"O que você faz é o motivo para você estar aqui". Essa frase soou feito uma bomba, mais uma que o contato com a vida e obra de John Coltrane me trouxe. Não me lembro quem disse, acho que foi o Jimmy Heath, durante uma de suas falas no documentário Chasing Trane, de John Scheinfeld.
Documentário carinhosamente criado e montado, que explicita ainda mais o processo de vida e criação de John Coltrane, que se misturam. Na verdade, são a mesma coisa. Na vida e na obra, Trane usa a música como instrumento de transformação, de superação do humano, em busca do sublime, do inefável; reflete sobre a responsabilidade do artista sobre o que ele transmite.
Curando-se a si mesmo pela música, e dando vazão à voz de seu espírito sempre pacífico, saiu dos labirintos dos vícios ao infinito de possibilidades que uma consciência integral permite. Quis curar o mundo. Tanto que, mesmo chegando no ápice da integração entre música e sentimento, com sua obra prima "A Love Supreme" (1965), não se deu por satisfeito e foi além, dando passos que poucos, ou até mesmo ninguém foi capaz de seguir.
Na emoção do reencontro com esta figura tão elevada, recupero uma publicação antiga, mas que pode dar alguma dimensão, se é que isso é possível, à transcendência de John Coltrane. Elevem-se.
Cheguei na beira do porto onde as ondas se 'espaia'
As 'garça' da meia-volta e senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia
Quando eu vim da minha terra, despedir da 'parentaia'
Eu entrei no Mato Grosso, bem em terras Paraguaias
Lá tinha revolução, enfrentei forte 'bataia'
A tua saudade corta como aço de 'navaia'
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia'
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia'
Cuitelinho é como se chama o Beija-flor em algumas partes do Brasil interiorano, e também é o nome dessa belíssima canção, composta por Bento Costa, em 1932. Dizem que ganhou notoriedade depois que Paulo Vanzolini, famoso biólogo e compositor (de "Ronda", "Volta Por Cima") a trouxe para os holofotes. Disse o próprio Vanzoline que, durante uma pescaria na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, seu amigo Antônio Xandó chamou sua atenção para a bela canção que um barqueiro cantava. Inspirado pelo primeiro verso que ouvira, compôs os outros dois. Do Bento Costa, pouco se sabe.
Não escondo o sentimentalismo, e fica cada vez mais evidente que a saudade é um dos meus temas favoritos. Na Cuitelinho as saudades vêm de um soldado brasileiro que abandona a família para ir lutar na gerra do Paraguai (1864-1870) ou, pelo menos, é o que se dá a entender.
No meio das saudades todas que ele carrega, surge o que, na minha opinião é a melhor descrição dos efeitos da saudade que já constou no cancioneiro popular brasileiro. Falo do terceiro verso, que repito aqui:
A tua saudade corta como aço de 'navaia'
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia'
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia'
A beleza poética da imagem é imensa, mas é delicadamente escondida atrás da linguagem simples. Simples, como é simples sentir saudades; como é simples o personagem que entoa os versos. O dialeto caipira e, em algumas versões da música, o som choroso do ponteado da viola caipira, potencializam muito as emoções dos versos. A soma disso tudo me remete às minhas próprias saudades dos tempos passados no interior, nas casas e sítios da 'parentaia' do Norte Pioneiro do Paraná.
Me emociona, também, como graças à poesia e a cultura popular, conseguimos acessar esse microuniverso sentimental de um evento gigantesco que foi a gerra do Paraguai, considerada, inclusive, o maior conflito armado que já houve na América do Sul. Também foi o mais sangrento. Entretanto, no meio de tiros de canhão e gritaria, havia ali, num coração surpreendido pela batalha, decerto aflito, um santuário de calmaria e saudade, um relicário, um altarzinho aconchegando tudo aquilo que se ama.
Em 1994, os Guns n' Roses lançaram o single "Since I Don't Have You", o terceiro do disco "The Spaghetti Incident?". O disco é uma coletânea de covers que, dizem, a banda tocava "antes da fama". Quando uma banda faz isso, de voltar às raízes, é sinal de que estão tentando se reencontrar, reencontrar aquela "magia de antigamente". Não encontraram. Foi o último disco com a formação clássica.
Separados, depois de décadas foi que se encontraram. Reuniram-se, esse ano, para uma turnê mundial que está sendo ótima, tanto para os nostalgicos quanto para os que nunca haviam visto o Guns, de verdade, no palco.
Versão de uma música de 1958, dos Skyliners, "Since I Don't Have You" não tem quase nada de Guns n' Roses, como eles mesmos não tinham mais quando a gravaram. Mas traz, sempre muito vivo, esse sentimento, essa reflexão sobre as ausências. Pode uma coisa só valer por tudo o que se tem? Eu não tenho nada se não tenho você? A resposta é simples e lógica, mas como toda resposta simples e lógica, não se internaliza tão fácil.
Apesar da gente insistir, brigar, chorar pra que seja o contrário, é não tendo o que se quer que se descobre o que se precisa.
Após receber péssimas críticas ao o seu primeiro concerto, o russo Sergei Rachmaninoff (1873 - 1943) entra em uma profunda depressão e bloqueio criativo que duraram vários anos. Ao sair desse tenebroso ciclo, compõe essa excelente peça, que é o Concerto n.2 em Dó Menor que, inclusive, é dedicado ao médico Nikolai Dahl, figura importante na sua recuperação psicológica. Considerada uma de suas melhores e mais famosas peças, foi tão aclamada que colocou o compositor, finalmente, entre os grandes concertistas da história.
O segundo movimento é uma das coisas mais lindas que já ouvi na vida. Imbatível, de tirar lágrimas e arrepiar até os mais embrutecidos, com um tema melancólico e leve, que começa na flauta, toma forma no clarinete e vai crescendo e respirando até contagiar toda a orquestra e cada célula de quem está ouvindo.
Na música, as tonalidades menores são consideradas tristes, enquanto as tonalidades maiores são consideradas felizes, ensolaradas. Então, também é muito simbólico o concerto ter sido escrito em Dó menor. Mas, o mais bonito de tudo, é que o concerto começa em Dó menor e termina em Dó maior, como se simbolizasse, no desenvolver da peça, a luta e a vitória do compositor sobre a sua depressão.
Nas primeiras apresentações desse concerto, entre 1900 e 1901, o próprio Rachmaninoff foi o solista, ao piano. Nesse vídeo podemos ver a destreza e a maravilhosa interpretação da Anna Fedorova, ao piano, com a Filarmônica do Noroeste Alemão (Nordwestdeutsche Philharmonie), com regência de Martin Panteleev.
Sério... durante o segundo movimento, separe um lenço.
