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domingo, 12 de dezembro de 2021

Questione di Parole

Il silenzio è il suono che non abbiamo ancora sentito
Il buio è la luce che non abbiamo ancora intravisto
L'assenza è la presenza che non abbiamo ancora avvertito
La guerra è la pace che non abbiamo ancora consolidato

Il male è il bene che non abbiamo ancora avvertito
Il futuro è il presente che non abbiamo ancora raccolto
L'ignoranza è la verità che non abbiamo ancora appreso
Le differenze son parole che non abbiamo ancora ben definito


Torino, Italia.
Dicembre, 2021.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Do Cultivo

Quem vive para plantar
é mais feliz do que quem vive para colher.
Quem vive para plantar, e planta o bem,
tem a certeza de que este bem alguém colherá.
Quem vive para colher o bem que encontra,
não sabe ao certo quando um outro bem encontrará.

domingo, 2 de maio de 2021

Da Não Ausência

O silêncio é som que ainda não ouvimos
A escuridão é luz que ainda não enxergamos
A ausência é presença que ainda não sentimos
A guerra é paz que ainda não consolidamos

O mal é bem que ainda não percebemos
O futuro é presente que ainda não colhemos
A ignorância é verdade que ainda não compreendemos
As diferenças são palavras que ainda não bem definimos

Cuestión de Palabras

El silencio es el sonido que aún no hemos escuchado
La oscuridad es la luz que aún no hemos visto
La ausencia es la presencia que aún no hemos sentido
La guerra es la paz que aún no hemos consolidado

El mal es el bien que aún no hemos apercibido
El futuro es el presente que aún no hemos cosechado
La ignorancia es la verdad que aún no hemos entendido
Las diferencias son palabras que aún no hemos bien definido

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Não nos desanimemos

Conversando entre amigos, um deles disse que estava preocupadíssimo com o futuro e sem esperanças de melhoria da situação pela qual passamos. Tudo parece indicar que a humanidade saiu dos trilhos para nunca mais voltar e está em vias de acidentar-se fatalmente. E, triste, acrescentou que esses pensamentos o estavam minando sua fé, o fazendo se sentir de mãos atadas, desanimado, cansado, já que os esforços que vem fazendo parecem não surtir efeito na escala em que deveriam, afinal, é a humanidade toda pra se mudar, e o tempo pra que isso aconteça antes de um cataclismo, uma grande guerra ou coisa pior, parece bastante curto.

Foi quando uma amiga interveio e, diferente das respostas espiritualistas que costumamos ter na ponta da língua nessas hora, apresentou uma solução bastante pragmática. Disse ela: "Eu também já passei por isso, mas um amigo me ensinou algo que me ajudou a vencer esse sentimento ruim, essa tristeza que olhar o mundo tem nos causado. Ele me sugeriu, nessas horas, descobrir o meu "raio de ação".

E continuou: "Pra todo problema que você enfrentar, a primeira coisa é perceber até onde as suas mãos alcançam e o quanto seu braço aguenta, ou seja, o tamanho do seu raio de ação, até onde você consegue interferir no mundo. Dando preferência para as coisas próximas e conhecidas, é mais provável que elas respondam melhor às suas ações, e são mais fáceis de observar, passando a sensação de que algo está mudando. É mais eficiente do que esperar alguma coisa do outro lado do mundo perceber o seu movimento e correspondê-lo."

Na hora me lembrei do filme "A Corrente do Bem" (Pay It Forward; 2000), cuja ideia principal é basicamente a mesma sugerida pela minha amiga: faz-se algo bom para quem está próximo de você e esta pessoa faz o mesmo com quem estiver próximo dela, e assim adiante, até que, tempos depois, um maior número de pessoas estarão participado de um ciclo virtuoso de bem-fazer e bem viver.

Não é nada nova e muitos ainda dizem ser utopia, mas eu acho a ideia bastante plausível e inspiradora. E que, se fosse realmente praticada pela parte significativa de pessoas que assistiram ao filme e se sentiram tocadas, o mundo já estaria colhendo melhores resultados do que aqueles que deprimem o meu amigo e um grande número de pessoas.

Então, não é preciso imensas elocubrações filosóficas para entender a moral cósmica; não é preciso criar grandes planos de alcance mundial, movimentando as pesadíssimas engrenagens do mundo sozinhos. É gasto energético desnecessário, ficaremos cansados antes do tempo. 

Preocupar-se com o futuro é importante, mas ele é resultado do presente. Dividindo as responsabilidades entre todos, ninguém fica sobrecarregado, facilitamos o trabalho e diminuímos o peso, principalmente na consciência, dando o exemplo a quem pode nos ver e seguir. As pequenas atitudes, com seus resultados facilmente visíveis e palpáveis, além de cansar menos, nos animam a continuar agindo. Por isso não há motivos para desânimo. A solução está mais perto do que pensamos. Façamos!

sábado, 15 de abril de 2017

Feliz Sábado

Neste mesmo período do ano, por volta de dois mil anos atrás, os habitantes da Palestina, manipulados pelos detentores do poder e do alto status social, trataram como um criminoso e condenaram à morte um grande homem. A motivação de tamanho ato covarde foram as ideias que ele espalhava por aquela região, que colocavam em risco as suas regalias e projetos de poder. Achavam, na sua lógica simplória, que exterminando o homem acabariam com suas ideias. Mas não contavam que boas ideias e grandes verdades sobrevivem aos homens. 

Vemos que até hoje continuam a campanha contra tais ideias claramente libertadoras, que nos tirariam debaixo da tirania e sofrimentos que há milênios nos afligem os desgovernos, tanto dos nossos líderes sobre as nações quanto os nossos sobre nós mesmos. Desde aquele tempo nos manipulam através de expedientes ardilosos que nos afastam a capacidade de pensamento e reflexão. Ainda somos a massa de manobra imatura que prefere ver livre de punição o criminoso perigoso das nossas próprias culpas, do que ser chamada às responsabilidades dos próprios atos. Ainda somos quem lava as mãos na hora das escolhas difíceis e transfere a autoridade de decisão para da turba raivosa dos pensamentos egoístas e desejos desmedidos.

Não sejamos mais assim. É hora, e já é há mais de dois mil anos, de amadurecermos. É hora de seguirmos o outro exemplo dessa história, o do personagem que, ciente das suas responsabilidades no mundo, se dispõe a viver diferente, para o bem comum, enfrentando de cabeça erguida, com serenidade e sem esmorecer, os fortes golpes que receberá pelo modo de vida incomum.

Se não aprova o mundo como está hoje, assuma as rédeas da própria vida e a responsabilidade que lhe cabe. A solução e o exemplo estão aí, resumidas no vídeo abaixo. Basta segui-lo. Mude e mude o mundo.

Um feliz Sábado. Uma feliz vida inteira.



sexta-feira, 14 de abril de 2017

Tudo morre para renascer

A beleza e a utilidade do símbolo vem, em grande parte, de sua elasticidade. Um símbolo pode ser adaptado a diversas realidades sem perder a sua essência e a mensagem que carrega. A humanidade já não cria mais símbolos tão complexos como os de antigamente, muito da linguagem simbólica que nos utilizamos hoje em dia já existe a milênios e foi criada pelas civilizações antigas do hemisfério norte. É uma pena não termos resgatado e mantido com a mesma atenção os símbolos das civilizações aqui do hemisfério sul.

A Páscoa é um desses casos. Data altamente simbólica, é comemorada durante o período no qual ela faz sentido: a Primavera. Nós apenas importamos a data, algo objetivo, e a comemoramos num contexto exatamente oposto: o Outono. Imagino que celebrar a Páscoa em sua época original facilita o entendimento e o sentimento do que ela quer dizer. Mas, como disse antes, por serem elásticos, os símbolos e sua mensagem, mesmo fora de contexto, devem ser considerados, conhecidos e refletidos.

Desde que se percebeu parte de um universo que funciona ritmado, a humanidade celebra este ritmo. As festas primitivas, em sua grande maioria, senão em sua totalidade eram demarcadas por eventos no céu ou na terra, eventos que indicavam um novo período, com novas dinâmicas de vida cuja observância seria, e ainda é, importante para manter a boa vida. Portanto, tais festas não teriam apenas um caráter comemorativo, mas também eram usadas, tanto para a reconexão com o pulso cósmico, quanto para agradecer a bonança ou se prevenir das dificuldades advindas do novo período. 

