terça-feira, 28 de outubro de 2014

Receita de Empanada



Empanadas Gosky
por Edward Lear

Pegue um porco de 3 ou 4 anos de idade e o amarre pelas patas traseiras à um poste. Coloque 3 quilos de uvas passas, 1 de açúcar, 2 punhados de ervilhas, 18 castanhas assadas, uma vela, e 6 baldes de nabo, à uma distância na qual ele possa alcançar. Caso ele coma tudo, providencie mais, constantemente.

Então, junte um pouco de nata, algumas fatias de queijo Cheshire, 4 cadernos de papel ofício, e um saco de alfinetes pretos. Transforme tudo numa massa e espalhe para secar num lençol limpo de linho marrom.

Quando a massa estiver perfeitamente seca, mas não antes disso, comece a bater violentamente no porco com um cabo de vassoura grande. Se ele guinchar, bata nele outra vez.

Olhe a massa e bata no porco alternadamente por alguns dias, verificando se, no final deste período, ambos estão se transformando em Empadas Gosky. Caso não estejam, nunca irão; e, nesse caso, solte o porco, jogue a massa fora, e considere o processo todo terminado.

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A receita acima é citada no texto "Do Conto Breve e Seus Arredores", do argentino Julio Cortazar, um dos mestre do Conto Fantástico Sulamericano. De acordo com ele, essa receita culinária exemplifica o método que a maioria dos escritores de contos modernos usa para criar seus textos, que são rasos, desinteressantes e de baixa qualidade literária. Expandindo perigosa e inconseqüentemente a mensagem do mestre, pode se dizer que este 'método sem método' é usado, não só por escritores, mas pela maioria dos criadores de arte em geral.

Desde Aristóteles à Berthold Brecht, muitos já postularam sobre o exercício dilacerante da criação e de como minimizar a dor, mas não o trabalho, apontando métodos e dicas para os aspirantes a grandes mentes criativas. Sei que já falei sobre isso há algumas semanas atrás, ao citar a "Arte de Escrever" de Schoppenhauer, uma traumática coletânea de "dicas para escritores", mas que vale uma leitura cuidadosa. E, caso se interesse em melhorar seu estilo de escrever, experiência menos traumática é a leitura do "Decálogo do Perfeito Contista", escrita pelo argentino Horácio Quiroga.

É claro e evidente, feito o sol, que não tenho sequer a altura de uma molécula perto destes gigantes do pensamento e da literatura, inclusive, me imagino agora, feito um mini Plankton do Bob Esponja (vide foto abaixo), ao lado da sola das sandálias do Aristóteles ou dos sapatos do Schopenhauer, gritando por atenção e implorando por qualquer fiapo daquela sabedoria toda. Longe de mim tentar esgotar o assunto ou chegar a qualquer conclusão muito profunda, mas quando me deparei com uma receita tão interessante e perturbadora como a das Empanadas Gosky, tive que compartilhar.


Diga-se a verdade: é impossível ser genial o tempo inteiro. E mesmo que nos esforcemos para tanto - ou não, como fazem muitas vezes os gênios de verdade - não é sempre que se tem sucesso. Criar um texto, e por texto leia-se: canção, poema, conto, etc., é um quebra-cabeças, onde se precisa encaixar idéias, formas, conceitos, palavras, ritmo e um monte de outras coisas para que ele funcione bem. Cortazar, no texto citado, sugere que o autor trabalhe para que o conto respire por si só e tenha vida própria; que sua estrutura funcione como um organismo coerente e se torne independente do autor; onde todos os elementos se comuniquem naturalmente e se complementem, ganhando força, de forma simples e sem rodeios - como completaria seu conterrâneo Quiroga. É criar um universo completo, mesmo que 'sem pé nem cabeça' e, se assim o for, que não haja mesmo nem pés nem cabeças dentro dele, sob pena de comprometer a magia do texto, a expectativa do leitor e a sua imersão, ou seja, o quanto ele vai confiar nesse novo mundo e se deixar mergulhar de cabeça ou só molhar a ponta dos pés.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Música Pavê : Músicos e Escritores

DICA: TRÊS LIVROS NOVOS DE MÚSICOS

Tem gente que é criativa e há também aqueles que são a própria criatividade e não se contentam em trabalhar apenas uma linguagem artística, daí termos tantos músicos que são também atores, fotógrafos, pintores, bailarinos, chefs (também é arte!) ou o que quer que seja. E muitos deles, como Vinicius e Chico, se aventuram também na escrita.
Eis aqui três exemplos, cada um de uma área da literatura, de músicos brasileiros do cenário independente que nos mostraram seus lados de escritor em 2014.