É impossível negar que toda música desperta algum sentimento, e pouca gente vai discordar de mim. Seja bom ou mal, seja nojo ou maravilhamento, não importa, toda música desperta algo na gente. Mas há algumas canções que vão mais fundo que outras e convulsionam áreas tão profundas que nem sabíamos existir. Uma dessas canções, na minha vida, é a Moon Woman 2, que faz parte do primeiro álbum do Elvis Perkins, chamado Ash Wednesday, lançado em 2007.
Num primeiro momento, a música me tocou pela sonoridade, timbres lindos de violão, bateria, violino e contrabaixo acústico; pela melancolia e por dois versos de efeito, que sozinhos já criaram um quadro lindo na minha imaginação: "It hasn't been this bright in a century and a third" (Não tem sido tão brilhante em um século e um terço) e "You've got this power over me" (Você tem esse poder sobre mim).
Elvis Perkins dá à mulher amada os mesmo poderes da Lua sobre a terra. Ela ilumina as noites, tem grande influência nas marés e em tudo quanto é ciclo; na fertilidade, crescimento e colheita de todas as coisas; dos nossos fios de cabelo às grandes Secóias da Califórnia. Realmente, os mesmos poderes que quem amamos tem sobre nós.
Reconheço que não foi uma ideia muito inovadora comparar o ser amado com a Lua que, apesar de uma imagem muito bonita, também é bastante comum no universo lirico mundial. Mas, o que me me encanta é que, de alguma forma, mesmo não sendo tão original falar da mulher amada que, como a lua, intocável e inacessível, sequer sabe da sua existência, mas influencia e ilumina a escuridão que se fazia por mais de século em sua vida, Elvis me despertou algo que jazia muito profundo em mim, e tem me feito olhar, novamente, com mais atenção e reverência a beleza das pessoas que se orbitam e se influenciam, umas às outras outras, através dessa força gravitacional irresistível que é o amor.
Emocionado pelo filme "Neruda - Fugitivo" (2014, Manoel Basoalto) e por todo o esforço poético, literário e de vida que o poeta teve na tentativa de unificar a América do Sul ou, pelo menos, criar um sentimento Sulamericano comum, senti-me envergonhado por ser um tanto alheio à cultura e, principalmente, à música tradicional desta fatia de continente que me cerca. Coloquei-me, então, numa jornada de reconhecimento da vizinhança, da qual, afora o Tango e a Música Contemporânea Argentina, do imbatível Astor Piazzolla, sei muito pouco. Saí, então, do Chile de Neruda, Violeta Parra e Atahualpa Yupanqui, passei pelo Paraguai, revisitei a Argentina e cheguei ao Uruguai, onde encontrei Daniel Viglietti (Montevideo, 1939).
Durante a segunda metade do Sec. XX, parecia que a America do Sul estava infectada pelo vírus dos governos ditatoriais e, naqueles tempos de terror, entre revoluções e governos totalitários, assim como no Brasil, haviam, em toda parte, movimentações estudantís, artísticas e políticas que lutavam por libertar o povo do estado repressor. Pelo que entendi, Daniel Viglietti foi como o nosso Geraldo Vandré, que armado com seu violão, música e poesia, cantava a liberdade durante os duros anos da década de 1960.
Minha canção preferida de Viglietti é "Milonga de Andar Lejos", do disco "Canciones para el Hombre Nuevo", de 1968. Nessa milonga, um tipo de canção que adoro, por ser lenta e melancólica, Viglietti canta o amor pela sua terra cujo sangue é mestiço e que, apesar de muitas e diferentes bandeiras, tem a mesma pobreza. Por isso, cantava ser preciso derrubar as fronteiras, expandir o mapa, criando "el mapa de todos", uma América do Sul unida. Independente do posicionamento político de Viglietti, sinto que esta canção transcende a política e a própria América do Sul na luta contra os "invasores" ou "colonizadores"; ela fala de um anseio humano universal, de nos transformar-nos em algo maior do que um mero conjunto de nações, que nos transformemos apenas em humanos num mesmo planeta, criando uma grande terra de todos, sem fronteiras, um corpo único e complexo do qual todos são parte essencial. É uma luta solitária, mas como diz a canção, "uma gota faz pouco, muitas gotas fazem tempestade".
E foi há dias atrás que uma bela coincidência me fez reviver essa viagem espiritual pela Sudamérica. Meu amigo-irmão Nevilton, ao regressar de Montevideu, trouxe-me, de presente, um livro que sempre quis ter na língua original: Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, do Pablo Neruda. Além da emoção pelo presente em sí, um desejo antigo realizado, logo vi o grande círculo simbólico que estava em minhas mãos: Foi Neruda quem me levou do Chile ao Uruguai de Viglietti e, dias atrás, o Uruguai de Viglietti me trouxe de volta ao Chile de Neruda. E com o tempero extra do livro ter sido publicado na Espanha, um dos grandes e cruéis colonizadores da América Latina. Que grande viagem, funda na alma Sulamericana, em apenas um livro de poemas! Obrigado, Nevilton!
Na hora de acordar, difícil é ficar de pé. O mundo inteiro cheira café e a gente vai trabalhar". Todos os que ouvem se identificam com o refrão da música Noite Alta, do Nevilton, segunda faixa do disco Sacode. Se você ainda não o conhecia, prepare-se para, à partir de agora, nunca mais esquecê-lo!
Há pouco mais de um ano, em abril de 2015, foi publicado um videoclipe super especial pra essa música, idealizado por Leo Longo e Diana Boccara, o casal maravilha do projeto Around The World In 80 Music Videos, pelo qual estão rodando o mundo gravando clipes, e mais, unindo e divulgando artistas, países e culturas sob as asas dessa bela ideia.
Aproveitando o aniversário do clipe, Nevilton preparou um EP com 5 versões diferentes de Noite Alta, além da versão original. Novas abordagens e experiências pra uma canção que é sempre recebida com muito carinho pelo público. Carinho que, certamente, será quintuplicado.
A versão 1972 é inspirada na sonoridade da Motown Records e da Stax Records, gravadoras norte-americanas que definiram o som dos anos 70, com seus belos discos cheios de groove e alma. A versão Semi-acústica foi como despir a canção, aproximando-a do espírito das rodas de violão, dos bares e pubs, pra todo mundo cantar e bater o pé no chão. A versão original vem pra matar a saudade e a versão ao vivo pra trazer toda a energia dos shows, que até então só quem viu podia se gabar. Inclusive, esse é o primeiro registro oficial em áudio ao vivo, lançado pela banda. Fecham o EP dois remix, o "NEV Remix" produzido para um projeto do site MúsicaPavê e o Fabz Zonatti Remix produzida pelo DJ da cena indie-rock e eletrônica paulistana. A capa no melhor clima amanhecer-hora de acordar é ilustração de Pietro Domiciano.
Cheio de surpresas e carinho, Nevilton lança mais esse trabalho, preparando os fãs para o um próximo álbum que está em fase de gravação. E como diz o próprio Nevilton: "É um EP de versões. De versões e diversões!". Divirtam-se.