Celebrada na primeira lua cheia depois do equinócio de primavera – pois é uma celebração criada no Hemisfério Norte –, a Páscoa vem sendo celebrada pelos Judeus desde tempos imemoriais, quando já sacrificavam cordeiros. Simbolicamente, nos remete à fertilidade, e quando se fala em fertilidade, se fala no poder de dar vida nova, em renascimento, renovação e, portanto, em morte, sem a qual nada renasce.

Após o Inverno, onde nada floresce e tudo está sem vida, a Primavera traz consigo o renascimento, ano a ano, de todas as coisas, inclusive do calendário Astrológico, quando voltamos ao primeiro signo zodiacal, o de Áries. A lua cheia é o ápice da renovação da lua, que num ciclo menor, mês a mês, desaparece e reaparece, morre e renasce. E sabemos, desde muito antigamente, da potência que a lua cheia dá nos processos procriativos, tanto em plantas, cabelos ou trabalhos de parto.

E foi durante tal período renovador que aconteceu o êxodo dos Judeus, do Egito; quando o anjo da morte deixou de lado, pulou as portas das casas marcadas com o sangue de um cordeiro sacrificado, preservando os primogênitos da família que ali morava. Interessante lembrar que Egito, em Hebraico, é Mizraim, que significa estreiteza, prisão; e pular, em Hebraico, é Pessach, originando o nome atual da celebração : Páscoa. Poderíamos dizer, então, que a Páscoa Judaica celebra o dia que o anjo da morte pulou os Judeus, que ganharam a liberdade, dando-os, por sua fé, a possibilidade de uma vida nova.

Séculos depois, com a morte de Jesus Cristo durante as celebrações da Páscoa Judaica, por volta do ano 33 d.C, surgiu a Páscoa Cristã, que eleva o significado de renascimento a um novo patamar, o espiritual. Cristo tomou lugar do cordeiro a ser sacrificado e, também pela fé, venceu a morte, ressuscitando. Sendo a ressureição um fato ou não, a presença dela na narrativa bíblica nos traz mais um símbolo de renascimento, que sugere o processo de morrer para renovar-se, agora em Espírito, pois era espiritual toda a mensagem do Cristo.

Vê-se que, independente da roupa que vestimos a Páscoa, durante milênios, este período vem sendo sinalizado como importante data de renovação. É a hora em que o planeta Terra está todo alinhado com o Cosmo para renovar-se e, efetivamente se renovando, em todos os aspectos. É um convite ancestral para que aproveitemos a data e toda a sua energia para renovarmos a nós mesmos, como tudo na natureza. E se não há renovação sem sacrifício, que sejamos nós o nosso próprio cordeiro, sacrificando o humano velho, materialista, defasado e viciado, para que possa renascer, em nós, o novo humano, espiritualizado e harmonizado com o novo tempo e, no planeta, portanto, a nova humanidade.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Acalme-se


Os mecanismos biológicos, psicológicos e sociais aos quais estamos submetidos nos aprisionam em uma realidade material de pequenez sofrível. São inevitáveis, mas necessários, pois resultam dos milênios de evolução do nosso corpo na interação com a matéria que nos cerca. Entretanto, no caminhar da Ciência, descobrimo-nos menos materiais a cada passo. Há tempos o átomo não é mais a partícula fundamental de tudo; existe mais espaço do que partículas em tudo, e essas partículas sequer são qualquer coisa próximas de sólidas; e se não há solidez real, fluímos, não existe limite entre o meu corpo e qualquer outra coisa. Enfim, é cada vez mais difícil ser cientificamente materialista.

Todavia, ainda carregamos angústias resultantes dessa visão antiquada da existência. Ainda presos ao sensorial primário, nos tornamos densos e tristes pela nossa postura mental equivocada frente à nova realidade que se descortina, dia-a-dia, através da Ciência e das nossas experiências íntimas, desapercebidas em meio aos tantos estímulos físicos que nos rodeiam.

Qualquer um dos desconfortos modernos pode ser vencido através de um ponto de vista mais atento a esse novo paradigma de realidade, deixando lado preconceitos, orgulho e o costume da pouca reflexão séria. Mas, se a ciência ainda é terreno difícil de se enfrentar na caminhada, podemos encontrar tais conceitos importantes na sabedoria popular que, de forma simples, facilitam mergulhos profundos no universo que nos cerca.

Recolhi a fábula abaixo numa dessas conversas que duram horas e se fala sobre tudo. O prazer de ouví-la, a beleza da mensagem que ela traz me faz bem até hoje, e fará ad aeternum. Ela traz uma verdade que, ao contrário do que nos acostumaram a pensar, não dói. A verdade cura, liberta e nos faz sentir bem. Quer ver? Repare como você se sentirá ao terminar de lê-la.

Duas ondas amigas seguiam juntas, fluindo em direção à praia. É o que fazem as ondas. A onda maior, lá do alto de seu volume, estava bastante depressiva e contrariada, enquanto a menor seguia, tranquilamente, ali embaixo.

– Se você pudesse ver o que eu vejo daqui, você não ficaria tão feliz assim. – disse a onda grande disse à onda pequena.
– E o que você vê? – perguntou a onda pequena.
– Não muito longe, vamos nos despedaçar na praia, e vai ser o nosso fim.
– Oh, isso? Tudo bem.
– O que? Como assim, tudo bem? Você está louca? – retrucou a maior.
– Não, não estou louca. Eu sei de um pequeno segredo que me faz ter certeza de que tudo está e continuará bem. – respondeu a tranquila onda pequena, que continuou:
– Quer saber também?

A onda grande ficou curiosa, mas desconfiada, e disse:

– Sim... mas, que tipo de sacrifício vou ter que fazer pra saber desse segredo? Vou ter que meditar durante anos pra entendê-lo?
– Que nada! É algo muito simples, bastante evidente, até. – respondeu, confiante, a menor. 
– Mas como é que algo é simples e evidente e, ao mesmo tempo, um segredo?
– Você tem razão. É que se fossemos mais atentos, não seria segredo pra ninguém. Só o é pela nossa descuidada falta atenção.
– Ora, se é assim tão simples, diga-me logo! Qual seria esse segredo tão consolador? – indaga a onda maior, com extrema curiosidade.

Então, tranquila e carinhosamente, a onda menor responde:

– Fique tranquila com a praia, amiga. Nós não somos onda, nós somos água.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Consciência limpa

Um sono e um despertar tranquilo é o resultado de uma série de pensamentos e atitudes positivas na vida. Quem não deve, não teme! Inclusive à própria consciência, o maior e pior carrasco que qualquer um de nós pode ter. Não gostaria de estar na pele de quem passa por cima das próprias verdades, das verdades da vida e das Leis, para conquistar um naco a mais de poder ou status, como andam fazendo a nossa classe política.

Se o que fazem não lhes gera problemas na consciência, é uma questão de tempo para que venham a tê-los pois, no mínimo, estão plantando, eu seus inconscientes, uma semente de sofrimento ou, no mínimo, de uma bela insônia. Por mais mal intencionados que sejamos, todos temos, no fundo de nosso ser, a noção do que é certo e o que errado. E a alma vai gritar e doer até que a ouçamos e mudemos nossas atitudes.

Combater e eliminar o que gera a culpa em nós mesmos é uma questão de esforço pessoal, de controle todo nosso. Faz tempo que não são mais segredos os benefícios do auto-conhecimento. Há tempos recebemos tais recomendações; há tempos yoguis, monges, filósofos, místicos, homens santo e comuns colocam-se em exílio do mundo para a meditação e melhoria de si.

Entretanto, mesmo saneado o nosso espírito, não há pessoa justa que permaneça em verdadeira paz quando olha para fora de si e vê o resto mundo longe de estar no mesmo processo. E isso também nos tira o sono.

Como expandir a paz interior que tenho e que me faz tão bem a todos aqueles que amo e ao ambiente que me cerca? Como fazer isso e não perder a calma que conquistei com tanto trabalho, ao me expor à essa enxurrada de golpes que o mundo diariamente nos aflige?

No livro "Vinha de Luz", no capítulo 86, Emmanuel, através de Chico Xavier dá a dica, citando Jesus Cristo: "Não andeis, pois, inquietos.” (Mateus, 6.31). E continua:


"Jesus não recomenda a indiferença ou a irresponsabilidade. O Mestre, que preconizou a oração e a vigilância, não aconselharia a despreocupação do discípulo ante o acervo do serviço a fazer. Pede apenas combate ao pessimismo crônico.
 ... 
Ainda nos defrontaremos, inúmeras vezes, com pântanos e desertos, espinheiros e animais daninhos. Urge, porém, renovar atitudes mentais na obra a que fomos chamados, aprendendo a confiar no Divino Poder que nos dirige.

