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sábado, 23 de setembro de 2017

Meias verdades, mentiras inteiras



“Eu sugiro a todos os meus amigos que eles parem de ver as notícias, porque as notícias tramam para te amedrontar, para te fazer sentir pequeno e solitário, para te fazer sentir que sua mente não é sua."


Este é o refrão da mais nova canção do Morrissey, Spent my day in bed, lançada neste dia 19 de setembro. E, afastando os exageros de qualquer teoria da conspiração sobre o assunto, ele tem razão. Não é novidade o poder de convencimento de uma informação chancelada pelos dos grandes veículos midiáticos que, culturalmente, durante nossa história social, foram eleitos como filtros válidos e eficientes de qualquer informação. Se está nas redes de TV, nos grandes periódicos ou nas rádios, é sinal de que o assunto é importante, é verdadeiro e merece nossa atenção. E eles sabem muito bem disso e se utilizam desse expediente para se beneficiarem.

E nós, descuidados que somos, acabamos reféns deste mundo editado e incompleto, onde existe a prevalência do mal em detrimento do bem. Onde há mais desastres e guerras do que belezas e atos de caridade. Sequer lembramos que a preferência pela veiculação destes fatos se dá pela grande audiência que eles geram, culpa de muitos gatilhos psicológicos e culturais nossos, que já são bastante conhecidos e utilizados contra nós. E é por isso que o refrão do Morrissey é um alerta e sugestão importante.

Entretanto, abster-se da informação não é o melhor método. Deveríamos aproveitar a polarização da produção de informação que a tecnologia das últimas décadas nos proporcionou, e começarmos a relativizar mais ainda esta chancela de veracidade e qualidade da informação, colocando em xeque o poder de manipulação da "grande mídia" e criando meios de averiguar a realidade acerca dos fatos divulgados. Entretanto, ainda existe uma grande maioria do mundo que não tem o acesso a essa nova via de informação ou, quando tem, tem a preguiça, ou não tem o costume de consultá-la. Não fomos educados para questionar e averiguar tudo o que ouvimos por nós mesmos, fomos acostumados a delegar essa nossa obrigação – dentre tantas outras – a o que, antigamente, chamávamos de "veículos oficiais" e, hoje são as redes sociais, de critério altamente questionável, nos levando a um fundo de poço escuríssimo, onde a verdade dos fatos é um mero adereço descartável, um lugar que muitos tem chamado de Pós-Verdade. Mas fico com os que chamam isso de retrocesso ou burrice, o que devemos combater com todas as forças.

Por isso, numa época em que todos podemos gerar informação de longo alcance, que nos escapa do controle, é importante relembrarmos da responsabilidade de quem fornece informação e pelas influências psíquicas que ela causa. E, também, não menos importante é a de quem recebe a informação, de como a interpreta e como a repassa. O desconforto e o conforto do mundo passa por nossas mãos e mentes, de uma forma bastante prática, através das redes sociais. Aquela notícia falsa, opinião equivocada, discursos de ódio ou preconceituosos, mesmo que pareçam inofensivos, não são, pois são replicados aos milhões e, nessa reiteração constante contribuem para o grande mal estar generalizado que se espalha pelo mundo, gerando desanimo, depressão e seus desdobamentos mais funestos. Uma mentira repetida mil vezes continua sendo uma mentira e a responsabilidade por todo o mal que ela causa é, sim, toda nossa.

sábado, 16 de setembro de 2017

O problema e a solução

Milênios de história e os que nos governam vem tomando as mesmas péssimas atitudes de sempre. O descaso com o Povo e a despreocupação em criar mecanismos para que todos ou, pelo menos, a maioria consiga desenvolver uma vida digna, atingindo objetivos e realizando sonhos não é de hoje. E mesmo assim, nós também temos tomado a mesma péssima atitude de mantê-los ali, no comando e na folia, mesmo cansados de saber que as soluções nunca vieram "lá de cima", pelo contrário, de lá só vieram os problemas. É evidente, e sempre foi, que a mudança é um trabalho nosso, do Povo, por isso deveríamos estar todos unidos a nosso favor, pelo bem comum, e não nos digladiando por ideologias, ou por quem jamais nos defendeu ou ajudou sem sequer demonstrar qualquer sinal de remorso.

Junto com as notícias mais recentes, o texto abaixo me inspirou o poema "Excelência,". Ele é trecho da biografia de Anália Franco e descreve fatos de 100 anos atrás, mas que poderiam ser atuais, em qualquer esfera do poder público.

"(...) O ano de 1918 não pareceu diminuir as dificuldades do povo paulista, castigado por um inverno excepcionalmente frio, com grandes prejuízos para a lavoura e a temperatura chegando a marcar mais de 3.C negativos. Devastadoras ondas de pragas invadiram seus campos diminuindo a oferta de alimentos e, particularmente na capital, as chuvas elevaram o nível dos rios Tietês, Tamanduateí e Pinheiros, causando inundações e paralisação quase total dos trens. Enquanto isso, o prosseguimento da guerra na Europa mobilizava a grande e apreensiva massa de imigrantes fazendo crescer a tensão social.

E seria com esse cenário que a progressiva são Paulo veria chegar o auge de suas agruras com a pandemia da gripe espanhola que revelou uma Saúde Pública totalmente impotente e um desencontro total entre autoridades e médicos. Enquanto durou a epidemia, a Câmara Municipal não funcionou porque os representantes do povo acharam ser sua integridade mais importante que a do povo que os elegeu e trataram de deixar a cidade. Ante o desmazelo e o despreparo do poder público, a sociedade civil teve de organizar-se para evitar o aumento da catástrofe, enterrando os mortos em valas comuns, tentando tratamentos alternativos para os doentes, improvisando hospitais e dividindo os escassos alimentos.

A vida, naquele fim de 1918, não valia nada. O medo pairava no ar. Ninguém poderia julgar-se imune ou protegido e, ao menor sintoma, o desespero tomava conta de muitos, verificando-se, então, uma onda de suicídios, de homicídios e de tragédias. A falta de recursos médicos, a desinformação, a irresponsabilidade de políticos e médicos só foi compensada pela capacidade com que a população soube se mobilizar."


in MONTEIRO, Eduardo Carvalho. Anália Franco - A grande dama da educação brasileira. 1a. Edição: São Paulo, Madras, 2004. p. 220

sábado, 9 de setembro de 2017

Reflexões às margens do Ipiranga

Neste 7 de setembro, estive no Parque do Ipiranga, aqui em São Paulo, para as comemorações da Independência do Brasil. A imaginação excitadíssima por estar no mesmo lugar onde, há 195 anos atrás o Imperador Pedro I recebeu um comunicado de Portugal, com novas diretrizes da coroa e, não contente com o que leu, resolveu que era hora do Brasil ser um país independente. Os detalhes da operação, se houve grito, cavalo branco, mula ou diarréia, pouco me importa, é apenas detalhe tão útil quanto a cor das ceroulas do imperador naquele dia ou das minhas nesta tarde.

De qualquer forma, foi muito emocionante cantar o Hino à Independência e o Hino Nacional, executado pela orquestra da USP, ao por do sol; olhando o Monumento à Independência, onde estão os restos mortais de Dom Pedro I, bem ao lado do Riacho do Ipiranga.

Mas, mesmo envolvido entre tantos símbolos nacionais, toda a pompa e circunstância e o respeito que o evento demandava, não pude evitar pensar : "Independência do que? De quem?". Realmente, apesar do evento histórico, apesar de termos nosso próprio governo, de fato, de verdade mesmo, nunca fomos um país independente. Talvez nenhum país o seja realmente, talvez não haja independência de verdade em lugar nenhum.

