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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

No Interior


Cheguei na beira do porto onde as ondas se 'espaia'
As 'garça' da meia-volta e senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia

Quando eu vim da minha terra, despedir da 'parentaia'
Eu entrei no Mato Grosso, bem em terras Paraguaias
Lá tinha revolução, enfrentei forte 'bataia' 

A tua saudade corta como aço de 'navaia' 
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia' 
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia' 


Cuitelinho é como se chama o Beija-flor em algumas partes do Brasil interiorano, e também é o nome dessa belíssima canção, composta por Bento Costa, em 1932. Dizem que ganhou notoriedade depois que Paulo Vanzolini, famoso biólogo e compositor (de "Ronda", "Volta Por Cima") a trouxe para os holofotes. Disse o próprio Vanzoline que, durante uma pescaria na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, seu amigo Antônio Xandó chamou sua atenção para a bela canção que um barqueiro cantava. Inspirado pelo primeiro verso que ouvira, compôs os outros dois. Do Bento Costa, pouco se sabe.

Não escondo o sentimentalismo, e fica cada vez mais evidente que a saudade é um dos meus temas favoritos. Na Cuitelinho as saudades vêm de um soldado brasileiro que abandona a família para ir lutar na gerra do Paraguai (1864-1870) ou, pelo menos, é o que se dá a entender.

No meio das saudades todas que ele carrega, surge o que, na minha opinião é a melhor descrição dos efeitos da saudade que já constou no cancioneiro popular brasileiro. Falo do terceiro verso, que repito aqui:

A tua saudade corta como aço de 'navaia'
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia'
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia'

A beleza poética da imagem é imensa, mas é delicadamente escondida atrás da linguagem simples. Simples, como é simples sentir saudades; como é simples o personagem que entoa os versos. O dialeto caipira e, em algumas versões da música, o som choroso do ponteado da viola caipira, potencializam muito as emoções dos versos. A soma disso tudo me remete às minhas próprias saudades dos tempos passados no interior, nas casas e sítios da 'parentaia' do Norte Pioneiro do Paraná.

Me emociona, também, como graças à poesia e a cultura popular, conseguimos acessar esse microuniverso sentimental de um evento gigantesco que foi a gerra do Paraguai, considerada, inclusive, o maior conflito armado que já houve na América do Sul. Também foi o mais sangrento. Entretanto, no meio de tiros de canhão e gritaria, havia ali, num coração surpreendido pela batalha, decerto aflito, um santuário de calmaria e saudade, um relicário, um altarzinho aconchegando tudo aquilo que se ama.




sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Genealogia de Superação

Dizem que Nicolò Paganini (1782 - 1840) foi o maior virtuose do violino que já existiu. Possuía uma técnica e criatividade que jamais foi igualada por alguém. Também era muito feio, mas tinha uma boa visão de negócio. Ficou muito rico aproveitando-se de sua aparência soturna, cabelos longos, nariz pontudo, muito magro, usava sempre roupas escuras, fazia suas apresentações com pouca luz e teatralmente sombrias. As peças que executava, escritas por ele mesmo, desafiavam a técnica, necessitavam de movimentos de arco e de dedos jamais imaginados até então. Dentre essas peças, está o conjunto de "24 Caprichos" que são interessantíssimos, mas não muito fáceis de se ouvir.

Por todo o frisson que causou em sua época, Nicolò Paganini influenciou muitos outros músicos, seus contemporâneos de Romantismo, como Schubert, Chopin, Schumann e Liszt, que trouxeram para o piano – e para o pesadelo de quem estuda piano – aquele virtuosismo fenomenal que viam em Paganini, que era tanto que chegou a espalhar-se a lenda de que ele tocava daquele jeito por ter feito pacto com o diabo ou, ainda, de ser o filho do próprio tinhoso. 

Com todos esses predicados, se vivesse hoje em dia ele seria um desses guitarristas "fritadores" do Metal, que fazem muitas notas por segundo e, também, muitas caretas. Inclusive, há relatos de que Paganini conseguia executar, ao violino, a fantástica quantia de doze notas por segundo. É, talvez ele seja o "fritador" original.

Mas antes passar a "fritadeira" para gente mais moderna como Malmsteen ou Satriani, Paganini tocou os ouvidos e o coração de um outro cara: Sergei Rachmaninoff (1873 - 1943) que resolveu fazer uma Rapsódia com 24 variações sobre o "Capricho n. 24 em Lá menor" de Paganini, o Capricho mais famoso. É de uma dessas variações que quero falar.

Esse é o Capricho n. 24 :



A Rapsódia de Rachmaninoff, completa, deve durar entre 20 e 25 minutos e é considerada uma peça de dificílima execução, mantendo assim o nível Paganini de esmero técnico. E entre imensos exercícios de criatividade, inversões melódicas, rearranjos e contorcionismos musicais, surge o que, talvez, seja uma das músicas mais bonitas que já ouvi na vida: a "Variação n. 18 Andante cantabile em Ré bemol maior". É impressionante a metamorfose daquele tema tão espertalhão do Paganini em algo tão delicado, que beira o sublime.

Ouça:

Conheci a Variação n. 18 na trilha sonora do filme "Em Algum Lugar No Passado", um filme que gosto muito, e já falei dele por aqui. Penso o quanto não gostaria de estar na pele do John Barry, responsável pelo resto da trilha, que deve ter suado muito pra a música tema à altura dessa beleza de Rachmaninoff. John, você está de parabéns, pois ouvir o "Tema de Em Algum Lugar no Passado" é de um prazer indescritível.

