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sábado, 16 de setembro de 2017

O problema e a solução

Milênios de história e os que nos governam vem tomando as mesmas péssimas atitudes de sempre. O descaso com o Povo e a despreocupação em criar mecanismos para que todos ou, pelo menos, a maioria consiga desenvolver uma vida digna, atingindo objetivos e realizando sonhos não é de hoje. E mesmo assim, nós também temos tomado a mesma péssima atitude de mantê-los ali, no comando e na folia, mesmo cansados de saber que as soluções nunca vieram "lá de cima", pelo contrário, de lá só vieram os problemas. É evidente, e sempre foi, que a mudança é um trabalho nosso, do Povo, por isso deveríamos estar todos unidos a nosso favor, pelo bem comum, e não nos digladiando por ideologias, ou por quem jamais nos defendeu ou ajudou sem sequer demonstrar qualquer sinal de remorso.

Junto com as notícias mais recentes, o texto abaixo me inspirou o poema "Excelência,". Ele é trecho da biografia de Anália Franco e descreve fatos de 100 anos atrás, mas que poderiam ser atuais, em qualquer esfera do poder público.

"(...) O ano de 1918 não pareceu diminuir as dificuldades do povo paulista, castigado por um inverno excepcionalmente frio, com grandes prejuízos para a lavoura e a temperatura chegando a marcar mais de 3.C negativos. Devastadoras ondas de pragas invadiram seus campos diminuindo a oferta de alimentos e, particularmente na capital, as chuvas elevaram o nível dos rios Tietês, Tamanduateí e Pinheiros, causando inundações e paralisação quase total dos trens. Enquanto isso, o prosseguimento da guerra na Europa mobilizava a grande e apreensiva massa de imigrantes fazendo crescer a tensão social.

E seria com esse cenário que a progressiva são Paulo veria chegar o auge de suas agruras com a pandemia da gripe espanhola que revelou uma Saúde Pública totalmente impotente e um desencontro total entre autoridades e médicos. Enquanto durou a epidemia, a Câmara Municipal não funcionou porque os representantes do povo acharam ser sua integridade mais importante que a do povo que os elegeu e trataram de deixar a cidade. Ante o desmazelo e o despreparo do poder público, a sociedade civil teve de organizar-se para evitar o aumento da catástrofe, enterrando os mortos em valas comuns, tentando tratamentos alternativos para os doentes, improvisando hospitais e dividindo os escassos alimentos.

A vida, naquele fim de 1918, não valia nada. O medo pairava no ar. Ninguém poderia julgar-se imune ou protegido e, ao menor sintoma, o desespero tomava conta de muitos, verificando-se, então, uma onda de suicídios, de homicídios e de tragédias. A falta de recursos médicos, a desinformação, a irresponsabilidade de políticos e médicos só foi compensada pela capacidade com que a população soube se mobilizar."


in MONTEIRO, Eduardo Carvalho. Anália Franco - A grande dama da educação brasileira. 1a. Edição: São Paulo, Madras, 2004. p. 220

sábado, 5 de agosto de 2017

Reconhece a queda e não desanima...


"Rico, de nada há servido as suas riquezas. Novo Plutus, como bem diz um escritor, vive no meio delas sem poder utilizá-las. Não há país onde se fale tanto em riquezas como no Brasil. Entretanto, em nenhum outro é tão difícil a vida, e tão incerto o futuro dos cidadãos. É que nossa sociedade infelizmente ainda não se compenetrou da necessidade da instrução e da ideia do trabalho livremente exercido e compensado sem distinção de sexos nem de posição. Se é como se diz, lei invencível das coisas humanas, que cada nova liberdade peça em contrapeso uma nova virtude, cada novo direito imponha um novo dever, cumpre aos que dirigem os nossos destinos traçarem com a segurança da experiência e da observação o caminho que devemos seguir para a paz e o engrandecimento da nação.

(...)

Os mil espinhos e dificuldades que são outros tantos embaraços para a realização de tão nobre intento não devem ser motivos de desalento, porque as transformações sucessivas do mundo material e moral nos estão apontando aos brios da dignidade e às palmas do triunfo que só se alcançam com a perseverança.

Nesta época de corrupção e de falsos prestígios que quase tem sido só um triunfo da mediocridade, e cujas más influências parecem tender em toda a parte a paralisar o caráter e o talento, no meio dos males que nos oprimem, volvemos os olhos cheios de fé para os horizontes do porvir. Animando-nos a esperança de que aqueles que a dirigem amarem verdadeiramente a pátria e compreenderem suas necessidades, hão de formar do Brasil um corpo social mais em harmonia com as ideias do século, elevando-o assim a ocupar o lugar que lhe compete entre as nações do mundo.

Na aurora de 1889, nasceu em França uma ciência nova, tendo por fim estudar os fenômenos sociais, principalmente na produção, na distribuição e no consumo das riquezas. É preciso que ela também apareça entre nós e que sua luz penetre em toda parte a esclarecer as classes oprimidas, manifestando-lhes os esplêndidos triunfos da ciência hodierna.

A verdadeira grandeza de um Estado, diz Worlz, "depende dos cidadãos que o governam e se empregam em elevar as almas e inspirar ideias generosas em vez de vil escravidão". República e ignorância são duas palavras que se contradizem e que se repelem; assim, a única garantia de sua consolidação está na instrução do povo e numa legislação que possa consolidar, tanto quanto o nosso século permite, os interesses de segurança com o voto da humanidade.

E como diz Barros, "quando a civilização tiver conseguido alcançar em toda a parte o abandono dos velhos usos da barbárie, a gerra deixará de ser possível, porque não haverá forças materiais que possam lutar contra as forças morais".

Não é, pois, a força bruta que constitui o elemento triunfal da Democracia, mas sim a força do espírito, que tem por si o suficiente influxo para resolver os mais elevados problemas sociais, econômicos e financeiros, para realizar os mais transcendentes prodígios.