Em todos os lugares, há derrotistas intransigentes. Sentem-se nas trevas, ainda mesmo quando o Sol figura no zênite. Enxergam baixeza nas criaturas mais dignas. Marcham atormentados por desconfianças atrozes. E, por suspeitarem de todos, acabam inabilitados para a colaboração produtiva em qualquer serviço nobre.

Aflitos e angustiados, desorientam-se a propósito de mínimos obstáculos, inquietam-se, com respeito a frivolidades de toda sorte e, se pudessem, pintariam o firmamento à cor negra para que a mente do próximo lhes partilhe a sombra interior."

Combatamos o pessimismo crônico! Não nos rendamos, muito menos sejamos os derrotistas de plantão. Unamo-nos e nos inspiremos uns aos outros com nossas boas atitudes. Desta forma, inspiraremos ao próximo com bons exemplo. Os bons não somos poucos, só precisamos deixar de ser tímidos.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Apocalípse Particular


Por muito tempo, o único Apocalipse que me deixou realmente perplexo foi esse aí de cima,
que matou o Superman em 1995.


Em 2012, já sabendo da minha inclinação em estudos místicos e maluquices conexas, me perguntaram sobre o que eu achava que iria acontecer no fim daquele ano, quando as famosas datas apocalípticas de diversas culturas, o que incluía o famoso calendário Maia, chegariam ao seu termo em nosso calendário greco-romano. 

Respondi que seria algo moral, que o tal apocalipse seria uma sequência de eventos que duraria anos e não teria nada da pirotecnia que consta nas profecias das diversas culturas que dele falam. Tais eventos colocariam a humanidade em xeque e obrigaria todas pessoas do mundo a reverem seus conceitos de moral e ética. O ano de 2012 seria apenas o início dos eventos, da contagem regressiva para a nossa auto-extinção, a extinção do humano antigo para o nascimento do novo humano.

Apocalise, em grego, significa "tirar o véu", "revelar". E, desde muito antes do Apocalipse de João, a revelação mais famosa do ocidente, que existe essa ideia de um final dos tempos, de um juízo final, onde o velho e corrompido deve perecer em favor do novo e purificado. A linguagem simbólica, muitas vezes hermética nesse tipo de texto, talvez seja proposital pois não descreve fatos específicos, mas, sim, padrões. Desta forma permite diversos níveis de interpretação, fazendo com que os mesmos eventos possam ser aplicados ao universo, ao planeta, a uma nação ou a um só indivíduo.

Mesmo assim, a humanidade sempre tentou conectar fatos como a queda do Império Romano, a Segunda Guerra Mundial, a morte ou eleição de um Papa, etc. Se entendermos que o resumo do apocalipse é a falência e queda de um regime antigo e a instalação de um novo, fatalmente encontraremos correspondências em toda a história, afinal, tudo isso é cíclico, acontece de tempos em tempos.

Existe algo interessante na dinâmica dos ciclos: os ciclos menores influenciam os maiores e vice-versa, e assim infinitamente, como no mecanismo de um relógio mecânico e suas centenas de engrenagens. A situação calamitosa do Brasil, por corrupção e desonestidade é uma grande engrenagem, influenciadora e influenciada por engrenagens menores, como a onda de saques no Espirito Santo, na última semana; que se desdobra individualmente em cada um de nós e as pequenas desonestidades diárias. Por não percebermos essa troca de influências, essa rede de causa e consequências, não pensamos em nossos atos singulares, transferindo a responsabilidade para a outra engrenagem do sistema.

Vemos a situação insustentável que chegamos moralmente. Me parece uma clara indicação de que precisamos tomar providências reais e urgentes. Aproveitando o simbolismo do tema e, como um exercício de interpretação, pensemos em fazer o nosso apocalipse particular, retirar o véu materialista que cobre os nossos olhos. Veremos os Cavaleiros do Apocalipse éticos e morais que já estão aí, trazendo mazelas para o nosso mundo interior; os nossos sete selos, os nossos sete chacras principais, deverão ser abertos, um a um, e tomaremos conhecimento do que contém. Assim, harmonizaríamos o nosso ser novamente e, no tempo da abertura do sétimo selo, o mais elevado, o coronário, as trombetas da nossa consciência seriam ouvidas feito um trovão imenso e tudo o que é velho desmoronaria, abrindo espaço para um novo e purificado ser, pronto para uma nova e purificada realidade.


domingo, 18 de dezembro de 2016

Reforçamo-nos, sempre.


Costumo ler, diariamente, o livro Fonte Viva, de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier. A cada dia leio um dos pequenos textos, pequenas lições, interpretações do Evangélho, para se refletir ao longo do dia e implementá-las na vida, na prática cotidiana.

E foi numa dessas leituras, logo cedo, que me deparei com este texto, o de número 21. Encontrar palavras de Emmanuel sobre o tema de uma crônica que eu havia escrito 4 dias antes, me deixou muito feliz. É um leve sinal de que eu devo estar indo pelo lado certo. Se ainda não estou indo, ao menos já estou olhando para o lado certo.

Gosto muito dessas coincidências, quando a vida traz confirmações de que o caminho está certo. Por isso coloco o texto do Fonte Viva e o link para a minha crônica, para que sejam lidos em conjunto, pois eles se completam e se ajudam. Seguem, os textos, a idéia que eles mesmos propagam: que o mais forte, o mais iluminado (o Emmanuel, claro) ajude o mais fraco, o menos iluminado (eu, é claro).

E que todos nós possamos nos aproveitar de mais esse feixe de luz do farol poderoso que são os livros de Emmanuel. E, assim, fortalecidos, termos as condições de praticar, de fato, uma vida mais harmoniosa e amorosa e nos tornarmos, a cada dia, a cada lição, a nossa luz um pouco mais forte.

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21. Maioridade

“…O menor é abençoado pelo maior.” — PAULO (Hebreus, 7.7)


Em todas as atividades da vida, há quem alcance a maioridade natural entre os seus parentes, companheiros ou contemporâneos.

Há quem se faz maior na experiência física, no conhecimento, na virtude ou na competência.

De modo geral, contudo, aquele que se vê guindado a qualquer nível de superioridade costuma valer-se da situação para esquecer seu débito para com o espírito comum.

Muitas vezes quem atinge a maioridade financeira torna-se avarento, quem encontra o destaque científico faz-se vaidoso e quem se vê na galeria do poder abraça o orgulho vão.

A Lei da Vida, porém, não recomenda o exclusivismo e a separatividade.

Segundo os princípios divinos, todo progresso legítimo se converte em bênçãos para a coletividade inteira.

A própria Natureza oferece lições sublimes nesse sentido.

Cresce a árvore para a frutificação. Cresce a fonte para benefício do solo.

Se cresceste em experiência ou em elevação de qualquer espécie, lembra-te da comunhão fraternal com todos.

O Sol, com seus raios de luz, não desampara a furna barrenta e não desdenha o verme. Desenvolvimento é poder.

Repara como empregas as vantagens de que a tua existência foi acrescentada. O Espírito Mais Alto de quantos já se manifestaram na Terra aceitou o sacrifício supremo, a fim de auxiliar a todos, sem condições.

Não te esqueças de que, segundo o Estatuto Divino, o “menor é abençoado pelo maior”. (Heb)


domingo, 20 de novembro de 2016

Livro : O Céu e o Inferno [1865, Allan Kardec]

Comentários ao capítulo IV - O Inferno, do livro O Céu e o Inferno, de Allan Kardec.
Capa para uma das muitas edições da Federação Espírita Brasileira


O Céu e o Inferno, ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo (Le Ciel et l'Enfer, ou La Justice Divine Selon Le Spiritisme), é um dos livros básicos do Espiritismo. Foi publicado por Allan Kardec, em 1º de agosto de 1865, após vários anos de observações e estudos. Composta de duas partes, a obra traz luz sobre o mecanismo da Justiça Divina, sempre de acordo com o princípio evangélico: "A cada um segundo suas obras".

A primeira parte do livro é dedicada a um exame crítico e filosófico, sob o paradigma Espírita, de vários assuntos relacionados aos sentimentos de medo e culpa que desenvolvemos, através dos tempos, tanto pela religião, quanto por outros aspectos culturais. Sentimentos e costumes que podem, conforme Kardec, ser eliminados através do exame racional aliado aos conhecimentos científicos conquistados pela humanidade durante sua evolução.

A segunda parte do livro é uma compilação de vários diálogos que Kardec estabeleceu com diversos espíritos, os quais descrevem as impressões e sentimentos advindos do processo de desencarne (morte). Desta forma, pode-se comparar as diferentes experiências conforme diferente é o carater de cada espírito comunicante.