Sinta:

Mas, por que toda essa história? Primeiro, para espalhar boas músicas, que deixam os humores mais relaxados. Precisamos muito. Segundo, para deixar a reflexão sobre coragem, criatividade e determinação; e de como tudo, por melhor que pareça, pode ser sempre melhorado ainda mais. Fiquemos atentos ao cotidiano e não percamos as chances de trabalho.


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Guns n' Roses : Since I Don't Have You

Em 1994, os Guns n' Roses lançaram o single "Since I Don't Have You", o terceiro do disco "The Spaghetti Incident?". O disco é uma coletânea de covers que, dizem, a banda tocava "antes da fama". Quando uma banda faz isso, de voltar às raízes, é sinal de que estão tentando se reencontrar, reencontrar aquela "magia de antigamente". Não encontraram. Foi o último disco com a formação clássica.

Separados, depois de décadas foi que se encontraram. Reuniram-se, esse ano, para uma turnê mundial que está sendo ótima, tanto para os nostalgicos quanto para os que nunca haviam visto o Guns, de verdade, no palco.

Versão de uma música de 1958, dos Skyliners, "Since I Don't Have You" não tem quase nada de Guns n' Roses, como eles mesmos não tinham mais quando a gravaram. Mas traz, sempre muito vivo, esse sentimento, essa reflexão sobre as ausências. Pode uma coisa só valer por tudo o que se tem? Eu não tenho nada se não tenho você? A resposta é simples e lógica, mas como toda resposta simples e lógica, não se internaliza tão fácil.

Apesar da gente insistir, brigar, chorar pra que seja o contrário, é não tendo o que se quer que se descobre o que se precisa.



domingo, 23 de outubro de 2016

Rachmaninoff : Piano Concerto n.2 em Dó menor, Op.18


Após receber péssimas críticas ao o seu primeiro concerto, o russo Sergei Rachmaninoff (1873 - 1943) entra em uma profunda depressão e bloqueio criativo que duraram vários anos. Ao sair desse tenebroso ciclo, compõe essa excelente peça, que é o Concerto n.2 em Dó Menor que, inclusive, é dedicado ao médico Nikolai Dahl, figura importante na sua recuperação psicológica. Considerada uma de suas melhores e mais famosas peças, foi tão aclamada que colocou o compositor, finalmente, entre os grandes concertistas da história. 

O segundo movimento é uma das coisas mais lindas que já ouvi na vida. Imbatível, de tirar lágrimas e arrepiar até os mais embrutecidos, com um tema melancólico e leve, que começa na flauta, toma forma no clarinete e vai crescendo e respirando até contagiar toda a orquestra e cada célula de quem está ouvindo.

Na música, as tonalidades menores são consideradas tristes, enquanto as tonalidades maiores são consideradas felizes, ensolaradas. Então, também é muito simbólico o concerto ter sido escrito em Dó menor. Mas, o mais bonito de tudo, é que o concerto começa em Dó menor e termina em Dó maior, como se simbolizasse, no desenvolver da peça, a luta e a vitória do compositor sobre a sua depressão.

Nas primeiras apresentações desse concerto, entre 1900 e 1901, o próprio Rachmaninoff foi o solista, ao piano. Nesse vídeo podemos ver a destreza e a maravilhosa interpretação da Anna Fedorova, ao piano, com a Filarmônica do Noroeste Alemão (Nordwestdeutsche Philharmonie), com regência de Martin Panteleev.


Sério... durante o segundo movimento, separe um lenço.





segunda-feira, 18 de julho de 2016

Mulher-Lua




É impossível negar que toda música desperta algum sentimento, e pouca gente vai discordar de mim. Seja bom ou mal, seja nojo ou maravilhamento, não importa, toda música desperta algo na gente. Mas há algumas canções que vão mais fundo que outras e convulsionam áreas tão profundas que nem sabíamos existir. Uma dessas canções, na minha vida, é a Moon Woman 2, que faz parte do primeiro álbum do Elvis Perkins, chamado Ash Wednesday, lançado em 2007.

Num primeiro momento, a música me tocou pela sonoridade, timbres lindos de violão, bateria, violino e contrabaixo acústico; pela melancolia e por dois versos de efeito, que sozinhos já criaram um quadro lindo na minha imaginação: "It hasn't been this bright in a century and a third" (Não tem sido tão brilhante em um século e um terço) e "You've got this power over me" (Você tem esse poder sobre mim).

Elvis Perkins dá à mulher amada os mesmo poderes da Lua sobre a terra. Ela ilumina as noites, tem grande influência nas marés e em tudo quanto é ciclo; na fertilidade, crescimento e colheita de todas as coisas; dos nossos fios de cabelo às grandes Secóias da Califórnia. Realmente, os mesmos poderes que quem amamos tem sobre nós.