##Danislau (Porcas Borboletas) - Hotel Rodoviário
Sai em 22 de novembro o romance que o vocalista do grupo escreveu. Segundo o release, ele conta a história de Jim da Silva, um ator pornô, narrador de strip tease e padre foragido inspirado em Jim Morrison, além de também cantar em uma banda. A história viaja do interior de Minas ao México, mostrando o anti-herói em um universo que mistura o faraoeste a Bukowski. O lançamento aconceterá durante o evento Balada Literária em São Paulo.
“Pensando bem, preciso cometer a grosseria de afirmar: a stripper não é assim tão necessária. Confesso que já cheguei a narrar alguns strips na ausência da moça. Mulher, você já viu: pode cismar por um motivo besta e iniciar uma greve a qualquer momento. Já me aconteceu. Não tive problemas, narrei um strip-tease inexistente. Fui obrigado a praticar uma narração mais objetiva, o que não está muito a meu gosto, mas tudo bem. A plateia delirou. Ver e imaginar, o amigo sabe, são duas pernas de um mesmo caminhar.”

##Tiago Lobão (Nevilton) - O Pretérito Presente no Subjetivo
Esta dica já passou por aqui há algumas semanas em uma matéria mais completa, mas vale reforçar o assunto. O livro de poemas revira o passado do artista, trazendo seus fantasmas, saudades e cicatrizes à tona em versos que esbanjam ritmo e musicalidade que o fizeram conhecido no meio, além de uma sinceridade nas palavras que faz ainda mais sentido pra quem já o viu pessoalmente, em cima do palco ou em qualquer outra situação. Para saber mais, visite seu blog.
“O alívio do justo é tão fugaz,
quanto é rasteira a vida, que faz
troça da boaventurança,
e ainda vem-me roubar a rima”


##Matheus Brant - A Música e o Vazio no Trabalho
Além de músico, Brant é também advogado e esta obra surgiu durante seu mestrado em Direito do Trabalho. Trata-se de uma reflexão baseada na obra da filósofa Hannah Arendt sobre, principalmente, o papel da arte em um mundo regido pelo trabalho. Como se não bastasse, o livro vem com cinco músicas compostas para ele, expondo suas ideias de maneira poética, e cada uma delas recebeu uma ilustração da artista Deborah Paiva (tem todas neste álbum e as músicas estão na playlist abaixo). Saiba mais no site de Matheus Brant.
“Arendt situa a obra de arte e, portanto, os ‘talentos do artista’ no âmbito da atividade que denomina ‘obra’. Assim como o ‘trabalho’, a ‘obra’ possui características próprias e em tudo, senão contrária ao ‘trabalho’, ao menos completamente diferente deste, a não ser, naturalmente, pelo fato de que ambos ao lado da ação, fazem parte da vita activa e correspondem, cada um à sua maneira, à ‘condição básica sob a qual a vida foi dada ao homem na Terra’.”

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Natural, como respirar



Garimpando na minha caixa de e-mail, me deparei com uma correspondência entre mim e uma amiga que, naquela época, se sentia ansiosa com as mil coisas que já estavam planejadas e que poderiam acontecer nos próximos meses, mas não tinha muito pra fazer agora, exceto esperar. Como era uma pessoa muito ativa, resolvida e não menos ansiosa, esperar não era sua praia, se sentia perdida e meio triste, sem saber o que fazer.

Eu poderia ter feito como a maioria das pessoas faz e usar daquela solidariedade automática, também chorar minhas pitangas, dizendo que "ah, pois é, eu também tô cheio de problemas... essa vida é uma loucura mesmo! Ah, que mundo cruel!". Mas pensei: que tipo de amigo seria eu que, ao invés de confortar, elevando a outra pessoa para um nível mais alto, onde ela possa ver mais longe e se sentir melhor e mais segura com o futuro; também me jogo no buraco para chorarmos juntos e não sairmos mais dali?