Erguendo a minha voz humilde para saudar o IX aniversário da República, em conclusão direi como Berryer: "Não temais cidadãos em seguir o verdadeiro progresso do espírito humano que há de confiar, não em exércitos comandados por capitães mais ou menos hábeis, pois não é a força brutal, mas aos nobres combates de espírito, as lutas da inteligência o destino e a direção das sociedades."

Este texto não é meu e, apesar de pertinente, infelizmente não é atual. Foi publicado na revista Álbum das Meninas, n. 8, de 30 de Novembro de 1898, escrito por Anália Franco uma das grandes mulheres brasileiras, precursora do feminismo no mundo e merecedora de reverência e estudos nossos. Hoje, a palavra foi dela dada a sabedoria à qual me curvo tenho o dever de compartilhar.


in MONTEIRO, Eduardo Carvalho. Anália Franco - A grande dama da educação brasileira. 1a. Edição: São Paulo, Madras, 2004. p. 196-197.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Sem festas, amigos! Ainda é preciso mais.

O movimento "Diretas Já", de 1984, apesar de ter sido a maior manifestação popular da história do Brasil, só não foi um fracasso completo porque gerou lideranças populares que conseguiram se articular politicamente e conquistar alguma representatividade na assembleia constituinte que geraria a Constituição Federal de 1988.

Sim, a PEC nº05/1983, que criaria as eleições diretas no Brasil, conhecida como Emenda Dante de Oliveira, mesmo com a massiva participação popular e com 84% de aprovação nas pesquisas de opinião, não foi aprovada; não passou nem na primeira votação na Câmara dos Deputados. Vale lembrar, também, que a maioria dos envolvidos na constituinte, os mais poderosos, ainda eram os mesmos de sempre, representantes do poder que já estava lá desde antes mesmo da fundação da República. E ainda são.

O ex-presidente Figueiredo, último dos militares, declarou posteriormente que o sistema militar estava insustentável e a única solução foi acabar com aquilo tudo. A nova constituinte chegou em boa hora. Numa grande encenação, mudariam o regime político, se garantiriam no poder, e ainda ganhariam aplausos do povo sempre desatento e deixado de lado. Sim, a ditadura militar acabou por que eles quiseram, para a sobrevivência deles mesmos.

Por isso, em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves, o grande articulador do desmonte do regime militar por ter acesso e diálogo com os dois lados do poder, foi eleito presidente do Brasil em eleições indiretas. Jamais deixariam que fosse diferente, era preciso alguém de confiança. Mas, acometido por grave doença "inoportuna", Tancredo foi o boi de piranha, faleceu antes de assumir o cargo, ficando para o seu vice, José Sarney, do, vejam só: PMDB.

Eleições diretas para presidente do Brasil só ocorreriam em 1989, após ser estabelecida na Constituição de 1988, e com as rédeas da carroça garantidamente nas mãos dos mesmos dirigentes de sempre. O vencedor desta foi Fernando Collor de Mello, com grande apoio popular em virtude da campanha contra "os Marajás" e a corrupção que fazia. Foi o boi de piranha da vez, atrairia votos e cairia, sofrendo impeachment, deixando a presidência para seu vice, Itamar Franco, do PMDB, é claro.

Semelhança com algum fato recente? É claro! A novela, o enredo, os personagens e problemas são os mesmos de sempre. Nós, o povo, é que não podemos mais ser os mesmos. O momento é delicado e, anotem: nos será oferecido um belíssimo teatro da democracia, muito em breve. Não podemos mais nos contentar com a encenação que sempre nos oferecem nessa hora. Devemos parar de gastar a nossa energia em lutas entre nós mesmos, isso cansa e enfraquece. Nossa energia e atenção deve ser canalizada para o acompanhamento minucioso e sério dos fatos que estão para se desenrolar na política nacional. Pedir "Diretas Já" é válido, mas é muito pouco. Ter eleições diretas é muito pouco. É preciso mais, é preciso usar o processo democrático de forma eficaz na renovação total dos agentes e dos valores políticos do Brasil. Atenção e serenidade é o que precisamos agora. A vida adulta da Nação se aproxima.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Tudo morre para renascer

A beleza e a utilidade do símbolo vem, em grande parte, de sua elasticidade. Um símbolo pode ser adaptado a diversas realidades sem perder a sua essência e a mensagem que carrega. A humanidade já não cria mais símbolos tão complexos como os de antigamente, muito da linguagem simbólica que nos utilizamos hoje em dia já existe a milênios e foi criada pelas civilizações antigas do hemisfério norte. É uma pena não termos resgatado e mantido com a mesma atenção os símbolos das civilizações aqui do hemisfério sul.

A Páscoa é um desses casos. Data altamente simbólica, é comemorada durante o período no qual ela faz sentido: a Primavera. Nós apenas importamos a data, algo objetivo, e a comemoramos num contexto exatamente oposto: o Outono. Imagino que celebrar a Páscoa em sua época original facilita o entendimento e o sentimento do que ela quer dizer. Mas, como disse antes, por serem elásticos, os símbolos e sua mensagem, mesmo fora de contexto, devem ser considerados, conhecidos e refletidos.

Desde que se percebeu parte de um universo que funciona ritmado, a humanidade celebra este ritmo. As festas primitivas, em sua grande maioria, senão em sua totalidade eram demarcadas por eventos no céu ou na terra, eventos que indicavam um novo período, com novas dinâmicas de vida cuja observância seria, e ainda é, importante para manter a boa vida. Portanto, tais festas não teriam apenas um caráter comemorativo, mas também eram usadas, tanto para a reconexão com o pulso cósmico, quanto para agradecer a bonança ou se prevenir das dificuldades advindas do novo período. 

Celebrada na primeira lua cheia depois do equinócio de primavera – pois é uma celebração criada no Hemisfério Norte –, a Páscoa vem sendo celebrada pelos Judeus desde tempos imemoriais, quando já sacrificavam cordeiros. Simbolicamente, nos remete à fertilidade, e quando se fala em fertilidade, se fala no poder de dar vida nova, em renascimento, renovação e, portanto, em morte, sem a qual nada renasce.