Reconheço que não foi uma ideia muito inovadora comparar o ser amado com a Lua que, apesar de uma imagem muito bonita, também é bastante comum no universo lirico mundial. Mas, o que me me encanta é que, de alguma forma, mesmo não sendo tão original falar da mulher amada que, como a lua, intocável e inacessível, sequer sabe da sua existência, mas influencia e ilumina a escuridão que se fazia por mais de século em sua vida, Elvis me despertou algo que jazia muito profundo em mim, e tem me feito olhar, novamente, com mais atenção e reverência a beleza das pessoas que se orbitam e se influenciam, umas às outras outras, através dessa força gravitacional irresistível que é o amor.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

El Mapa de Todos


Emocionado pelo filme "Neruda - Fugitivo" (2014, Manoel Basoalto) e por todo o esforço poético, literário e de vida que o poeta teve na tentativa de unificar a América do Sul ou, pelo menos, criar um sentimento Sulamericano comum, senti-me envergonhado por ser um tanto alheio à cultura e, principalmente, à música tradicional desta fatia de continente que me cerca. Coloquei-me, então, numa jornada de reconhecimento da vizinhança, da qual, afora o Tango e a Música Contemporânea Argentina, do imbatível Astor Piazzolla, sei muito pouco. Saí, então, do Chile de Neruda, Violeta Parra e Atahualpa Yupanqui, passei pelo Paraguai, revisitei a Argentina e cheguei ao Uruguai, onde encontrei Daniel Viglietti (Montevideo, 1939).

Durante a segunda metade do Sec. XX, parecia que a America do Sul estava infectada pelo vírus dos governos ditatoriais e, naqueles tempos de terror, entre revoluções e governos totalitários, assim como no Brasil, haviam, em toda parte, movimentações estudantís, artísticas e políticas que lutavam por libertar o povo do estado repressor. Pelo que entendi, Daniel Viglietti foi como o nosso Geraldo Vandré, que armado com seu violão, música e poesia, cantava a liberdade durante os duros anos da década de 1960.

Minha canção preferida de Viglietti é "Milonga de Andar Lejos", do disco "Canciones para el Hombre Nuevo", de 1968. Nessa milonga, um tipo de canção que adoro, por ser lenta e melancólica, Viglietti canta o amor pela sua terra cujo sangue é mestiço e que, apesar de muitas e diferentes bandeiras, tem a mesma pobreza. Por isso, cantava ser preciso derrubar as fronteiras, expandir o mapa, criando "el mapa de todos", uma América do Sul unida. Independente do posicionamento político de Viglietti, sinto que esta canção transcende a política e a própria América do Sul na luta contra os "invasores" ou "colonizadores"; ela fala de um anseio humano universal, de nos transformar-nos em algo maior do que um mero conjunto de nações, que nos transformemos apenas em humanos num mesmo planeta, criando uma grande terra de todos, sem fronteiras, um corpo único e complexo do qual todos são parte essencial. É uma luta solitária, mas como diz a canção, "uma gota faz pouco, muitas gotas fazem tempestade".

E foi há dias atrás que uma bela coincidência me fez reviver essa viagem espiritual pela Sudamérica. Meu amigo-irmão Nevilton, ao regressar de Montevideu, trouxe-me, de presente, um livro que sempre quis ter na língua original: Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, do Pablo Neruda. Além da emoção pelo presente em sí, um desejo antigo realizado, logo vi o grande círculo simbólico que estava em minhas mãos: Foi Neruda quem me levou do Chile ao Uruguai de Viglietti e, dias atrás, o Uruguai de Viglietti me trouxe de volta ao Chile de Neruda. E com o tempero extra do livro ter sido publicado na Espanha, um dos grandes e cruéis colonizadores da América Latina. Que grande viagem, funda na alma Sulamericana, em apenas um livro de poemas! Obrigado, Nevilton!






Qué lejos está mi tierra
Y, sin embargo, qué cerca 
O es que existe un territorio 
Donde las sangres se mezclan.

Tanta distancia y camino,
Tan diferentes banderas 
Y la pobreza es la misma 
Los mismos hombres esperan. 

Yo quiero romper mi mapa, 
Formar el mapa de todos, 
Mestizos, negros y blancos, 
Trazarlo codo con codo. 

Los ríos son como venas 
De un cuerpo entero extendido, 
Y es el color de la tierra 
La sangre de los caídos. 

No somos los extranjeros 
Los extranjeros son otros; 
Son ellos los mercaderes 
Y los esclavos nosotros. 

Yo quiero romper la vida, 
Como cambiarla quisiera, 
Ayúdeme compañero; 
Ayúdeme, no demore, 
Que una gota con ser poco 
Con otra se hace aguacero. 


sexta-feira, 20 de maio de 2016

Nevilton : Noite Alta [EP, 2016]




Na hora de acordar, difícil é ficar de pé. O mundo inteiro cheira café e a gente vai trabalhar". Todos os que ouvem se identificam com o refrão da música Noite Alta, do Nevilton, segunda faixa do disco Sacode. Se você ainda não o conhecia, prepare-se para, à partir de agora, nunca mais esquecê-lo!

Há pouco mais de um ano, em abril de 2015, foi publicado um videoclipe super especial pra essa música, idealizado por Leo Longo e Diana Boccara, o casal maravilha do projeto Around The World In 80 Music Videos, pelo qual estão rodando o mundo gravando clipes, e mais, unindo e divulgando artistas, países e culturas sob as asas dessa bela ideia.

Aproveitando o aniversário do clipe, Nevilton preparou um EP com 5 versões diferentes de Noite Alta, além da versão original. Novas abordagens e experiências pra uma canção que é sempre recebida com muito carinho pelo público. Carinho que, certamente, será quintuplicado.

