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quinta-feira, 15 de junho de 2017

Documentário : Chasing Trane [2016, John Scheinfeld]




"O que você faz é o motivo para você estar aqui". Essa frase soou feito uma bomba, mais uma que o contato com a vida e obra de John Coltrane me trouxe. Não me lembro quem disse, acho que foi o Jimmy Heath, durante uma de suas falas no documentário Chasing Trane, de John Scheinfeld.

Documentário carinhosamente criado e montado, que explicita ainda mais o processo de vida e criação de John Coltrane, que se misturam. Na verdade, são a mesma coisa. Na vida e na obra, Trane usa a música como instrumento de transformação, de superação do humano, em busca do sublime, do inefável; reflete sobre a responsabilidade do artista sobre o que ele transmite.

Curando-se a si mesmo pela música, e dando vazão à voz de seu espírito sempre pacífico, saiu dos labirintos dos vícios ao infinito de possibilidades que uma consciência integral permite. Quis curar o mundo. Tanto que, mesmo chegando no ápice da integração entre música e sentimento, com sua obra prima "A Love Supreme" (1965), não se deu por satisfeito e foi além, dando passos que poucos, ou até mesmo ninguém foi capaz de seguir.




Na emoção do reencontro com esta figura tão elevada, recupero uma publicação antiga, mas que pode dar alguma dimensão, se é que isso é possível, à transcendência de John Coltrane. Elevem-se.



sexta-feira, 8 de abril de 2016

"Meu tempo é quando..."

Dizem que o tempo é uma invenção do homem. Dizem que o tempo sequer existe. Dizem, outros, que o tempo é uma dimensão psicológica. Será mesmo que o tempo passou a existir por nossa causa, à partir do momento em que começamos a observá-lo e marcá-lo?

Observar o tempo nunca foi o suficiente, e desde que o percebemos pela primeira vez, também tentamos domá-lo, como fazemos com tudo o que conhecemos. Mas quem nunca teve a vontade de controlar o tempo? Domesticá-lo, viajar através dele, ao futuro para precaver-se dos golpes da vida, anotar os números da loteria; ou, quem sabe, voltar ao passado e refazer o curso das coisas, talvez até reencontrar um amor que se perdeu ou viver, por mais tempo, um amor que já se encontrou, como na deliciosa Valsa Brasileira, do Chico Buarque.

Apesar de tudo o que dizem, o tempo não parece tão abstrato assim, ele se manifesta fisicamente na natureza. Os corpos celestes em suas orbitas, as estações do ano, o crescer da árvore, o amadurecer dos frutos, o nosso envelhecer, tudo é resultado de um "sair daqui e chegar ali". O tempo é, de alguma forma, espaço. E Albert Einstein esteve aí para confirmar.

Albert Einstein, Richard Matheson e o Iron Maiden! Os três pensaram o tempo de forma semelhante, em diferentes setores do pensamento. Einstein pela Teoria da Relatividade; Matheson, pelo livro e filme "Em Algum Lugar no Passado", cujo nome original é Somewhere in Time (Em Algum Lugar no Tempo); e o Iron Maiden, por um disco muito legal, que também se chama Somewhere in Time.

O filme "Em Algum Lugar no Passado" (1980, Jeannot Szwarc), é muito bonito e traz, no título, essa ideia de que o tempo  no caso, o passado  pode ser um lugar. A história de Richard Collier que ao se apaixonar pela mulher de um antigo retrato, tenta de tudo, até que viaja no tempo para encontra-la e mostrar o seu amor, é emocionante. E, tudo isso, somado com uma das trilhas sonoras mais lindas que já ouvi, composta por John Barry e reforçada pela inspiradíssima "Rapsódia Sobre um Tema de Paganini", do Sergei Rachmaninoff, tira lágrimas até das paredes. Mas se você não tem paciência para algo tão suave, pode ouvir o disco do Iron Maiden, que também é muito bom.

