domingo, 5 de abril de 2015

Um desabafo

Independente da opção política, um bom estadista, um líder de verdade, deveria unir o Povo em torno de ideais comuns e guiá-lo através das dificuldades, sempre preservando a união e o sentimento de nação.
Me decepciona – apesar de saber que não deveria, já que isso não é nada novo – ver que o que temos é exatamente o oposto. Não se une para fortalecer e evoluir, mas divide-se para enfraquecer e dominar.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Da Honestidade


Do mundo, que eu exija apenas o que eu faça. Ao mundo, que eu faça tudo o que eu exijo.

terça-feira, 31 de março de 2015

Reflexões Sobre Papel Almaço


Fazia tempo que não olhava para uma resma de papel almaço, mas não existem muitas opções quando se fica quatro meses sem um computador. Pra alguns, mais jovens, até mesmo a palavra resma já parece sair de alguma filosofia hermética e antiga. E, pensando bem, até que faz sentido que pensem assim. Mas ela existe, e está aqui na minha frente, cheia de folhas brancas com linhas azuis me indicando o caminho a percorrer com minhas ideias e aguardando, imóvel e pacientemente, enquanto eu as formulo. À mão, preencho cada letra, folhas e folhas de trabalho hercúleo. Mas o resultado compensa e vai além da poética dessa forma tão solene de criação que é a analógica. E, graças à tecnologia de reciclagem do papel, nem é mais tão ecologicamente incorreta assim.

Pensei nos antigos. Eles sim que tinham um trabalhão! Um mesopotâmio, ao ter uma ideia, refletia antes se valia realmente a pena registrá-la, afinal, antes do registro, tinha que preparar a argila e colocá-la no molde. Mesmo se a ideia fosse ótima, durante o processo de preparação da placa e a gravação dos caracteres cuneiformes, dava tempo de meditar e aprimorar bem o que escreveria, sem espaço pra bobagem. Imagino que um caderno de páginas de pedra não deveria ser nada fácil de carregar, mas já era mais plausível e tranquilo do que carregar as paredes das cavernas.

Mesmo com a invenção do papiro, do pergaminho e, posteriormente do papel, ainda havia algum ritual de preparação. Apontava-se a pena, diluía-se a tinta, e tínhamos aí mais uma última chance de amadurecer a ideia antes de sair rabiscando o suporte que, passivo, apenas recebia a informação. Jazia ali, plácido e puro, aguardando que o mestre o gravasse, letra a letra, calmamente. Até mesmo com a máquina de escrever havia esse momento quebra-gelo e maturação da mensagem. Inseria-se o papel, ajustava-se a tabulação e margens, conferia-se se o papel estava horizontalmente alinhado e, só então, datilografava-se (atenção ao verbo, quase extinto), pressionando com cuidado e firmeza aquelas teclas pesadas, ritmada e atentamente, para que os tipos imprimissem bem o papel sem se enroscar, ou algum erro grave de grafia colocasse a página inteira em risco de ir pro lixo e ter que ser redatilografada (e temos aí um outro verbo quase extinto).

Enfim, temos novamente um computador nas mãos. Me estranho com o cursor que pisca insistentemente na tela, me desafiando. Por mais que eu digite, ele continua a piscar, a pedir mais, e mais, e mais palavras. Tento mostrar quem manda, quem dá o ritmo. Paro de escrever, levanto e vou fazer um café, tento criar um método pra nos deixar mais íntimos novamente, recuperar o respeito, aquela química de antes, tirar nossa relação dessa ansiedade juvenil, desse gozo precoce, que me parece epidêmico em todos os setores da vida. Tem sido uma boa luta de readaptação e, felizmente, posso dizer que estamos obtendo algum sucesso. E o café, no fim das contas, só tem servido pra atrapalhar minhas noites de sono.


terça-feira, 24 de março de 2015

Álbum : Meio Desligado [1994, Kid Abelha]

Em 07 de Novembro de 2014, o álbum Meio Desligado completou 20 anos. É um álbum marcante na minha história pessoal por motivos tantos e impossíveis de enumerar. Por ser um registro sonoro que admiro em vários quesitos, resolvi revisar e reescrever essa publicação feita originalmente para o Culturanja de 18 de abril de 2008.