A versão 1972 é inspirada na sonoridade da Motown Records e da Stax Records, gravadoras norte-americanas que definiram o som dos anos 70, com seus belos discos cheios de groove e alma. A versão Semi-acústica foi como despir a canção, aproximando-a do espírito das rodas de violão, dos bares e pubs, pra todo mundo cantar e bater o pé no chão. A versão original vem pra matar a saudade e a versão ao vivo pra trazer toda a energia dos shows, que até então só quem viu podia se gabar. Inclusive, esse é o primeiro registro oficial em áudio ao vivo, lançado pela banda. Fecham o EP dois remix, o "NEV Remix" produzido para um projeto do site MúsicaPavê e o Fabz Zonatti Remix produzida pelo DJ da cena indie-rock e eletrônica paulistana. A capa no melhor clima amanhecer-hora de acordar é ilustração de Pietro Domiciano.

Cheio de surpresas e carinho, Nevilton lança mais esse trabalho, preparando os fãs para o um próximo álbum que está em fase de gravação. E como diz o próprio Nevilton: "É um EP de versões. De versões e diversões!". Divirtam-se.


Ouça ou compre no Spotify | Itunes | Deezer | OneRPM | Google Play


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Retratos Poéticos


São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.


Os versos acima são a fala de abertura para o primeiro ato da peça o "Orfeu da Conceição" (1956), escrita por Vinícius de Moraes e musicada por Tom Jobim. Foi primeira parceria entre os dois, parceria que, mais tarde, geraria uma revolução na história da música popular Brasileira. Posteriormente, em 1967, foram publicados como "Soneto do Corifeu", na segunda edição ampliada, do Livro de Sonetos, como um dos 25 poemas acrescentados aos 35 da primeira edição, de 1957. Ambas as edições foram organizadas pelo próprio Vinícius de Moraes. Mais tarde, pelas mãos de Toquinho, outro parceiro do poeta, o soneto se transformou em música e, sob o título de "São Demais os Perigos Dessa Vida", dá nome ao disco de 1971 de Toquinho e Vinícius.

Minha história com o Vinícius de Moraes é antiga. Ele se ausentou do mundo um mês antes do meu nascimento, em 1980 e, mesmo não tendo compartilhado o palco da existência com ele, desde a mais longínqua memória de infância, me recordo do sentimento de carinho que despertava em mim aquela gravura que o retratava, grisalho e calvo, com um nariz de batata, no encarte do disco "A Arca de Noé". E, enquanto crescia, continuei a descobrir, em sua obra, ecos perfeitos para os meus sentimentos, o que fez com que o carinho infantil se tornasse a admiração e respeito de um pupilo pelo mestre. Inevitável, tornei-me poeta.

Há semanas atrás, através de um exercício para um curso de poética que estou fazendo, procurando meus poemas preferidos para montar uma antologia, reencontrei o Soneto do Corifeu. Diria que ele não é só um dos meus poemas preferidos; ele é o mais importante deles. Foi o primeiro que, lá longe, na tenra juventude, me tocou fundo na alma; foi o primeiro que decorei e, sem jamais esquecê-lo, ainda o declamo decor. Hoje, menos leigo sobre a língua portuguesa e a poética, me espantei ao perceber que herdei, dos versos do Corifeu, importantes elementos líricos da minha poesia: a lua, testemunha silenciosa de todos nós, pura, intocável e inevitável; a solidão da noite, cuja calma, silêncio e solidão amplificam as mínimas e mais íntimas marolas sentimentais em tsunamis invencíveis; os perigos da paixão; a beleza constante da mulher e uma tristeza inerente a todo ser vivente, mas que é leve, expressa na cadência melancólica de cada palavra versificada.

E você, tem algum poema preferido, ou que foi importante na sua história? Que tal eleger alguns e aproveitar o acesso a regiões interiores, que só a poesia dá, para se conhecer ou se reencontrar? Faça a sua antologia de poemas e surpreenda-se quando vir, nela, um belo retrato seu.


Aproveite e ouça a canção "São Demais os Perigos Dessa Vida", de Toquinho e Vinícius, com direito ao Vinícius declamando o Soneto do Corifeu logo na introdução.

domingo, 27 de março de 2016

Wagner : Parcifal, Prelude (Vorspiel)

Foi um belo amanhecer da Sexta-Feira Santa de 1857 que decantou, da genialidade de Richard Wagner, finalmente, as primeiras anotações da ópera Parsifal, na qual já vinha pensando há alguns anos. Terminada 25 anos depois, esta foi a sua última ópera completa.

Numa ambientação medieval, como era de costume, Wagner conjuga temas cristãos como auto-renúncia, reencarnação e compaixão e símbolos como o Santo Graal e a lança que Longino, um soldado romano, usou para ferir o Cristo na cruz.

Bastante longa, solene e densa, a ópera causou, e ainda causa, grande emoção quando é assistida ou ouvida. E é preciso perseverança para completar essa missão nas quase 4 horas de duração da peça. À época do lançamento, em 1882, o filósofo Nietzsche, como de praxe, reclamou do conteúdo moral cristão; mas outros gênios, como Debussy e Mahler, mais sensíveis à mensagem, se manifestaram entorpecidos pelos belos sentimentos que a obra despertara em suas almas. Ouça e escolha o seu lado.

Para compreender conjugação entre leveza e densidade desta obra prima Wagneriana, aqui vai a minha parte preferida do Parsifal: o Prelúdio, lindamente executado pela Orquestra Sinfônica da Radio Frankfurt, dirigida pelo maestro Jérémie Rhorer.