Enfim, desde sempre pensamos em formas de alterar o curso da história, em como seria bom refazer, melhores, muitos dos passos já dados. Mas, dada a impossibilidade física da viagem no tempo, ficamos nostálgicos e frustrados. Entretanto, esse pensar no tempo nos traz um bem inestimável: valorizamos o presente. No fim, não importa muito se o tempo é um lugar no espaço, um lugar psicológico, se não é lugar nenhum ou sequer existe, só temos a certeza presente é bem real. Fica claro, então, que, se o passado não se muda e o futuro não se alcança, só nos resta o agora como único momento de atuação, no qual temos total poder de verdadeira mudança. E se podemos e queremos mudar nossas vidas, a nossa história, que seja agora. Só pode ser agora.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Filme : Que Horas Ela Volta [2015, Anna Muylaert]



Uma certa angústia diária tem nos tomado o coração e nos transformado em prisioneiros sabe-se lá de que. Mas o que são e de onde vêm estas grades e algozes que nos afligem?

Assisti ao filme Que Horas Ela Volta, no qual Regina Casé interpreta a Val, uma empregada doméstica, daquelas que mora na casa dos patrões. Seria apenas mais uma produção nacional criticando a cultura elitista e marginalizante do Brasil, mas o jeito sutil e leve com que os temas surgem demonstrou o cuidado da diretora em não fazer apenas mais um filme que choca a audiência sem conseguir provocar uma reflexão válida.

Eu não iria resenhar o filme, mas à partir do momento no qual a história começa a caminhar para a resolução, entendi um recado que, talvez, nem fizesse parte dos planos da diretora: neste filme todos são vilões. Todos são vilões para os outros, é claro, e para si mesmos, martirizando-se sem perceber. Então, além da crítica social, descortinava-se uma mensagem de busca pela verdade íntima de cada pessoa, de equalizar-se consigo mesmo e com a vida, para minimizar os sofrimentos e embarcar numa existência mais leve e tranquila. Minha busca pessoal estava na tela.

Em cada personagem fica evidente um traço psicológico dominante que, ao sobressair dos outros causa o mal-estar em que vivem. Bárbara, é a mãe, orgulhosa e vaidosa; Carlos é o pai, sonhador, melancólico por não ter se realizado, beira a loucura; Fabinho é o filho, a inconsequência juvenil, a abençoada ignorância dos mecanismos da universo; e, por fim, temos Val, a empregada, como personagem principal, que de tão humilde é subserviente e sem amor próprio. Todos cegos de sua condição e dependentes um do outro, cada um puxando o peixe pro seu lado e mantendo esse sistema doente em equilíbrio.

Vivem confortáveis até chegada de Jéssica, filha da Val que, por ser vaidosa, sonhadora e jovem, consegue conversar com todos, de igual pra igual. Mas, por não ser muito humilde, não o dialoga com a própria mãe. Quando se agrega ao sistema de relações da casa, Jéssica e o desarmoniza e derruba, mas graças a isso, permite que sua mãe, ao tentar restabelecer a ordem à qual dedicou a vida, se reencontre.

Através de vários acontecimentos da história, Val percebe que também pode comandar a própria vida, ultrapassar alguns limites, querer algo mais, coisa impensável antes da chegada da filha. E a angústia se resolve quando ela, após o caos, equaliza todos os caracteres de si mesma, sem excessos e pelo amor. Ela dilui sua humildade e subserviência em pitadas do orgulho próprio de Bárbara, algumas doses da inconsequência juvenil de Fabinho e volta a sonhar os próprios sonhos como Carlos.