Foi um belo amanhecer da Sexta-Feira Santa de 1857 que decantou, da genialidade de Richard Wagner, finalmente, as primeiras anotações da ópera Parsifal, na qual já vinha pensando há alguns anos. Terminada 25 anos depois, esta foi a sua última ópera completa.
Numa ambientação medieval, como era de costume, Wagner conjuga temas cristãos como auto-renúncia, reencarnação e compaixão e símbolos como o Santo Graal e a lança que Longino, um soldado romano, usou para ferir o Cristo na cruz.
Bastante longa, solene e densa, a ópera causou, e ainda causa, grande emoção quando é assistida ou ouvida. E é preciso perseverança para completar essa missão nas quase 4 horas de duração da peça. À época do lançamento, em 1882, o filósofo Nietzsche, como de praxe, reclamou do conteúdo moral cristão; mas outros gênios, como Debussy e Mahler, mais sensíveis à mensagem, se manifestaram entorpecidos pelos belos sentimentos que a obra despertara em suas almas. Ouça e escolha o seu lado.
Para compreender conjugação entre leveza e densidade desta obra prima Wagneriana, aqui vai a minha parte preferida do Parsifal: o Prelúdio, lindamente executado pela Orquestra Sinfônica da Radio Frankfurt, dirigida pelo maestro Jérémie Rhorer.
Se quiser assistir a ópera toda, aqui vai uma versão legendada em inglês:
Albert William Ketèlbey me lembra a infância. Meu pai sempre ouvia aquele LP de capa exótica, com um mercador oferecendo flores a um monge, enquanto estudava, à noite, após um dia de trabalho. Inclusive, dias desses me surpreendi fazendo o mesmo: estudando e ouvindo Ketèlbey, um grande flashback. E foi assim, ainda pequeno, através do meu pai, que ouvi pela primeira vez sobre como um compositor pode descrever uma cena, um cenário, através de uma música.
Com o Ketèlbey foi fácil de entender, ele é muito bom em cenas musicais. Tão bom ele era, que foi o primeiro músico britânico a ficar milionário através da música, principalmente através desses pequenos temas chamados de "light orchestral music", nos quais ele era especialista. O tema musical "Bells Across the Meadows" (pra ouvir aí embaixo) foi eleito pelos ingleses, em 2003, como a 36ª música mais memorável de todos os tempos.
O intermezzo da Ópera "Pagliacci" de Ruggero Leoncavallo (minha ópera favorita, inclusive) é, sem dúvidas, umas das peças musicais mais belas que já ouvi. Ele é tocado no intervalo (intermezzo, em português) do primeiro para o segundo ato da ópera e consegue, ao mesmo tempo que emociona pela música, captar e sintetizar tudo o que aconteceu e sugerir o que acontecerá nas próximas cenas da trágica história do Palhaço que, mesmo com o coração partido pela Colombina, deve subir no palco e fazer o público rir. Mas, Leoncavallo alerta: o perdão não é tão fácil assim; e o orgulho, esse veneno que destilamos todos os dias, pode nos transformar em monstros ferozes. Cuidado!
Pra quem não conhece e quiser assistir à ópera inteira, tem essa versão dirigida pelo Franco Zeffirelli, com Placido Domingo e Teresa Stratas. A regência da orquestra é do Georges Petre que, inclusive, conquistou meu coração nessa super emotiva regência do já comentado Intermezzo:
Nos tempos da Faculdade, uma amiga, sabendo da minha inclinação à poesia, me emprestou o livro "Cartas a um Jovem Poeta". Uma compilação da pequena, mas bela correspondência entre o poeta tcheco Rainer Maria Rilke e o jovem austríaco Franz Kappus. Trocada vagarosamente entre 1903 e 1908, talvez seja uma das melhores coletâneas de conselhos a um jovem – ou a qualquer um com dúvidas e angústias, que dá no mesmo – que eu já tive notícias. Desnecessário dizer a gratidão que tenho a essa amiga e o quanto essa leitura me marcou e inspirou na poesia e na vida.
O jovem Kappus, aluno de um colégio militar, tinha dúvidas sobre se deveria seguir o seu coração e abraçar a carreira de poeta, que tanto lhe realizava a alma, ou se deveria seguir a militar, que lhe daria segurança financeira e agradaria a sua família – ora, a dúvida que nos une a todos! –. Ao saber que Rilke, o famoso poeta, também havia estudado no mesmo colégio, resolveu escrever-lhe uma carta na qual abria seu coração e perguntava se seus versos eram bons o suficiente para seguir o seu intento poético.
O poeta, mais experiente, entre rápidas digressões acerca do processo da escrita, da poética e dos versos de Kappus – que aparecem hora ou outra pelas cartas –, prefere aconselhá-lo para a vida, talvez a única forma de ajudá-lo de verdade, pois a vida não deve ser nada mais do que nossa melhor poesia. E, assim como na vida, o trabalho na poesia exige fé e análise constante de si mesmo, o poeta se destrói e se reconstrói dia a dia. É uma atividade que acontece pela necessidade de nascer do verso, e não o contrário. Por isso, deve o poeta, antes de tudo, estar em conexão consigo, com o que borbulha dentro de si, e ter forças para trazer isso à luz da melhor maneira. É o esforço hercúleo e inevitável de dar vida, da gestação e parto, tão comum e sagrado na natureza.
E não apenas se conhecer intimamente, mas ligar-se à natureza, inteirar-se do ritmo do mundo e saber deixar tudo amadurecer antes de colher. Ter paciência, viver plenamente o agora, como vivem todas as coisas no universo, entender as limitações inerentes ao humano na magnitude do infinito, perceber seu lugar e função no jogo. Isso acalenta a alma e afasta a angústia da criatividade e do próprio viver, pois “as coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível", senti-los pode ser mais importante do que entendê-los.
Por isso devemos amar as nossas dúvidas, vivê-las agora e sem medo, pois, talvez passemos, "gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas". Entender que "quase tudo que é sério é difícil, e tudo é sério", sem sentir medo, mas, pelo contrário, fazer disso um convite à introspecção e fortalecimento, pois, “talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo terror não passe, em última instância, do desamparo que requer nossa ajuda.”
Viver uma vida sincera em essência e meditativa pode nos fazer sentir solitários, distintos do mundo, mas, longe de nos desestimular, a dificuldade de encarar-se só deve nos impulsionar. Ser solitário é bom, "pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la".
Enfim, como já sugere Kappus, no prefácio do livro, o tom dessa correspondência ecoa tão universal que é impossível não a tomarmos como nossa. Nós, tão distintos e, ao mesmo tempo, tão semelhantes... E a cada leitura deste livro, nos tornarmos mais preparados para soltarmos as rédeas do mundo e segurarmos firmes as nossas, e entender a simplicidade funda destas últimas aspas de Rilke que vos trago:"De resto, deixe a vida acontecer. Acredite em mim: a vida tem razão, em todos os casos."