Após o Inverno, onde nada floresce e tudo está sem vida, a Primavera traz consigo o renascimento, ano a ano, de todas as coisas, inclusive do calendário Astrológico, quando voltamos ao primeiro signo zodiacal, o de Áries. A lua cheia é o ápice da renovação da lua, que num ciclo menor, mês a mês, desaparece e reaparece, morre e renasce. E sabemos, desde muito antigamente, da potência que a lua cheia dá nos processos procriativos, tanto em plantas, cabelos ou trabalhos de parto.

E foi durante tal período renovador que aconteceu o êxodo dos Judeus, do Egito; quando o anjo da morte deixou de lado, pulou as portas das casas marcadas com o sangue de um cordeiro sacrificado, preservando os primogênitos da família que ali morava. Interessante lembrar que Egito, em Hebraico, é Mizraim, que significa estreiteza, prisão; e pular, em Hebraico, é Pessach, originando o nome atual da celebração : Páscoa. Poderíamos dizer, então, que a Páscoa Judaica celebra o dia que o anjo da morte pulou os Judeus, que ganharam a liberdade, dando-os, por sua fé, a possibilidade de uma vida nova.

Séculos depois, com a morte de Jesus Cristo durante as celebrações da Páscoa Judaica, por volta do ano 33 d.C, surgiu a Páscoa Cristã, que eleva o significado de renascimento a um novo patamar, o espiritual. Cristo tomou lugar do cordeiro a ser sacrificado e, também pela fé, venceu a morte, ressuscitando. Sendo a ressureição um fato ou não, a presença dela na narrativa bíblica nos traz mais um símbolo de renascimento, que sugere o processo de morrer para renovar-se, agora em Espírito, pois era espiritual toda a mensagem do Cristo.

Vê-se que, independente da roupa que vestimos a Páscoa, durante milênios, este período vem sendo sinalizado como importante data de renovação. É a hora em que o planeta Terra está todo alinhado com o Cosmo para renovar-se e, efetivamente se renovando, em todos os aspectos. É um convite ancestral para que aproveitemos a data e toda a sua energia para renovarmos a nós mesmos, como tudo na natureza. E se não há renovação sem sacrifício, que sejamos nós o nosso próprio cordeiro, sacrificando o humano velho, materialista, defasado e viciado, para que possa renascer, em nós, o novo humano, espiritualizado e harmonizado com o novo tempo e, no planeta, portanto, a nova humanidade.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Sobre compreender


"Os que envelhecem não compreendem o valor das ilusões que perderam; os jovens não dão valor à experiência que ainda não tem."


Em discurso na sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras, no dia 20 de Junho de 1897.




segunda-feira, 25 de abril de 2016

Culturanja : o fim de um ciclo.


Nota de despedida da Culturanja, por Ângela Russi,
publicada na coluna do Aragão Filho.

Neste fim de semana, recebi a notícia de que a Culturanja deixaria de ser publicada no jornal Umuarama Ilustrado, após 9 anos de história. Lembrei me da madrugada em que criamos o conceito Culturanja. Eu, Nevilton e Bruno Peguim, reunidos no saudoso depósito da Papelaria Aquarela, em Umuarama, escrevendo um manifesto para a juventude umuaramense e confabulando sobre formas de fortalecer e divulgar a cultura local, seja ela música, literatura, fotografia, teatro e tudo o mais que aparecer. Nascia daí o selo Culturanja, que arregimentaria tudo e todos que quisessem unir-se a esse processo de fortalecimento da cultura independente e local. Tivemos fanzine, blog, podcast, programa de rádio e página de jornal. E é desta última que falarei.

Ao conseguirmos espaço no jornal de maior circulação da região, o Umuarama Ilustrado, fiquei responsável pelo braço jornalístico do projeto. Iniciado com o nome de Cultura & Arte, foi publicada, pela primeira vez, no dia 18 de maio de 2008. Um ano depois, em 09 de agosto de 2009, resolvemos assumir o nome Culturanja para a página que, desde 2010, ano em que me mudei para São Paulo, se transformou em coluna e foi belamente mantida pela Ângela Russi, sempre aos domingos.

Além da Ângela, muitos amigos também contribuíram com seu talento para manter as coisas funcionando, então também quero agradecer aos Culturangers Nevilton, Bruno Peguim, Caroline Gil, Ane Carolina Pacola, Thiago Calixto, Lisiê Ferré Loti, Jair Junior Monteiro Solin e a todos que também participaram e a memória falha não me permitiu lembrar. Também agradeço ao time do Umuarama Ilustrado: Osmar Nunes (Editor Chefe), Magrão (Diagramador) e Ilídio Coelho Sobrinho (Diretor Geral), pela paciência e carinho dedicados à nossa causa.

Foi uma experiência que mudou minha vida. Pela primeira vez tive a demanda por uma produção contínua de textos e, não poderia ser diferente, viciei-me nessa rotina. Textos jornalísticos, resenhas, poemas e crônicas, de tudo um pouco e, mesmo com os altos e baixos da produtividade a que todos estamos sujeitos, consegui semear e colher bons frutos dessa atividade, como lançar um livro de poemas (outros mais já estão a caminho) e alimentar meu blog, o Lobservando. Enfim, conseguir realizar-me escritor, cronista e poeta graças a esse impulso bem aproveitado.

Sem me esquecer de agradecer a todos os leitores que nos acompanharam, aos domingos, por quase uma década, convidamos todos a continuar conosco. A Ângela Russi continua suas publicações em sua página no facebook; e eu, aqui, no Lobservando e, também, na Gazeta do Iguaçu. Fica a satisfação de saber que uma atitude criativa e firme de alguns caras do interior do Paraná gerou frutos por quase uma década, e muitos foram tocados por isso. Divulgou-se a arte e inspirou-se para a arte. E só podemos e devemos continuar.