E foi assim que, despretensiosamente, Val respondeu a questão do início desse texto, mostrando que nós mesmos criamos nossas prisões e algozes ao nos desconectarmos de nós mesmos. Fugimos da nossa essência, ignoramos nossos sonhos e necessidades em detrimento de preconceitos, medos e necessidades sociais questionáveis. Por isso que, ao final do filme, estávamos Val e eu, ambos com os olhos marejados e o mesmo sorriso de esperança no amanhã, enquanto as luzes do cinema se acendiam.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Filme : Neruda - Fugitivo [2014, Manuel Basoalto]



Memórias. Cheiros, sabores, cores e texturas, a vida está guardada aí. É o que nos constrói, é o que, somado, somos. E quanto mais próximos da infância voltamos, mas próximos chegamos da nossa alma pura, da nossa essência, escondida sob cascas e mais cascas de vida vivida, gasta e endurecida.

Zigmund Freud, com sua Psicanálise, já nos atentava que olhar para o nosso passado, não é só olhar pra trás, é olhar para dentro e para o fundo, é reencontrar-nos nus e castos, curiosos e impressionáveis. É autoentendimento, oportunidade de resgatar verdades e sonhos, de nos realinharmos com a pureza original e com quem realmente somos. Sabendo disso, Manuel Basoalto tentou, em filme, revelar a essência de um parente seu, por parte de mãe: Neftali Ricardo Reyes Basoalto, o maior poeta da Sudamérica, conhecido pelo pseudônimo Pablo Neruda.

O filme Neruda – fugitivo não é uma biografia ou filme histórico. Basoalto (o Manuel), deixa de lado a história política do Chile e os esquemas intrincados da fuga de Pablo Neruda para a Argentina, à cavalo, através dos Andes, por motivo de perseguição política; ignora o antes, o durante e o depois da vida de Neruda e dos outros personagens da trama e nos mostra o que pra ele é o real tema do filme: de onde vem, como sobreviveu e como se expandiu a poesia de Neruda após tão traumático e difícil período de clandestinidade de quase seis meses (setembro de 1948 à março de 1949), dos quais boa parte foram passados às margens do Lago Huishue, no Chile. O importante aqui, como já disse o principezinho de Sain-Exupéry, "não se vê com os olhos". O importante para Manuel Basoalto, me parece, é entender como, durante a fuga, Pablo Neruda se tornou uma força da natureza, uma entidade Sulamericana, como a própria Cordilheira dos Andes.

O filme retrata o íntimo do poeta em seu mergulho na America do Sul e em si mesmo, revisitando os lugares onde passou a infância, nos arredores de Temuco, onde ainda muito jovem aprendeu a amar a vida e a poesia. Durante todo o filme vemos ecos de seus versos nas pessoas que o acolhem em suas casas; caminhando por entre as florestas que ele atravessa; transpirando pelo seu corpo cansado ou pela vegetação andina; derretendo feito a neve dos andes e escorrendo pelo curso dos rios que ele cruza; sussurando em seus ouvidos feito brisa ou ventando em tormenta nos vales que o escondem; cantados nas canções, ao lado das fogueiras gauchas, nas noites frias dos acampamentos; chovendo torrencialmente e trovejando ou pingando em lágrimas de saudade da sua amada esposa "Hormiguita" e da vida tranquila que abdicou por um bem maior, um Chile livre do autoritarismo e da violência estatal.


Pablo Neruda às marges do lago Huishue, no Chile.

Neruda vivia poesia, que para ele era uma coisa da vida como todas as outras, como a política, o trabalho, o dormir ou acordar. Nunca deixou de escrever (e carregava sempre consigo sua máquina datilográfica portátil), criando, durante os quase seis meses de fuga, a maior parte do livro de poemas "Canto Geral", publicado em 1950, uma espécie de Livro do Gênesis da América do Sul, versejando, nos 231 poemas divididos em 15 Seções (Cantos), sobre a identidade Sulamericana. Percebe-se mais a influência do Canto X  que, não coincidentemente, se chama "O Fugitivo (1948)"  do já citado Canto Geral no roteiro de Manuel Basoalto, do que do livro histórico/biográfico Neruda : Clandestino, de José Miguel Varas, citado como referência pela maioria da crítica especializada. Talvez por isso o filme soe mais como um poema do que como um filme biográfico normal.