Sei que tenho que parar com essa mania de "microondas" requentador de textos, mas em tempos que me recupero de uma revolta tecnológica aqui em casa, não vi ponto negativo em ressugerir aos amigos a audição deste álbum enquanto preparo mais coisas inéditas para as próximas semanas.

Bruno Fortunato, George Israel e Paula Toller, o Kid Abelha.


“Kid Abelha, Lobão?!” Muitos me recriminarão, mas o álbum é bom sim e merece uma resenha.

A idéia deste álbum surgiu de um set de versões acústicas das músicas do primeiro disco do Kid Abelha, que a banda tocava nos Bis dos shows normais. Gostaram da idéia e começaram a acrescentar ao Bis outras canções que combinassem com esse formato. Registradas ao vivo, em shows realizados entre março e julho de 1994, nas cidades Curitiba, Belo Horizonte, Crisciúma, Concórdia, Venâncio Aires e Santa Bárbara. Depois acrescentaram alguns instrumentos e arranjos a mais em seu home-studio, o Som de Neguin’ (também chamado por eles de "casa").

O resultado final é surpreendente: nitidez e uniformidade nos sons dos instrumentos captados ao vivo e nos acrescentados posteriormente, em estúdio. O toque especial na sonoridade fica com a participação do público e o ambiente de show - preservados da captação ao vivo - o que cria a impressão de um show acústico completo e esquenta o disco feito um abraço carinhoso. Infelizmente, por ser resultado de diversos registros de áudio ao vivo e overdubs em estúdio, não foi possível preparar uma versão em vídeo deste álbum que, se existisse, estou certo de que seria uma beleza.

“Meio desligados, mas totalmente antenados” é como a banda, pertinentemente, se descreve no encarte do CD (que também foi o último álbum da banda a ser lançado em vinil), o Kid Abelha consegui a criar um clima aconchegante e sofisticado que pouca gente conseguiu fazer em um Acústico. As versões de Como Eu Quero, com a participação de Ritchie, de Solidão Que Nada, do Cazuza e Grand’ Hotel, esta com arranjos de cordas do mestre Wagner Tiso, ou até mesmo a simples e aconchegante Seu Espião, são realmente muito bonitas.

Com 600 mil copias vendidas, ganhando disco de ouro, de platina e o primeiro disco duplo de platina da banda, o Meio Desligado é um álbum muito bem feito. Bem arranjado; rico em instrumentação, com participações muito pertinentes, como Lulu SantosRitchie e até mesmo o Mutante Sérgio Dias, que toca uma Cítara na faixa de abertura Deus; o álbum possui versões muitas vezes mais interessantes às do Acústico MTV Kid Abelha de 2002, que atualmente é o Acústico MTV mais vendido da história do projeto, com 2 milhões de cópias vendidas, superando o ótimo Acústico dos Titãs, que vendeu 1,7 milhões de cópias.

Penso que a idéia do acústico é mostrar a real força de uma boa canção, aquela que funciona independente da forma que é apresentada, que tem força por si só, que tocada num violão solitário também é capaz de emocionar. Esse disco é a demonstração que as canções do Kid Abelha, em grade parte escritas pelo Leoni, um compositor de mão cheia, funcionam, sim, muito bem e em vários formatos.

Então, está aí a sugestão: deixe o preconceito de lado e ouça esse álbum com carinho.




Tracklist

01. Deus (Apareça Na Televisão)
02. Alice
03. Gosto De Ser Cruel
04. Como Eu Quero
05. Por Que Não Eu
06. Seu Espião
07. Eu Tive Um Sonho
08. O Beijo
09. Cristina
10. No Meio Da Rua
11. Nada Por Mim
12. Grand' Hotel (Introdução)
13. Grand' Hotel
14. Solidão Que Nada
15. Canário Do Reino


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O pé de valsa





Essa história aconteceu em meados dos anos 70, numa pequena cidade ainda jovem, muito religiosa e conservadora, no interior do Paraná, algo bem comum naqueles tempos da colonização do estado. Era época de quaresma, período de quarenta dias após o carnaval, no qual os católicos ficam em resguardo, orando. Nesse período a igreja não aconselha festas, pois os santos, os anjos e demais elementos do exército celeste também estão em resguardo ou ocupados com outras coisas e deixam de cuidar de nós, os mortais, ficando livre o caminho para as forças do mal irem à forra com os descuidados.