O fato é que sempre dependeremos de alguém. De alguém que nos pague um salário, de alguém que compre do que produzimos, do agricultor que planta nosso alimento, da planta e dos animais que o fabricam, das moléculas vitais que estão no ar que respiramos, de cada órgão e célula de nosso corpo que nos forma e permite a vida, da luz do sol que permite as condições energéticas e climáticas para a vida... enfim, é um ciclo infinito de interdependência em muitos níveis.

Da mesma forma funciona entre as nações do mundo. Há os que compram, os que vendem, os que produzem e essa relação se desdobra em quem manda mais ou menos, quem pode mais ou menos. A dinâmica das relações é sempre a mesma, e não é estática, pode ser alterada no desenvolver do tempo, por inúmeros fatores.

E, de repente, percebi que esse raciocínio derrubou a própria questão que o criou. É muito primário, quase infantil, ficar questionando "independência por que? de quem? de que?", pois, de fato, isso não existe. A independência, que só existe se for completa, pois, se incompleta, ainda é dependência, é uma ilusão. Somos dependentes de tanta coisa que é melhor reconhecer que não existe, verdadeiramente, a independência. E qualquer luta para conquistá-la é vã, é quixotesca, para deixar mais poético.

Portanto, é melhor reconhecer que, para nos mantermos vivos e bem, precisamos de todas as coisas que existem, até mesmo de coisas que ainda nem sabemos. Trabalhando, assim, uma vida realmente melhor e mais leve, que não se desgasta na busca de uma superioridade impossível, mas que, através desse paradigma mais respeitoso e grato com tudo que nos cerca, nos coloca novamente no nosso lugar como intermediários, e não como finalidade do universo, que faz a vida chegar até nós para que a passemos adiante grata e caridosamente.

sábado, 26 de agosto de 2017

A beleza das saudades

Há dias em que memórias se revolvem e voltam à superfície, e trazem consigo todas as sensações tão vivas que parecem lembranças da véspera ou de poucos meses trás, no máximo. Nos últimos dias, trabalhei estes versos e as saudades da minha saudosa avó, Luzia que, há quase 7 anos, partiu para cumprir seu papel em outras dimensões.

Acredito na ausência total de qualquer separação entre todas as coisas, não há espaços vazios entre tudo o que nos cerca, seja no universo tangível ou não. Estou certo da interação constante entre tudo, inclusive entre os diferentes planos da existência. É por isso que, agora, qualquer saudade está longe de ser ruim. Agora, toda saudade, toda memória que ressurge sabe-se lá de onde em mim, é sinal de que a outra testemunha, que compartilha destas memórias, está ou esteve por perto, passando pra dar um oi, pra conferir se tudo vai bem, e cochicha nos meus ouvido as tantas coisas boas que vivemos juntos.

Me agrada saber que, de alguma forma, estive novamente envolvido carinhosamente pela minha avó. Pude até sentir o cheiro de Creme Nívea que habitava seus abraços e ouvir o estalar dos chinelos pelo chão da casa, enquanto vasculhava o coração atrás das palavras certas pra estes versos. Obrigado pela visita, querida avó. Volte sempre. Foi, e será sempre, uma alegria imensa compartilhar mais alguns momentos com você.

sábado, 5 de agosto de 2017

Reconhece a queda e não desanima...


"Rico, de nada há servido as suas riquezas. Novo Plutus, como bem diz um escritor, vive no meio delas sem poder utilizá-las. Não há país onde se fale tanto em riquezas como no Brasil. Entretanto, em nenhum outro é tão difícil a vida, e tão incerto o futuro dos cidadãos. É que nossa sociedade infelizmente ainda não se compenetrou da necessidade da instrução e da ideia do trabalho livremente exercido e compensado sem distinção de sexos nem de posição. Se é como se diz, lei invencível das coisas humanas, que cada nova liberdade peça em contrapeso uma nova virtude, cada novo direito imponha um novo dever, cumpre aos que dirigem os nossos destinos traçarem com a segurança da experiência e da observação o caminho que devemos seguir para a paz e o engrandecimento da nação.

(...)

Os mil espinhos e dificuldades que são outros tantos embaraços para a realização de tão nobre intento não devem ser motivos de desalento, porque as transformações sucessivas do mundo material e moral nos estão apontando aos brios da dignidade e às palmas do triunfo que só se alcançam com a perseverança.

Nesta época de corrupção e de falsos prestígios que quase tem sido só um triunfo da mediocridade, e cujas más influências parecem tender em toda a parte a paralisar o caráter e o talento, no meio dos males que nos oprimem, volvemos os olhos cheios de fé para os horizontes do porvir. Animando-nos a esperança de que aqueles que a dirigem amarem verdadeiramente a pátria e compreenderem suas necessidades, hão de formar do Brasil um corpo social mais em harmonia com as ideias do século, elevando-o assim a ocupar o lugar que lhe compete entre as nações do mundo.

Na aurora de 1889, nasceu em França uma ciência nova, tendo por fim estudar os fenômenos sociais, principalmente na produção, na distribuição e no consumo das riquezas. É preciso que ela também apareça entre nós e que sua luz penetre em toda parte a esclarecer as classes oprimidas, manifestando-lhes os esplêndidos triunfos da ciência hodierna.

A verdadeira grandeza de um Estado, diz Worlz, "depende dos cidadãos que o governam e se empregam em elevar as almas e inspirar ideias generosas em vez de vil escravidão". República e ignorância são duas palavras que se contradizem e que se repelem; assim, a única garantia de sua consolidação está na instrução do povo e numa legislação que possa consolidar, tanto quanto o nosso século permite, os interesses de segurança com o voto da humanidade.

E como diz Barros, "quando a civilização tiver conseguido alcançar em toda a parte o abandono dos velhos usos da barbárie, a gerra deixará de ser possível, porque não haverá forças materiais que possam lutar contra as forças morais".

Não é, pois, a força bruta que constitui o elemento triunfal da Democracia, mas sim a força do espírito, que tem por si o suficiente influxo para resolver os mais elevados problemas sociais, econômicos e financeiros, para realizar os mais transcendentes prodígios.

Erguendo a minha voz humilde para saudar o IX aniversário da República, em conclusão direi como Berryer: "Não temais cidadãos em seguir o verdadeiro progresso do espírito humano que há de confiar, não em exércitos comandados por capitães mais ou menos hábeis, pois não é a força brutal, mas aos nobres combates de espírito, as lutas da inteligência o destino e a direção das sociedades."

Este texto não é meu e, apesar de pertinente, infelizmente não é atual. Foi publicado na revista Álbum das Meninas, n. 8, de 30 de Novembro de 1898, escrito por Anália Franco uma das grandes mulheres brasileiras, precursora do feminismo no mundo e merecedora de reverência e estudos nossos. Hoje, a palavra foi dela dada a sabedoria à qual me curvo tenho o dever de compartilhar.


in MONTEIRO, Eduardo Carvalho. Anália Franco - A grande dama da educação brasileira. 1a. Edição: São Paulo, Madras, 2004. p. 196-197.

sábado, 29 de julho de 2017

Mude!

Chega uma hora na vida de todos nós, quando o sofrimento é imenso; quando tudo parece não fazer mais sentido; quando reina na alma o sentimento de se estar perdido; quando o desconforto beira, ou até mesmo extrapola, o insuportável. Nessa hora é muito comum dizer que "a vida nos dá golpes fortes", como se ela fosse um tipo de entidade com vontade própria. Assim, usamos mais uma vez a nossa tradicional transferência de responsabilidades que deveriam ser nossas, mas legamos para a vida, para as pessoas, para as leis e, até mesmo para o clima.