Muito obrigado.



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A incrível história de Nelson (das muitas)



Nelson adorava Futebol, sabia de tudo sobre todos os times. Após a instituição da “loteca”, a famosa Loteria Esportiva, em 22 de janeiro de 1970, passou a jogar - às vezes, várias apostas na semana.

Num domingo, 21 de dezembro de 1980, finalmente ele havia marcado os 13 pontos! Num bolão que participara com o irmão e alguns amigos do trabalho. Finalmente havia faturado na loteria! Seria uma grande alegria para Nelson, que nunca soube disso, havia morrido naquela manhã.

Pode parecer mentira, mas o Nelson em questão é o Rodrigues - escritor, dramaturgo, jornalista e mito inquestionável da cultura nacional. E, realmente, acho que algo assim só poderia acontecer com ele mesmo: o mais legítimo final Nelson Rodriguiano.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Linchamento em Umuarama [Segundas Considerações]

- e as últimas por um tempo -

Foi interessante ver as repercussões que um fato histórico e geral pode ter, intimamente, na vida de uma pessoa. O que comprova que a história da humanidade é, antes de tudo a história da vida de cada um. Falo especificamente sobre o linchamento que aconteceu em Umuarama, em Dezembro de 1986. Se quiser saber da história é só ler o texto que publiquei aqui no blog.

Neste post vou colocar alguns dos comentários feitos por visitantes, comentários que demonstram esse contato direto de várias pessoas com um fato tão ignorado e quase esquecido (à força, certamente) pelo pessoal da região. Obviamente são apenas alguns, afinal, todos que se manifestaram fizeram isso por ter algo interessante a contar ou opinar.

Lá vão:

.......Hastür Palim! em 22 de dezembro de 2009
"Eu morava em Umuarama nessa época! Passaram na frente de casa Arrastando o Corpo!"

Torremo_MH em 22 de dezembro de 2009
"o tiozinho da esfirraria lá perto do alfa me disse uma vez que na época o acontecimento tomou destaque nacional de uma tal forma que até no programa do chico anísio faziam piada dizendo "eu vo mandar você pra umuarama!!"
Torremo_MH em 28 de dezembro de 2009
"meu primo me disse que a tia dele tinha um VHS com as imagens desse dia, só que parece q a polícia confiscou as fitas... vou tentar conseguir mais informações."

Agora um dos comentários mais interessantes. Pelo que entendi essa garota, que hoje mora na Argentina, mas já morou aqui em Umuarama e seu depoimento mostra que, pelo menos um dos rapazes linchados, já estava causando confusão há muito tempo e, portanto, tava procurando sarna pra se coçar. Achou.
shey em 11 de janeiro de 2010
"oiii...naun sei muito q decir....ja q estava ai neste dia...te conto algo...extamente un ano antes deste epsodio un dos tre q foraun presos tinha atirado no meu irmao,e meu irmao ficou muito mal quase morreu forao creio q 3 o 4 tiros de un revolver calibre 22.... tdo isso ocorreu en uma saida de un baile nesta epoca eu tinha 8 anos apenas e lembro q neste ano de 85 naun tivemos natal.... ao ano seguinte como se fosse planejado o tipo q atirou no meu irmao eh preso por este crime q comentaste...do rapaz y de esta moza..minha mae festejou qdo eles forao presos mas eu me lembro q tdos sairan d csa y me dijeron naun saia ja voltamos t buscar...eu d noite naun posso lembrar a horas exata....minha mae voltou y me levou ate a praza dos tamoyos ja q os corpos ia passar por ai y nos norava a uma quadra da praza....minha mae chorava tdos estava assustados enfim...agora tenho 32 anos y por casualidade me acordei de esto e comezei a buscar por la internet...gracias sheila...."

E agora, provavelmente o comentário mais enriquecedor do meu texto. Um link para a reportagem da TV Tarobá, da época dos acontecimentos, onde o delegado mostra a delegacia revirada pela invasão das pessoas e vai contando como tudo aconteceu por lá.
Ed em 26 de janeiro de 2010
"Coloquei um vídeo no Youtube sobre esse fato. É o delegado contando como aconteceu o linchamento.
Parabéns pelo texto."
Certamente existem mais comentários pertinentes a se ler. Se quiser lê-los, o que eu recomendo, clique aqui. Portanto, obrigado a todos que já comentaram e a todos que comentarão e também dividirão a sua experiência com a gente.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Linchamento em Umuarama.


Introdução:


O ano de 1986, apesar de ter sido o Ano Internacional da Paz (coisa da ONU), foi um ano que de pacífico não teve nada, foi agitadíssimo e, na maioria das vezes trágico. Foi ano de Copa do Mundo, no México, com a Argentina campeã; foi quando o Cometa Halley deu um oi pra humanidade (e agora só volta em 2061); ano no qual explodiu o Ônibus Espacial Challanger; explodiu também a Usina Nuclear de Chernobyl, causando um estrago danado lá na Russia; além de ter sido o ano de estréia do Xou da Xuxa e do Criança Esperança. É... trágico.

Com um ano cheio de loucura desses, Umuarama não podia ficar pra traz, o final de 1986 reservava para a Capital da Amizade o que pode ter sido o fato mais sangrento da sua história até agora. O dia 22 de dezembro daquele ano ficaria registrado como "O Dia do Linchamento", quando a população enfurecida e insana tirou três criminosos, que haviam estuprado uma moça e assassinado seu namorado, de dentro de uma cela da Delegacia de Polícia da cidade e, além de os matar espancados, arrastaram os corpos pelas ruas, através da Avenida Paraná, até a Praça Miguel Rossafa onde atearam fogo nos cadáveres.

Desde que me mudei pra Umuarama (em 1991), sempre se comentou a história. Entretanto ninguém sabia a data correta e as descrições do evento eram diversas e inconsistentes. Além do mais, sempre que o assunto surgia, os mais antigos na cidade saiam pela tangente e o evitavam. Enfim, era um tabu sobre o qual sempre se notou uma vontade de abafar e esquecer, afinal, muitos dos envolvidos diretamente na bagunça e da platéia ainda moram na cidade. Entendo que não se queira falar de assunto tão feio, mas há de se considerar o peso histórico disso.

