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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A dramática hora

São difíceis as despedidas. Dar adeus é ato de fé. Dar adeus é dar a Deus, mesmo. É ceder o controle e estar bem com isso. É resignar-me, reconhecer-me impotente sobre as rédeas do que eu não comando. É fiar-me ao futuro, confiar no reencontro sem depender reencontros. É confirmar-me quite, satisfeito com o que se deu até ali. A dramática hora de deixar partir.

E como abster-me em paz se tudo é aleatório; se a lógica da vida não é constante; se não há uma ordem sobre o caos do Universo infinito? Como abster-me em paz se a única força confiável é a minha; se o único ser potente sou eu? Como suportar a minha ausência nos fatos e a ausência dos fatos em mim? Como abster-me em paz? Se dar adeus é dar a Deus, a quem darei se não há Deus? A quem darei se não suporto só? Meu orgulho não me deixa, minha vaidade me suplanta. É por isso! Por isso são difíceis as despedidas!

Sim, são difíceis. São difíceis as despedidas, insisto. Pois adeuses são atos de fé. E dar adeus é dar a Deus. E há Deus. E Deus há de nos ajudar.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Inspirações


Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

                                                (Emergência, de Mário Quintana)



Tenho me voltado à poesia como quem se volta para a luz do sol após dias nublados. Como quem persegue aquele mísero raio de luz que, tímida, mas heroicamente, escapa por entre as nuvens e atinge a terra úmida e fria, que até então mortificava corpos e almas, para nele se aquecer, respirar fundo e, de braços abertos, peito estufado, deixar-se aconchegar em todas as dimensões do ser.

Insisto no poema como fator conectante entre o humano e o infinito; como uma estrada para o Belo, entre o que humanamente idealizo e o que infinitamente é; percurso que, em sinuoso aclive, descortina cada vez mais amplas e completas paisagens a se descrever; como construção íntima; como jornada de purificação.

Salvo-me nos versos como um naufrago em tudo o que flutua; como no colo de uma mãe, ou no abraço de um pai; na mão amiga que guia; na palavra de consolo que acalma; na brisa que acaricia a face; na segurança da chuva que disfarça a lágrima e lava a alma.

Se na vida rimas ou não rimas, é opção que ela mesma traz, tanto faz. Mas o ritmo, esse sim, inevitável capataz, açoita quem destoa da cadência, sem não antes avisar. Mas por ser, também, amigo, premia sempre a quem souber dançar.

É por isso que a arte é necessária à vida, como a pausa à música e, ao texto, o ponto e a vírgula. É preciso despertar-se ao sensível, ao invisível, ao metafísico. Redescobrir o que não se vê, saber dizer o que não se diz, tocar o intangível. Reconectar-se com essa esfera sutil por onde comunicamos tanta coisa, mas que, num oceano de amor revolto, em meio a tantas e turbulentas ondas de rancor, as inúmeras marolas de carinho passam despercebidas.

Acalmemos os amores, meus amores. Controlemos os tsunamis da paixão, acabemos com os vendavais, os tremores e a gritaria. Atentemo-nos às leves marolas, à brisa carinhosa, aos suspiros pacíficos da paz que nos convida incansavelmente a comungá-la. Ela não está distante, ela fala baixo. Sejamos nós os poetas ou os poemas, os artífices ou a matéria-prima, inspiremo-nos! Ouçamos, em silêncio, o Universo a recitar-se amorosamente.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Quando vens


Visita-me, sempre tarde da noite, e me despertas do sono tranquilo para que eu admire tuas formas. Vaidosa. E a silhueta à meia luz se aconcreta em corpo, textura, cheiro e sabor. Serve-te de mim sem pejo! E como se fosse fina fazenda de cetim, embrulha-me por inteiro. Toca-me o peito, os ombros e o rosto; toca-me as narinas, as orelhas e os lábios; toca-me o ventre, as coxas e o sexo. Toca-me... toca-me...

E sorris! Ah, e como sorris! Uma imensidão! Feito o amor que evocas sempre quando vens. E se não vens, é com a saudade que o amor se enlaça e me lança num holocausto de mim mesmo, em teu favor. Clamo-te! Amo-te! Não durmo para acolher-te; traduzir-te; compreender-te as minúcias, até as entranhas; bem dizer-te, enfim.

Bendita! Por que me vens assim irresistível? Por que ecoas em mim feito a própria vida que, ao ver-te partir, contigo também se vai? Por quê? Bendita!