Assistir ao Neruda - fugitivo é como ler os poemas de Pablo Neruda, vendo seus versos saltarem incontáveis vezes nas falas e imagens do filme. É sentir a granulação da película, que envelhece e deixa tudo com cara de memória, de página de livro; é entender o faixo de sol que surge por entre as árvores enquanto poeta abraça sua amada "Hormiguita"; é encarar com reverência a Cordilheira que, imponente, abençoa o continente, mas, vilã, afasta o poeta da liberdade e da vida; é ouvir o canto dos rios, que correm feito sangue, o sangue latino, pelas veias abertas da América do Sul, entidade materna, de cujo barro foi forjado o povo Sulamericano. E, talvez, o mais importante: é, não só vislumbrar o íntimo do poeta Neruda, mas também sentir, lá no fundo de nós mesmos, debaixo de camadas de corpo e rocha, os chamados do Continente e da Poesia de que somos feitos.


Ps: Tocou-me tanto esse filme, que me inspirou o texto de semanas atrás, escrito na noite e dia seguinte à sessão de cinema. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Filme : Um pombo pousou num galho de árvore, refletindo sobre a vida [Roy Anderson, 2014]


ou : não acredite nas sinopses.


"Comédia sobre dois vendedores ambulantes, Sam e Jonathan, que estão cansados do mundo.", era tudo o que me dizia o prospecto do Cine Belas Artes sobre o filme que eu iria assistir naquela noite. Miseráveis 86 caracteres, contando espaços e pontuação. Nem um filme ruim do Edie Murphie se explica em 86 caracteres! Que cilada! Já a sinopse do filme da sala ao lado, Winter Sleep, com seus três períodos e mais de duas centenas de caracteres, deixava o meu filme mais desinteressante ainda. E se não bastasse, eu me reconheci na história do concorrente, sobre um escritor de textos altruístas, que durante intrincada trama invernal se revelava um hipocrita maligno. Mas acabei reconhecendo que, na verdade da vida, eu deva estar mesmo mais próximo de um pompo sentado num galho e refletindo sobre a vida do que de um escritor de psique conturbada que suponho, ou adoraria, ser.

E agora, o que fazer se o trailer do Youtube foi convincente e os ingressos já estavam comprados? Bom, ainda me restava o benefício da dúvida, a esperança de que o autor da sinopse estivesse um tanto – melhor se completamente – enganado ou então eu teria de enfrentar uma simples comédia Sueca mesmo. De qualquer forma, já me sentia no lucro, afinal, o filme já tinha me jogado numa montanha-russa de sentimentos antes mesmo que eu entrasse na sala.

Resignado e instalado em minha poltrona, logo nas primeiras cenas do filme comprovo, aliviado, que o autor da Sinopse estava enganado e fui surpreendido por um ótimo filme de arte Sueco. Sei que a vida, por mais trágica que seja, tem seu lado cômico, mas denota-se uma certa falta de tutano classificar esse filme como uma simples comédia. E as pouquíssimas risadas que ouvi durante a projeção também comprovariam a minha teoria.

Como é de praxe nos filmes de arte, existe a intenção de se questionar os padrões e processos utilizados pelo cinema comercial, o tal Cinema Hollywoodiano. E essa mania começa na própria classificação do gênero do filme, que é feita baseada no estilo da narrativa e desenvolvimento da trama, que pode ser suspense, terror, aventura, romance, comédia e etc. 

Em algumas entrevistas, Roy Anderson, que é o diretor desse filme, já se dizia cansado de contrar histórias da forma tradicional, com começo-meio-fim, e daí veio a opção dele em filmar uma Antitrama, um roteiro sem narrativa, onde não se apresenta os poersonagens, nem a problemática, nem há desenvolvimento da história e muito menos resolução de qualquer questão levantada. Mas isso não significa que o filme seja sem sentido, a ausência de narrativa está apenas no filme, entretanto acontece dentro da cabeça de quem assiste. É o expectador o responsável integral por dar sentido ao emaranhado de cenas que o diretor nos apresenta, já que em momento algum ele nos sugere o que pensar ou como agir frente a tela.