Por ocasião de um seminário apresentado no dia 05 de Outubro de 2016, em aula do curso de Espiritismo da Federação Espírita de São Paulo, coube ao meu grupo discorrer sobre o capítulo IV - O Inferno. Tal capítulo trata dos temas: intuição das penas futuras; o inferno cristão imitado do inferno pagão; os limbos; quadro do inferno pagão; esboço do inferno cristão. Como resumo deste seminário, escrevi o texto abaixo, o qual gostaria de compartilhar com todos.

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Desde que se tem notícias, sempre houve, na humanidade, a idéia de uma vida futura, após a morte. E os detalhes de como seria essa vida futura variam conforme o nível evolutivo, científico, moral e religioso de cada civilização. Se materialista, a vida futura dos justos era envolta de prazeres materiais abundantes; e, quanto mais espiritualizada, os prazeres eternos do Paraíso iam se deslocando para a felicidade moral, e a leveza da consciência. Da mesma forma, os medos culturais e as dores físicas cotidianas eram transferidas para o Inferno. Por exemplo, civilizações que viviam cercadas de gelo, criaram infernos extremamente gelados; já as civilizações de climas quentes, criaram infernos insuportavelmente quentes. As civilizações mais avançadas, que já entendiam as relações morais da vida, criavam infernos onde as punições doíam na consciência, pela culpa das más atitudes tomadas em vida; em oposição ao paraíso, morada dos justos e de consciência tranquila, a desfrutar a paz eterna. E assim por diante.

Entretanto, apesar das várias formas de representação da vida futura, vale ressaltar o quanto esse conceito antiqüíssimo é comum e possui confluências conceituais, mesmo tendo se manifestado em várias civilizações diferentes, que não se comunicavam, espalhadas e distantes ao redor do mundo. O que nos leva a considerar a existência de uma intuição comum a todo ser humano, um conhecimento espiritual, que as almas de cada ser encarnado trazem consigo, sobre uma existência ditosa ou não, conforme a vida que se levou aqui na Terra.

Focaremos na idéia do Inferno, tema do capítulo estudado. Dada a antiguidade do conceito de que existe um lugar para punições na “vida pós morte”, podemos afirmar que o Inferno não é uma invenção da igreja Católica. O que ela fez foi apenas agregar sua interpretação e seus dogmas às idéias de inferno Pagãos, cultura que combatia e desejava subjugar, piorando o máximo possível a descrição dos sofrimentos. Desta forma, criava imagens horripilantes para causar bastante medo em seus fiéis, o suficiente para mantê-los tementes, sob controle e contribuindo financeiramente com a Igreja, sem questionar, afinal questionar a igreja levava ao Inferno, por toda a eternidade.

O inferno Católico é um lugar onde os espíritos de quem não é católico e levou uma vida desregrada, cheia de atos considerados pecado pelo catolicismo, recebem punições eternas e insuportáveis. É um inferno de caráter duplo, obviamente incongruente, pois pune, com dores físicas, espíritos que não possuem corpo físico. De certo, o caráter meio materialista meio espiritual desse inferno é resultado do estágio intermediário de evolução da humanidade ocidental durante o período no qual esse inferno foi confeccionado.

Por ser um amálgama de idéias de outras crenças não católicas, temos muitas coisas em comum entre o inferno Pagão e o Católico, sendo, como já dissemos, pioradas na descrição católica. Por exemplo, para os Pagãos, o Rei dos Infernos é Plutão, que está lá apenas gerenciando, recebendo e punindo quem por lá chegar, sem fazer qualquer outro tipo de juízo, ele faz o que deve ser feito pois esse é o seu trabalho e ponto. Já no inferno Católico, o Rei dos Infernos é Satanás que, além de punir as almas que por lá chegam, também é responsável por criar armadilhas e tentações para humanos desavisados, com o fim de angariar sempre mais almas para as suas masmorras.

Os pagãos situavam o Paraíso e o Inferno em um lugar físico. O Paraíso, para além das nuvens e o Inferno nas profundezas da terra. Os católicos, por muitos séculos, também fizeram o mesmo. Tiveram que mudar de idéia pela impossibilidade de manter tal crença, já que, após processos científicos de observação do subsolo e dos céus, comprovou-se não existir resquício algum de qualquer estrutura infernal sob a terra ou paradisíaca sobre as nuvens. Kardec aprofunda essas comparações no capítulo “quadro do inferno pagão”, citando a descrição de Inferno feita por François Fénelon, no conto sobre Telêmaco; e no capítulo “esboço do inferno cristão”, aprofunda-se sobre os estudos e digressões católicas, questionando-as e as comentando.

Sabendo que o Paraíso era para os bem aventurados, que viveram para a igreja Católica, seguiram todos os seus preceitos e pagaram todas as suas ‘tarifas’; e o Inferno era para os seus opostos, o que seria da vida futura daqueles Católicos que, por algum motivo falharam, que fizeram quase tudo certo e, por forças irresistíveis ao humano médio, pecaram? Como ficariam aqueles que se esforçaram muito mas, como a carne é fraca, se tornaram impuros para a vida eterna no Paraíso? Para cobrir essa lacuna, onde certamente estariam a maioria dos fiéis, criou-se o Purgatório, um lugar para onde iriam esses espíritos, os quais seriam eternamente punidos, de forma mais leve do que no inferno, mas aguardando a misericórdia divina, a intervenção dos Santos ou as orações dos vivos rogando para que Deus os perdoasse as faltas e os aceitasse no Paraíso. Desta forma, mesmo que ainda escravos dos prazeres da carne, ainda valia a pena tentar ser Católico e contribuir com o dízimo.

Entretanto, ainda restavam sem domicílio eterno as almas que não tiveram a oportunidade de conhecer a Luz de Deus, conforme os dogmas Católicos; que não foram batizados, que não participaram da comunidade Católica, o que viveram à margem de Deus, como os selvagens, as crianças mortas antes do batismo e todos os justos que vieram antes da vinda de Jesus Cristo. Para estes criou-se o Limbo. Limbo significa, literalmente, borda, margem, extremidade. 

Para os justos que viveram anteriores à Jesus, dizem ter havido um limbo especial, o Limbo dos Patriarcas, que foi extinto quando Jesus, após ser crucificado, foi até lá e perdoando os pecados, recolheu a todos que lá estavam, como prêmio por sua fé. Mas, subsiste até hoje e se manterá por toda a eternidade, conforme os Católicos, o Limbo para os demais espíritos, que lá passarão a eternidade, sem direito à salvação. Idéia extremamente contrária à infinita misericórdia e amor de Deus por toda a sua criação.

Todos estes cenários, independente da cultura nos quais foram criados, onde existam punições eternas sem chance de “revisão da pena”, são monumentos à imperfeição de Deus e, atualmente, por não terem lógica alguma são, também, um convite ao ateísmo. Criou-se a imagem de um Deus que pune, que julga, que cria os seres imperfeitos e os condena pelas atitudes imperfeitas inerentes a isto; um Deus quase humano, instável e não confiável. Essa imagem de Deus entra em conflito com a mensagem do Cristo e a intuição que todos temos, intimamente, sobre Ele, gerando dúvidas e desconfianças sobre a fé que deveríamos cultivar. Assim, conclui Kardec que o Dogma do Inferno, ao contrário de dar autoridade e respeitabilidade à Deus, apenas O diminui, transformando-O em uma entidade tão imperfeita e questionável quanto o ser humano, esta sim é uma verdadeira e imensa blasfêmia.

No sentido oposto, temos a doutrina Espírita e sua visão da vida futura, das Leis Universais, pelas quais os Espíritos colhem exatamente o que plantam e na justa proporção do que plantaram. Que tira o Paraíso de o Inferno de lugares físicos, exteriores ao ser humano e os coloca onde é mais lógico que estejam: sob a nossa responsabilidade, dentro de cada um de nós (como bem ilustra a capa da edição que ilustra o início deste texto). O Inferno somos nós mesmos e não mais os outros, como dizia Jean Paul Sartre.

Desta forma, o Espiritismo enaltece a perfeição de Deus, Sua justiça, misericórdia e amor infinitos. E, além de tudo, alinha-se com vários livros sagrados, principalmente a Bíblia e as palavras de Jesus Cristo, de forma harmoniosa, sem a necessidade de malabarismos interpretativos esdrúxulos e duvidosos.