Não respondi o e-mail de imediato. Fiz um chá e fiquei olhando a noite pela janela, meditando. Era madrugada, a Rua da Consolação, que outrora estava lotada de carros, agora estava vazia e assim ficaria até o amanhecer; a lua não estava mais cheia, cumpria sua sina de ir sumindo dia após dia para desaparecer completamente durante a lua nova e depois voltar a crescer até atingir a fase cheia outra vez; olhei os vultos das árvores balançando com o vento que as jogavam pra um lado e para o outro, constantemente, quase que no ritmo da minha respiração que enchia e esvaziava meus pulmões de ar, num ciclo infinito e constante, mas sempre com uma pausa entre o final do encher e o início do esvaziar. Mas, em tudo o que tinha observado havia esse momento de ausência de movimento entre as fases dos ciclos. Ora, ausência de movimento é bem o período em que minha amiga estava e, pelo que me parece - e pelo que consta nas leis da Física sobre Movimento -, é bem natural que isso aconteça.

Mesmo sendo a 3ª lei de Newton e o Movimento Pendular de Galileu Galilei belos argumentos para uma palestra motivacional, não se preocupem, venci a tentação verborrágica e apenas publicarei o que respondi depois de alguns dias de reflexão e observação:

"Nos últimos dias, pensei sobre como é naturais isso que te acontece. Fiquei olhando a natureza e, pra todo impulso, há um momento em que não se tem movimento, onde a as forças são nulas: na onda do mar, entre a onda que vai e a onda que vem; na respiração, entre o inspirar e o expirar e por aí vai. E é nesse momento que você está, entre fôlegos, entre ondas, um momento mais natural do que a gente pensa, mas que dá uma estranha e inevitável agonia. Aproveite-o! Use-o pra pensar no que você conquistou, internalize o que passou, faça planos, pense no futuro também. Pois, acho que, quando o bicho pegar e tudo engrenar, aí você não vai ter mais muito tempo pra pensar e planejar. Vai ser puro agir."

Enfim, nunca vai dar errado. Acalmar-se. Respirar. Olhar ao redor. Ficar atento. A melhor resposta vai ser a mais simples, a mais natural. Faça o teste.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Deus me lívery !



Liga na pizzaria e pede uma Margherita.

- Aqui não tem essa pizza de Margarida, não, moça.
- Não é Margarida, meu amigo, é Mar-ghe-ri-ta.
- Então, é o que eu disse, não tem Margarida aqui não.
- É margherita, meu amigo, ghe-ri-ta. É uma das pizzas mais tradicionais do mundo. Massa, muçarela, tomate e manjericão. Simples.
- Ué, mas isso aí que a senhora tá pedindo é pizza de Muçarela, então.
- Não, amigo, se tem tomate e manjericão é Margherita! Aquela história toda, das cores da bandeira da Itália, numa pizza, lá em Nápoles, em homenagem a Rainha Margherita...
- Ah, senhora, sei disso aí não. Esses negócio de gringo é tudo outra história, cheio de firula... e, também, já viu, né? Deve estar cheio de gente tentando ligar aqui e a senhora nessa coisa de pizza de Margarida!
- É Margherita, querido, Mar-ghe-ri-ta. Eme, a, érre, gê...
- Tá bom, tá bom. Vamo fazer essa aí pra senhora. Muçarela, tomate e oregano, néisso?
- Não, muçarela, tomate e manjericão. Man-je-ri-cão.
- Tá, manjericão, beleza.
- E, me diga, o manjericão é fresco?
- O Manjericão? Fresco? O mais fresco da cidade! Dá pra ver a frescura de longe, só de olhar pra ele.
- Então tá bom. Manda a pizza e traz troco pra cinqüenta.
- Tá bem então, em meia hora a pizza chega no endereço que a senhora me passou. Obrigado e boa noite.
- Obrigada, boa noite.
Nem termina de desligar o telefone e já olha pro pizzaiolo, um negão alto, um tanto acima do peso, de ombro largo e diz: 
- Aí, Manjericão, esses seus amigo tem cada uma heim!
- O que foi, Fófis? Qualé o babado?
- Ligando aí, pedindo pizza que não existe. E ainda pergunta se você é fresco! Até parece que não te conhece, pô!

Uma hora depois, chega a pizza no endereço combinado: Muçarela, tomate e orégano.


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O Pretérito Presente no Subjetivo

Decidi oficializar minha carreira literária lançando este livro, para o qual selecionei 27 poemas meus, escritos entre 1997 e 2009. São poemas de juventude; da procura por respostas, por soluções às frustrações e dores que, naqueles tempos, pareciam imensas e eternas.


Hoje, feliz por estar errado, e reconhecendo que sem desilusões vencidas não há ser humano completo, celebro e exponho, neste volume, minhas melhores cicatrizes.


- Edição Física Esgotada - 


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