Conversando com a Marina Aoki Elias, uma grande amiga que também gosta de música clássica, falamos do Beethoven. Ele é o artista "do ano" na temporada do Theatro Municipal de São Paulo. Não teve jeito, cheguei em casa e mergulhei na música desse gênio. Beethoven gostava muito de sonatas, foi um dos maiores sonatistas da música mundial. Só pra Piano ele escreveu 32. A mais famosa talvez seja a inconfundível "Sonata ao Luar", que estremesse o coração dos tristonhos. Mas, a mim, me toca mais a "Patética", principalmente o seu segundo movimento (no 9:46 do vídeo) tenho até um poema que foi escrito com ele tocando em loop interminável de fundo.
Sem mais blablabla, temos aqui o mestre Daniel Baremboim, dando um show ao piano, executando os 3 movimentos da Patética de Beethoven. Agora, abrace aquele livro, deixe o computador de lado e só ouça essa maravilha.
É famoso o Terceiro Movimento (Clair de Lune, que vc pode conferir lá no 9:25 do vídeo), mas a íntegra da Suite Bergamasque do Claude Debusy é um calmante sonoro em meio a tanta folia obrigatória e carnaval invasivo. Apesar do risco de viciar, ele é bem menor que dos calmantes farmacológicos.
Uma certa angústia diária tem nos tomado o coração e nos transformado em prisioneiros sabe-se lá de que. Mas o que são e de onde vêm estas grades e algozes que nos afligem?
Assisti ao filme Que Horas Ela Volta, no qual Regina Casé interpreta a Val, uma empregada doméstica, daquelas que mora na casa dos patrões. Seria apenas mais uma produção nacional criticando a cultura elitista e marginalizante do Brasil, mas o jeito sutil e leve com que os temas surgem demonstrou o cuidado da diretora em não fazer apenas mais um filme que choca a audiência sem conseguir provocar uma reflexão válida.
Eu não iria resenhar o filme, mas à partir do momento no qual a história começa a caminhar para a resolução, entendi um recado que, talvez, nem fizesse parte dos planos da diretora: neste filme todos são vilões. Todos são vilões para os outros, é claro, e para si mesmos, martirizando-se sem perceber. Então, além da crítica social, descortinava-se uma mensagem de busca pela verdade íntima de cada pessoa, de equalizar-se consigo mesmo e com a vida, para minimizar os sofrimentos e embarcar numa existência mais leve e tranquila. Minha busca pessoal estava na tela.
Em cada personagem fica evidente um traço psicológico dominante que, ao sobressair dos outros causa o mal-estar em que vivem. Bárbara, é a mãe, orgulhosa e vaidosa; Carlos é o pai, sonhador, melancólico por não ter se realizado, beira a loucura; Fabinho é o filho, a inconsequência juvenil, a abençoada ignorância dos mecanismos da universo; e, por fim, temos Val, a empregada, como personagem principal, que de tão humilde é subserviente e sem amor próprio. Todos cegos de sua condição e dependentes um do outro, cada um puxando o peixe pro seu lado e mantendo esse sistema doente em equilíbrio.
Vivem confortáveis até chegada de Jéssica, filha da Val que, por ser vaidosa, sonhadora e jovem, consegue conversar com todos, de igual pra igual. Mas, por não ser muito humilde, não o dialoga com a própria mãe. Quando se agrega ao sistema de relações da casa, Jéssica e o desarmoniza e derruba, mas graças a isso, permite que sua mãe, ao tentar restabelecer a ordem à qual dedicou a vida, se reencontre.
Através de vários acontecimentos da história, Val percebe que também pode comandar a própria vida, ultrapassar alguns limites, querer algo mais, coisa impensável antes da chegada da filha. E a angústia se resolve quando ela, após o caos, equaliza todos os caracteres de si mesma, sem excessos e pelo amor. Ela dilui sua humildade e subserviência em pitadas do orgulho próprio de Bárbara, algumas doses da inconsequência juvenil de Fabinho e volta a sonhar os próprios sonhos como Carlos.
E foi assim que, despretensiosamente, Val respondeu a questão do início desse texto, mostrando que nós mesmos criamos nossas prisões e algozes ao nos desconectarmos de nós mesmos. Fugimos da nossa essência, ignoramos nossos sonhos e necessidades em detrimento de preconceitos, medos e necessidades sociais questionáveis. Por isso que, ao final do filme, estávamos Val e eu, ambos com os olhos marejados e o mesmo sorriso de esperança no amanhã, enquanto as luzes do cinema se acendiam.
Memórias. Cheiros, sabores, cores e texturas, a vida está guardada aí. É o que nos constrói, é o que, somado, somos. E quanto mais próximos da infância voltamos, mas próximos chegamos da nossa alma pura, da nossa essência, escondida sob cascas e mais cascas de vida vivida, gasta e endurecida.
Zigmund Freud, com sua Psicanálise, já nos atentava que olhar para o nosso passado, não é só olhar pra trás, é olhar para dentro e para o fundo, é reencontrar-nos nus e castos, curiosos e impressionáveis. É autoentendimento, oportunidade de resgatar verdades e sonhos, de nos realinharmos com a pureza original e com quem realmente somos. Sabendo disso, Manuel Basoalto tentou, em filme, revelar a essência de um parente seu, por parte de mãe: Neftali Ricardo Reyes Basoalto, o maior poeta da Sudamérica, conhecido pelo pseudônimo Pablo Neruda.
O filme Neruda – fugitivo não é uma biografia ou filme histórico. Basoalto (o Manuel), deixa de lado a história política do Chile e os esquemas intrincados da fuga de Pablo Neruda para a Argentina, à cavalo, através dos Andes, por motivo de perseguição política; ignora o antes, o durante e o depois da vida de Neruda e dos outros personagens da trama e nos mostra o que pra ele é o real tema do filme: de onde vem, como sobreviveu e como se expandiu a poesia de Neruda após tão traumático e difícil período de clandestinidade de quase seis meses (setembro de 1948 à março de 1949), dos quais boa parte foram passados às margens do Lago Huishue, no Chile. O importante aqui, como já disse o principezinho de Sain-Exupéry, "não se vê com os olhos". O importante para Manuel Basoalto, me parece, é entender como, durante a fuga, Pablo Neruda se tornou uma força da natureza, uma entidade Sulamericana, como a própria Cordilheira dos Andes.
O filme retrata o íntimo do poeta em seu mergulho na America do Sul e em si mesmo, revisitando os lugares onde passou a infância, nos arredores de Temuco, onde ainda muito jovem aprendeu a amar a vida e a poesia. Durante todo o filme vemos ecos de seus versos nas pessoas que o acolhem em suas casas; caminhando por entre as florestas que ele atravessa; transpirando pelo seu corpo cansado ou pela vegetação andina; derretendo feito a neve dos andes e escorrendo pelo curso dos rios que ele cruza; sussurando em seus ouvidos feito brisa ou ventando em tormenta nos vales que o escondem; cantados nas canções, ao lado das fogueiras gauchas, nas noites frias dos acampamentos; chovendo torrencialmente e trovejando ou pingando em lágrimas de saudade da sua amada esposa "Hormiguita" e da vida tranquila que abdicou por um bem maior, um Chile livre do autoritarismo e da violência estatal.