Entretanto, por mais absurdas que seja a idéia do Inferno como local eterno e irreversível de punição, ainda é necessário que ela exista. Pelo temor que causam, são, para vários grupos de pessoas em estágios de evolução espiritual ainda primária, a única forma de limite de consciência, de provocar reflexões e frear atitudes contrárias às Leis Universais. Fica, portanto, à cargo do Espiritismo, o trabalho firme e constante, através da educação e da promoção da fé raciocinada, de combater estes conceitos defasados, ao ponto em que eles não sejam mais necessários, proporcionando a todo ser humano uma conexão direta e verdadeira com o amor, a justiça e a misericórdia, enfim, com a perfeição infinita de Deus.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A Boa Morte


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.



A alegria de Fernando Pessoa, que assina o poema acima, "Quando vier a Primavera", como Alberto Caieiro, é a alegria que também busco. Essa paz de saber-se mortal, finito e não se abalar; pelo contrário, sentir-se livre e tranquilo com o inevitável destino. E não só eu, é a paz que a humanidade persegue desde tempos imemoriais, quando surgiram, pela primeira vez, as dúvidas sobre o que é a morte.

Nasceram, então, dos questionamentos, um infinito de mitos, medos, dogmas, traumas, ansiedades, remorsos, festas, lágrimas. Tristemente, principalmente no mundo ocidental, a morte se tornou algo ruim, que desperta medo, que não se deve falar ou pensar sobre. E hoje, colhemos frutos amargos desse que é um dos maiores erros da cultura contemporânea de negação da morte. Vivemos despreparados para os adeuses, que são tantos e sempre serão.

Para os Budistas, os Espíritas e outros reencarnacionistas, o bom pensar na morte resulta num bom pensar na vida e, por consequência, um melhor viver; é bom e necessário. Afinal, como diz outro poeta, Vinícius de Moraes, no Poema de Natal: "Por isso temos braços longos para os adeuses". Somos feitos pra isso.

Caso ainda não saiba, qualquer um de nós pode morrer a qualquer momento, é inevitável. Estar doente ou a saudável não alteram as probabilidades de óbito, o próximo passo não é garantido para ninguém. Quantas vezes já passamos triscando pelo nosso quase último momento e nem percebemos, ou percebemos e continuamos a mesma vida postergadora, confiando na ilusão do amanhã.

Foram tantos alertas mais leves que não me fizeram aproveitar melhor o tempo! A vida é urgente, sim, e eu precisei ganhar duas cicatrizes físicas que me lembram disso a cada vez que tiro a camisa. Hoje agradeço aos autores delas, tanto ao agressor quanto ao médico que me salvaram. Sim, salvaram, os dois. O primeiro, de que eu desperdiçasse a vida; o segundo, de que eu perdesse a vida. Mas espero que a maioria de nós não precise de algo tão drástico para melhorar a forma de viver.

No Cristianismo existe a figura da Ressurreição, que é voltar da morte com o mesmo corpo. Clínica e fisicamente impossível, por motivos óbvios – pelo menos até agora –, mas metaforicamente viável, além de um belo conceito. Ressuscitamos quando, por motivos tantos, deixamos morrer o velho Ego e, no mesmo corpo, ressurgimos renovados. Ou, de forma mais simples, a cada novo dia, que nos é dado em branco, para fazermos algo melhor do que no dia anterior. Foi o que aconteceu comigo.

Uma nova vida num mesmo corpo é possível. Talvez seja essa a mensagem, a princípio esdrúxula, da ressurreição bíblica que, agora, já me faz melhor sentido. E ressuscitemos hoje, que é o único tempo que existe. Sem medo da morte, morremos e ressuscitamos todos os dias, sem sofrer, conforme nos sugerem vários dos grandes avatares que já caminharam por essa Terra. Afinal, voltando ao Vinícius de Moraes, no já citado Poema de Natal: "da morte, apenas nascemos, imensamente."

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Quando o nome não importa

E se eu estiver errado? E se não existir nada disso em que acredito: Deus, Reencarnação, um sentido e um motivo pra tudo? E se for apenas o acaso, uma confluência de fatores aleatórios? É o que às vezes me perguntam e que, por exercício filosófico, também me pergunto de tempos em tempos.

Desde sempre tenta-se provar a existência de Deus. Vejo, semanalmente, circulando pela internet, várias matérias, estudos científicos ou não, sobre esse tema. Alguns comprovam a existência, outros comprovam a inexistência e, outros tantos, são inconclusivos. São, mesmo, desnecessários.

Então vamos, por exercício, imaginar um Universo sem Deus, sem causa e sem objetivo. Um universo cujas relações sejam resultado de encontros e desencontros, equilíbrio e desequilíbrio ao acaso, onde as questões materiais são as únicas existentes.

Sabemos ser, o Universo, extremamente equilibrado, e isso científico. Já vi estudos dizendo que se houvesse uma diferença milimétrica no coeficiente de atração gravitacional – ou seja, na força que atrai e mantém nossas as moléculas unidas –, tanto pra mais quanto pra menos, tudo entraria em colapso e nenhum tipo do que chamamos de "matéria" conseguiria existir.

Portanto, equilíbrio me parece ser a palavra chave do Universo. E esse equilíbrio milimétrico pode ser observado em tudo. Na natureza, em tudo o que nos cerca, todos os minerais, fauna e flora se equilibram e se complementam na exata necessidade e possibilidade de cada um. Não vemos animais irem à caça sem fome, e se atacam é por necessidade imperiosa de manter-se vivo, jamais por esporte ou diversão. Uma árvore nunca acumula seus frutos só para si, pelo contrário! Ela oferece, além do alimento, abrigo, até mesmo praqueles que a destroem, como insetos ou humanos.

Notamos, então, que tudo o que existe se sustenta entre si e, se houvesse Deus no Universo que analisamos, diríamos que tudo se conecta de uma forma inteligente. Mas, inteligência depende de algum tipo de ente para se manifestar e, não o havendo este ente, chamaremos essa relação de dinâmica e equilibrada. 

Também sabemos que todo desequilíbrio nessa equação universal vem de um único fator: a ação humana. Nós, desavisados de que somos parte desse sistema, agimos como desconectados dele, criando desequilíbrios naturais e climáticos, pragas, epidemias e outras coisas do gênero e que nos trazem sofrimento. Ora, se somos parte do sistema, feitos da mesma matéria, através das mesmas "leis da física", o que nos permitiria agir sem considerar tais "leis"?

Matamos e nos alimentamos acima da necessidade; acumulamos nossos frutos até que nossos galhos se quebrarem; ingerimos veneno diariamente; vivemos a primavera durante inverno, o dia durante a noite, a vida na morte, a morte na vida. E nos achamos no direito de reclamar da dor, único resultado possível da nossa inconsequência.

Atração, caridade, progresso e amor são algumas das várias regras evidentes na natureza e a simples lógica sugere respeitá-las, independente do que as tenha definido, seja o acaso, o caos, o cosmo, a natureza ou, até mesmo, Deus.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Quem é você?

Mantenho o costume de encontrar amigos para tomar um café e conversar. Acredito que esse tempo ouvindo opiniões externas e revisitando as minhas, é um exercício importante para a manutenção da saúde mental e um fator inquestionável de melhoria na minha qualidade de vida. E espero que na dos amigos também! 

Num desses Cafés Filosóficos e Literários particulares, uma amiga, que é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e entusiasta do Budismo, contou-me de um estudo sobre os efeitos solidão nas pessoas, para o qual mantiveram alguns voluntários, por 55 minutos, sozinhos em uma sala completamente vazia, onde a única coisa que havia para fazer era apertar um botão que lhes daria um choque elétrico. Assustadoramente, após os 15 primeiros minutos, mais da metade dos voluntários preferiu passar o restante do tempo se eletrocutando a ficar quieto, em silêncio, a sós consigo mesmo.

As coisas só podem estar muito erradas quando tomar choques elétricos é melhor do que ficar a sós consigo mesmo. Shakespeare, em Hamlet, já alertava que o autoconhecimento é doloroso, e que, naturalmente, uma pessoa a desbravar seu mundo interior acaba desenvolvendo um certo tipo de dor e melancolia. Sim, é natural, inevitável e comum, é como a dor muscular que todos sentem após um exercício físico. E exercícios físicos são tão importantes para o corpo, evitando que definhemos, assim como os exercícios mentais. Portanto, diferente do que nos forçam a crer, sentir dor não é algo ruim, é apenas um alerta, um sinal de uso e convite para a reformulação de atitudes.