Se quiser assistir a ópera toda, aqui vai uma versão legendada em inglês:





quarta-feira, 9 de março de 2016

Ketèlbey : Bells Across the Meadows




Albert William Ketèlbey me lembra a infância. Meu pai sempre ouvia aquele LP de capa exótica, com um mercador oferecendo flores a um monge, enquanto estudava, à noite, após um dia de trabalho. Inclusive, dias desses me surpreendi fazendo o mesmo: estudando e ouvindo Ketèlbey, um grande flashback. E foi assim, ainda pequeno, através do meu pai, que ouvi pela primeira vez sobre como um compositor pode descrever uma cena, um cenário, através de uma música.

Com o Ketèlbey foi fácil de entender, ele é muito bom em cenas musicais. Tão bom ele era, que foi o primeiro músico britânico a ficar milionário através da música, principalmente através desses pequenos temas chamados de "light orchestral music", nos quais ele era especialista. O tema musical "Bells Across the Meadows" (pra ouvir aí embaixo) foi eleito pelos ingleses, em 2003, como a 36ª música mais memorável de todos os tempos.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Leoncavallo : Pagliacci, Intermezzo

O intermezzo da Ópera "Pagliacci" de Ruggero Leoncavallo (minha ópera favorita, inclusive) é, sem dúvidas, umas das peças musicais mais belas que já ouvi. Ele é tocado no intervalo (intermezzo, em português) do primeiro para o segundo ato da ópera e consegue, ao mesmo tempo que emociona pela música, captar e sintetizar tudo o que aconteceu e sugerir o que acontecerá nas próximas cenas da trágica história do Palhaço que, mesmo com o coração partido pela Colombina, deve subir no palco e fazer o público rir. Mas, Leoncavallo alerta: o perdão não é tão fácil assim; e o orgulho, esse veneno que destilamos todos os dias, pode nos transformar em monstros ferozes. Cuidado!





Pra quem não conhece e quiser assistir à ópera inteira, tem essa versão dirigida pelo Franco Zeffirelli, com Placido Domingo e Teresa Stratas. A regência da orquestra é do Georges Petre que, inclusive, conquistou meu coração nessa super emotiva regência do já comentado Intermezzo:




sábado, 13 de fevereiro de 2016

Beethoven : Patética

Conversando com a Marina Aoki Elias, uma grande amiga que também gosta de música clássica, falamos do Beethoven. Ele é o artista "do ano" na temporada do Theatro Municipal de São Paulo. Não teve jeito, cheguei em casa e mergulhei na música desse gênio. Beethoven gostava muito de sonatas, foi um dos maiores sonatistas da música mundial. Só pra Piano ele escreveu 32. A mais famosa talvez seja a inconfundível "Sonata ao Luar", que estremesse o coração dos tristonhos. Mas, a mim, me toca mais a "Patética", principalmente o seu segundo movimento (no 9:46 do vídeo) tenho até um poema que foi escrito com ele tocando em loop interminável de fundo.

Sem mais blablabla, temos aqui o mestre Daniel Baremboim, dando um show ao piano, executando os 3 movimentos da Patética de Beethoven. Agora, abrace aquele livro, deixe o computador de lado e só ouça essa maravilha.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Debusy : Suite Bergamasque

É famoso o Terceiro Movimento (Clair de Lune, que vc pode conferir lá no 9:25 do vídeo), mas a íntegra da Suite Bergamasque do Claude Debusy é um calmante sonoro em meio a tanta folia obrigatória e carnaval invasivo. Apesar do risco de viciar, ele é bem menor que dos calmantes farmacológicos.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Álbum : A Love Supreme [1965, John Coltrane]



Desde os tempos imemoriais da humanidade a meditação e a oração são sugeridas como meio de contato do homem consigo mesmo e com o Cosmos, ou seja, orar ou meditar com energia proporciona a conexão entre a esfera mais íntima e minúscula de cada ser e a esfera mais exterior e infinita do Cosmos, unindo criatura e criador, a parte com o todo e, através dessa sintonia com todas as coisas, o praticante é iluminado e libertado.

Dos muitos seres de luz que já passaram pela história humana sugerindo a prática íntima e constante da oração ou meditação, podemos citar um que é, no mínimo, curioso: John Coltrane, saxofonista e lenda do Jazz.

Foi, coincidentemente, no dia de aniversário de sua morte (17 de Julho) que terminei de ler o livro "A Love Supreme" (Barracuda, 2007), escrito por Ashley Kahn e bem traduzido para o português por Patricia de Cia e Marcelo Orozco. O livro traz um panorama bem completo de todo o processo musical de Coltrane até chegar à criação, gravação e desdobramentos de uma das maioers obras primas do Jazz, de todos os tempos: a suíte A Love Supreme, lançada num álbum homônimo em 1965.

Acertadamente o livro não se prende apenas ao processo do disco, mas acompanha toda a trajetória musical de Coltrane, desde que saiu do Rehab e se tornou abstêmio de álcool e entorpecentes; sua passagem por diversas bandas, como a de Miles Davis, até formar a sua própria, com a qual disco a disco vai caminhando para libertar sua música das amarras estéticas e teóricas que tanto o incomodavam. Nele também encontramos depoimentos de amigos, parentes, parceiros musicais, produtores fonográficos, fãs e trechos de entrevistas que nos facilita visualizar, com mais amplitude, o que inspirava e movia Coltrane na sua busca que, além de músical, era evidentemente espiritual. 

