quarta-feira, 9 de novembro de 2016

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Cuide-se, bem


Pelo Universo, transitam os corpos celestes, cada um em sua trajetória, sempre cíclica. Alguns ciclos pequenos, perceptíveis a nós, como o do nosso planeta em relação ao sol, de 365 dias; outros, de tão imensos, passam quase que desapercebidos, como o do Sistema Solar em relação ao centro da Via Láctea, que dura em torno de 25.600 anos. É imenso! E sua imensidão não significa aleatoriedade.

É nessa imensidão que temos uma infinitude de corpos seguindo o seu trajeto, circulando uns ao redor dos outros. Atraem-se, encontram-se, impulsionam-se, combatem-se, chocam-se, aglutinam-se, estabilizam-se, unem-se, repelem-se, distanciam-se, numa dança marcada pelo sutil e monumental ritmo cósmico.

Tanto lá quando cá. Essa dança se replica em tudo, desde a infinitude imensa do universo, até a infinitude minúscula do subatômico. Se repete em toda a natureza que nos cerca, em todo átomo. Em nós, em nossas células e suas organelas; e por nós, em nossas relações sociais e afetivas. Não poderia ser de outra forma, fomos feito à imagem e semelhança da Inteligência Cósmica. Somos e compomos o Cosmos.

E seguindo nossa trajetória, encontros e desencontros nos causam leves desvios, alguns impulsionam, outros freiam, alguns apenas passam, outros desestabilizam. Desviamos, evitamos, mas, mesmo com nossa força de vontade, livre arbítrio e consciência, não nos furtamos de participar dessa dança maior, não escapamos das forças que nos colocam sempre de volta à órbita da nossa própria vida.

E por não sermos corpos inanimados, nos afeiçoamos, nos vinculamos, de forma mais ou menos profunda, a cada outro corpo que nos compartilha da rota, seja por muito ou pouco tempo. Trocamos forças e influências, sempre levamos algo conosco e oferecemos do que temos.

Mas, também é da dança o desencontro, o despedir-se, o ausentar-se. Disse Vinícius, com a autoridade que a poesia lhe concedeu: "A vida é arte do encontro. Embora haja tanto desencontro pela vida". Para todo encontro, sempre haverá a hora de partir, seja pelas estradas que se separam ou, até mesmo pela vida que se acaba. E cabe a nós estarmos atentos e preparados, de nos despedirmos sempre deixando gravados, da forma mais evidente e indelével, o amor e a gratidão por tudo o que foi compartilhado.

Guilherme Arantes, na canção "Cuide-se bem", canta o que seja, talvez, uma das mais bonitas mensagens de conforto e carinho que se pode deixar a quem segue, distanciando-se da nossa rota, para seguir a sua própria:


Cuide-se bem!
Perigos há por toda a parte
E é bem delicado viver
De uma forma ou de outra
É uma arte, como tudo

Cuide-se bem!
Tem mil surpresas à espreita
Em cada esquina mal iluminada
Em cada rua estreita do mundo

Pra nunca perder esse riso largo
E essa simpatia estampada no rosto

Cuide-se bem!
Eu quero te ver com saúde
E sempre de bom humor
E de boa vontade com tudo


Mas, sem nos esquecermos que tudo é sempre cíclico, toda tristeza pelas despedidas deve se converter em esperança, pois, em algum momento, depois do tempo que for, um novo encontro acontecerá. E que, nessa hora, estejamos bem. Enquanto isso, bailemos!



terça-feira, 1 de novembro de 2016

Gratidão


Estas são duas versões gráficas, feitas por Fábio Lonardoni, para o meu poema Gratidão, constante no livro O Pretérito Presente no Subjetivo. São sutilmente diferentes na interpretação e, como não consigo decidir qual é a melhor, publiquei as duas que estão lindas.










sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Inspirações


Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

                                                (Emergência, de Mário Quintana)



Tenho me voltado à poesia como quem se volta para a luz do sol após dias nublados. Como quem persegue aquele mísero raio de luz que, tímida, mas heroicamente, escapa por entre as nuvens e atinge a terra úmida e fria, que até então mortificava corpos e almas, para nele se aquecer, respirar fundo e, de braços abertos, peito estufado, deixar-se aconchegar em todas as dimensões do ser.

Insisto no poema como fator conectante entre o humano e o infinito; como uma estrada para o Belo, entre o que humanamente idealizo e o que infinitamente é; percurso que, em sinuoso aclive, descortina cada vez mais amplas e completas paisagens a se descrever; como construção íntima; como jornada de purificação.

Salvo-me nos versos como um naufrago em tudo o que flutua; como no colo de uma mãe, ou no abraço de um pai; na mão amiga que guia; na palavra de consolo que acalma; na brisa que acaricia a face; na segurança da chuva que disfarça a lágrima e lava a alma.

Se na vida rimas ou não rimas, é opção que ela mesma traz, tanto faz. Mas o ritmo, esse sim, inevitável capataz, açoita quem destoa da cadência, sem não antes avisar. Mas por ser, também, amigo, premia sempre a quem souber dançar.

É por isso que a arte é necessária à vida, como a pausa à música e, ao texto, o ponto e a vírgula. É preciso despertar-se ao sensível, ao invisível, ao metafísico. Redescobrir o que não se vê, saber dizer o que não se diz, tocar o intangível. Reconectar-se com essa esfera sutil por onde comunicamos tanta coisa, mas que, num oceano de amor revolto, em meio a tantas e turbulentas ondas de rancor, as inúmeras marolas de carinho passam despercebidas.