Assim, nos enganando e falsamente isentos de responsabilidade, nos sentimos mais leves para continuar vivendo as mesmas ilusões, mantendo os mesmos comportamentos e nutrindo, inevitavelmente, os mesmos vícios até que se torne insuportável.

E é no insuportável que estamos chegando, mais uma vez, na história humana. O materialismo, relação primitiva que temos com as coisas já não é o suficiente para nos completar os anseios e nos dar o bem estar que procuramos, pelo contrário, atualmente só nos tem provocado o oposto: tristeza, dores, ansiedade, doenças psíquicas e físicas.

Tragédia atrás de tragédia. Mas todo sofrimento é um convite à mudança, insistir nos mesmos erros só perpetuará as dores. A ressaca vem para avisar que é pra beber menos da próxima vez; a gastrite vem pra avisar que é melhor comer menos e ficar menos nervoso. É nesta hora escura e difícil da existência, pela qual estamos passamos, que é preciso mudar a forma de agir e de pensar.

Enquanto for "a sociedade" que precisar mudar para o mundo melhorar, nada mudará. A sociedade não é ninguém, não é um ente que faz algo, ela não vai me ouvir, refletir e decidir se acata ou não o meu pedido. Quem muda e deve mudar sou eu. Sou eu que, mudando a mim mesmo, influencio os meus arredores e, após algum tempo, arrisco a perceber alguma mudança em maior escala.

Enquanto a mudança que desejo não acontecer, é sinal de que não mudei o suficiente ou não influenciei suficientemente os meus arredores. Então é preciso continuar o esforço, persistir infinitamente, até que o mundo se torne o bem que desejo, refletindo a mim o bem que eu faço a ele, conforme a Lei Universal que, invariavelmente e infelizmente, também vale para o mal. Portanto, vale sempre lembrar que o gatilho de qualquer mudança sou eu. E o mesmo se aplica a você. Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, já davam a dica: primeiro é "um por todos" para que, depois, possa haver o "todos por um".

E continuando entre as boas influências de grandes humanos que, no trabalho de evolução individual, mesmo em meio a tropeços e inúmeras dificuldades, o que certamente acontecerá com todos os que se dispuserem a viver melhor, tentaram sugerir caminhos e influenciar os seus arredores para o bem, lembrei da sugestão do Michael Jackson, na belíssima "Man in the Mirror" que, apesar de estar num disco de nome "BAD", tem uma mensagem muito bonita. Aqui vai um trecho:

Estou começando pelo cara do espelho
Estou pedindo para ele mudar suas maneiras
E nenhuma mensagem poderia ser mais clara:
Se você quer fazer do mundo um lugar melhor
Olhe-se a si mesmo e mude!
Mude!





sexta-feira, 23 de junho de 2017

Refazendo as malas

Quem viaja bastante sabe como fazer as malas é chato e difícil. Mas, também, sabe que uma mala bem feita, a menor possível, pode transformar a viagem de inferno a paraíso. Na vida, que é viagem, tudo é bagagem.

Lembro-me da infância com doçura. Eu e muita gente, sem dúvidas. Posso até sentir novamente a leveza daqueles dias, certamente geradas pela presença poderosa e segura do meu pai e de minha mãe, infalíveis. Tudo era sempre mágico e interessante e a mochila das experiências começa a ser enchida.

Passos além, na juventude adolescente, ainda crianças e pensando já sermos adultos, nos afastamos  alguns mais, outros menos  da segurança parental, e os dias pareciam ser os mais pesados de toda história humana e para sempre. Os revezes nos alcançam e as soluções estão cada vez mais em nossas mãos ainda inabilidosas. Sofremos, mas agregamos algum conhecimento de vida circulando entre ideias, processos e pessoas, aumentando o conteúdo da nossa mochila de viagem.

E o tempo continua a correr, e nós a envelhecer, ou melhor, amadurecer. Ainda estou longe de vestir as chinelas da senilidade e me despedir dos últimos resquícios de vigor, mas daqui, mais de perto dos 40 do que dos 20, com alguma experiência de vida a mais e capacidade de observação, mesmo que inconsciente, as ideias mudaram (inclusive na grafia), assim também os paradigmas de tudo, ou quase tudo, como os de qualidade, de bom e mal, de saúde e doença, de necessário e desnecessário. A mochila está cheia de souveniers da vida, está imensa e pesada, nada fácil de carregá-la, ainda mais para alguém, que apesar de insistir no contrário, já não é mais tão jovem.

Apesar da imagem física do envelhecimento que utilizei, o tempo aqui discutido não é o cronológico nem o biológico, mas o que se desenvolve na consciência. E nessa escala de tempo, que varia em cada um de nós, chegam momentos, sempre oportunos, quer gostemos ou não, de selecionarmos o que levamos a frente e o que fica pelo caminho. Aprender a manter o essencial, e apenas ele, evita carregarmos peso demais, que nos vai atrapalhar durante a próxima fase da caminhada. Então, antes escolher, em tempo oportuno, com calma, o que levar consigo, do que ter que se desfazer de toda a imensa e pesada mochila no meio de uma difícil escalada.

Quanto compôs "Monte Castelo", Renato Russo utilizou o Soneto V, de Luís de Camões, e trechos da primeira carta de Paulo aos Corintios. Nesta carta de Paulo há um trecho, que não foi utilizado na canção, que pode sintetizar bem a ideia desse necessário amadurecer, da necessidade de selecionar melhor o que se leva adiante, e adaptar-se às novas realidades que se apresentam, minimizando sofrimentos e facilitando a peregrinação pela vida. E com ele terminamos: "Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança. (1 Corintios, 13:11)".


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Sem festas, amigos! Ainda é preciso mais.

O movimento "Diretas Já", de 1984, apesar de ter sido a maior manifestação popular da história do Brasil, só não foi um fracasso completo porque gerou lideranças populares que conseguiram se articular politicamente e conquistar alguma representatividade na assembleia constituinte que geraria a Constituição Federal de 1988.

Sim, a PEC nº05/1983, que criaria as eleições diretas no Brasil, conhecida como Emenda Dante de Oliveira, mesmo com a massiva participação popular e com 84% de aprovação nas pesquisas de opinião, não foi aprovada; não passou nem na primeira votação na Câmara dos Deputados. Vale lembrar, também, que a maioria dos envolvidos na constituinte, os mais poderosos, ainda eram os mesmos de sempre, representantes do poder que já estava lá desde antes mesmo da fundação da República. E ainda são.

O ex-presidente Figueiredo, último dos militares, declarou posteriormente que o sistema militar estava insustentável e a única solução foi acabar com aquilo tudo. A nova constituinte chegou em boa hora. Numa grande encenação, mudariam o regime político, se garantiriam no poder, e ainda ganhariam aplausos do povo sempre desatento e deixado de lado. Sim, a ditadura militar acabou por que eles quiseram, para a sobrevivência deles mesmos.

Por isso, em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves, o grande articulador do desmonte do regime militar por ter acesso e diálogo com os dois lados do poder, foi eleito presidente do Brasil em eleições indiretas. Jamais deixariam que fosse diferente, era preciso alguém de confiança. Mas, acometido por grave doença "inoportuna", Tancredo foi o boi de piranha, faleceu antes de assumir o cargo, ficando para o seu vice, José Sarney, do, vejam só: PMDB.

Eleições diretas para presidente do Brasil só ocorreriam em 1989, após ser estabelecida na Constituição de 1988, e com as rédeas da carroça garantidamente nas mãos dos mesmos dirigentes de sempre. O vencedor desta foi Fernando Collor de Mello, com grande apoio popular em virtude da campanha contra "os Marajás" e a corrupção que fazia. Foi o boi de piranha da vez, atrairia votos e cairia, sofrendo impeachment, deixando a presidência para seu vice, Itamar Franco, do PMDB, é claro.