Dessa forma, Roy consegue que a mesma película se transforme em diversos filmes diferentes, conforme são diferentes as pessoas e sesus universos simbólicos e culturais. Ele nos tira do papel de mero expectador e nos faz, de forma mais evidente e necessária do que outros filmes de arte aos quais assisti. Não sei se existe essa diferença na língua Suéca, mas em bom português, poderiamos dizer que Roy nos faz conjugar o verbo assistir em suas duas regências, simultaneamente assistimos ao filme e o filme.

Enfim, é esse tipo mais amplo de percepção que vai deixar a experiência do Um Pombo Pousou... mais emocionante. Caso contrário, se você é daqueles que pensa muito pouco sobre quase nada, prepare-se para assistir (se conseguir ficar até o final) ao filme mais chato da sua vida.

O filme, acertadamente, se inicia com três cenas (reflexões) sobre a Morte, a mais antiga e universal reflexão da história humana que, como diriam os Unidos do Caralhaquatro, "desde os tempos mais primórdios", ela está aí, despertando desde a mais minúscula migalha de filosofia que cada um de nós carrega até a nossa mais evidente angústia. Isso já sensibiliza a todos da platéia sobre abordagem filosófica necessária para aproveitar o filme. Além do mais, as três cenas trazem consigo as chaves mestras para interpretar o restante das cenas: a Rotina, a Ganância e a Solidão. E é por essa lupa que Roy Anderson sugere interpretarmos o filme e, não só o filme, mas também as nossas próprias vidas.

Altamente simbólico, prato cheio pra quem gosta de semiótica, tudo no filme pode ser interpretado em muitos níveis, o que me impossibilita de descrever e comentar as cenas em mais detalhes, já que elas terão significados e impacto diferentes em pessoas diferentes, mas posso fazer um esforço sobre alguns aspectos:

Os cenários de aparencia artificial, em cores pastel e sem graça, com poucos detalhes e objetos de cena, tão sem graça quanto a vida da maioria das pessoas do filme (e por que não do mundo real também?); A cara extremamente pálida dos adultos, entediados e doentes, em contraponto com as feições mais rubras das poucas crianças que aparecem usando cores ao seu redor e se divertindo, alheias à realidade sombria e às frustrações da vida adulta; A camera estática, nos colocando como o tal pombo do título (com direito a arrulhadas em cena ou outra), simplesmente observando o desenrolar da vida daqueles humanos que passam, como as pessoas que dizem "Que bom saber que você está bem.", que em geral não estão bem, muito menos felizes, ou, no mínimo com inveja; Enfim, luzes, cores e movimentos onde a vida pulsa e penumbra, morbidez e estaticidade onde a vida já não existe mais com tanto vigor. É assim que se desenvolve o filme, num surrealismo delicioso pra quem aceita o convite à reflexão.

E os dois vendedores da sinopse aparecem onde, afinal? Eles são os personagens que mais aparecerem no filme. Moram num hotel que vezes parece um hospício, vezes um presídio, e insistem em vender artigos engraçados que não tem graça para pessoas tristes que não tem mais interesse em diversão. Vale citar uma passagem próxima do final do filme, na qual um deles, o mais sentimental, levanta uma questão existencial profunda e importante no meio da noite: "É correto usarmos outras pessoas para a nossa própria diversão?" e é dissuadido de continuar a pensar nisso, pois já é tarde e todos ali tem que dormir para poder acordar cedo e ir trabalhar. Nada mais contemporâneo e verdadeiro do que a triste realidade na qual a maioria das pessoas no planeta vive: deixando as próprias verdades de anseios de lado para poder, no outro dia, acordar cedo e cair na rotina robótica do trabalho que não as realiza como pessoa nem como ser humano.