No mundo, fora do experimento, os nossos eletrochoques são os entorpecentes e as ressacas físicas e morais; a alienação pela TV, smartphones e excesso de informação inútil; o sofrimento do trabalho ininterrupto para suprir desejos infinitos e atingir metas impossíveis que nos impomos, tudo isso justamente para não termos tempo de nos encararmos e percebermos o quão vazio estamos. É claro que não se pode negar que as vis engrenagens do mundo nos levam a agir assim, elas nos maceram e nos coisificam, mas, também, é inegável a nossa responsabilidade em permitir chegarmos onde chegamos. Quem não se conhece não sabe do que precisa e aceita qualquer coisa.

Vejo o tantos sofrendo por terem desaprendido a ficar alguns segundos em silêncio. E, nesse mundo de estímulos múltiplos e simultâneos, que cobram respostas irrefletidas e imediatas, quase na velocidade da luz, só aumentamos, ainda mais, a quantidade de equívocos. É preciso frear. É preciso voltar a nos conectarmos com aquela voz interior que está soterrada sob um turbilhão de bilhões de ideias e sons, ruídos e pensamentos e ouvir o que ela tem a nos dizer.

Blaise Pascal alertou, há séculos atrás, que “todos os problemas da humanidade decorrem da incapacidade do homem de sentar-se calmamente em uma sala sozinho”. Imagino quanto sofrimento, pessoal e interpessoal, poderia ter sido evitado na nossa própria história e na história da humanidade, se utilizássemos melhor os nossos momentos de solidão para nos conhecermos e refletir sobre nossas atitudes conosco e com o mundo.


Bônus:
Gostou do assunto, ouça o que a Márcia Baja tem a dizer sobre a experiência dela com a Meditação.

domingo, 17 de abril de 2016

Livro : A Caminho da Luz [1939, Emmanuel e Chico Xavier]

Comentário aos capítulos XVI ao XX - da queda do Império Romano ao Renascimento.

Link para download gratuito do livro completo.



Capa da primeira edição do livro, de 1939.

Francisco Cândido Xavier, famoso médium espírita, psicografou 412 livros durante os mais de 70 anos de trabalho ininterrupto pelo espiritismo. Isso dá uma média de 6 livros por ano, uma produção impossível para um homem comum, ainda mais se considerarmos sua pouca formação escolar; doenças oculares como o estrabismo no olho direito, o deslocamento do cristalino no esquerdo; a profundidade filosófica e científica dos textos; além do tempo utilizado em outras atividades como a psicografia das famosas cartas, as viagens, as palestras, entrevistas, o trabalho nos Centros Espíritas e as coisas naturais da vida como dormir, comer e tomar um banhozinho, pois ninguém é de ferro.

Um desses livros, publicado em 1939, é o "A Caminho da Luz". Psicografado por Chico Xavier e ditado pelo espírito de Emmanuel, o livro conta, pela ótica Espírita, o desenrolar dos fatos desde a criação do planeta Terra até o advento da Doutrina Espírita, em 1857, através de Allan Kardec e, ainda, aponta o trajeto a seguir, dando elementos para entendermos a história contemporânea e o nosso futuro. Como explica o próprio Emmanuel, no Antelóquio do livro : "Não deverá ser este um trabalho histórico. A história do mundo está compilada e feita. Nossa contribuição será à tese religiosa, elucidando a influência sagrada da fé e o ascendente espiritual, no curso de todas as civilizações terrestres.".

Entendo que a intenção maior do livro é chamar a atenção para a existência da providência divina e nos lembrar que ela age, amorosa e incessantemente, através dos tempos, por meio de uma equipe espiritual, formada por entidades muitíssimo evoluídas, que agem em nome de Deus, e cuidam para que os planos Dele se mantenham no eixo. Ainda melhor nas palavras de Emmanuel, registradas nos primeiros parágrafos do capítulo "I - A Gênese Planetária": "Rezam as tradições do mundo espiritual que na direção de todos os fenômenos do nosso sistema existe uma Comunidade de Espíritos Puros e Eleitos pelo Senhor Supremo do Universo, em cujas mãos se conservam as rédeas diretoras da vida de todas as coletividades planetárias. Essa Comunidade de seres angélicos e perfeitos, da qual é Jesus um dos membros divinos...".

Introduzido o contexto do livro, passo aos fatos.

Para o curso regular de Espiritismo da Federação Espírita do Estado de São Paulo, o qual estou cursando, a sala foi dividia em grupos e cada qual cuidou de resumir e explicar, num seminário de 15 minutos, um conjunto de capítulos. O grupo no qual participei cuidou dos capítulos XVI ao XX, que falam desde a do Império Romano até a chegada do Renascimento, passando pela Idade Média.

Durante quase um mês de conversas e troca de informações com os companheiros do grupo, tentei, sem sucesso, ordenar as informações pra que pudéssemos apresentar o trabalho, com clareza, frente à sala. Mesmo tendo sido a segunda vez que lia o livro, a linguagem complexa e o grande número de nomes, datas e referências me embaralhavam  como sempre  as idéias. Até que chegou a manhã do inevitável dia da apresentação, resolvi, então, anotar alguns tópicos para, pelo menos, não me perder durante a fala.

Sentei-me, armei-me de uma folha de almaço e uma caneta, pedi ajuda e, por alguns minutos, olhei para índice do livro, aos capítulos referentes ao meu grupo, enquanto tentava, mais uma vez, organizar as idéias. Iniciei a primeira anotação e, o que deveria ser alguns lembretes se transformou em vários parágrafos de um texto no qual tudo fazia um sentido que até minutos atrás não existia. Depois de 30 minutos, escrevendo sem parar, sentindo as idéias se ajuntarem na cabeça e escorrerem até o papel, eu tinha duas páginas e meia de almaço, resumindo todo o conteúdo referente aos capítulos do meu grupo de trabalho. Inspiração. Agradeço aos amigos invisíveis pela ajuda. Algumas leves correções estilísticas depois, o texto me pareceu tão bom que resolvi publicá-lo aqui no blog para quem, assim como eu, teve dificuldades no entendimento destes capítulos ou precisa de alguma chave a mais para entender um pouco mais do livro todo. Porém, aviso que o mergulho aqui não é fundo, ainda não tenho essa capacidade.

Antes, vale lembrar que, de acordo com o livro, nos planos de Deus para a humanidade, a missão do Império Romano era de ser um facilitador para a disseminação do Evangelho, a Boa Nova que facilitaria a religação do homem materialista com a espiritualidade universal e as Leis do Criador. Depois de várias tentativas durante os tempos, contando com a ajuda de outros emissários como Zoroastro, Confúcio, Buda, etc, desta vez, a Mensagem seria trazida pelo próprio Cristo, o Espírito mais evoluído da Terra, o Governador Planetário. Por isso, através da ajuda invisível e da encarnação de grandes espíritos, Roma consegui se expandir através da quase totalidade do mundo ocidental antigo e conhecido, tornando-se o maior império em abrangência geográfica e organização estrutural que havia existido até então.

Segue, daqui, o texto apresentado em sala:

Tendo em vista a falha de Roma em cumprir sua missão de ser a base social para a expansão das ideias cristãs, principalmente por causa de se vincularem e promoverem ideias materialistas como a vaidade, o orgulho, a sensualidade e a belicosidade, os espíritos encarregados, da mesma forma que auxiliaram na formação do Império Romano, tomaram providências para que ele fosse desmontado, cessando com a ajuda. Além do mais, há de se considerar que atitudes materialistas e não cristãs, como as de Roma, só poderiam resultar na instabilidade social e na impossibilidade da manutenção da ordem política em uma área tão grande. Afinal, é natural a instabilidade e a destruição de tudo o que não segue as Leis Divinas, que também podem ser chamadas de Leis Naturais, por serem perfeitas e imutáveis através da eternidade.

A Igreja Católica, nascida do Cristianismo, vinculou-se ao estado romano e foi infectada pelos mesmos valores e costumes distorcidos, que gerariam muitos problemas para a instituição no futuro. Mas tais problemas, como as atitudes autoritárias e centralizadoras, também trariam coisas boas para a humanidade, séculos depois. Como, por exemplo, o Protestantismo, que veio por Lutero, movido pela insatisfação com as posturas dogmáticas católicas, libertou a Bíblia dos armários secretos dos mosteiros e a colocou nas mesas do povo.

Com o desmonte do império, a força política que unia aquele emaranhado de nações e culturas cessou, fazendo com que cada um procurasse o seu lugar ao sol e sua própria organização, mas sem a estrutura e a cultura romana, que foi abnegada, deixada de lado, pois ela simbolizava o antigo algoz, do qual todos queriam manter distância e, se possível, esquecer para sempre. Este movimento levou a humanidade tempos de ignorância, a Idade Média, Idade das Trevas, a Era do Feudalismo. E sem a visão Espírita é impossível de explicar o infinito amor e a misericórdia divina frente a tão obscuro período.