À partir da segunda metade dos anos 90, com a chegada da internet e facilidades digitais, comecei a fazer pesquisas esporádicas sobre o assunto, mas as referências eram sempre mínimas, apenas outros poucos comentários cheios de incertezas. Mas há poucos meses atrás me deparei com o acervo completo, online, da Revista Veja e, como já tinha ouvido comentários de que a revista (e também o Jornal Nacional) haviam mencionado tal notícia, não demorei muito para encontrar a reportagem abaixo. Publicada em 31 de dezembro de 1986, na página 43 da edição 956, uma edição de retrospectiva do ano, o texto conta direitinho como foi aquele trágico fim de semana em Umuarama.

Então guardei o texto e esperei a data de aniversário do evento para públicá-lo na íntegra aqui no Lobservando e deixar registrado, fora das gavetas e arquivos poeirentos, pra quem quiser saber daquele dia.


A Matéria da Revista Veja:
[1]


Capa da Revista Veja, edição 956, de 31 de Dezembro de 1986.


Ritual Macabro
Multidão Lincha presos e põe fogo nos corpos.

"Eles estão presos", anunciaram na manhã de domingo, 21, as três emissoras de Umuarama, cidade de 100.000 mil habitantes, 580 quilômetros a noroeste de Curitiba. A notícia varreu a cidade como uma demonstração de eficiência da polícia, que gastara 15 horas para prender três rapazes que, no dia anterior, haviam matado a tiros o fotógrafo Júlio César Jarros, 26 anos, e estuprado sua noiva, Shirley do Nascimento, 22 anos. Eles seqüestraram o casa de madugada, à porta da casa de Shirley, e cometeram os crimes fora da cidade, conforme a moça contaria depois. O entusiasmo pela prisão dos rapazes seria logo substituído pelo desejo de vingança. Na noite de segunda feira, 2.000 pessoas cercaram a cadeia de Umuarama, venceram a resistência policial, mataram os três presos a pauladas e, para encerrar o ritual com um toque macabro, levaram os cadáveres para uma praça, onde foram molhados com gasolina e queimados.


A polícia, intimidada e impotente, limitou-se a assistir de longe ao que a multidão fazia. "Evidentemente condenamos o linchamento", diz Jesus Sarrao, Secretário de Segurança do Paraná. "Mas os policiais ficaram diante de um impasse: ou metralhavam a população ou limitavam-se a persuadir a multidão a não fazer aquilo - e foi o que tentaram sem sucesso." A ira da população de Umuarama parece ter sido desatada sobretudo pela reconstituição dos crimes. Na manhã de segunda-feira, depois de arrancar uma confissão de Luiz Iremar Gonfio, 19 anos, Edivaldo Xavier de Almeida, 20 anos, e Aurico Reis, 18 anos - os três da própria cidade e dois deles com passagens anteriores pela polícia -, as autoridades locais os conduziram à rua para reconstituição dos crimes. "Por que não me dão um revolver carregado?", indagou irônico Edivaldo quando a polícia o obrigou a mostrar como matara o fotógrafo.

À noite, um grupo de pessoas ainda não identificadas marchou para a delegacia pedindo a adesão de todos que encontrava pelo caminho. Ao chegar diante da cadeia, a multidão crescera a tal ponto que os trinta homens da PM e a meia dúzia de agentes da Polícia Civil, ali postados para guardar os presos, deram brandos sinais de resistência. Entregues à própria fúria, os participantes do linchamento amarraram os corpos dos mortos em automóveis e os arrastaram num cortejo que atraiu para as janelas e calçadas mais de 5.000 pessoas. O desfile foi aplaudido. A cada esquina aumentava o coro: "Queima, queima", animava a distancia. Foi o que se fez em seguida, com a ajuda de 1 litro de gasolina e uma caixa de fósforos, além de alguns pneus para manter as chamas vivas por mais tempo. "Talvez demore a identificação, mas os envolvidos vão responder por homicídio e arrebatamento de presos", promete o delegado Luiz Norberto Canhoto, responsável pelas investigações.
‹fim da matéria - pag. 43›

[1] Naquele tempo as matérias da Veja ainda não eram assinadas nem creditadas ao seu autor.

Confira a reportagem direto na revista. Aproveite e leia a revista inteira, uma diversão sem fim!


O Depois :

Conforme prometeu o delegado na matéria da Revista Veja, após reconhecidos, os incitadores da turba revoltosa responderam a um Processo Criminal, distribuído em 1987, por Arrebatamento de Preso (art. 353 do Código Penal) e Vilipêndio a Cadáver (art. 212 do Código Penal). Provavelmente por não ser possível apurar quem realmente matou os presos arrebatados, por serem centenas os invasores do Cadeião, ninguém respondeu por homicídio.

O processo correu na Comarca de Umuarama - e correu muito, por muito tempo, sem chegar a lugar algum e cansou. Passados 20 anos do crime consumado, sem transitar em julgado a sentença final, extinguiu-se a punibilidade para os Réus (art. 109, I do Código Penal) e o processo foi arquivado.

Os motivos desse trâmite demorado podem ter sido vários, desde a conhecida morosidade do Judiciário (ainda mais naquela época) a outros mais escusos e/ou inexplicáveis, inatingíveis, os quais se pode (ou não) serem percebidos nas páginas do processo, que deve estar devidamente guardado no fundão dos arquivos de uma das Varas Criminais de Umuarama.


Mas... e daí? (conclusões)

Obviamente este não foi um acontecimento bonito, mas faz parte da história de Umuarama e deve ser resgatado e preservado. Não há dúvidas de que os três criminosos linchados foram punidos pelo ato hediondo que cometeram - mas da forma errada, acho eu. Afinal, linchamento está longe de ser uma atitude aceitável fora de qualquer civilização que não seja incrivelmente primitiva e selvagem. Ressalta-se, porém, que Umuarama foi um paraíso de paz e tranqüilidade por quase toda a década seguinte à noite macabra.