O livro também não deixa de lado as informações sobre o music bussines da época, técnicas de gravação e mixagem. Assinalo a participação de Rudy Van Gelder, engenheiro de som do A Love Supreme e outras belas obras do jazz, que tem até capítulo à parte pela fundamental importância para a sonoridade do disco, bem como para que o livro se tornasse muito mais interessante. Foi uma surpresa colossal saber que vários discos de Miles Davis, Duke Ellington, Thelonious Monk e outros grandes nomes do Jazz dos anos 1950 foram gravados na sala de estar da casa dos pais de Rudy, à noite, após ele sair do trabalho em uma ótica e enquanto seus pais dormiam. Isso é algo que eu e muitos músicos fazemos e achamos uma incrível novidade. Doce ilusão, os grandes do Jazz (e não podemos esquecer do velho Les Paul) já tinham seu home studio e faziam obras primas atemporais. 

O que chama atenção no Rudy é que o som que ele conseguiu captar dessas gravações é de altíssima qualidade, sensacional até hoje. Enfim, há informações pra todos os níveis de interesse e, mesmo pra quem não "entende de música", Ashley Kahn coloca a informacão técnica de forma a fazer sentido para que qualquer interessado possa entender a influência de cada elemento, técnico ou artístico, na obra de Coltrane.

Durante a leitura do livro entendemos a dedicação quase monástica ao estudo e prática da música a que Coltrane se submetia, numa intenção nunca secreta de dominar a técnica e as linguagens para depois subvertê-las e expandí-las, como se emulasse Sidarta Gautama ou Jesus Cristo, em meditação e prática constante no deserto, buscando iluminação – que, de fato, como ouvimos no disco, conseguiu – e puxava para o mesmo caminho os músicos que o cercavam. Desta forma, como um Messias e seus seguidores, pregação após pregação pelos teatros e bares do mundo, o quarteto formado por Coltrane no sax (barítono e tenor), Mckoy Tyner no piano, Jimmy Garrison no Contrabaixo e Elvin Jones na Bateria, se transforma numa das maiores expressões do Jazz, referência não só da época, mas de tudo o que veio depois deles.

Com a coesão do quarteto comprovada no álbum Crescent (1964), Cotrane sentiu-se seguro para dar o próximo passo de sua jornada libertadora das notas musicais e de sua alma, criando um álbum extremamente Espiritual. Em A Love Supreme, todos se expressam mais do que musicalmente, eles se conectam entre si e com o Universo tocando a música que ressoa em suas almas, livres, dando graças ao criador pela oportunidade de estarem vivos.

Os sons que estão imortalizados nos fonogramas são os que foram gravados na noite de 09 de Dezembro de 1964, já no estúdio construído por Rudy, em Englewood Cliffs (New Jersey), e não mais na casa de seus pais. E a notícia de que houve uma sessão extra, na noite seguinte, com um Sax extra (Archie Shepp) e um Baixista extra (Arthur Davis), que desapareceu pra sempre, vai me arrepiar pelas próximas vidas. Interessante, também que as únicas fotos existentes (muitas estão no livro) são da sessão do dia 10, pois dia 09 não houve fotografo registrando. Ou seja, temos as fotos de um dia e o som de outro dia.

Uma suíte é um formato da música clássica, um conjunto de músicas que giram em tordo de um mesmo tema, no caso de A Love Supreme é homenagear Deus. Coltrane mesmo define sua suíte como uma oração e, por ser músico, se expressa melhor usando notas musicais, facilitando assim a conexão com o criador e com o Amor Supremo no qual ele se sentia envolvido e reverberando. 

O nome das faixas, Acknowledgment (Reconhecimento), Resolution (Resolução), Pursuance (Busca, Persecussão) e Psalm (Salmo, Prece, Oração), mostram o caminho sugerido pelo Jazzman para que nos sintonizemos com Deus, ou seja: Reconhecer a existência Dele; Resolver-se como filho do Criador; buscá-Lo sem descanso até visualizá-Lo e agradecê-Lo, em oração sincera pela graça da existência e das possibilidades de trabalho, estudo e evolução que nos foram dadas.

Ashley Kahn nos presenteia com 40 páginas de descrição detalhada de como cada uma das quatro faixas da suite se desenvolvem, abrindo-nos uma outra gama de entendimento sobre cada segundo de música. Mas Psalm, o salmo de Coltrane, tem uma história à parte. Ele é um poema escrito pelo próprio músico que, ao invés de declamá-lo no disco, tocou sílaba a sílaba no seu sax barítono. De uma sinceridade ímpar, é o momento mais iluminado do disco, com notas arrepiantes e lindas de se acompanhar ao mesmo tempo em que se lê o poema.

Faça isso você, agora:



Ou por esse vídeo da própria Coltrane Church (sim, existe).






E pra facilitar de vez a experiência, uma versão cantada de um trecho do Salmo:



Em algum dia de 1964, durante sua pratica diária, John Coltrane entendeu algo, sentiu algo e, mais que isso, ele colocou em prática, gravou um disco e espalhou a idéia. Utilizou a sua melhor forma de agir para se comunicar e se conectar com o Deus e Cosmos, recebendo e enviando amor. Depois de ler o livro e ouvir atentamente ao disco, foi impossível não ficar tocado ou, ao menos, pensativo, sobre estar mergulhado num grande mar de Amor Supremo e de energia infinita, mas não estar acessando isso tudo. Se como Coltrane, eu também posso melhorar minha conexão com esta infinita reserva de energia boa usando a meditação e a oração. 