Apesar de ter sido quase uma volta ao total primitivismo, tudo sempre acontece sob a vigilância misericordiosa da equipe espiritual que, entre várias ações, enviou o espírito que foi um dos mais nobres imperadores romanos, leal trabalhador do Cristo, que reencarnou como Carlos Magno, e reorganizou a estrutura do mundo ocidental, tão fragmentada após a queda do império romano. Durante os 46 anos de seu governo, Carlos Magno deixou uma nova base cultural e administrativa que possibilitaria a continuidade dos planos divinos.

Portanto, durante o período da Idade Média, sem a refinada estrutura cultural e social de Roma, a humanidade voltou à lida diária com a terra, o que gerou a valorização do trabalho e a conexão, novamente, e de forma mais fundamental, com a natureza. E através dessa existência mais humilde e sem qualquer conforto, ressurgiu, no coração dos homens, de forma mais forte, o sentimento da existência de um deus que a tudo rege. Foram, assim, a fé e a resignação retrabalhadas íntima e profundamente na humanidade, através das dores, doenças e outras inumeráveis dificuldades comuns àqueles tempos.

Nessa época, a Igreja Católica estava cada vez mais poderosa e parecia intocável. Era manipulada por espíritos infelizes e ignorantes que, tentando a todo custo evitar a expansão do Amor e da Caridade pelo mundo, usaram a instituição como protagonista de atividades bárbaras e reprováveis pela Lei de Deus, como as Cruzadas e a Inquisição. Todo o esforço era válido para abafar as verdades que colocariam a humanidade à caminho da luz e, em xeque, tudo o que alimentava seus vícios e desvios morais que tanto lhes davam prazer.

Entretanto, como já dito, os trabalhadores espirituais do Cristo se mantiveram sempre vigilantes e ativos, enviando, de tempos em tempos, emissários do alto para auxiliar a humanidade a manter-se no caminho, ou, pelo menos, não se afastar muito dele durante esta parte escura e difícil da jornada. Para isso, encarnaram, tanto na sociedade civil, quanto entre os nobres e o clero, baluartes da mensagem cristã que, munidos de amor e misericórdia, traziam ideias e métodos novos para melhorar as condições de vida material e espiritual das pessoas. Religiosos, Filósofos, Inventores, todos de coração e alma iluminados, mantiveram vivos o pensamento e as atitudes benéficas. Vide Santo Agostinho, São Francisco de Assis, São Tomás de Aquino, Roger Bacon, entre outros.

Se é através das limitações que temos as melhores inspirações, durante as provas e expiações da estreitíssima Idade Média, a humanidade se desarmou das vaidades de outrora e se colocou novamente sensível aos pequenos detalhes da vida e do Universo, despertando, mais um vez, como não acontecia desde os gregos, a curiosidade que motivaria as descobertas, as invenções, os questionamentos e demais eventos que desaguariam no Renascimento. Transformando, até mesmo, o próprio corpo humano, objeto tão cotidiano, em algo sublime, divino.

Assim sendo, com uma nova base social e espiritual instalada, à partir do Sec. XIV, vários espíritos iluminados começaram a reencarnar trazendo novos e mais avançados conhecimentos em todas as áreas. Ciência, Filosofia, Religião sofreriam à partir daí, grandes revoluções e, auxiliado pela invenção da imprensa, por Guttemberg e pelas grandes navegações da Escola de Sagres, que possibilitariam o intercambio e a colonização do novo mundo, o conhecimento se espalharia sem fronteiras.

Tal cenário preparou a humanidade, principalmente a europeia, para receber os espíritos que pavimentariam a estrada até o Iluminismo, a grande era das luzes, cujo ápice foram os séculos XVIII e XIV. Estava, enfim, todo o planeta, novamente preparado para uma nova fase, uma nova tentativa de instalar, no coração da humanidade, o Evangelho.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Fazer-se instrumento

Impossível não se inspirar com a história de Giovanni di Pietro di Bernardone (1182-1226), uma vida de abnegação e pobreza, porém rica de amor e em comunhão com Deus. Francisco, Francesco em italiano, era o apelido pelo qual era conhecido por gostar da França. Ficou conhecido como São Francisco de Assis, considerado a maior personalidade cristã após Jesus Cristo, o fundador da Ordem Franciscana, uma das ordens católicas mais influentes e famosas, conhecida pelo seu voto de pobreza.

Nos últimos meses, além da vontade de rever o filme "Irmão Sol, Irmã Lua" (Fratello Sole, Sorella Luna, 1972, Franco Zeffirelli), tem me voltado ao pensamento uma das orações mais tocantes que já ouvi, cuja criação é erroneamente atribuída à São Francisco – vide google –, mas que foi, por causa de seu conteúdo, adotada oficialmente pelos Franciscanos. Ela também é conhecida como "Oração pela Paz":

"Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz; Onde houver ódio, que eu leve o amor; Onde houver discórdia, que eu leve a união; Onde houver dúvidas, que eu leve a fé; Onde houver erros, que eu leve a verdade; Onde houver ofensa, que eu leve o perdão; Onde houver desespero, que eu leve a esperança; Onde houver tristeza, que eu leve a alegria; Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, fazei com que eu procure mais consolar, que ser consolado; Compreender, que ser compreendido; Amar, que ser amado; Pois é dando que se recebe; É perdoando, que se é perdoado; E é morrendo que se vive para a vida eterna."

É sabido dos poderes dos mantras, meditações e das preces. Para nós, Cristãos, a oração do "Pai Nosso", ensinada, como dizem as tradições, pelo próprio Cristo, é a mais completa. Não se questiona tal completude e poder, entretanto, vale assinalar que é uma oração na voz passiva, onde, humildemente pedimos e deixamos tudo nas mãos de Deus. Com a mesma humildade e resignação, a oração franciscana nos coloca na voz ativa. Pede, mas pede forças para executar o plano, capacidade e proteção para colocar a mão na massa, como fez São Francisco, que abandonou o conforto para ajudar o próximo e não mediu esforços para uma real vivência cristã, conseguindo respeito e admiração da Igreja Católica, mesmo na idade média, período de difícil relação do clero com o povo, por causa de sua autoridade moral inatacável.

Evidente que a reflexão é sobre o trabalho. Se existe um mundo melhor a ser construído, a matéria-prima e os obreiros somos nós mesmos, no sacrifício cotidiano do supérfluo, dos vícios e das vaidades. Dizem que, no fim da vida, mesmo depois de tando desprendimento material, Francisco ainda não se sentia em paz consigo, pois estava decepcionado em ver, rica e cheia de posses, a ordem que havia criado para ser pobre. Foi durante uma conversa com Santa Clara, grande amiga e fundadora do ramo feminino dos Franciscanos, que ouviu ainda lhe faltar um último ato de desapego: liberar-se de toda a sua obra, que já não era mais sua. Entendendo o recado, Francisco finalmente encontrava a paz. Faleceu com com 44 anos de idade e, a seu pedido, foi sepultado nu.


sexta-feira, 25 de março de 2016

Libertação

Após milênios de experiência humana, todos concordam que precisamos nos libertar dos grilhões que nos prendem a uma vida de sofrimento e frustrações. Características tão humanas como o orgulho, a vaidade, os vícios, o materialismo exagerado sempre foram chamadas ao expurgo, no difícil sacrifício de si mesmo, em nome do qual conquistaríamos a verdadeira paz interior, e uma vida exterior mais tranquila e leve, através do tal religare, palavra latina, origem do termo Religião, que significa religamento. Com Deus, o Cosmo, a Natureza... você escolhe. Tal conceito também está no Budismo, em outras religiosidades e demais áreas do pensamento humano, desde sempre, muito antes dos filósofos, cientistas, psicanalistas e tantos outros, já procurávamos essa conexão.

Nos Vedas hindus, a literatura espiritual mais antiga da qual se tem notícias, já existia o convite ao sacrifício de elementos amados, mas que nos fazem mal. No poema épico Bhagavad Gita, o Príncipe Arjuna enfrenta uma batalha contra sua família, que tenta derrubá-lo do poder. Aconselhado por Krishna entende que seria impossível lutar contra tantos que ama e que fazem parte do que ele é, sem sofrer; mas os sacrifícios eram necessários para seu crescimento e paz interior. É fácil tomar a família de Arjuna como simbolo dos seus sentimentos, da sua pluralidade interior, contra a qual ele tem que lutar e domar para evoluir.