Sejam os fatos feios, reprováveis, o que conta é eles nos levam à reflexão, e tê-los expostos em nossa história ajuda a não cometermos os mesmos erros, a não nos comportarmos como selvagens novamente. E assim sempre fizeram vários povos através de monumentos às guerras, ao martírio e crucificação de cristo (não é?), ao holocausto, à bomba atômica, às sangrentas revoluções da história e tudo mais de ruim que já aconteceu pelo mundo.

Soube que Júlio César Jarros, o fotógrafo assassinado naquele fim de semana dá nome a uma avenida no Parque Danielle. Certamente muitas pessoas que não sabiam disso - e eu me incluo - à partir de hoje, vão olhar praquela rua de outra forma, mais valiosa. Vão dar sentido àquele nome na placa, finalmente a rua de quem mora por lá tem uma história, uma origem. E isso é um ótimo exercício para o civismo e a civilidade.

E mais, se a população de Umuarama foi capaz de se unir para executar um ato tão equivocado e repugnante, certamente poderá se unir para atitudes mais civilizadas em em favor de uma cidade melhor, a não ser que sejamos todos uns animaizinhos inconseqüentes e preguiçosos.

Já passou da hora de nos apropriarmos decentemente da nossa cidade, de sua história, costumes e tradições (deve ter alguma) e preservá-las, divulgá-las direito. Não adianta amontoar secador de cabelo, máquina de escrever e ventilador numas prateleiras, de qualquer jeito, e chamar a garotada do colégio pra ver. Temos que contar as histórias, as nossas histórias, sejam elas feias ou bonitas, e assim incentivar a quem vem por aí a continuar as escrevendo cada vez mais belas e não de qualquer jeito como estamos fazendo.


Ps: Há uma lenda urbana que envolve esse caso. Conheça o Fantasma de Umuarama.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Padroeiro dos Boêmios do Brasil

A Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), nos primeiros dias de construção, em 1956.
Além da construção da cidade em 4 anos, outros milagres aconteceram por lá.


Boêmios do meu Brasil, bebei à vontade! Lendo a Veja Especial : Brasília 50 anos, de Novembro de 2009, descobri provas irrefutáveis de que o direito universal à birita é preservado por ninguém mais, ninguém menos do que Deus-Ele-Mesmo-nosso-Senhor (que se não é brasileiro, gosta muito da gente!), com a ajuda do recém descoberto Padroeiro dos Boêmios do Brasil : São Pedro.

Tal fato inusitado aconteceu durante a construção da nossa Capital Federal, nas imediações do "Catetinho" residência provisória do então Presidente da República e viabilizador de Brasília: Juscelino Kubstcheck.

Leia o trecho extraído da revista:

"Rio de Janeiro, Hotel Ambassador, Rua Senador Dantas, 12 de outubro de 1956, encontro dos chamados 'boêmios patriotas' do Juca's Bar, amigos de JK. Presentes Oscar Niemeyer e uma penca de parceiros, entre eles o seresteiro César Prates e o violonista Dilermando Reis. Surge a idéia de construir uma residência provisória para o presidente em Brasília. Niemeyer esboça o projeto na hora. Um palácio tosco, de tábuas, depois apelidado de Catetinho, sustentado por grossos troncos de madeira de lei. Não havia tijolos ne pedras no endereço: clareira no meio do mato, fazenda do Gama, Brasília. Prazo de construção: 10 dias.

Em 1o de novembro, JK e uma pequena comitiva chegam no DC-3 para a festa de inauguração do Catetinho. Música, boa comida, boa bebida. Há uísque de qualidade, mas falta gelo. De repente, cai um pé-d'água assustador, bombardeando granizo. Assim que o temporal passa, todos correm para fora, catam o que podem, dão graças a Deus e brindam a São Pedro."


O Catetinho foi uma surpresa dos amigos para JK, que nasceu de uma conversa no boteco e se manteve forte às origens etílicas e de amizade; que recebeu muitas autoridades e visitantes ilustres, viabilizando os bons momentos do pessoal no cerrado. E manteve a energia boêmia em alta no momento de aperto graças ao nosso grande padroeiro dos Boêmios. Salve São Pedro!!! (tim-tim)



O Catetinho naqueles tempos miraculosos.


O Catetinho nos dias de hoje, um museu aberto à visitação.
Foto de Neudson Aquino
Falando em Boemia e Whisky, não podia faltar essa foto!

No detalhe: Vinícius de Moraes e Tom Jobim no abençoado quintal do Catetinho.
Mas eles não estavam lá na hora do milagre.


Saiba mais sobre o Catetinho neste site e neste também.

Ou ainda visite A Construção do Catetinho para mais detalhes ainda!


quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Então... é Natal!


Eu ainda era bem pequeno quando alguém me disse pela primeira vez que dia 25 de Dezembro era Natal. Antes disso eu me contentava demais em apenas ganhar os presentes sem um motivo aparente. Depois do motivo descoberto, a única informação relevante adicionada à data foi: “É que Jesus Cristo nasceu nesse dia, e tinha uma estrela que levou os reis magos e os presentes até ele”. Ótimo, os presentes também chegavam até mim através do Papai Noel e estava tudo muito bem, eu não precisava saber de mais nada.

Aí a vida vai passando e a gente vai conhecendo as histórias de Jesus, no catecismo, na escola, nos livros mirabolantes de ufologia e afins, nas discussões filosóficas em geral que acontecem nos lugares mais diversos e tudo vai ganhando uma dimensão bem maior, bem mais significativa e bonita. A gente também vai aprendendo sobre o bom velhinho Noel e, poxa... é triste mesmo. Mas não tem crise, quando chega o tempo de Natal, a gente lembra mesmo é dos presentes e da comida. E foi pensando nisso que resolvi dar uma olhada no “algo mais” do Natal, vai que alguém pode fazer um bom uso disso num discurso antes de estourar o champagne ou abrir o peru.