Semelhança com algum fato recente? É claro! A novela, o enredo, os personagens e problemas são os mesmos de sempre. Nós, o povo, é que não podemos mais ser os mesmos. O momento é delicado e, anotem: nos será oferecido um belíssimo teatro da democracia, muito em breve. Não podemos mais nos contentar com a encenação que sempre nos oferecem nessa hora. Devemos parar de gastar a nossa energia em lutas entre nós mesmos, isso cansa e enfraquece. Nossa energia e atenção deve ser canalizada para o acompanhamento minucioso e sério dos fatos que estão para se desenrolar na política nacional. Pedir "Diretas Já" é válido, mas é muito pouco. Ter eleições diretas é muito pouco. É preciso mais, é preciso usar o processo democrático de forma eficaz na renovação total dos agentes e dos valores políticos do Brasil. Atenção e serenidade é o que precisamos agora. A vida adulta da Nação se aproxima.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Nem tudo é relativo

Li um artigo que falava sobre o pensamento pós-moderno, que está na moda atualmente, e sugere ser toda construção racional uma imposição socio-cultural e, por isso, deve ser questionada e combatida, até mesmo com atitudes violentas. Assim, os pensadores pós-modernos apregoam por aí que tudo é relativo, que a informação e o contexto trazidos por qualquer texto não é mais importante; o que vale mais é o que foi recebido, filtrado pela vivencia e opinião do receptor, independente se essa informação é oposta ou até mesmo não está no texto.

Não há problemas se o texsto for artístico, inclusive, essa abertura de interpretação é, muitas vezes proposital. Entretanto, sugeria o texto que lia, ser perigoso quando se adota tal postura relativista sobre tudo, principalmente sobre o conhecimento científico, adquirido através do método e observações factuais, citando que já existem movimentos que lutam pelo fim da Ciência (esse engodo da classe dominante) e sugerem a bruxaria como substituta; ou ainda uma filósofa pós-moderna que admite ser possível considerar que uma girafa não é necessariamente mais alta do que uma formiga, pois até mesmo as proporções das coisas dependem de crenças e valores impostos de cima pra baixo. Fiquei assustado.

Se olharmos o mundo com um pouco mais de atenção, é possível perceber que grande parte das barbaridades que vivemos atualmente tem a ver com essa relativização geral das coisas, da ética, do método, do bem e do mal, do certo e do errado, etc. O consenso geral, um entendimento médio, não existe. Inclusive, questiona-se a utilidade dele existir. E quando um grupo não tem uma opinião comum sobre o que é importante, onde quer chegar, como ou quando é melhor chegar, por exemplo, cada um vai pra um lado, faz o que bem entende e nada progride, pelo contrario, regride.

Parece-me que o pensamento pós-moderno tem fortalecido a individualidade de uma forma burra. Antes eramos indivíduos, sim, mas células de um organismo que deveria caminhar unido. Hoje, tentam nos convencer que somos apenas células que caminham sozinhas, sem um corpo. E, conforme o que sabemos científica ou empiricamente, qual formato vai obter mais sucesso? Não vejo onde isso possa ser relativo, são milhões de anos de fatos.

Das partículas primitivas aos seres humanos, tudo, em algum momento, "percebeu" que viver em conjunto aumenta as chances de sucesso na existência. É lei da atração, é a comunidade, é o amor e, mesmo que existam hoje diversas ideias sugerindo o contrário, é evidente que elas estão equivocadas. Veja o que está na sua frente: estamos sendo estraçalhados pelo nosso egoismo e solidão, modus vivendi em grande parte sugerido por essa nova filosofia.

A união faz a força, sim. Desde as partículas minerais aos grupos sociais. E, mesmo que unidos não nos tornemos invencíveis, pois não somos eternos nem perfeitos, só unidos seremos mais fortes, e só unidos sobreviveremos.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Meu amigo Pedro

Sabe, o Pedro era um amigão, a gente trabalhou muito tempo juntos e, sempre quando chega o outono, esse friozinho chegando, eu me lembro daqueles dias. Acho que já se passaram uns quatro anos e eu ainda não acredito naquilo tudo. Você também não vai acreditar, mas... tudo bem, eu conto a história, não tem problema. 

Um dia chega o Pedro com esse papo besta, com essa ideia de que não quer mais saber de ser tão sentimental, que não vai mais se emocionar e nem se envolver com nada e nem ninguém. “To cansado dessa joça, pro inferno com isso tudo! Sentimento não tá com nada!” – ele falava. Imagina, logo de manhã, lá no escritório, com essa ideia maluca, a coisa só podia estar grave mesmo. A gente bem que tentou dissuadi-lo, até sugerimos terapia, mas não deu não. Foi piorando a cada dia. 

No começo ele simplesmente ficou mais quieto, menos opiniões, menos conversa fiada e essas coisas que a gente até entende. Depois parou de ir pro happy hour. Daí, umas duas semanas depois ele simplesmente não foi mais trabalhar. Trancou-se em seu apartamento e raramente atendia ao telefone. Eu fiquei preocupado, afinal ele estava levando aquilo tudo muito a sério. Insisti numa visita mas nada feito, ele simplesmente saiu de circulação. Nem demissão tinha pedido, o chefe ficou uma arara de bravo. 

A esperança era a Dona Nilsa que, uma vez por semana ia fazer a faxina no apartamento dele, mas ela não era daquelas muito atentas e nunca sabia falar nada sobre o cara, se tava bem, se tava mal... Ficamos definitivamente sem saber de nada do que se passava com o nosso amigo. Então, naquele mês, veio a calhar de um feriado bem no dia da faxina, e a Nilsa não foi, deixando Pedro duas semanas em completo isolamento. Alguns vizinhos, moradores dos andares abaixo, disseram que nos últimos dias antes do fatídico evento, seus passos estavam a cada dia mais evidentes, pesados, dava pra perceber o ir e vir do rapaz pelo apartamento. “A gente catucava o teto com a vassoura pra ver se ele pisava mais leve, mas nada feito” – disse a Dona Menezes do 304. 

E foi assim, num 20 de Abril, não tem como esquecer essa data, véspera de mais um feriado, a Dona Nilsa entra no apartamento pra fazer a faxina, como de costume e, quando passa pelo corredor que vai da cozinha para os quartos, tropeça numa pedra enorme largada no chão. Primeiro ela xinga, depois, solta um grito que foi ouvido por todo o Edifício Europa e, se bobear o quarteirão inteiro: “Seu Pedro!?! Peloamordedeus!!! Seu Pedro!!!” e desmaia. 

A vizinhança, assustada com o grito, chama a polícia, e o local logo vira alvo dos curiosos. A imprensa foi correndo pra lá; ligaram no escritório e todo mundo foi pra lá também. Atravessei aquele mar de gente na portaria e, por ser amigo do Pedro, me deixaram entrar no apartamento. Todo mundo com cara de bobo, ninguém acreditava, eu estava pasmo, mas, na minha frente estava aquilo lá, uma pedra, das grandes, uma pedra com a cara do Pedro! Com a cara dele, cara! Entende o que é isso? Eu não, eu não entendo.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Sobre calar-se

Imagino os arrepios de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) ao desfrutar dos atuais modos de difusão de informação, dando aquela olhada no Facebook, nos portais de notícias e semelhantes, pela internet. Ele que, em 1922, publicou o livro Tractatus logico-philosophicus no qual filosofava, entre várias coisas, sobre a Linguagem.

A linguagem é o meio de interação entre o mundo e os seres. É uma criação intelectual, um arcabouço de símbolos e significados que nos permite entender e significar o mundo, e a forma pela qual expressamos nossas impressões dele. Portanto, todo entendimento, toda construção social e cultural é dada através da linguagem em suas mais diversas formas de manifestação.