E há mais, muito mais reflexões que se despertam das nossas profundezas, para a luz de nós mesmos durante esse filme. No fim das contas, até entendi os motivos do sujeito que fez a sinopse esconder a natureza filosófica do filme. Ele sabia que, certamente, espantaria muita gente que preferiria voltar para o sossego do lar, pois tem coisa mais importante pra fazer do que refletir sobre a própria vida: trabalhar logo cedo no dia seguinte, como todo mundo faz, desde sempre.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Filme : O Ladrão de Sonhos [1995, J.P. Jeunet e M. Caro]



Quanto nos custa sonhar? Qual o valor desses sonhos? Uma vida sem sonhos não deve ser fácil, a imagino árida. Krank, um velho rabugento e sem alma, criado por um cientista louco, sabe muito bem o que é uma vida sem sonho, pois ele não os tem. Ele, o próprio ladrão de sonhos, é que dá o título em português para o filme La Cité des Enfants Perdus, pois em desespero, tenta roubar os sonhos das crianças que sequestra para sua fortaleza isolada em alto mar. Mas só consegue pesadelos. Pobre Krank, desesperado, envelhece a cada sonho que não tem. E deve funcionar assim conosco também.

Mas essa não é a única referência à nossa psique existente nesse excelente filme, dirigido pela dupla J.P. Jeunet e Marc Caro e lançado em 1995. No mundo sombrio que eles criaram, cercados de água por todos os lados, desfilam personagens estranhos: aberrações de freak show com suas paranóias, guerreando entre si; um cérebro preso num aquário, dotado de sabedoria e enxaquecas, mas sem membros, depende dos outros para agir no mundo; uma trupe de clones que, juntos, não valem por uma pessoa sequer (como toda massa popular cheia de "iguais"); adultos infantilizados e/ou neuróticos; crianças sérias, com comportamentos bastante adultos; e até mesmo uma seita que prefere cegar-se ao ver os problemas do mundo e resolvê-los, aguardando algum messias que vá colocar tudo em ordem para, aí sim, eles voltarem a abrir os olhos e desfrutarem do paraíso. São todas caricaturas de nós mesmos, ou quem sabe, uma reprodução do caos interior de cada um de nós e de todos os elementos que o compõe. E não posso deixar de lembrar da figura da princesa anã, nada mais do que a imagem do amor artificial que, prisioneiro, escravizado e servil não cresceu, se deformou.

Com uma ambientação tão bonita, que conta, inclusive, com figurinos de Jean Paul Gaultier, uma cenografia tão importante quanto uma personagem da trama e um universo subjetivo complexo, atraente e rico – o que é bem comum no cinema de arte europeu – a busca do herói One e sua parceira Miette, por seu irmãozinho sequestrado pelo Ladrão de Sonhos é um mero detalhe, é só mais um dos elementos desse conto de fadas para adultos que conspiram para que, assim como aquele velho rabugento do Krank, nós também percebamos que sonhar é necessário para se viver e que até mesmo as aberrações têm esse direito.



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Filme : A Última Gargalhada [1924, Friedrich W. Murnau]



Era um homem orgulhoso de seu emprego. Executava cada tarefa com o prazer e a desenvoltura de um mestre em sua função. Sentia-se tão imponente em seu uniforme que fazia questão de voltar pra casa nele vestido. Andava altivo, esbanjava orgulho; era admirado por sua família e pelos vizinhos. Sentia-se a melhor pessoa do mundo.

Sentia vergonha de seu emprego, voltava para casa escondido. Ninguém poderia vê-lo daquele jeito, com aquela roupa vulgar que vestia. Não conseguiu se esconder por muito tempo, descobriram-no. Humilhado e ridicularizado por sua família e conhecidos, odiava sua vida. Sentia-se a pessoa mais desprezível do mundo.