Pablo Neruda às marges do lago Huishue, no Chile.
Neruda vivia poesia, que para ele era uma coisa da vida como todas as outras, como a política, o trabalho, o dormir ou acordar. Nunca deixou de escrever (e carregava sempre consigo sua máquina datilográfica portátil), criando, durante os quase seis meses de fuga, a maior parte do livro de poemas "Canto Geral", publicado em 1950, uma espécie de Livro do Gênesis da América do Sul, versejando, nos 231 poemas divididos em 15 Seções (Cantos), sobre a identidade Sulamericana. Percebe-se mais a influência do Canto X – que, não coincidentemente, se chama "O Fugitivo (1948)" – do já citado Canto Geral no roteiro de Manuel Basoalto, do que do livro histórico/biográfico Neruda : Clandestino, de José Miguel Varas, citado como referência pela maioria da crítica especializada. Talvez por isso o filme soe mais como um poema do que como um filme biográfico normal.
Assistir ao Neruda - fugitivo é como ler os poemas de Pablo Neruda, vendo seus versos saltarem incontáveis vezes nas falas e imagens do filme. É sentir a granulação da película, que envelhece e deixa tudo com cara de memória, de página de livro; é entender o faixo de sol que surge por entre as árvores enquanto poeta abraça sua amada "Hormiguita"; é encarar com reverência a Cordilheira que, imponente, abençoa o continente, mas, vilã, afasta o poeta da liberdade e da vida; é ouvir o canto dos rios, que correm feito sangue, o sangue latino, pelas veias abertas da América do Sul, entidade materna, de cujo barro foi forjado o povo Sulamericano. E, talvez, o mais importante: é, não só vislumbrar o íntimo do poeta Neruda, mas também sentir, lá no fundo de nós mesmos, debaixo de camadas de corpo e rocha, os chamados do Continente e da Poesia de que somos feitos.
Ps: Tocou-me tanto esse filme, que me inspirou o texto de semanas atrás, escrito na noite e dia seguinte à sessão de cinema.
Desde os tempos imemoriais da humanidade a meditação e a oração são sugeridas como meio de contato do homem consigo mesmo e com o Cosmos, ou seja, orar ou meditar com energia proporciona a conexão entre a esfera mais íntima e minúscula de cada ser e a esfera mais exterior e infinita do Cosmos, unindo criatura e criador, a parte com o todo e, através dessa sintonia com todas as coisas, o praticante é iluminado e libertado.
Dos muitos seres de luz que já passaram pela história humana sugerindo a prática íntima e constante da oração ou meditação, podemos citar um que é, no mínimo, curioso: John Coltrane, saxofonista e lenda do Jazz.
Foi, coincidentemente, no dia de aniversário de sua morte (17 de Julho) que terminei de ler o livro "A Love Supreme" (Barracuda, 2007), escrito por Ashley Kahn e bem traduzido para o português por Patricia de Cia e Marcelo Orozco. O livro traz um panorama bem completo de todo o processo musical de Coltrane até chegar à criação, gravação e desdobramentos de uma das maioers obras primas do Jazz, de todos os tempos: a suíte A Love Supreme, lançada num álbum homônimo em 1965.
Acertadamente o livro não se prende apenas ao processo do disco, mas acompanha toda a trajetória musical de Coltrane, desde que saiu do Rehab e se tornou abstêmio de álcool e entorpecentes; sua passagem por diversas bandas, como a de Miles Davis, até formar a sua própria, com a qual disco a disco vai caminhando para libertar sua música das amarras estéticas e teóricas que tanto o incomodavam. Nele também encontramos depoimentos de amigos, parentes, parceiros musicais, produtores fonográficos, fãs e trechos de entrevistas que nos facilita visualizar, com mais amplitude, o que inspirava e movia Coltrane na sua busca que, além de músical, era evidentemente espiritual.
O livro também não deixa de lado as informações sobre o music bussines da época, técnicas de gravação e mixagem. Assinalo a participação de Rudy Van Gelder, engenheiro de som do A Love Supreme e outras belas obras do jazz, que tem até capítulo à parte pela fundamental importância para a sonoridade do disco, bem como para que o livro se tornasse muito mais interessante. Foi uma surpresa colossal saber que vários discos de Miles Davis, Duke Ellington, Thelonious Monk e outros grandes nomes do Jazz dos anos 1950 foram gravados na sala de estar da casa dos pais de Rudy, à noite, após ele sair do trabalho em uma ótica e enquanto seus pais dormiam. Isso é algo que eu e muitos músicos fazemos e achamos uma incrível novidade. Doce ilusão, os grandes do Jazz (e não podemos esquecer do velho Les Paul) já tinham seu home studio e faziam obras primas atemporais.
O que chama atenção no Rudy é que o som que ele conseguiu captar dessas gravações é de altíssima qualidade, sensacional até hoje. Enfim, há informações pra todos os níveis de interesse e, mesmo pra quem não "entende de música", Ashley Kahn coloca a informacão técnica de forma a fazer sentido para que qualquer interessado possa entender a influência de cada elemento, técnico ou artístico, na obra de Coltrane.
Durante a leitura do livro entendemos a dedicação quase monástica ao estudo e prática da música a que Coltrane se submetia, numa intenção nunca secreta de dominar a técnica e as linguagens para depois subvertê-las e expandí-las, como se emulasse Sidarta Gautama ou Jesus Cristo, em meditação e prática constante no deserto, buscando iluminação – que, de fato, como ouvimos no disco, conseguiu – e puxava para o mesmo caminho os músicos que o cercavam. Desta forma, como um Messias e seus seguidores, pregação após pregação pelos teatros e bares do mundo, o quarteto formado por Coltrane no sax (barítono e tenor), Mckoy Tyner no piano, Jimmy Garrison no Contrabaixo e Elvin Jones na Bateria, se transforma numa das maiores expressões do Jazz, referência não só da época, mas de tudo o que veio depois deles.
Com a coesão do quarteto comprovada no álbum Crescent (1964), Cotrane sentiu-se seguro para dar o próximo passo de sua jornada libertadora das notas musicais e de sua alma, criando um álbum extremamente Espiritual. Em A Love Supreme, todos se expressam mais do que musicalmente, eles se conectam entre si e com o Universo tocando a música que ressoa em suas almas, livres, dando graças ao criador pela oportunidade de estarem vivos.