Acalmemos os amores, meus amores. Controlemos os tsunamis da paixão, acabemos com os vendavais, os tremores e a gritaria. Atentemo-nos às leves marolas, à brisa carinhosa, aos suspiros pacíficos da paz que nos convida incansavelmente a comungá-la. Ela não está distante, ela fala baixo. Sejamos nós os poetas ou os poemas, os artífices ou a matéria-prima, inspiremo-nos! Ouçamos, em silêncio, o Universo a recitar-se amorosamente.

domingo, 23 de outubro de 2016

Rachmaninoff : Piano Concerto n.2 em Dó menor, Op.18


Após receber péssimas críticas ao o seu primeiro concerto, o russo Sergei Rachmaninoff (1873 - 1943) entra em uma profunda depressão e bloqueio criativo que duraram vários anos. Ao sair desse tenebroso ciclo, compõe essa excelente peça, que é o Concerto n.2 em Dó Menor que, inclusive, é dedicado ao médico Nikolai Dahl, figura importante na sua recuperação psicológica. Considerada uma de suas melhores e mais famosas peças, foi tão aclamada que colocou o compositor, finalmente, entre os grandes concertistas da história. 

O segundo movimento é uma das coisas mais lindas que já ouvi na vida. Imbatível, de tirar lágrimas e arrepiar até os mais embrutecidos, com um tema melancólico e leve, que começa na flauta, toma forma no clarinete e vai crescendo e respirando até contagiar toda a orquestra e cada célula de quem está ouvindo.

Na música, as tonalidades menores são consideradas tristes, enquanto as tonalidades maiores são consideradas felizes, ensolaradas. Então, também é muito simbólico o concerto ter sido escrito em Dó menor. Mas, o mais bonito de tudo, é que o concerto começa em Dó menor e termina em Dó maior, como se simbolizasse, no desenvolver da peça, a luta e a vitória do compositor sobre a sua depressão.

Nas primeiras apresentações desse concerto, entre 1900 e 1901, o próprio Rachmaninoff foi o solista, ao piano. Nesse vídeo podemos ver a destreza e a maravilhosa interpretação da Anna Fedorova, ao piano, com a Filarmônica do Noroeste Alemão (Nordwestdeutsche Philharmonie), com regência de Martin Panteleev.


Sério... durante o segundo movimento, separe um lenço.





sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Amor pelas paredes

Tarde da noite, voltando pra casa, cansado por um dia inteiro de trabalho, deparei-me com esse soneto em uma das paredes do metro Vila Madalena, aqui em São Paulo. Ele é nomeado pelo seu primeiro verso, pois o seu criador, o grande Luís Vaz de Camões (1524 - 1580), não colocava título em seus sonetos.


Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, é tudo vosso,
E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.


Depois de alguns minutos de maravilhamento, percebi que, sem mencionar sequer uma vez a palavra amor, Camões descreve o que seria o tipo de amor mais bonito, que poucos acreditam existir e, até mesmo, se aventurar a experimentar. É um patamar do sentimento quando ele subsiste por si, se retroalimenta, que é seu próprio motivo e finalidade. Amor que se dá pelo simples motivo de que se dar amor é bom, por isso não depende de qualquer tipo de retribuição, presente ou futura, de quem quer que seja.

Desvinculado de qualquer motivação externa a si mesmo, esse tipo de amor sobreviveria ao tempo, à inevitável hora quando a jovem e bela companhia se transformar no velho e retorcido transtorno; permitiria, mesmo ausente o companheiro, estar presente o carinho, a lealdade e a fidelidade; e, destituída a posse doentia, inexistiria o ciúmes venenoso.

Este deveria ser, e talvez seja, o amor ao qual todos deveríamos buscar. Esse que, quanto mais se dá, mais se quer dar, como se vertesse de uma fonte infinita. É claro que nessa busca é preciso atenção e coragem. Sentimentos e necessidades psicológicas e físicas podem nos enganar, e nos levar a perceber, tarde demais, pelas dores, que o que achávamos amor não era nada além de tesão e vaidades, que os amores eram, na verdade troféus. Para que isso não aconteça, sugere-se sempre, antes de tudo, conhecer-se e saber sobre o que se passa dentro de si, o que se deseja da vida. Nada mais do que o exercício básico de um viver consciente.

Mas, independente dos riscos que corremos, das maldades do mundo, e da inevitabilidade dos tropeços, a mensagem primordial que me tocou fundo o coração através do soneto de Camões, é que ser amado é secundário, é resultado. O que não se pode, nunca, de forma alguma, por motivo algum, é ter medo de amar.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Comentário sobre o poema Caro Data Vermibus


Este é um poema que gosto muito. Primeiro, por ser bonito; segundo, pela sua feitura ter sido um processo longo. Finalizá-lo foi uma alegria imensa.

Da sua concepção, num papel rascunho do "Ministério Público do Paraná, em 2001, ao seu fechamento, para o livro, em 2013, descontados uns prováveis e não mais do que 4 anos de gaveta, foi quase uma década. Sim, talvez o poema mais demorado que já fiz. Mas foi realmente preciso vivenciar muitas coisas para condensar as idéias e imagens que ele me pedia. Foram anos de tentativas e retomadas e desistências na lida com estes versos.

É um poema que retrata um amadurecimento: do desespero do jovem desiludido ao racionalismo do quase adulto, ainda desiludido, mas um tanto mais forte.

Quase 10 anos em 14 versos. Até eu mesmo fico espantado!

Aproveite e leia o poema: Caro Data Vermibus