Mas o Manoel, também conhecido como Mané, dono do salão de baile mais famoso da cidade, não dava a mínima pra isso de igreja e também não achava a idéia de ficar quarenta dias sem abrir seu salão de balei muito boa. “Quem vai pagá o meu feijão, pô?!” – dizia ele.

Então Mané resolveu fazer o baile, normalmente, naquela primeira sexta-feira de quaresma. O padre excomungou, as beatas esconjuraram, todo mundo olhou torto pra ele. Mesmo assim o Bailão do Mané lotou e o rastapé comeu solto a noite toda... ou quase toda. Dizem que por volta das onze da noite apareceu um forasteiro, um cara elegante, de paletó claro, camisa branca sem gravata, sapatos brancos lustrosos, bigode charmoso e babosa no cabelo penteado pra trás. O sujeito chegou calado e foi direto ao bar tomar um trago, e cada movimento seu era acompanhado pela atenta vigilância dos homens do salão. Os olhos de todas as garotas brilharam de desejo.

Não demorou muito e o forasteiro pé de valsa estava rodando o salão, dançava com uma, com outra, mais outra... estava literalmente dando um baile no pessoal e deixando as moças ouriçadas, que o cercavam querendo mais. Chegou um ponto em que todas elas só queriam dançar com o tal cara do bigode, deixando os homens do recinto tão indignados, que foram tirar satisfação. Aí a coisa ficou feia. O Ademar da quitanda, um cara enorme e esquentado, já chegou empurrando o forasteiro de lado e perguntou:

– Quem diabos é você, cumpadi? Vai chegando e atrapalhando o nosso baile, pegando nossas garotas... Cê acha que é quem?

O forasteiro, deixando educadamente de lado a moça com a qual dançava, olha firmemente para Ademar durante uns 5 segundos, sem esboçar qualquer reação. Então responde, sorrindo:

– Quem diabos, Ademar? Quem diabos?!?! E começa a rir.

A risada vai aumentando cada vez mais até ecoar por todo o salão e encobrir a música. A banda para de tocar e todos, assustados, olham para o risonho forasteiro. As luzes então começam a piscar desordenadamente; apagam e acendem ao som daquela gargalhada ameaçadora até que, finalmente, tudo escurece. 

Ao acender das luzes o forasteiro não está mais ali na frente do Ademar, mas em cima das caixas de som ao lado do palco, e continua rindo. Enquanto gargalha feito um lunático levanta suas duas mãos para cima, se consome numa labareda de fogo e desaparece. Todos que estavam no salão imediatamente saem correndo desesperados, deixando na sala apenas um forte cheiro de enxofre e um Ademar preocupadíssimo, repetindo sem parar enquanto também fugia : "Ele sabia o meu nome... Ele sabia o meu nome... Ele sabia o meu nome..."

Dias depois tomaram coragem para voltar ao salão, foram acompanhados pelo delegado e pelo padre que, armado de água-benta e crucifixo, ia benzendo o caminho à frente. Revistaram todo o salão, mas a única coisa que encontraram como prova daquela noite sinistra foram as marcas de dois cascos de bode queimadas sobre a caixa de som de onde sumiu o forasteiro. No jornal do dia seguinte, na primeira página, publicaram a foto das marcas e a seguinte manchete: “Baile do Demônio - o dia em que o Capeta veio pra dançar.".

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Com amigos, num bar.

ou Lição do Folião Antigo.


Lugar bom pra conversar, o meio-fio!
Democrático, popular.
Em pé ou sentado. É decente evitar se deitar.

Mas seja alta-noite-fervente ou calma-tarde-de-frio,
Meio fio não é lugar de deixar
Um copo de vidro, vazio.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Filme : A Última Gargalhada [1924, Friedrich W. Murnau]



Era um homem orgulhoso de seu emprego. Executava cada tarefa com o prazer e a desenvoltura de um mestre em sua função. Sentia-se tão imponente em seu uniforme que fazia questão de voltar pra casa nele vestido. Andava altivo, esbanjava orgulho; era admirado por sua família e pelos vizinhos. Sentia-se a melhor pessoa do mundo.

