ou sem rabo, não importa, o que vale mesmo são as deliciosas histórias do tinhosinho sendo trazidas do esquecimento para a realidade. Este foi o primeiro livro de Monteiro Lobato, teve a tiragem inicial de dois mil exemplares, bancados pelo próprio autor, que assina o livro sob o pseudônimo de Um Demonólogo Amador. Para ajudar nas despesas o escritor colocou anúncios especialmente desenhados com o tema Saci-Pererê pelo cartunista João Paulo Lemmo Lemmi, também chamado de Voltolino.



Capa da edição original de 1918, a mesma da edição fac-similar de 1998. 
Em ambas o grande atrativo é a 'graphia' no português da época.


Primeira Guerra Mundial estava em seu ápice em 1918, e Lobato usa essa obra para questionar o conceito de civilização nos moldes franceses que as elites brasileiras insistiam em reproduzir. Ele demonstrava a necessidade de se aprofundar os estudos sobre as lendas, crendices e costumes brasileiros, para que pudéssemos conhecer mais sobre nossa cultura.

De conteúdo simples de se ler, com um tema apaixonante e uma linguagem que varia conforme o grau de instrução de quem escreve cada história, o livro é um prato cheio para quem procura bons momentos de conhecimento e prazer. Inclusive existem lindíssimas passagens escritas com a linguagem do matuto iletrado do interior, que são nada menos do que tesouros da nossa língua. Ainda mais se, assim como eu, você também ouvia essas histórias quando pequeno.

Inclusive esta obra, lançada antes do famoso Urupês, não constava na bibliografia oficial de Monteiro Lobato, que ironizou o fato de sua estréia literária ocorrer por meio de uma obra não-assinada, pois ele só organizou material de terceiros. Até que em 1998, a Fundação Banco do Brasil e a Odebrecht publicaram uma edição fac-similar, ou seja, idêntica à original, embelezada com a grafia do português da época, torna tudo muito mais saboroso. Foi uma edição de cinco mil exemplares para serem distribuídas à bibliotecas e está, infelizmente, fora do comércio há anos. Mas não fique triste, pois a Editora Globo, no início de 2008, publicou uma edição revisada e atualizada desta jóia do folclore nacional. Já com o português atualizado, tirando aquele charme extra e surpresas da leitura, mas o conteúdo está todo lá, sempre interessante. De qualquer forma, independente de qual versão você conseguir, não perca a chance e agarre o seu.



Capa da edicão de 2008, pela Editora Globo.





Ps: Leia aqui um fragmento do livro.


domingo, 28 de dezembro de 2008

Livro : Orgias [1989, Luis Fernando Veríssimo]


Hoje é 28 de Dezembro e nos restam apenas mais 4 dos 365 dias que nós mesmos nos damos para chegar a algum lugar. Apesar de todo mundo saber que a divisão do tempo é algo arbitrário, o dia em que a terra termina uma volta completa em torno do sol é tomado em consideração para varias coisas sérias e outras nem tanto.

O dia 31 de Dezembro é o dia da ressaca moral, igual àquela manhã com dores de cabeça e estomago embrulhado, quando você decide nunca mais beber como na noite anterior e resolver lavar a roupa suja com ex-afetos e alguns desafetos. É nesse dia "ressacal" de fim de ano que decidimos não cometer mais os mesmos erros do ano que passou.

E assim, como as segundas-feiras são o dia preferido para se começar dietas depois de um domingão farto em gulodices, o primeiro dia do novo ano é o preferido para se começar grandes planos, depois de um ano farto de eventos mirabolantes, de índole duvidosa, bons e maus. Mas da mesma forma que a decisão de segurar a onda na festança nunca vigora, quando nos damos conta, já estamos nós no decorrer do ano, fazendo novamente tudo o que planejamos não fazer.

Não seguir as regras é algo muito natural do ser humano, então, nada melhor do que rir disso tudo, e o Luis Fernando Veríssimo pode ajudar muito nessa hora. Em seu livro Orgias (1989, ed. L± relançado em 2005 pela Objetiva), ele celebra essas horas mágicas das festas, quando as pessoas se divertem pelo simples prazer da diversão e acabam entrando em algumas saias justas e situações cotidianas especialíssimas. Enfim, se é dito que a vida é uma festa, então nada mais normal do que estabelecer regras e não segui-las todas.



Festejemos o Ano Novo e adjacências!


Várias pessoas se identificarão com os personagens do diálogo abaixo, uma reflexão animada de fim de ano, um pedacinho de uma das crônicas que estão no livro, que vale a pena ser lido por inteiro, como qualquer obra dos Veríssimos. Enfim, tenham um final de ano bastante inspirado e um 2009 acima da média. Divirtam-se!

- Olhe.
- O que é isso?
- Aquele livro que você me emprestou.
- Eu não me lembro de…
- Faz muito tempo. E, na verdade, você não emprestou. Eu peguei. Eu costumava fazer isso. Nunca mais vou fazer.
- Você pode ficar com o livro. Eu…
- Não! Ajude a me regenerar. Quem fazia essas coisas não era eu. Era outra pessoa. Um crápula. Decidi mudar. Este sou o eu 2006. Comecei devolvendo todos os livros que peguei dos amigos. Acabou com a minha biblioteca, mas que diabo. Me sinto bem fazendo isto. Outra coisa. Precisamos nos ver mais. Eu abandonei os amigos. Abandonei os amigos! Olhe, vou à sua casa este sábado.
- Não. Ahn…
- Prometo não roubar nada.
- Não é isso. É que…
- Já sei. Vamos combinar um jantarzinho lá em casa. A Santa e eu estamos ótimos. Fiz um juramento, na noite de ano bom. Que me regeneraria. E ela me aceitou de volta. Há dois dias que não olho para outra mulher. Dois dias inteiros! Isso era coisa do outro.
- Sim.
- Do crápula.
- Sei…
- Eu era horrível, não era? Diz a verdade. Pode dizer. Uma das coisas que eu resolvi é não bater mais em ninguém. Era ou não era?
- O que é isso?
- Como é que eu podia ser tão horrível, meu Deus?
- Calma. Você está transtornado. Vamos tomar um chopinho.
- Não! Não posso. Jurei que não botaria mais uma gota de álcool na boca.
- Mas um chopinho…
- Está bem. Um. Em honra da nossa amizade recuperada. E escuta…
- O quê?
- Deixa eu ficar com o livro mais uns dias. Ainda não tive tempo de…
- Claro. Toma.
- E vamos ao chope. Lá no alemão, onde tem mais mulher.