Entendendo a limitação da linguagem, por ser vinculada à nossa capacidade intelectual limitada, Wittgenstein acreditava que "o método correto, em filosofia, seria propriamente: nada dizer a não ser o que pode ser dito”, cunhando, assim, célebre máxima: "sobre o que não se pode falar, deve-se calar", à priori sobre as coisas transcendentes, além da nossa compreensão, assuntos que ele nomeia de "Místicos", mas eu não deixaria de lado a sugestão e aplicaria tal regra à qualquer assunto. Portanto, seguindo esse raciocínio, conclui o filósofo que não existem problemas filosóficos genuínos, pois estes são resultados de confusões, distorções de conceitos, gerados pela nossa limitada capacidade de entendimento do universo. Ou seja, o fato de não entendermos a real mecânica da realidade, não significa que ela tenha problemas. As problemáticas filosóficas profundas, são criações nossas, pela nossa incapacidade de transcender.

Sugere, então, Wittgenstein, uma postura de fé sem palavras, de controle da nossa tagarelice, de silêncio respeitoso frente à questões de dimensão místicas, transcendentes, que estão fora do nosso alcance intelectual, sob risco de incorrer em erro, problematizando o que não é um problema de verdade.

Reconhecer o indizível, o inexprimível não é novidade. Os Egípcios já manifestavam essa postura respeitosa em alguns templos, nos quais a figura do Deus dos Deuses, a Suprema Causa de Tudo,  nunca era iluminada pelo sol, ao contrário das outras figuras, que eram iluminadas, cada uma em uma época do ano, simbolizando que, havia coisas que a luz do conhecimento jamais iluminaria. O mesmo símbolo nos acompanha nos "Santo dos Santos" do Templo dos hebreus; que nos remete ao interior mais recôndito da nossa alma, à escuridão do infinito do Universo ou no microcosmo intangível das partículas minúsculas. Tudo nos sugere a existência de uma mecânica além da nossa compreensão e fora do nosso controle, frente à qual só nos resta o silenciar, o ouvir e nada falar.

Como na letra de João Ricardo e Luhli, para a belíssima canção "Fala", do álbum de 1973 dos Secos & Molhados. Decerto é uma letra sobre o momento certo de falar e de calar, escolhendo o silêncio nos casos de reconhecida ignorância. Sinal de humildade. Então, gostaria, aqui, de deixar a sugestão para que tenhamos a mesma postura humilde frente ao Universo: antes de montarmos em nossa arrogância e orgulho, que prefere teorias absurdas à possível simplicidade das verdades, silenciar humildemente, e apenas ouvir o infinito, senti-lo, assumindo que existe, no invisível, o inalcançável, o indizível.




Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser 
Tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala 

Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto
Fala


sexta-feira, 31 de março de 2017

Acalme-se


Os mecanismos biológicos, psicológicos e sociais aos quais estamos submetidos nos aprisionam em uma realidade material de pequenez sofrível. São inevitáveis, mas necessários, pois resultam dos milênios de evolução do nosso corpo na interação com a matéria que nos cerca. Entretanto, no caminhar da Ciência, descobrimo-nos menos materiais a cada passo. Há tempos o átomo não é mais a partícula fundamental de tudo; existe mais espaço do que partículas em tudo, e essas partículas sequer são qualquer coisa próximas de sólidas; e se não há solidez real, fluímos, não existe limite entre o meu corpo e qualquer outra coisa. Enfim, é cada vez mais difícil ser cientificamente materialista.

Todavia, ainda carregamos angústias resultantes dessa visão antiquada da existência. Ainda presos ao sensorial primário, nos tornamos densos e tristes pela nossa postura mental equivocada frente à nova realidade que se descortina, dia-a-dia, através da Ciência e das nossas experiências íntimas, desapercebidas em meio aos tantos estímulos físicos que nos rodeiam.

Qualquer um dos desconfortos modernos pode ser vencido através de um ponto de vista mais atento a esse novo paradigma de realidade, deixando lado preconceitos, orgulho e o costume da pouca reflexão séria. Mas, se a ciência ainda é terreno difícil de se enfrentar na caminhada, podemos encontrar tais conceitos importantes na sabedoria popular que, de forma simples, facilitam mergulhos profundos no universo que nos cerca.

Recolhi a fábula abaixo numa dessas conversas que duram horas e se fala sobre tudo. O prazer de ouví-la, a beleza da mensagem que ela traz me faz bem até hoje, e fará ad aeternum. Ela traz uma verdade que, ao contrário do que nos acostumaram a pensar, não dói. A verdade cura, liberta e nos faz sentir bem. Quer ver? Repare como você se sentirá ao terminar de lê-la.

Duas ondas amigas seguiam juntas, fluindo em direção à praia. É o que fazem as ondas. A onda maior, lá do alto de seu volume, estava bastante depressiva e contrariada, enquanto a menor seguia, tranquilamente, ali embaixo.

– Se você pudesse ver o que eu vejo daqui, você não ficaria tão feliz assim. – disse a onda grande disse à onda pequena.
– E o que você vê? – perguntou a onda pequena.
– Não muito longe, vamos nos despedaçar na praia, e vai ser o nosso fim.
– Oh, isso? Tudo bem.
– O que? Como assim, tudo bem? Você está louca? – retrucou a maior.
– Não, não estou louca. Eu sei de um pequeno segredo que me faz ter certeza de que tudo está e continuará bem. – respondeu a tranquila onda pequena, que continuou:
– Quer saber também?

A onda grande ficou curiosa, mas desconfiada, e disse:

– Sim... mas, que tipo de sacrifício vou ter que fazer pra saber desse segredo? Vou ter que meditar durante anos pra entendê-lo?
– Que nada! É algo muito simples, bastante evidente, até. – respondeu, confiante, a menor. 
– Mas como é que algo é simples e evidente e, ao mesmo tempo, um segredo?
– Você tem razão. É que se fossemos mais atentos, não seria segredo pra ninguém. Só o é pela nossa descuidada falta atenção.
– Ora, se é assim tão simples, diga-me logo! Qual seria esse segredo tão consolador? – indaga a onda maior, com extrema curiosidade.

Então, tranquila e carinhosamente, a onda menor responde:

– Fique tranquila com a praia, amiga. Nós não somos onda, nós somos água.



sexta-feira, 24 de março de 2017

Ouvidos de Ouvir

Surdo do ouvido direito desde que nasci, busquei, junto da minha família, as mais variadas formas de cura na medicina tradicional, alternativa e, também, na espiritual. Neste domingo passado, enquanto passava um café, peguei-me lembrando desse périplo pela cura, durante o qual, desde muito jovem, presenciei e conheci os mais diferentes tipos de procedimentos, pessoas e crenças. Talvez, por isso, nunca me senti deslocado ao interagir com qualquer tipo de modo de vida espiritualista. 

Entre as boas lembranças, resgato alguns fatos de maior relevância, como as visitas que fiz à Casa de Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO), local onde o médium João Teixeira de Faria, intermedia ações de mais de 30 entidades espirituais com o propósito de cura. Apenas caminhar pelo local já é terapêutico, mas quem busca algo mais deve passar por consultas com o médium e seguir algumas recomendações dadas por ele. E foi o primeiro encontro, numa dessas consultas, que se gravou mais forte. Com um olhar tranquilo, mas que parecia me sondar em minúcias, ele pegou na minha mão e disse: "Não se preocupe, eu vou te curar, meu irmão".