Sentia vergonha de seu emprego, voltava para casa escondido. Ninguém poderia vê-lo daquele jeito, com aquela roupa vulgar que vestia. Não conseguiu se esconder por muito tempo, descobriram-no. Humilhado e ridicularizado por sua família e conhecidos, odiava sua vida. Sentia-se a pessoa mais desprezível do mundo.

Apesar de não parecer, os dois parágrafos acima contam a história da mesma pessoa e de como ela convive com o repentino destroçar de seus sonhos e a impossível manutenção das aparências. Agonia e alivio, fartura e miséria, inferno e paraíso. São os contrapontos da vida que dão as “cores” em “A Última Gargalhada” (The Last Laugh, 1924) – ou em Alemão “Der Letzte Mann” (“O Ultimo Homem”) –, filme que consta na minha lista de preferidos da vida.

Dirigido por Friedrich W. Murnau – que também dirigiu o clássico Nosferatu, em 1922 –, "A Ultima Gargalhada" é um filme mudo e em branco e preto, mas com uma carga emocional tão grande que estes detalhes apenas realçam um trabalho genial de direção, atuação e produção, o que faz desta película um ícone não só do Expressionismo Alemão, mas do cinema mundial.

A Escola Expressionista Alemã foi um movimento artístico de vanguarda, um fenômeno cultural que no final do século XIX e início do século XX, foi catalizado por todas as formas de arte da Alemanha. Sua estética era baseada mais na emoção do que na razão, suas características mais marcantes eram os ângulos acentuados; cores contrastantes como verde, vermelho, amarelo e preto (isso quando havia cores); maquiagem pesada que muitas vezes descaracterizava os traços humanos dos personagens, outras vezes os enfatizava, revelando de forma mais marcante (expressiva) as suas características subjetivas. No cinema abusava-se dos contornos sombrios e dos contrastes marcantes entre o negro e o branco. Os autores expressavam uma visualidade subjetiva, mórbida e dramática. A realidade, o fato concreto e seus detalhes, eram deixados em segundo plano em detrimento do sentimento que o artista tinha em relação a esse fato. O Expressionismo era o contra-ponto ao Impressionismo, este sim acadêmico, calcado na racionalização da realidade, inspirado na nova coqueluche da humanidade: o método científico.




O filme discute civilização como escrava da aparência. A falsa posição social adquirida pelo personagem principal (interpretado po Emil Jannings) através do uniforme que veste, seja na portaria ou no banheiro do Hotel Atlantic, pode esconder, não o exime da verdade de que ele jamais deixa de ser apenas mais um proletário. A farsa social desmorona frente à descoberta de seu rebaixamento de função por seus vizinhos hipócritas e mais miseráveis ainda, que o atacam e desmoralizam por ele simbolizar tudo o eles temem se tornar ou já são e não suportam ver.

Outro detalhe interessante a ser notado é que as ótimas interpretações dos atores somadas à bela fotografia expressionista, escancaram o psicológico dos personagens a ponto de tornar obsoletos os tradicionais cartões com os diálogos escritos entre as cenas – e nem se nota falta deles. Bem, para não dizer que não há cartões, eles aparecem apenas duas vezes: uma é a carta que rebaixa o porteiro de posição, a outra é para anunciar o epílogo.

Este filme foi o primeiro a utilizar uma câmera portátil, chancelando o rótulo de inovador de Murnau, o diretor. Logo na primeira cena do filme o cinegrafista amarra a câmera no peito e faz a tomada andando de bicicleta pelo lobby do hotel. Só não se assustem com o final nada inovador, meio novela das oito: o final original (e trágico) idealizado pelo diretor e pelo roteirista foi alterado a pedido dos executivos do estúdio, que preferiam um final feliz. Portanto não culpem os gênios expressionistas por este escorregão.

Enfim, “A Ultima Gargalhada” não é simplesmente uma boa história provocadora de reflexões sociais ou algumas lágrimas, é muito mais, é um grande exemplar do cinema de arte, contestador e inventivo, que nos leva além do prazer de assistir a um ótimo filme.



Aproveite e assista ao filme, na íntegra:















Originalmente publicado no Culturanja de 9 de abril de 2008. Revisada e reeditada para esta publicação.