Os sons que estão imortalizados nos fonogramas são os que foram gravados na noite de 09 de Dezembro de 1964, já no estúdio construído por Rudy, em Englewood Cliffs (New Jersey), e não mais na casa de seus pais. E a notícia de que houve uma sessão extra, na noite seguinte, com um Sax extra (Archie Shepp) e um Baixista extra (Arthur Davis), que desapareceu pra sempre, vai me arrepiar pelas próximas vidas. Interessante, também que as únicas fotos existentes (muitas estão no livro) são da sessão do dia 10, pois dia 09 não houve fotografo registrando. Ou seja, temos as fotos de um dia e o som de outro dia.
Uma suíte é um formato da música clássica, um conjunto de músicas que giram em tordo de um mesmo tema, no caso de A Love Supreme é homenagear Deus. Coltrane mesmo define sua suíte como uma oração e, por ser músico, se expressa melhor usando notas musicais, facilitando assim a conexão com o criador e com o Amor Supremo no qual ele se sentia envolvido e reverberando.
O nome das faixas, Acknowledgment (Reconhecimento), Resolution (Resolução), Pursuance (Busca, Persecussão) e Psalm (Salmo, Prece, Oração), mostram o caminho sugerido pelo Jazzman para que nos sintonizemos com Deus, ou seja: Reconhecer a existência Dele; Resolver-se como filho do Criador; buscá-Lo sem descanso até visualizá-Lo e agradecê-Lo, em oração sincera pela graça da existência e das possibilidades de trabalho, estudo e evolução que nos foram dadas.
Ashley Kahn nos presenteia com 40 páginas de descrição detalhada de como cada uma das quatro faixas da suite se desenvolvem, abrindo-nos uma outra gama de entendimento sobre cada segundo de música. Mas Psalm, o salmo de Coltrane, tem uma história à parte. Ele é um poema escrito pelo próprio músico que, ao invés de declamá-lo no disco, tocou sílaba a sílaba no seu sax barítono. De uma sinceridade ímpar, é o momento mais iluminado do disco, com notas arrepiantes e lindas de se acompanhar ao mesmo tempo em que se lê o poema.
Ou por esse vídeo da própria Coltrane Church (sim, existe).
E pra facilitar de vez a experiência, uma versão cantada de um trecho do Salmo:
Em algum dia de 1964, durante sua pratica diária, John Coltrane entendeu algo, sentiu algo e, mais que isso, ele colocou em prática, gravou um disco e espalhou a idéia. Utilizou a sua melhor forma de agir para se comunicar e se conectar com o Deus e Cosmos, recebendo e enviando amor. Depois de ler o livro e ouvir atentamente ao disco, foi impossível não ficar tocado ou, ao menos, pensativo, sobre estar mergulhado num grande mar de Amor Supremo e de energia infinita, mas não estar acessando isso tudo. Se como Coltrane, eu também posso melhorar minha conexão com esta infinita reserva de energia boa usando a meditação e a oração.
Se todos somos capazes de criar as melhores coisas quando nos esforçamos usando só a nossa própria força, imagino o quanto melhor faríamos se estivéssemos agindo movidos pelas forças de todo o Cosmo. Qual seria a minha obra prima?
"Comédia sobre dois vendedores ambulantes, Sam e Jonathan, que estão cansados do mundo.", era tudo o que me dizia o prospecto do Cine Belas Artes sobre o filme que eu iria assistir naquela noite. Miseráveis 86 caracteres, contando espaços e pontuação. Nem um filme ruim do Edie Murphie se explica em 86 caracteres! Que cilada! Já a sinopse do filme da sala ao lado, Winter Sleep, com seus três períodos e mais de duas centenas de caracteres, deixava o meu filme mais desinteressante ainda. E se não bastasse, eu me reconheci na história do concorrente, sobre um escritor de textos altruístas, que durante intrincada trama invernal se revelava um hipocrita maligno. Mas acabei reconhecendo que, na verdade da vida, eu deva estar mesmo mais próximo de um pompo sentado num galho e refletindo sobre a vida do que de um escritor de psique conturbada que suponho, ou adoraria, ser.
E agora, o que fazer se o trailer do Youtube foi convincente e os ingressos já estavam comprados? Bom, ainda me restava o benefício da dúvida, a esperança de que o autor da sinopse estivesse um tanto – melhor se completamente – enganado ou então eu teria de enfrentar uma simples comédia Sueca mesmo. De qualquer forma, já me sentia no lucro, afinal, o filme já tinha me jogado numa montanha-russa de sentimentos antes mesmo que eu entrasse na sala.
Resignado e instalado em minha poltrona, logo nas primeiras cenas do filme comprovo, aliviado, que o autor da Sinopse estava enganado e fui surpreendido por um ótimo filme de arte Sueco. Sei que a vida, por mais trágica que seja, tem seu lado cômico, mas denota-se uma certa falta de tutano classificar esse filme como uma simples comédia. E as pouquíssimas risadas que ouvi durante a projeção também comprovariam a minha teoria.
Como é de praxe nos filmes de arte, existe a intenção de se questionar os padrões e processos utilizados pelo cinema comercial, o tal Cinema Hollywoodiano. E essa mania começa na própria classificação do gênero do filme, que é feita baseada no estilo da narrativa e desenvolvimento da trama, que pode ser suspense, terror, aventura, romance, comédia e etc.
Em algumas entrevistas, Roy Anderson, que é o diretor desse filme, já se dizia cansado de contrar histórias da forma tradicional, com começo-meio-fim, e daí veio a opção dele em filmar uma Antitrama, um roteiro sem narrativa, onde não se apresenta os poersonagens, nem a problemática, nem há desenvolvimento da história e muito menos resolução de qualquer questão levantada. Mas isso não significa que o filme seja sem sentido, a ausência de narrativa está apenas no filme, entretanto acontece dentro da cabeça de quem assiste. É o expectador o responsável integral por dar sentido ao emaranhado de cenas que o diretor nos apresenta, já que em momento algum ele nos sugere o que pensar ou como agir frente a tela.
Dessa forma, Roy consegue que a mesma película se transforme em diversos filmes diferentes, conforme são diferentes as pessoas e sesus universos simbólicos e culturais. Ele nos tira do papel de mero expectador e nos faz, de forma mais evidente e necessária do que outros filmes de arte aos quais assisti. Não sei se existe essa diferença na língua Suéca, mas em bom português, poderiamos dizer que Roy nos faz conjugar o verbo assistir em suas duas regências, simultaneamente assistimos ao filme e o filme.
Enfim, é esse tipo mais amplo de percepção que vai deixar a experiência do Um Pombo Pousou... mais emocionante. Caso contrário, se você é daqueles que pensa muito pouco sobre quase nada, prepare-se para assistir (se conseguir ficar até o final) ao filme mais chato da sua vida.
O filme, acertadamente, se inicia com três cenas (reflexões) sobre a Morte, a mais antiga e universal reflexão da história humana que, como diriam os Unidos do Caralhaquatro, "desde os tempos mais primórdios", ela está aí, despertando desde a mais minúscula migalha de filosofia que cada um de nós carrega até a nossa mais evidente angústia. Isso já sensibiliza a todos da platéia sobre abordagem filosófica necessária para aproveitar o filme. Além do mais, as três cenas trazem consigo as chaves mestras para interpretar o restante das cenas: a Rotina, a Ganância e a Solidão. E é por essa lupa que Roy Anderson sugere interpretarmos o filme e, não só o filme, mas também as nossas próprias vidas.