A Páscoa Hebraica remonta à noite na qual o povo hebreu é libertado da escravidão do Egito. Como muito do antigo testamento, a passagem é cheia de símbolos que também nos dizem : para deixar a vida sofrida de escravidão, muitas vezes devemos sacrificar o que amamos. Simbolo maior, o cordeiro que se sacrificava para a refeição, convivia durante alguns dias junto com a família que, inevitavelmente criava afeição pelo bichinho, assim seu sacrifício e consumo, era uma experiência dolorosa, já antevendo as dores que todos passariam para se libertarem da pior escravidão de todas, a escravidão de si mesmos.

A morte e a ressurreição de Jesus Cristo, ocorridas durante as festividades pascais hebraicas, motivam a Páscoa Cristã. Os mesmos símbolos, mas, desta vez, chamando a atenção para que o sacrifício passasse de exterior para interior, Jesus se coloca como o próprio cordeiro a ser sacrificado. Imagino que, após trinta e tantos anos de convívio, muitos também se afeiçoaram a Ele que sacrificou seu corpo machucado, quase desfigurado pelo ódio, vaidade e orgulho – dos outros – para conquistar um corpo renovado, mais próximo do divino. 

Jesus usou a Páscoa para reforçar um símbolo antigo e constante na humanidade: é inevitável evoluir, e evoluir é sacrificar-se. Mostrou na carne o que deveríamos fazer em espírito. Portanto, neste fim de semana, independente da confissão religiosa, ou não, que tenhamos, reflitamos sobre como sacrificar os velhos costumes, a velha vida de escravidão à qual estamos apegados. Pois, não é novidade, vai doer, mas só assim viveremos a tão sonhada paz dos verdadeiros libertos.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Aos sempre jovens poetas



Nos tempos da Faculdade, uma amiga, sabendo da minha inclinação à poesia, me emprestou o livro "Cartas a um Jovem Poeta". Uma compilação da pequena, mas bela correspondência entre o poeta tcheco Rainer Maria Rilke e o jovem austríaco Franz Kappus. Trocada vagarosamente entre 1903 e 1908, talvez seja uma das melhores coletâneas de conselhos a um jovem – ou a qualquer um com dúvidas e angústias, que dá no mesmo – que eu já tive notícias. Desnecessário dizer a gratidão que tenho a essa amiga e o quanto essa leitura me marcou e inspirou na poesia e na vida.

O jovem Kappus, aluno de um colégio militar, tinha dúvidas sobre se deveria seguir o seu coração e abraçar a carreira de poeta, que tanto lhe realizava a alma, ou se deveria seguir a militar, que lhe daria segurança financeira e agradaria a sua família – ora, a dúvida que nos une a todos! –. Ao saber que Rilke, o famoso poeta, também havia estudado no mesmo colégio, resolveu escrever-lhe uma carta na qual abria seu coração e perguntava se seus versos eram bons o suficiente para seguir o seu intento poético.

O poeta, mais experiente, entre rápidas digressões acerca do processo da escrita, da poética e dos versos de Kappus – que aparecem hora ou outra pelas cartas –, prefere aconselhá-lo para a vida, talvez a única forma de ajudá-lo de verdade, pois a vida não deve ser nada mais do que nossa melhor poesia. E, assim como na vida, o trabalho na poesia exige fé e análise constante de si mesmo, o poeta se destrói e se reconstrói dia a dia. É uma atividade que acontece pela necessidade de nascer do verso, e não o contrário. Por isso, deve o poeta, antes de tudo, estar em conexão consigo, com o que borbulha dentro de si, e ter forças para trazer isso à luz da melhor maneira. É o esforço hercúleo e inevitável de dar vida, da gestação e parto, tão comum e sagrado na natureza.

E não apenas se conhecer intimamente, mas ligar-se à natureza, inteirar-se do ritmo do mundo e saber deixar tudo amadurecer antes de colher. Ter paciência, viver plenamente o agora, como vivem todas as coisas no universo, entender as limitações inerentes ao humano na magnitude do infinito, perceber seu lugar e função no jogo. Isso acalenta a alma e afasta a angústia da criatividade e do próprio viver, pois “as coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível", senti-los pode ser mais importante do que entendê-los.

Por isso devemos amar as nossas dúvidas, vivê-las agora e sem medo, pois, talvez passemos, "gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas". Entender que "quase tudo que é sério é difícil, e tudo é sério", sem sentir medo, mas, pelo contrário, fazer disso um convite à introspecção e fortalecimento, pois, “talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo terror não passe, em última instância, do desamparo que requer nossa ajuda.”

Viver uma vida sincera em essência e meditativa pode nos fazer sentir solitários, distintos do mundo, mas, longe de nos desestimular, a dificuldade de encarar-se só deve nos impulsionar. Ser solitário é bom, "pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la".

Enfim, como já sugere Kappus, no prefácio do livro, o tom dessa correspondência ecoa tão universal que é impossível não a tomarmos como nossa. Nós, tão distintos e, ao mesmo tempo, tão semelhantes... E a cada leitura deste livro, nos tornarmos mais preparados para soltarmos as rédeas do mundo e segurarmos firmes as nossas, e entender a simplicidade funda destas últimas aspas de Rilke que vos trago:"De resto, deixe a vida acontecer. Acredite em mim: a vida tem razão, em todos os casos."

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Ressaca

(ou reflexões pós-carnaval)


Está lá, ou pelo menos estava há séculos antes de Cristo, nas paredes do Templo de Apolo, em Delphos, na Grécia, a frase: "Nada em Excesso". Talvez esse seja um dos registros mais antigos dos efeitos de uma ressaca no homem. Imagino aquele grego, acordando no dia seguinte da esbornia, cheio do mal estar e, através da filosofia – super novidade da época , chegou a esta magnífica conclusão de que o excesso não tá com nada. Resolveu gravar a conclusão na parede do templo de Delphos pra alertar os convivas, já que aquele era um dos lugares mais movimentados da região.

Ao lado desta salutar máxima está uma outra, que ficou mais famosa ainda, pois foi citada por Sócrates, Krishna, Jesus Cristo, outros avatares cósmicos e, também, por filósofos mais recentes : "Conhece-te a ti mesmo". Na realidade a frase completa é "Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo". Mesmo resumido, o enunciado se mantém forte através dos tempos e há muitos motivos para desconfiar que o "conhece-te a ti mesmo", apesar de ser a mais famosa das frases de Delphos, se originou de desdobramentos filosóficos do "nada em excesso", ou seja, da ressaca.

Logo após descobrir que excessos não são bons pra vida, nosso amigo grego deve ter pensado: "mas como vou saber se é excesso ou não? A medida do excesso para um gigante seria o mesmo para um homem normal? O excesso para um homem seria o mesmo para uma mulher?". Sabendo o óbvio de que cada um é cada um, chegou facilmente na conclusão de que só vai perceber o excesso quem se conhecer bem. Pronto! O Templo de Apolo ganhou mais uma anotação nas suas paredes.

Pelo jeito que levamos a vida parece que não, mas todo mundo sabe que a ressaca é causada por desequilíbrio fisiológico do corpo, ou seja, ingestão de toxinas, desidratação e outros desdobramentos físicos. E expandindo o mesmo conceito para além do físico, temos a "ressaca moral".

A ressaca física é de fácil diagnóstico e cura, há remédios e métodos que são tiro e queda na diminuição dos sintomas até que o próprio corpo se cure. Entretanto, contra a ressaca moral, ainda não inventaram nada muito eficiente. Mesmo com os ansiolíticos e antidepressivos, não existe cura efetiva, mas só o alívio dos sintomas, pois a causa da dor pode durar anos e, muitas vezes a vida toda se não houver uma mudança profunda no modo de vida do enfermo. Por isso muitos passam o toda a vida sedados das mais diversas formas, pois ao parar com o sedativo, a causa da dor moral continua lá e volta a doer. É mais difícil curar o espírito.

Perdemos o fio da meada. É evidente que não nos conhecemos bem e que o excesso é uma das únicas formas de felicidade que, erroneamente, supomos dispor. Guerreamos a vida toda para conquistar o excesso de conforto, de dinheiro, de comida, de experiências; mas só conseguimos a ausência de saúde, de dinheiro, de tempo, ausência de nós mesmos na nossa vida. Acho que é hora de voltarmos a pensar no assunto e voltarmos a saber quem realmente somos e tomar controle sobre nossos desejos e nossas atitudes, mirando um futuro realmente feliz, sem amanheceres insalubre, dolorosos e desidratados, física e espiritualmente.