O termo Natal é derivado da palavra latina natalis, que por sua vez deriva dos verbos 'nascor, nascéris, natus sum, nasci', que em latim significam nascer, ser posto no mundo. Melhor sentido não há, afinal a festa toda é por causa de um nascimento deveras importante que chegou a marcar o Ano Zero para uma boa parte do mundo, então não é mesmo um nascimento qualquer. Já a origem do termo 'Christmas', utilizado no inglês (tão difundido entre a gente), remonta à expressão latina 'Cristes maesse', que vertida para o inglês fica 'Christ's Mass", e no bom portugês: ‘Missa de Cristo’.

Tem-se notícias que a primeira celebração do Natal no mundo aconteceu em Roma, no ano 336 D.C. Somando as diversas mudanças de calendário com a ausência de comprovação da real data de nascimento do Cristo, desde os primórdios da celebração do Natal diversas religiões e estudiosos questionaram e criaram novas datas, significados, costumes e ritualísticas diferentes para celebrar o nascimento do sujeito iluminado que veio redimir a humanidade. Criando as mais variadas opções doutrinárias e filosóficas, aí é só escolher a sua e ser feliz.


Portanto, sendo o Natal uma festa muito antiga, derivada até mesmo de outras comemorações pagãs mais antigas ainda, ela junta muitos símbolos e costumes que fazem até um certo sentido: presépios, pinheiros decorados com estrelas e fitas, girlandas, ovos decorados, panetone, peru, rabanada, etc. Até aí tudo bem, a gente tem costume de criar comida diferente e penduricalhos pra várias outras festas tradicionais, mas me expliquem de onde saiu a idéia de colocar um velho barbudo que roda o mundo num trenó voador, puxado por renas voadoras distribuindo presentes numa celebração religiosa?

Para os mais ‘devagares’ o velhinho em questão é o Papai Noel. A figura de Noel foi inspirada num sujeito que existiu de verdade, ele era o Arcebispo de Mirra, uma cidade na Turquia, atual Demre e era conhecido como Nicolau de Mirra. Dizem que Nicolau tinha o costume de anonimamente ajudar pessoas necessitadas, colocando um saco com ouro nas chaminés de suas casas. Depois que ele morreu, alguns milagres lhe foram atribuídos e ele se transformou no famoso São Nicolau.

Um fato importante para a criação do mito do Papai Noel como conhecemos hoje, veio com o poema “Uma Visita de São Nicolau” escrito em 1822 pelo professor norte-americano Clemente Clark Moore, para seus seis filhos. No poema ele dizia tudo sobre as renas voadoras Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago. Rudolph, ou Rodolfo, a rena de nariz vermelho entrou para o grupo mais tarde, por ter um nariz vermelho e brilhante que ajudava na navegação pelas noites. O poema também falava sobre as chaminés, os presentes e tudo mais.

Já o visual do bom velhinho veio da cachola de Thomas Nast, um cartunista alemão, considerado o pai da charge política. Foi ele que, em 1886, desenhou o São Nicolau para uma revista Norte-Americana especializada em política, a Harper’s Weeklys. Aí sugiram as roupas de inverno do velhinho, que na época, quando coloridas, eram marrons ou verdes.

Esse é o São Nicolau com cara de garoto maroto de Thomas Nast.

Ué, mas a roupa não é vermelha? Então, houve um tempo no qual Nicolau flertou com o líquido negro do capitalismo em troca de uma roupa nova. Foi em 1931, quando a Coca-Cola Company resolve usar o personagem de Thomas Nast como garoto propaganda para sua campanha de natal daquele ano. Nada mais justo e divertido do que vestir o velhinho com as cores da empresa. Pronto, estava criado assim o figurino branco e vermelho para o “Velho Santa”. Considerando a atuação mundial da Coca-Cola, não demorou muito para que a imagem inevitável do Papai Noel, um velhinho simpático em vermelho e branco se espalhasse rapidamente pelo mundo.

Esse é o Papai Noel, ainda fazendo marotagens, com as cores da Coca-Cola.

O Natal é uma celebração mundial de enorme importância. Mesmo sendo uma criação cristã-ocidental, ele já mostra suas cores e efeitos no mundo todo. Por motivos comerciais ou aderindo à festa religiosa, existem paises não cristãos que também se enfeitam, entram no espírito natalino e imprimem sua marca regional neste evento milenar. E agora que a gente já conhece um pouquinho mais sobre o Natal e alguns de seus símbolos (que são muitos), podemos esquecer disso tudo e aproveitar a data pra fazer o que não fizemos durante todo o ano: espalhar paz, amor e concórdia pelo mundo, ou ao menos entre os que a gente ama. E não deixem de aproveitar a festa. Um Feliz Natal a todos!

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Hypnoise [1998-2004]

Nota: Parte importante da minha história, principalmente na questão musical, é impossível não publicar os poucos, mas importantes, registros da Hypnoise. A versão original deste texto, um registro histórico o mais detalhado possível, foi escrita em 16 de julho de 2006, por ocasião do lançamento do EP Sof Carpet, da Hypnoise. Para esta atual publicação, revisei e acrescentei alguns desdobramentos históricos posteriores.


Umuarama, no final da década de 1990, tinha se transformado numa cidade iminentemente universitária. Pessoas de todos os lados do Paraná e do resto País estavam convivendo, trocando influências e cultura, principalmente musical. Nesse contexto, a antes pacata cidade do Noroeste do Paraná estava para presenciar mais uma das costumeiras ondas de bandas locais.