Fiquei mais confiante ainda depois de vê-lo fazer, bem de perto, várias intervenções físicas – não fazem mais esse tipo de procedimento – que deveriam doer, incluindo incisões com bisturi, visivelmente profundas, tudo sem anestesia, nenhum gemido e pouco, ou até mesmo nenhum, sangue. Se quem faz isso diz que vai me curar, decerto irá. A juventude não me deixou seguir as recomendações por muito tempo, não fiz as tais "cirurgias", e parei de ir até lá.

Pensava agora, já tomando o meu café, o quanto minha visão sobre o vetor da cura mudou. Antes, acreditava que ela viria apenas de algo externo à mim, com aquelas intervenções físicas e espirituais. Hoje sei que a cura depende de processos interiores, quando abandonamos a culpa e, nos considerando merecedores de ajuda, aceitamos e agimos para sermos curados. Desta forma, diz a própria medicina tradicional, potencializamos e facilitamos muito todo o processo.

O que os religiosos chamam, há séculos, de fé – aquela que move montanhas – os médicos, atualmente, começam a chamar de postura mental positiva e, enfim sugerir como parte do tratamento. Hoje, sabemos, enfim, que uma forte intenção mental pode fazer a diferença entre resolver o problema ou fazer um remendo.

Já se foram vinte anos daquela visita. A surdez continua, agora acompanhada de zumbidos no único ouvido bom. Mas posso garantir que ouço cada vez melhor com ele. Tanto fisicamente, confirmam os médicos e os amigos músicos, quanto espiritualmente, pois além de ouvir melhor a tudo e a todos, finalmente consigo ouvir à mim mesmo.

Se o pior cego é o que não quer ver, o pior surdo é o que se nega a escutar. Percebo, cada vez mais claramente, que eu mesmo estou realizando grande parte da cura prometida em Abadiânia. Agora entendi o que me foi oferecido. Tenho ouvido melhor do que nunca e a cada dia melhor ainda. Espiritualmente, mas, ora, de que me serve um corpo perfeito com um espírito doente? É por isso que, primeiro, cura-se o Espírito.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Ações e Reações

Na semana passada, o jornalista Robert Kelly passou por uma saia justa quando, durante uma entrevista para a mundialmente renomada rede BBC de radio e telejornalismo, seus filhos, desavisadamente, invadiram a sala da sua casa, na qual ele estava fazendo a transmissão. O fato foi amplamente divulgado e a família Kelly se transformou no mais recente xodó temporário mundial.

Não fosse por uma atitude do jornalista, tal vídeo passaria por mim como mais um qualquer, dos milhares que circulam por aí, entretanto, quando Kelly, instintivamente, sem sequer olhar para usa filha a afasta com o braço, acendeu-me um lembrete, algo que eu não tinha pensado antes e algo que me passaria desapercebido se não fossem algumas leituras que tenho feito: nós nos preocupamos muito com as nossas ações, mas nos esquecemos de vigiar as nossas reações.

Não julgo a atitude de Robert Kelly, muito menso sugiro como ele deveria ter agido. Eu o entendo. Posso imaginar a imensa pressão pela qual passava no momento, os dias de preparação e planejamento de cada palavra a ser dita, do melhor terno e gravata a ser usado, dos livros escolhidos para compor o cenário, e etc. Não contava ele com a interrupção imprevista, pelas pessoas que ele mais ama, seus próprios filhos. Uso este fato do amigo inglês apenas como ponto inicial de uma reflexão sobre mim mesmo e de como não estamos atentos a tudo o que fazemos.

Desde de que começamos com pensamento racional acerca da existência e das formas de se viver a boa vida, a filosofia e o pensamento religioso nos tem dado várias fórmulas que, independente das palavras utilizadas, nos sugerem uma vida honesta, caridosa e amorosa com todos ao nosso redor. Portanto, devemos ser atentos a o que fazemos, como e quando fazemos. Planejando e executando boas ações e pensamentos, receberemos o mesmo em contrapartida.

Planejar e ensaiar, com antecedência, para que nossas ações sejam sempre amorosas e caridosas é o mínimo que deveríamos fazer, é até fácil se compararmos com reagir aos imprevistos, muitas vezes assombrosos, e manter a mesma postura ética e honesta. Pra isso precisamos de ainda mais treino e atenção. Vejamos o exemplo dos lutadores de artes marciais que, preocupados com a qualidade dos seus movimentos em qualquer situação, treinam exaustiva e minuciosamente cada golpe, para que no caso de ser pego de surpresa, o golpe saia, automaticamente tão bom quanto se houvesse sido planejado de antemão.

É o ato reflexo que nos diz quem realmente somos, ele entrega a nossa verdadeira programação mental. Robert Kelly, um pai certamente carinhoso, como demonstrou em vídeo posterior, num momento de desatenção e nervosismo, agiu nada carinhosamente; assim como alguém que prega o amor e a caridade, quando é fechado no trânsito, e explode em insultos contra o irmão equivocado; ou a mãe exemplar que, ao comentar as notícias, sugere que matem os filhos desencaminhados de outras prováveis mães exemplares; e até mesmo eu – e imagino que não só eu –, quando ao ser abordado por um irmão mais desafortunado, antes mesmo de perguntar o como posso ajudá-lo, já nego a ajuda, sequer examino se tenho algumas moedas no bolso, condições de lhe pagar um prato de comida, dar a informação ou consolo que precisa ou, apenas, um sorriso e um desejo de melhor sorte, pequeno gesto que me custa pouco, mas vale muito.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Resistência

Resistência é a característica de quem resiste. Vem do Latim resistentia que, por sua vez, se origina do verbo, também latino resistere, formado pelo prefixo re (para trás, contra) somado ao radical sistere (ficar firme, manter posição). Portanto, resistir, o verbo de quem oferece resistência, significa: "conservar-se firme; não sucumbir, não ceder".

Longe de ser algo ruim, a resistência é parte fundamental de qualquer processo. A resistência das pedras, das irregularidades do solo e demais obstáculos criam as ondas dos rios e mares, que ajudam na oxigenação da água. Graças à resistência do ar é que temos as ondas sonoras, que me permite estar ouvindo, enquanto escrevo, essa coisa linda que é o Improviso n.3, do Franz Schubert. E, no plano das ideias, é graças às resistências ideológicas que concebemos ideias melhores. Enfim, resistir é dar cores, sons e velocidades diferentes ao mundo, enriquecendo a existência.

Mas vale observar que resistir não é atacar, é permanecer forte e convicto perante a força contrária. E a sabedoria da resistência está na resiliência, outra palavra originada no Latim, pela soma, do nosso já conhecido prefixo re com salire (pular), significando "pular de volta, ricochetear". E foi na física que encontrei o melhor conceito de resiliência: "propriedade do material de retornar à forma ou posição original uma vez cessada a tensão sobre o mesmo".

Por séculos, muitos disseram, e muitos ainda dizem, que resiliência é coisa para fracos. Entretanto, conhecendo melhor o significado das palavras, a lógica nos mostra que, o nosso conceito de forte está equivocado, pois a questão não é simplesmente aguentar um golpe, mas, sim, suportar uma infinidade deles e continuar em pé, e se restabelecer por completo. Como num exemplo muito utilizado pelos orientais: uma vara de bambu, fina e delicada, por se balançar a cada brisa é julgada, por muitos, como mais fraca do que uma frondosa árvore de largo tronco, que permanece sempre firme, imóvel. Mas é o bambu, com sua delicadeza e maleabilidade que sobreviverá às grandes tempestades, pois se adapta à força do golpe até conseguir restabelecer-se na posição original; ao contrário da "forte" árvore que, por não saber curvar-se, desviar, adaptar-se, extenuada, inevitavelmente virá ao chão.

Ataque gera contra ataque, numa guerra que só termina quando uma das partes for eliminada. A resistência sábia, através da resiliência, geram adaptação, elevando os lados conflitantes a novos patamares, e mesmo que sejam, ainda, conflituosos, serão níveis mais elevados de contenda.