Apesar de não parecer, os dois parágrafos acima contam a história da mesma pessoa e de como ela convive com o repentino destroçar de seus sonhos e a impossível manutenção das aparências. Agonia e alivio, fartura e miséria, inferno e paraíso. São os contrapontos da vida que dão as “cores” em “A Última Gargalhada” (The Last Laugh, 1924) – ou em Alemão “Der Letzte Mann” (“O Ultimo Homem”) –, filme que consta na minha lista de preferidos da vida.

Dirigido por Friedrich W. Murnau – que também dirigiu o clássico Nosferatu, em 1922 –, "A Ultima Gargalhada" é um filme mudo e em branco e preto, mas com uma carga emocional tão grande que estes detalhes apenas realçam um trabalho genial de direção, atuação e produção, o que faz desta película um ícone não só do Expressionismo Alemão, mas do cinema mundial.

A Escola Expressionista Alemã foi um movimento artístico de vanguarda, um fenômeno cultural que no final do século XIX e início do século XX, foi catalizado por todas as formas de arte da Alemanha. Sua estética era baseada mais na emoção do que na razão, suas características mais marcantes eram os ângulos acentuados; cores contrastantes como verde, vermelho, amarelo e preto (isso quando havia cores); maquiagem pesada que muitas vezes descaracterizava os traços humanos dos personagens, outras vezes os enfatizava, revelando de forma mais marcante (expressiva) as suas características subjetivas. No cinema abusava-se dos contornos sombrios e dos contrastes marcantes entre o negro e o branco. Os autores expressavam uma visualidade subjetiva, mórbida e dramática. A realidade, o fato concreto e seus detalhes, eram deixados em segundo plano em detrimento do sentimento que o artista tinha em relação a esse fato. O Expressionismo era o contra-ponto ao Impressionismo, este sim acadêmico, calcado na racionalização da realidade, inspirado na nova coqueluche da humanidade: o método científico.




O filme discute civilização como escrava da aparência. A falsa posição social adquirida pelo personagem principal (interpretado po Emil Jannings) através do uniforme que veste, seja na portaria ou no banheiro do Hotel Atlantic, pode esconder, não o exime da verdade de que ele jamais deixa de ser apenas mais um proletário. A farsa social desmorona frente à descoberta de seu rebaixamento de função por seus vizinhos hipócritas e mais miseráveis ainda, que o atacam e desmoralizam por ele simbolizar tudo o eles temem se tornar ou já são e não suportam ver.

Outro detalhe interessante a ser notado é que as ótimas interpretações dos atores somadas à bela fotografia expressionista, escancaram o psicológico dos personagens a ponto de tornar obsoletos os tradicionais cartões com os diálogos escritos entre as cenas – e nem se nota falta deles. Bem, para não dizer que não há cartões, eles aparecem apenas duas vezes: uma é a carta que rebaixa o porteiro de posição, a outra é para anunciar o epílogo.

Este filme foi o primeiro a utilizar uma câmera portátil, chancelando o rótulo de inovador de Murnau, o diretor. Logo na primeira cena do filme o cinegrafista amarra a câmera no peito e faz a tomada andando de bicicleta pelo lobby do hotel. Só não se assustem com o final nada inovador, meio novela das oito: o final original (e trágico) idealizado pelo diretor e pelo roteirista foi alterado a pedido dos executivos do estúdio, que preferiam um final feliz. Portanto não culpem os gênios expressionistas por este escorregão.

Enfim, “A Ultima Gargalhada” não é simplesmente uma boa história provocadora de reflexões sociais ou algumas lágrimas, é muito mais, é um grande exemplar do cinema de arte, contestador e inventivo, que nos leva além do prazer de assistir a um ótimo filme.



Aproveite e assista ao filme, na íntegra:















Originalmente publicado no Culturanja de 9 de abril de 2008. Revisada e reeditada para esta publicação.