É porque te engano. Engano-te, bendita! Mesmo vitoriosa na peleja de nossas peles, não me tens domado, e tu bem sabes. Engana-te, bendita! Quem te doma sou eu. Pois é meu este ofício, quase heresia. Sou Poeta! Minha vida é fazer-te Poesia!

sexta-feira, 11 de março de 2016

Um apelo

São noites a esperar-te. Espero-te, fiel e infinitamente, pois sei que não vens se não quiseres e minha autoridade não te alcança de onde vens. Reconheço, às vezes deslizo e, impaciente, coloco-me a procurar-te. De nada adianta, é claro, é preciso esperar-te. Largo-me a observar os cantos vazios. Os da casa e os meus, que são tantos. Não, não me sinto só, jamais me senti. Pelo contrário, há fantasmas que não se calam; há vozes interiores; há pessoas, e se parecem tão vivas lá fora que não me deixam esquecer : não se trata apenas de mim, não se trata apenas de você; e, bem mais grave, não se trata apenas de mim e você.

Quando chegas, pisando leve, ofereço-te um sorriso e me respondes, semi-silente, um novo código para que eu decifre, ou me devoras. Lutamos madrugada afora, exploro o que me ofereces e sei que, traiçoeira, sempre escondes algo mais. Há armadilhas, há desencanto, há o capricho e o cuidado, e não há aurora que, apontando lá fora, nos arranque de nós.

E se nunca mais vieres? E se nunca mais nasceres em mim, como nascem as angustias e os medos e as saudades? Que desespero... sem você em contraponto é certo, tornar-me-ia apenas angustias, medos e saudades... e nada, nada mais. Quem me traria de volta ao prumo, me daria o necessário norte, me acompanharia até a morte? Ah, é mais do que certo! Coisificaria-me, imóvel e insensível, fim. Que desespero... que disparate...

Mas não me prives de ti. Aceita-me, sinceramente. Aceita-me. Não me prives de ti. Venha, sempre, mesmo que ininteligível, desconexa, em língua desconhecida. Venha antiquada, avant-garde ou pós-moderna. Venha, mesmo que eu não te compreenda tão bem, como hoje. Não me evite por isso, não fique nervosa. Sonhei-te poesia, mas encontrei-te prosa.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Poema em Prosa


És tão aconchegante que qualquer idéia de deixar-te parece mais martírio à redenção.

Tens algo de oásis no deserto inóspito do teu ser (que mostras).

Tens calma e pudor, e ira e ódio. E magias de desmanchar tempo e espaço.

Se tens tanto e tão pouco tenho, sequer lucidez, dai-me que seja a tua treva, a tua prisão; ou me receba no oásis do coração, e deixe que eu enfeite teu ócio mágico.



Umuarama, Paraná, Verão de 2000

terça-feira, 28 de julho de 2015

Na vida, como no poema.

A vida é – ou deveria ser – o exercício de conjugar o sentir com o agir. Como é no poema. Ordinária é a vida sem auto-análise, sem alguma constrição voluntária, sem testar limites. Como é no poema. Infinitas possibilidades de significação de nada servem, senão para diluir a vida num grande oceano de nada e tédio. Como é no poema. A palavra exata, no momento correto, é a diferença entre mais uma palavra na vida e um ato único e memorável, como o abraço oportuno, o sorriso inesquecível ou o silêncio necessário. Como no poema.

Como no poema, de que vale a vida que não se molda a cada momento, a cada lugar, para depois transcender-se continuamente? De que vale um sentimento que não se potencializa na melhor forma de expressão possível? Afinal de contas, o que é a boa vida – de todos, e não só a do poeta – senão viver um bom poema, fazer-se poesia?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010



   Fazia lhe falta um coração que sangrasse. Um desses, ordinários, que se apaixona fácil e perdidamente; e que também sofresse, e muito, dolorosamente e que mesmo assim lhe criasse no rosto aquele sorriso bobo, constante, tão clichê de dar dó - mas seria, sem dúvida, o mais sincero riso de dor de amor do mundo! Um coração que se rasgasse de saudade e se recriasse belo, pulsante e vermelho assim que novamente envolto em carinho. Que despertasse em si todos os mais incômodos e abençoados sintomas de amor, e que lhe fizesse até chorar escondido, às vezes. Não importava o desconforto, não tê-lo lhe doía agudo na alma.
   Sentia-se, então, melhor.


Ps: Texto ilustrado por "Os Amantes", de René Magritte (óleo sobre tela, 1928).