O importante aqui é observar que o movimento que fazemos contra o que nos incomoda não precisa ser duro, belicoso, inflexível, pois esse tipo de movimento, como comprova a física e a vida, só termina com a eliminação dolorosa de um dos oponentes. Entretanto, resistir resilientemente, com flexibilidade e paciência, tomando ações firmes quando necessário, mas inteligentes e suaves sempre, nenhum dos oponentes será eliminado, mas ambos se adaptarão ao convívio, se complementando e se auxiliando nesse processo inevitável, irresistível.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Apocalípse Particular


Por muito tempo, o único Apocalipse que me deixou realmente perplexo foi esse aí de cima,
que matou o Superman em 1995.


Em 2012, já sabendo da minha inclinação em estudos místicos e maluquices conexas, me perguntaram sobre o que eu achava que iria acontecer no fim daquele ano, quando as famosas datas apocalípticas de diversas culturas, o que incluía o famoso calendário Maia, chegariam ao seu termo em nosso calendário greco-romano. 

Respondi que seria algo moral, que o tal apocalipse seria uma sequência de eventos que duraria anos e não teria nada da pirotecnia que consta nas profecias das diversas culturas que dele falam. Tais eventos colocariam a humanidade em xeque e obrigaria todas pessoas do mundo a reverem seus conceitos de moral e ética. O ano de 2012 seria apenas o início dos eventos, da contagem regressiva para a nossa auto-extinção, a extinção do humano antigo para o nascimento do novo humano.

Apocalise, em grego, significa "tirar o véu", "revelar". E, desde muito antes do Apocalipse de João, a revelação mais famosa do ocidente, que existe essa ideia de um final dos tempos, de um juízo final, onde o velho e corrompido deve perecer em favor do novo e purificado. A linguagem simbólica, muitas vezes hermética nesse tipo de texto, talvez seja proposital pois não descreve fatos específicos, mas, sim, padrões. Desta forma permite diversos níveis de interpretação, fazendo com que os mesmos eventos possam ser aplicados ao universo, ao planeta, a uma nação ou a um só indivíduo.

Mesmo assim, a humanidade sempre tentou conectar fatos como a queda do Império Romano, a Segunda Guerra Mundial, a morte ou eleição de um Papa, etc. Se entendermos que o resumo do apocalipse é a falência e queda de um regime antigo e a instalação de um novo, fatalmente encontraremos correspondências em toda a história, afinal, tudo isso é cíclico, acontece de tempos em tempos.

Existe algo interessante na dinâmica dos ciclos: os ciclos menores influenciam os maiores e vice-versa, e assim infinitamente, como no mecanismo de um relógio mecânico e suas centenas de engrenagens. A situação calamitosa do Brasil, por corrupção e desonestidade é uma grande engrenagem, influenciadora e influenciada por engrenagens menores, como a onda de saques no Espirito Santo, na última semana; que se desdobra individualmente em cada um de nós e as pequenas desonestidades diárias. Por não percebermos essa troca de influências, essa rede de causa e consequências, não pensamos em nossos atos singulares, transferindo a responsabilidade para a outra engrenagem do sistema.

Vemos a situação insustentável que chegamos moralmente. Me parece uma clara indicação de que precisamos tomar providências reais e urgentes. Aproveitando o simbolismo do tema e, como um exercício de interpretação, pensemos em fazer o nosso apocalipse particular, retirar o véu materialista que cobre os nossos olhos. Veremos os Cavaleiros do Apocalipse éticos e morais que já estão aí, trazendo mazelas para o nosso mundo interior; os nossos sete selos, os nossos sete chacras principais, deverão ser abertos, um a um, e tomaremos conhecimento do que contém. Assim, harmonizaríamos o nosso ser novamente e, no tempo da abertura do sétimo selo, o mais elevado, o coronário, as trombetas da nossa consciência seriam ouvidas feito um trovão imenso e tudo o que é velho desmoronaria, abrindo espaço para um novo e purificado ser, pronto para uma nova e purificada realidade.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Genealogia de Superação

Dizem que Nicolò Paganini (1782 - 1840) foi o maior virtuose do violino que já existiu. Possuía uma técnica e criatividade que jamais foi igualada por alguém. Também era muito feio, mas tinha uma boa visão de negócio. Ficou muito rico aproveitando-se de sua aparência soturna, cabelos longos, nariz pontudo, muito magro, usava sempre roupas escuras, fazia suas apresentações com pouca luz e teatralmente sombrias. As peças que executava, escritas por ele mesmo, desafiavam a técnica, necessitavam de movimentos de arco e de dedos jamais imaginados até então. Dentre essas peças, está o conjunto de "24 Caprichos" que são interessantíssimos, mas não muito fáceis de se ouvir.

Por todo o frisson que causou em sua época, Nicolò Paganini influenciou muitos outros músicos, seus contemporâneos de Romantismo, como Schubert, Chopin, Schumann e Liszt, que trouxeram para o piano – e para o pesadelo de quem estuda piano – aquele virtuosismo fenomenal que viam em Paganini, que era tanto que chegou a espalhar-se a lenda de que ele tocava daquele jeito por ter feito pacto com o diabo ou, ainda, de ser o filho do próprio tinhoso. 

Com todos esses predicados, se vivesse hoje em dia ele seria um desses guitarristas "fritadores" do Metal, que fazem muitas notas por segundo e, também, muitas caretas. Inclusive, há relatos de que Paganini conseguia executar, ao violino, a fantástica quantia de doze notas por segundo. É, talvez ele seja o "fritador" original.

Mas antes passar a "fritadeira" para gente mais moderna como Malmsteen ou Satriani, Paganini tocou os ouvidos e o coração de um outro cara: Sergei Rachmaninoff (1873 - 1943) que resolveu fazer uma Rapsódia com 24 variações sobre o "Capricho n. 24 em Lá menor" de Paganini, o Capricho mais famoso. É de uma dessas variações que quero falar.

Esse é o Capricho n. 24 :



A Rapsódia de Rachmaninoff, completa, deve durar entre 20 e 25 minutos e é considerada uma peça de dificílima execução, mantendo assim o nível Paganini de esmero técnico. E entre imensos exercícios de criatividade, inversões melódicas, rearranjos e contorcionismos musicais, surge o que, talvez, seja uma das músicas mais bonitas que já ouvi na vida: a "Variação n. 18 Andante cantabile em Ré bemol maior". É impressionante a metamorfose daquele tema tão espertalhão do Paganini em algo tão delicado, que beira o sublime.

Ouça:

Conheci a Variação n. 18 na trilha sonora do filme "Em Algum Lugar No Passado", um filme que gosto muito, e já falei dele por aqui. Penso o quanto não gostaria de estar na pele do John Barry, responsável pelo resto da trilha, que deve ter suado muito pra a música tema à altura dessa beleza de Rachmaninoff. John, você está de parabéns, pois ouvir o "Tema de Em Algum Lugar no Passado" é de um prazer indescritível.

Sinta:

Mas, por que toda essa história? Primeiro, para espalhar boas músicas, que deixam os humores mais relaxados. Precisamos muito. Segundo, para deixar a reflexão sobre coragem, criatividade e determinação; e de como tudo, por melhor que pareça, pode ser sempre melhorado ainda mais. Fiquemos atentos ao cotidiano e não percamos as chances de trabalho.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Somos o que vivemos, seremos o que deixarmos

"A vida de cada um é a sua própria confissão pública. A conduta de cada crente é a sua verdadeira profissão de fé." - Emmanuel, no livro Vinha de Luz, psicografado por Chico Xavier.