Se todos somos capazes de criar as melhores coisas quando nos esforçamos usando só a nossa própria força, imagino o quanto melhor faríamos se estivéssemos agindo movidos pelas forças de todo o Cosmo. Qual seria a minha obra prima?

terça-feira, 24 de março de 2015

Álbum : Meio Desligado [1994, Kid Abelha]

Em 07 de Novembro de 2014, o álbum Meio Desligado completou 20 anos. É um álbum marcante na minha história pessoal por motivos tantos e impossíveis de enumerar. Por ser um registro sonoro que admiro em vários quesitos, resolvi revisar e reescrever essa publicação feita originalmente para o Culturanja de 18 de abril de 2008.

Sei que tenho que parar com essa mania de "microondas" requentador de textos, mas em tempos que me recupero de uma revolta tecnológica aqui em casa, não vi ponto negativo em ressugerir aos amigos a audição deste álbum enquanto preparo mais coisas inéditas para as próximas semanas.

Bruno Fortunato, George Israel e Paula Toller, o Kid Abelha.


“Kid Abelha, Lobão?!” Muitos me recriminarão, mas o álbum é bom sim e merece uma resenha.

A idéia deste álbum surgiu de um set de versões acústicas das músicas do primeiro disco do Kid Abelha, que a banda tocava nos Bis dos shows normais. Gostaram da idéia e começaram a acrescentar ao Bis outras canções que combinassem com esse formato. Registradas ao vivo, em shows realizados entre março e julho de 1994, nas cidades Curitiba, Belo Horizonte, Crisciúma, Concórdia, Venâncio Aires e Santa Bárbara. Depois acrescentaram alguns instrumentos e arranjos a mais em seu home-studio, o Som de Neguin’ (também chamado por eles de "casa").

O resultado final é surpreendente: nitidez e uniformidade nos sons dos instrumentos captados ao vivo e nos acrescentados posteriormente, em estúdio. O toque especial na sonoridade fica com a participação do público e o ambiente de show - preservados da captação ao vivo - o que cria a impressão de um show acústico completo e esquenta o disco feito um abraço carinhoso. Infelizmente, por ser resultado de diversos registros de áudio ao vivo e overdubs em estúdio, não foi possível preparar uma versão em vídeo deste álbum que, se existisse, estou certo de que seria uma beleza.

“Meio desligados, mas totalmente antenados” é como a banda, pertinentemente, se descreve no encarte do CD (que também foi o último álbum da banda a ser lançado em vinil), o Kid Abelha consegui a criar um clima aconchegante e sofisticado que pouca gente conseguiu fazer em um Acústico. As versões de Como Eu Quero, com a participação de Ritchie, de Solidão Que Nada, do Cazuza e Grand’ Hotel, esta com arranjos de cordas do mestre Wagner Tiso, ou até mesmo a simples e aconchegante Seu Espião, são realmente muito bonitas.

Com 600 mil copias vendidas, ganhando disco de ouro, de platina e o primeiro disco duplo de platina da banda, o Meio Desligado é um álbum muito bem feito. Bem arranjado; rico em instrumentação, com participações muito pertinentes, como Lulu SantosRitchie e até mesmo o Mutante Sérgio Dias, que toca uma Cítara na faixa de abertura Deus; o álbum possui versões muitas vezes mais interessantes às do Acústico MTV Kid Abelha de 2002, que atualmente é o Acústico MTV mais vendido da história do projeto, com 2 milhões de cópias vendidas, superando o ótimo Acústico dos Titãs, que vendeu 1,7 milhões de cópias.

Penso que a idéia do acústico é mostrar a real força de uma boa canção, aquela que funciona independente da forma que é apresentada, que tem força por si só, que tocada num violão solitário também é capaz de emocionar. Esse disco é a demonstração que as canções do Kid Abelha, em grade parte escritas pelo Leoni, um compositor de mão cheia, funcionam, sim, muito bem e em vários formatos.

Então, está aí a sugestão: deixe o preconceito de lado e ouça esse álbum com carinho.




Tracklist

01. Deus (Apareça Na Televisão)
02. Alice
03. Gosto De Ser Cruel
04. Como Eu Quero
05. Por Que Não Eu
06. Seu Espião
07. Eu Tive Um Sonho
08. O Beijo
09. Cristina
10. No Meio Da Rua
11. Nada Por Mim
12. Grand' Hotel (Introdução)
13. Grand' Hotel
14. Solidão Que Nada
15. Canário Do Reino


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Álbum : The Sot Bulletin [1999, The Flaming Lips]


Steven Drozd, Wayne Coyne e Michael Ivins.
Juntos eles são os Lábios Flamejantes!

Medo e superação, estes são os temas centrais de “The Soft Bulletin”, um álbum com mensagens densas e sonoridade rica, porém leve e aconchegante. Essa grande experiência sonora foi lançada em 1999 pelo Flamig Lips.