Altamente simbólico, prato cheio pra quem gosta de semiótica, tudo no filme pode ser interpretado em muitos níveis, o que me impossibilita de descrever e comentar as cenas em mais detalhes, já que elas terão significados e impacto diferentes em pessoas diferentes, mas posso fazer um esforço sobre alguns aspectos:
Os cenários de aparencia artificial, em cores pastel e sem graça, com poucos detalhes e objetos de cena, tão sem graça quanto a vida da maioria das pessoas do filme (e por que não do mundo real também?); A cara extremamente pálida dos adultos, entediados e doentes, em contraponto com as feições mais rubras das poucas crianças que aparecem usando cores ao seu redor e se divertindo, alheias à realidade sombria e às frustrações da vida adulta; A camera estática, nos colocando como o tal pombo do título (com direito a arrulhadas em cena ou outra), simplesmente observando o desenrolar da vida daqueles humanos que passam, como as pessoas que dizem "Que bom saber que você está bem.", que em geral não estão bem, muito menos felizes, ou, no mínimo com inveja; Enfim, luzes, cores e movimentos onde a vida pulsa e penumbra, morbidez e estaticidade onde a vida já não existe mais com tanto vigor. É assim que se desenvolve o filme, num surrealismo delicioso pra quem aceita o convite à reflexão.
E os dois vendedores da sinopse aparecem onde, afinal? Eles são os personagens que mais aparecerem no filme. Moram num hotel que vezes parece um hospício, vezes um presídio, e insistem em vender artigos engraçados que não tem graça para pessoas tristes que não tem mais interesse em diversão. Vale citar uma passagem próxima do final do filme, na qual um deles, o mais sentimental, levanta uma questão existencial profunda e importante no meio da noite: "É correto usarmos outras pessoas para a nossa própria diversão?" e é dissuadido de continuar a pensar nisso, pois já é tarde e todos ali tem que dormir para poder acordar cedo e ir trabalhar. Nada mais contemporâneo e verdadeiro do que a triste realidade na qual a maioria das pessoas no planeta vive: deixando as próprias verdades de anseios de lado para poder, no outro dia, acordar cedo e cair na rotina robótica do trabalho que não as realiza como pessoa nem como ser humano.
E há mais, muito mais reflexões que se despertam das nossas profundezas, para a luz de nós mesmos durante esse filme. No fim das contas, até entendi os motivos do sujeito que fez a sinopse esconder a natureza filosófica do filme. Ele sabia que, certamente, espantaria muita gente que preferiria voltar para o sossego do lar, pois tem coisa mais importante pra fazer do que refletir sobre a própria vida: trabalhar logo cedo no dia seguinte, como todo mundo faz, desde sempre.
Quanto nos custa sonhar? Qual o valor desses sonhos? Uma vida sem sonhos não deve ser fácil, a imagino árida. Krank, um velho rabugento e sem alma, criado por um cientista louco, sabe muito bem o que é uma vida sem sonho, pois ele não os tem. Ele, o próprio ladrão de sonhos, é que dá o título em português para o filme La Cité des Enfants Perdus, pois em desespero, tenta roubar os sonhos das crianças que sequestra para sua fortaleza isolada em alto mar. Mas só consegue pesadelos. Pobre Krank, desesperado, envelhece a cada sonho que não tem. E deve funcionar assim conosco também.
Mas essa não é a única referência à nossa psique existente nesse excelente filme, dirigido pela dupla J.P. Jeunet e Marc Caro e lançado em 1995. No mundo sombrio que eles criaram, cercados de água por todos os lados, desfilam personagens estranhos: aberrações de freak show com suas paranóias, guerreando entre si; um cérebro preso num aquário, dotado de sabedoria e enxaquecas, mas sem membros, depende dos outros para agir no mundo; uma trupe de clones que, juntos, não valem por uma pessoa sequer (como toda massa popular cheia de "iguais"); adultos infantilizados e/ou neuróticos; crianças sérias, com comportamentos bastante adultos; e até mesmo uma seita que prefere cegar-se ao ver os problemas do mundo e resolvê-los, aguardando algum messias que vá colocar tudo em ordem para, aí sim, eles voltarem a abrir os olhos e desfrutarem do paraíso. São todas caricaturas de nós mesmos, ou quem sabe, uma reprodução do caos interior de cada um de nós e de todos os elementos que o compõe. E não posso deixar de lembrar da figura da princesa anã, nada mais do que a imagem do amor artificial que, prisioneiro, escravizado e servil não cresceu, se deformou.
Com uma ambientação tão bonita, que conta, inclusive, com figurinos de Jean Paul Gaultier, uma cenografia tão importante quanto uma personagem da trama e um universo subjetivo complexo, atraente e rico – o que é bem comum no cinema de arte europeu – a busca do herói One e sua parceira Miette, por seu irmãozinho sequestrado pelo Ladrão de Sonhos é um mero detalhe, é só mais um dos elementos desse conto de fadas para adultos que conspiram para que, assim como aquele velho rabugento do Krank, nós também percebamos que sonhar é necessário para se viver e que até mesmo as aberrações têm esse direito.
Domingo, dia 12 de Abril, assisti à premiere brasileira do documentário "What Happened, Miss Simone?", biográfico de Nina Simone, grande pianista, vocalista e compositora do Jazz e do Soul, um mito da música contemporânea, além de influente ativista dos Direitos Civís nos EUA. Extremamente emocionante, o documentário me ajudou a entender de onde vinha tanta força e complexidade nas músicas de Nina, que não estava ali só fazendo um número. Ela insistia em agir e dizer o que sentia, e toda essa vontade de se fazer entender ressoava com sua música, inclusive, em uma entrevista ela disse querer que o público saísse aos pedaços de suas apresentações, feridas, emocionadas. E é o que ela faz.
Aí entendi o motivo de haver dias impossíveis de ouvi-la, apesar da vontade. Não estou na mesma freqüência que as canções e todo o seu conteúdo emocional. Ainda bem que há dias em que as mesmas músicas me abraçam e me preenchem com os melhores dos sentimentos. Entendi a complexidade da vida que construiu a artista, e fatos concretos que inspiraram as suas canções, pude ver o por que de "The Other Woman" e "He Needs Me", minhas preferidas dentre tantas dela, soarem tão sinceras e emocionantes. É que ela está realmente sentindo e cantando o que está nas canções. É a vida ela, sinceramente apresentada em música. Nina Simone não era só artista, ela era a sua própria arte, ela dava a si mesmo, integralmente para o público. Deixou muitos sonhos de lado, sofreu muito por isso, enlouqueceu por isso, mas também é imortal por isso.