Há uma semana faleceu minha avó. Enquanto a olhava no esquife, durante o velório, me veio uma frase que ouvi numa palestra do Leandro Karnal, que disse, não exatamente nessas palavras, algo como "é com a morte que a vida passa a fazer sentido". Na ideia de que só se consegue entender o arco dramático de uma vida com o final dela, pois, enquanto o final não chega, reviravoltas podem acontecer e mudar toda a história. É como numa peça de teatro, filme ou romance, só se consegue dizer sobre o que realmente trata a história, quem a conhece até o final.

Então, me coloquei no final da história de minha avó, olhando para o passado, para o começo, tentando montar o seu arco dramático e colher o enredo dos quase 97 anos daquela história.

Nasceu em berço humilde e durante a infância, como muitos filhos de imigrantes italianos, passou por muitas cidades por causa do trabalho do pai, que ajudava na construção da estrada de ferro pelo norte pioneiro do Paraná. Na vida adulta, escolheu como profissão acolher e alimentar as pessoas e, junto com o meu avô, cozinheiro, teve hotel e restaurante. Mas não era apenas com quartos e panelas que executava o trabalho que amava. Acolhia os aflitos com boa vontade e caridade, e também  acolhia e alimentava suas almas com boas palavras e bons exemplos.

Além dos filhos biológicos, tinha filhos adotivos e de criação. Dividia o pão que tinha, sendo ele muito ou pouco. E nunca faltava, porque ela sabia que a caridade, mesmo dividindo, sempre multiplica. Pagava escola pra quem precisasse, não queria criança sem estudo; ajudava na manutenção de vários lares. Trabalhou além do que seu corpo conseguia, ganhou dois joelhos de titânio e continuou trabalhando. Os joelhos de titânio não aguentaram, mas ela continuava na lida. Enviuvou, foram 20 anos de saudades, mas sem esmorecer. Já com mais de 90 anos, seu corpo não aguentou e foi a uma cadeira de rodas, mas com a cabeça sadia e atenta. Leituras diárias, conversas, conselhos e atitudes amorosas constantes. Confirmava sempre se todos os que ela ajudava continuavam bem e felizes. 

Sei que a vida de ninguém é fácil. Todos passamos por grandes problemas, provações e dilemas. Ninguém é perfeito e todos, inclusive a minha avó, erram, e muito. A diferença está em como passamos por isso, e é com isso que vai se construindo o sentido de nossas vidas, que se completará com a morte. Católica ferrenha, minha avó mostrou-se verdadeiramente cristã, pois é disso que se tratava a sua história: de como ser verdadeiramente cristã, ser forte no que acreditava. Ela quis provar ser possível. Provou. Teve, na sua vida, o mesmo enredo do Cristo: de uma infância humilde, uma vida de muito trabalho, sempre pautada na honestidade, no amor e na caridade e, no final, também teve o seu calvário. Foi um final sofrido, mas sofrido com resignação e fé, como o do Cristo. E, por isso pode despedir-se, também, em paz.

Foi-se a vida, ficou a lição. Obrigado, Vó Ida. E, sim, estamos todos bem e felizes. E continuaremos.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Carta a mim mesmo

Admiro a imensa cidade e toda a vida que, mesmo agora, na alta madrugada, pulsa em tantas janelas acessas, pelas infinitas ruas, até onde meus olhos podem alcançar. E, apesar dos muitos anos comungando dessa vida na alta noite, hoje, eu sou um estranho por aqui. Mas a insônia, que tem sido tão rara que nem sei mais como me comportar nessas horas, me traz aqui à mesa de trabalho. Aproveito-a, então, para escrever-te.

É verdade e notório que os tempos andam difíceis, mas tens te saído bem, não te esqueças disso. Aliás, nunca te esqueças disso. Manter o foco nos bons trabalhos enquanto o mundo desaba ao teu redor não é nada simples. Não é fácil caminhar no chão lodoso e inconstante. Mas, lembra-te, antes nem se movias; passaste a rastejar. Hoje, que caminhas, continua! Logo pisarás em terra firme e, quem sabe, mais adiante, voarás.

Para os problemas pequenos, simples, é provável que a solução esteja perto, logo ao teu alcance. Mas, para os problemas maiores, complexos, não percas tempo procurando a solução ao teu redor. Pois, para resolver questões maiores é preciso, primeiro, tornar-te maior ainda. E não sou eu quem digo. Várias das grandes mentes da humanidade diziam – não nessas palavras, é claro – que a solução para os problemas só poderiam ser encontradas no universo além do universo do próprio problema. Por isso é preciso estar sempre expandindo o próprio universo, para poder ser sempre maior do que qualquer problema te apareça e, desta forma, vencê-los com o mínimo de sofrimento.

Sim, ainda há muito a ser feito. Pelo mundo? Não. Por ti mesmo. Lembre-se que todo coletivo é um conjunto de indivíduos. E o mundo é um coletivo de indivíduos bastante distintos uns dos outros. Por isso, por maior que sejam os esforços que faças, jamais mudarás, pelo seu esforço, um centímetro do caminho de outrem. A única esfera na qual tens autoridade e força real de mudança é na tua própria esfera íntima e os únicos resultados que colherás serão em ti mesmo. Portanto, não te desgastes pelo mundo que não responde aos teus comandos, pois ele, com seu peso imenso, apenas servirá para te deixar exausto.

A responsabilidade é coletiva, mas o esforço é individual. A força que tens, usa em ti e faça com que teu exemplo inspire o próximo, que também fará por si, e assim por diante. Assim, cansa menos. Permita-te errar e, sempre humilde, repara o erro. Perdoa e deixa-te perdoar. Ama, ama muito, ama todos, ama tudo, ama sempre. Persista. Continue. Não pare. Por tudo. Por ti.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Foi o que me disse o Rio Grande

Passei o fim de ano num pesqueiro às margens paulistas do Rio Grande. Do outro lado da ponte, em terras Sul Matogrossenses, a mitológica cidade de Aparecida do Taboado, que pude visitar rapidamente, porém, sem encontrar qualquer morena, ainda mais alguma que me deixasse 60 dias apaixonado, como na canção de Constantino Mendes e Darcy Rossi. Mas o que eu nunca mais vou esquecer são as lições que a natureza de lá me deu. Essa, por exemplo:

Com a construção da represa de Ilha Solteira, no meu querido Rio Paraná, que se forma há poucos quilômetros de onde eu estava, onde o Rio Grande e o Rio Paranaíba se encontram, formou-se um grande alagado, deixando submersa grande área que antes era floresta. E os resquícios dessa mata podem ser vistos através dos vários galhos das árvores submersas que surgem do meio das águas, algo natural em rios e lagoas de represas.

Mas o espanto veio ao perceber que, mesmo com a maior parte da árvore submersa, vários desses galhos estavam floridos na pequena porção deles que estava fora da água. Com folhas e flores.

Sabe-se lá quantos metros de água turva, fria, separam as raízes dessa árvore das primeiras réstias de sol que ela alcança acima do espelho d’água; quantos golpes e fortes correntes enfrentam o seu tronco submerso. É, mesmo assim, ela resiste, não se faz de rogada e faz o que deve ser feito, a coisa mais bonita que pode, sua razão de ser: ao ser tocada pela luz do sol, florescer.

Que lição de resiliência recebi da natureza! Uma árvore, que não pode se mover e nem raciocinar para contornar os desafios, se mantém firme e não perde a chance de executar os planos para os quais foi feita. Lição que sempre me lembrarei, emoldurada pelo fim da tarde e a brisa úmida do Rio Grande eo barulho das ondas atingindo o casco do barco: não importam os obstáculos, é preciso fazer o que nascemos pra fazer. E não tenho dúvidas de que tudo nasceu para, lindamente, florescer.