Em Janeiro de 1998, Fábio Suzuki, Mitchel Kipgen, Eduardo M. Custódio, Tiago Sá Carneiro e Julio Cysne, universitários da cidade, se reuniram no há muito tempo extinto Cabeça Oca, um bar meio quiosque, para um show de sua banda, que se chamava Mussy. Na platéia daquele show estava uma garota de 14 anos de idade, que adorava música e se chamava Tammy Yokohama, que  levou a notícia da nova banda da cidade até seu irmão Francis Yokohama. Foi assim que os irmãos, que também tocavam e cantavam, começaram a acompanhar os ensaios da Mussy, até que foram convidados a se juntarem à banda.

Durante o ano de 1998 a banda Mussy tantas formações diferentes e tão poucos ensaios que era praticamente uma formação por ensaio, uma aglutinação e desaglutinação de várias bandas locais e músicos avulsos até, finalmente, originar uma banda fixa, que foi chamada de HYPNOISE. Eram eles: Mitchel Kipgen (vocais); Tammy Yokohama (vocais); Francis Yokohama, o Bodão (guitarra e vocais); Anderson Willian Gazzi (guitarra); Fábio Suzuki, o Japa (Teclado); Julio Cysne (baixo) e Fernando Livoni (bateria).

A influência sonora da Hypnoise era o rock alternativo e a cultura grunge, muito em voga naquela década. O som de bandas como Pixies, Pavement, Garbage, Pearl Jam, Nirvana e tantas outras da cena alternativa corriam nas veias daqueles caras. E foi com suas musicas "esquisitas", porém muito bem tocadas, que a Hypnoise conquistou seu espaço na cidade e logo já estavam tocando em Foz do Iguaçu, Cascavel e Maringá, chegando até Florianópolis. Em Umuarama ficaram eternizadas as várias apresentações, sempre lotadas de gente, no bar Arpoador (também extinto)

Foi nesse contexto que a banda, de repertório dominantemente de músicas "cover", gravou seu primeiro single "Atomikane - Again". Esse trabalho foi gravado num Home Studio da cidade, o D'Art Studio, com Diloê Novak, André Sá Carneiro (irmão de Tiago Sá, o primeiro guitarrista da banda) e Tiago "Lobão" Inforzato como equipe de gravação. Na mesma sessão de gravação foi gravado um "Release Album", com outras nove musicas "cover", registro do que era o trabalho da banda naquele momento. 

Após a gravação do single, mais exatamente em 20 de abril de 2000, a Hypnoise sofre sua primeira baixa, Julio Cysne, baixista e recém formado em Odontologia, deixou a banda para se dedicar à sua nova carreira e se muda para Santa Catarina. Para assumir seu lugar, a banda convida Tiago Lobão, que assume a "cozinha" junto com Fernando Livoni

Com a nova formação, conquistaram outras regiões do estado do Paraná e se tornaram referência na cidade. Tocaram por todo o estado (Foz do Iguaçu, Cascavel, Toledo, Francisco Beltrão, Pato Branco, Maringá, Curitiba e outras tantas); voltam para uma temporada em Santa Catarina, com apresentações em Laguna e Meia Praia; além de manter apresentações constantes em Puerto Iguazu, na Argentina.

É nesse circuito que a banda passa a maior parte do tempo, aumenta sua visibilidade e chama atenção de outros músicos, fortalecendo a cena local e influenciando outras bandas de Umuarama, como a Jugulator (Heavy Metal), Overload (Alternativo), Dead Clock (Grunge), Lady Killers (Grunge), Facamolada (Rock n' Roll) e diversas outras.

De 06 a 11 de Março de 2001, acontecem as sessões de gravação do primeiro EP com músicas da própria banda, o "Soft Carpet". A banda se reuniu novamente no D'Art Studio para uma semana intensa de gravações para registrar cinco músicas: Again, Broken Fingers, Cinco Dias, Lost My Dreams e Million Miles Ago. Infelizmente, por discordâncias internas, o EP ficou sem ser lançado até julho de 2006.

A banda seguiu seu caminho de shows pelo Paraná, normalmente, até que em 16 de Março de 2002 sofre sua Segunda baixa, Fábio Suzuki, o Japa, tecladista resolve deixar a banda. Ninguém foi chamado para substituí-lo, transformando a Hypnoise em um sexteto.

Durante sua trajetória, a Hypnoise pôde dividir o palco com bandas peso-pesado do rock nacional como Pato Fu, Detonautas, Velhas Virgens, Dazaranha, Gram (que na época ainda se chamava Mosva e fazia tinha um ótimo trabalho de Beatles cover).

Depois de seis anos de atividades ininterruptas e muitos quilômetros rodados em Vans e no Opalão do Mitchel, a Hypnoise, infelizmente, encerrou oficialmente suas atividades em agosto de 2004. Mas, seus integrantes continuaram ativos na música. Mitchel, Francis e Tammy resolveram se mudar para Curitiba, capital do estado, onde fundaram a banda Novanoise; Loão, Anderson e Fernando ficaram em Umuarama e, junto com Nevilton de Alencar e Rafael Cardoso, criaram a Superlego, da qual, sem Anderson e Rafael, se originaria a primeira formação do power trio "Nevilton" (e a continuação dessa história você pode ler aqui)

Durante toda sua existência a Hypnoise divulgou o som que o rádio não toca, despertando o interesse pelo rock Alternativo, pelo Indie Rock e demais estilos menos conhecidos do rock. A banda, certamente, tem uma grande parcela de "culpa" sobre esses jovens da região que hoje ouvem Placebo, Garbage, Pixies e afins. E é com grande satisfação que posso olhar pra trás e ver esse lindo jardim que nasceu das sementes que plantamos.



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Acústico no Arpoador [1999]



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Release Album [2000]



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Soft Carpet [2001/2006]



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Ao Vivo sabe-se lá onde [???]




Video Memória:

Este vídeo foi compilado pelo Francis Yokohama, das poucas, mas preciosas fitas VHS que encontrou em sua casa. Cenas aleatórias, como são as memórias afetivas, de uma juventude em busca da realização pela música. Foi, sem dúvida, um tempo importante na construção do artista que sou hoje.