Uma cena marcante do documentário: depois de muitos anos em auto-exílio na Libéria, ela volta a tocar e se apresenta no Festival de Jazz de Montreaux de 1976. No palco, questiona o que todos estão falando sobre ela desde que voltou a tocar: de que Nina Simone já foi uma grande estrela e agora está decaída e essas coisas. Resolveu, então, que tocar uma música seria o jeito mais fácil de explicar o que ela pensa e sente sobre isso tudo e, após chamar atenção de uma garota na platéia, para que se sente (percebe-se aí a importância do momento para Nina), toca uma versão da música Stars, da Ian Janis, música com uma letra muito pertinente sobre as engrenagens do showbiz, da vida de artista e a relação que existe entre ele, o público e as expectativas que todos criam. Não pôde ser diferente, como sempre, dá pra perceber em detalhes como ela se sente sobre a sua vida, dá pra ver nos olhos dela, dá pra sentir na voz e em cada nota do piano, ainda mais com as adaptações que ela faz na letra, aproximando-a da sua história.
Foi um prazer realmente conhecê-la, Nina Simone. Ou se você preferir, Eunice Kathleen Waymon.
Aqui vai o vídeo. A letra [tentei escrever os improvisos dela, que estão em itálico], segue abaixo:
Stars, they come and go.
They come fast, they come slow.
They go like the last light of the sun,
All in a blaze.
And all you see is glory.
But it gets loney there,
When there's no one here to share.
We can shake it away,
If you hear a story.
People lust for fame,
Like athletes in a game.
They break their collarbones,
And come up swinging.
Some of them are crowned
Some of them are downed,
Some are lost and never found.
But most have seen it all.
They live their lifes in sad cafes and music halls.
And they always have a story.
Some make it when they're young,
Before the world has done it's dirty job.
And later on, someone will say,
"You've had your day, now you must make way."
[...] always.
But you'll never know the pain
Of using a name you never owned.
Or the years of forgetting
What you know too well.
That the you who gave the crown,
Have been let down.
You try to make amends without defending.
Perhaps pretending.
You never saw the eyes
Of young men of twenty-five,
That follow as you walked,
Ask for autographs,
Or kiss you on the cheek.
And you never could believe he really loved you. Never.
Some make it when they're old
Perhaps they have a soul they're not afraid to bare.
Perhaps there's nothing there
But anyway that isn't what a meant to say.
I'd tell you about a story, since we all have stories
I can't remember it anyway
So I'm telling about I moved within the United States
Today and permanently, even in Switzerland, it goes...
Era um homem orgulhoso de seu emprego. Executava cada tarefa com o prazer e a desenvoltura de um mestre em sua função. Sentia-se tão imponente em seu uniforme que fazia questão de voltar pra casa nele vestido. Andava altivo, esbanjava orgulho; era admirado por sua família e pelos vizinhos. Sentia-se a melhor pessoa do mundo.
Sentia vergonha de seu emprego, voltava para casa escondido. Ninguém poderia vê-lo daquele jeito, com aquela roupa vulgar que vestia. Não conseguiu se esconder por muito tempo, descobriram-no. Humilhado e ridicularizado por sua família e conhecidos, odiava sua vida. Sentia-se a pessoa mais desprezível do mundo.
Apesar de não parecer, os dois parágrafos acima contam a história da mesma pessoa e de como ela convive com o repentino destroçar de seus sonhos e a impossível manutenção das aparências. Agonia e alivio, fartura e miséria, inferno e paraíso. São os contrapontos da vida que dão as “cores” em “A Última Gargalhada” (The Last Laugh, 1924) – ou em Alemão “Der Letzte Mann” (“O Ultimo Homem”) –, filme que consta na minha lista de preferidos da vida.
Dirigido por Friedrich W. Murnau – que também dirigiu o clássico Nosferatu, em 1922 –, "A Ultima Gargalhada" é um filme mudo e em branco e preto, mas com uma carga emocional tão grande que estes detalhes apenas realçam um trabalho genial de direção, atuação e produção, o que faz desta película um ícone não só do Expressionismo Alemão, mas do cinema mundial.
A Escola Expressionista Alemã foi um movimento artístico de vanguarda, um fenômeno cultural que no final do século XIX e início do século XX, foi catalizado por todas as formas de arte da Alemanha. Sua estética era baseada mais na emoção do que na razão, suas características mais marcantes eram os ângulos acentuados; cores contrastantes como verde, vermelho, amarelo e preto (isso quando havia cores); maquiagem pesada que muitas vezes descaracterizava os traços humanos dos personagens, outras vezes os enfatizava, revelando de forma mais marcante (expressiva) as suas características subjetivas. No cinema abusava-se dos contornos sombrios e dos contrastes marcantes entre o negro e o branco. Os autores expressavam uma visualidade subjetiva, mórbida e dramática. A realidade, o fato concreto e seus detalhes, eram deixados em segundo plano em detrimento do sentimento que o artista tinha em relação a esse fato. O Expressionismo era o contra-ponto ao Impressionismo, este sim acadêmico, calcado na racionalização da realidade, inspirado na nova coqueluche da humanidade: o método científico.
O filme discute civilização como escrava da aparência. A falsa posição social adquirida pelo personagem principal (interpretado po Emil Jannings) através do uniforme que veste, seja na portaria ou no banheiro do Hotel Atlantic, pode esconder, não o exime da verdade de que ele jamais deixa de ser apenas mais um proletário. A farsa social desmorona frente à descoberta de seu rebaixamento de função por seus vizinhos hipócritas e mais miseráveis ainda, que o atacam e desmoralizam por ele simbolizar tudo o eles temem se tornar ou já são e não suportam ver.
Outro detalhe interessante a ser notado é que as ótimas interpretações dos atores somadas à bela fotografia expressionista, escancaram o psicológico dos personagens a ponto de tornar obsoletos os tradicionais cartões com os diálogos escritos entre as cenas – e nem se nota falta deles. Bem, para não dizer que não há cartões, eles aparecem apenas duas vezes: uma é a carta que rebaixa o porteiro de posição, a outra é para anunciar o epílogo.
Este filme foi o primeiro a utilizar uma câmera portátil, chancelando o rótulo de inovador de Murnau, o diretor. Logo na primeira cena do filme o cinegrafista amarra a câmera no peito e faz a tomada andando de bicicleta pelo lobby do hotel. Só não se assustem com o final nada inovador, meio novela das oito: o final original (e trágico) idealizado pelo diretor e pelo roteirista foi alterado a pedido dos executivos do estúdio, que preferiam um final feliz. Portanto não culpem os gênios expressionistas por este escorregão.
Enfim, “A Ultima Gargalhada” não é simplesmente uma boa história provocadora de reflexões sociais ou algumas lágrimas, é muito mais, é um grande exemplar do cinema de arte, contestador e inventivo, que nos leva além do prazer de assistir a um ótimo filme.