A banda iniciou suas atividades na cidade norte-americana de Oklahoma em 1983. Gravou diversos discos, participou de trilhas sonoras de filmes como Batman Forever, Austin Powers, Como Se Fosse a Primeira Vez e Spider-Man 3. Hoje, formada por Wayne Coyne (vocais, guitarra, teclados e theremin), Michael Ivins (baixo, guitarra, teclado e vocais) e Steven Drozd (guitarra, bateria, percussão, teclados e vocais) conta, nas apresentações ao vivo, com a ajuda de Kliph Scurlock na bateria e percussão. Por serem uma banda de multi-instrumentistas, a grande diversão do Flamming Lips é pilotar o estúdio, criando discos ousados, com uma sonoridade que se renova a cada álbum, muitas vezes ousados, como o “Zaireeka” de 1997, que consistia em quatro CD’s a serem tocados simultaneamente.

Após a aparentemente insuperável loucura do “Zaireeka”, Wayne Coyne, o frontman e principal compositor da banda, durante uma caminhada no silêncio da noite, resolve criar um álbum mais palatável, porém, sem perder a identitade sonora e psicológicamente complexa tão característica dos Flaming Lips. Nasce então esse “Dark Side of The Moon” dos anos 90. E a banda se supera novamente.

Todo o álbum gira em torno de experimentações sonoras, a marca registrada da banda, porém, no “The Soft Bulletin” elas estão mais contidas, pois a idéia agora é a de como fazer o sentimento da canção atingir o ouvinte sem que a mensagem se perca dentro da profusão de sons, muitas vezes caóticos. E conseguiram, com belas canções aliadas ao ótimo trabalho de produção e timbragem dos instrumentos, fizeram deste álbum um marco na carreira dos “Lips”. Há, inclusive, como é praxe para a banda, várias versões para este álbum, até mesmo uma mixagem em 5.1, que deve ser uma viagem linda.


Capa do Soft Bulletin.

A animada “The Race For The Prize”, magnífica faixa de abertura, conta a história de dois cientistas bastante dedicados ao trabalho de encontrar a cura para uma doença, podendo assim salvar o mundo. Mas até que ponto vale tanto esforço? Será que conseguirão manter seus afazeres da vida cotidiana enfrentando tamanha pressão e expectativas, correndo até mesmo risco de vida? Afinal de contas, como diz a canção, “eles são apenas humanos, com esposa e filhos”.

Nas demais faixas do álbum, os temas variam de outras epopéias científicas (A Spoonful Wheighs A Ton); auto-conhecimento (A Spark That Bleed); e como sua vida influencia a de outras pessoas (The Spiderbite Song). Quando o assunto são as reações humanas ao amor (Buggin’) chegam a questionar a hipótese – obviamente não comprovada – de que a reação química cerebral que nos permite apaixonar é a mesma que ocasionou o Big Bang (What’s The Light).

E as observações sobre a experiência humana não para por aí: a rapidez na qual o tempo passa e transforma o presente em passado, a maravilha de observar essa vida tão volátil e entender suas sutilezas (Suddenly Everything Has Changed). Seria a luta pela sanidade a batalha de nossas vidas? (The Gash). O medo, a fuga e a necessidade da morte e do amor, aparecem vestidos numa atmosfera tranqüila e colorida na indefectível "Feeling Yourself Disintegrate", possivelmente é assim que estes sentimentos se mostrariam para nós ao atingimos a plenitude na vida e começarmos a rumar para o inevitável fim. Do álbum e da vida.

A oitava faixa, “Waiting’ for the Superman (Is it gettin’ heavy???)”, merece destaque. É a melhor mensagem de “agüente as pontas” que eu já ouvi. O timbre encorpado da bateria, que já impressiona durante todo o álbum, ganha um bumbo profundo, que vibra surdo como um coração. Aliando essa bateria com um vocal melancólico, com um arranjo de cordas flutuante, com um piano triste e alguns sinos, cria-se o ambiente perfeito para o apelo do refrão:

“Tell everybody waitin' for Superman
 That they should try to hold on the best they can
 He hasn't dropped them, forgot them, or anything
 It's just too heavy for Superman to lift.”

Portanto, cada pessoa que cuide de si da melhor forma possível, pois o “Superman”, que sempre nos tirou dos apuros, está um tanto mais ocupado hoje em dia. Vamos dar uma força ao moço?

Depois de tantos estímulos e mensagens, a instrumental "Sleeping On The Roof" (12ª faixa) é o momento de reflexão solitária que o álbum pede. Os ruídos noturnos e a música que os acompanha, remetem à idéia do título: observar a noite, do telhado de casa, sozinho com seus fantasmas e conclusões. Se você conseguir passar por este momento de auto-análise e manter sua sanidade intacta, terá se tornado uma pessoa melhor.

Já que tudo é cíclico na vida e a jornada do auto-conhecimento é eterna, as duas últimas faixas deste trabalho são remixes de “The Race For The Price” e “Waitin’ for a Superman”. Que tal, após terminar a jornada, olhar o mesmo mundo com outros olhos? E, quem sabe, recomeçar essa "corrida pelo prêmio", esse contínuo e valioso exercício de evoluir.

Aproveitem o embalo e vejam o belo clipe de “Waintin’ for a Superman”.




Tracklist
1. race for the prize
2. spoonful weighs a ton
3. spark that bled
4. slow motion
5. spiderbite song
6. buggin
7. what is the light
8. observer
9. waitin for a superman
10. suddenly everything has changed
11. the gash
12. feeling yourself disintegrate
13. sleeping on the roof
14. race for the prize [remix]
15. waiting for a superman [mokran remix]




Originalmente publicado no Culturanja de 25 de janeiro de 2008.