quinta-feira, 6 de março de 2008

Quando as Memórias Ferem...

Há muito o que fazer
Lugares a chegarNão há muito o que dizerE o bastante a se pensar


Não os deixarei totalmente solitários, visistem sempre nosso novo site:


E como sempre, Vinícius vem com a palavra sob medida.
Um grande abraço e até breve.
(Sim, eu volto.)

Mensagem à Poesia
(Vinícius de Moraes)

Não posso
Não é possível

Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.

Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.

Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-Ia
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.

in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "O encontro do cotidiano"

terça-feira, 16 de outubro de 2007

The Greystone Park, Beverly Hills, California

Após meses de estiagem, desembestou a chover aqui nessa terra Umuaramense. E aqui no isolado Noroeste do Paraná, Brasil, o cinza celeste, que reinou pelo fim de semana inteiro, fez ressurgir lembranças de um belo lugar da ensolarada Califórnia-do-céu-sempre-azul. Com um sol de rachar coco e um vento gelado de inverno, não existe clima mais perfeito do que o a primavera californiana. E é nesse contexto que um belo dia, andando por Beverly Hills, me deparei com um portão imponente que me chamou atenção.

905 Loma Vista Dr., esquina com a Doheny Rd.

Pensei comigo: “Sorte do sujeito que mora nessa casa!”. Segundos depois descubro que aquela mansão era nada mais do que a Mansão Greystone. Cercada por lindos jardins, é hoje um parque público, onde se pode passar ótimos momentos de “relax” lendo um livro, passeando com amigos (né, Nini?) ou simplesmente sentado olhando a beleza dos jardins e pensando na vida. Fui presenteado em poder fazer isso por algumas vezes. O local também é exaustivamente usado como locação para filmes, comerciais e ensaios fotográficos, segue uma lista no final do texto.

Respeitosa entrada.

A história de Greystone tem alguns detalhes não tão belos, mas envolve um enredo digno de Hollywood, talvez essa energia que a circunda e a beleza física do lugar o façam ser o que é: inesquecível.

Tudo começou em 1926, quando o magnata do petróleo Edward Lawerence Doheny doou 12.58 acres de uma propriedade na nova cidade de Beverly Hills, Califórnia para seu único filho Edward “Ned” Lawerence Doheny Junior. A propriedade original tinha 429 acres e foi a maior propriedade familiar da história de Beverly.

Greystone assim que ficou pronta, na década de 30.

E nesses belos 12.58 acres, na encosta da montanha, com uma linda vista para a cidade, foi construída a Mansão Greystone, ao custo total de U$ 3.135.563,63 (três milhões, cento e trinta e cinco mil, quinhentos e sessenta e três dólares e sessenta e três cents), o que garantiu à casa o título de mais cara da Califórnia por algum tempo. A construção começou em 15 de fevereiro de 1926 e terminou em 24 de setembro de 1928, quanto Ned mudou-se com sua esposa Lucy Smith Doheny, quatro filhos e uma filha.

Setenta e sete anos depois, tinha eu nesse mesmo portão!

A mansão é um “revival” da arquitetura inglesa. O interior é inspirado na estética do Século XVIII. O exterior é no estilo Gótico Inglês, marcado por grandes janelas; arcos em ponta e em ogiva; além de um pé direito generoso.Toda a parte externa é revestida de pedras de Calcário Indiana (Indiana Limestone) também conhecido como Calcário Salem ou Calcário Redford, que é considerado como o melhor tipo de calcário dos Estados Unidos, formado pelos depósitos sedimentares do Rio Mississipi, é proveniente da região entre as cidades de Bloomington e Redford, cidades do estado norte-americano de Indiana. Inclusive, o David Lee Roth eterno vocalista do Van Halen é um ilustre nascido em Bloomington. Tal calcário também foi usado no exterior de edifícios famosos, como o Empire State Building, em Nova York e o Edifício do Pentágono, em Washington. O telhado e outros detalhes são de Ardósia (Welsh Slate).

Foto do luxuoso interior da mansão na época dos Doheny.

Os responsáveis por tal esplendor foram o arquiteto norte americano Gordon B. Kaufman e o paisagista alemão, residente nos Estados Unidos, Paul G. Thiene.

Dizem que o nome da propriedade foi derivado da cor das pedras de calcário que a revestiam, mas fontes oficiais registram que o nome foi inspirado no da propriedade de um amigo da família, um jurista renomado chamado Samuel Untermyer. Tal propriedade, situada no interior do estado de Nova York, que hoje se chama Untermyer Park.

Tudo estava ótimo com os Doheny, até que em 16 de fevereiro de 1929, apenas quatro meses depois de se mudarem para nova casa, Ned Doheny foi encontrado morto em seu quarto e junto com ele, também morto, seu secretário Hugh Plunkett (para os mais mórbidos, vai aqui a foto da cena do crime). Essa história de homicídio-suicídio deu pano pra manga e ainda levanta muitas suspeitas sobre motivos mais obscuros, mas a explicação oficial é que Hugh assassinou seu patrão durante uma crise nervosa ou então estava irritadíssimo por não ter recebido um aumento de salário. A arma do crime pertencia à vítima. Vai saber a verdade...

Um fato curioso é que Ned Doheny não foi enterrado em um cemitério católico junto com o resto de sua família, pois havia indicativos de que Ned poderia ter cometido suicídio após matar Hugh e a igreja católica se recusava a enterrar suicidas naquela época, pois suicídio é contra os princípios católicos. Mais curioso ainda é que Ned foi enterrado no mesmo cemitério que Hugh, seu provável assassino. Não sendo suficiente o mesmo cemitério, ambos estão bem pertinho um do outro. A foto abaixo foi tirada no Forest Lawn Memorial Park, em Glendale, onde descançam nossos personagens (uma bela cidade da região metropolitana de Los Angeles)

É só subir a ladeira...

Do contrario de que algumas fontes informam, a família de Ned permaneceu um bom tempo na mansão após sua morte. Sua esposa continuou morando na propriedade até 1955, sendo que em 1932 já havia se casado com o banqueiro Leigh M. Battson, que foi morar em Greystone. E foi em no ano de 1955 que Lucy vendeu a casa para um Industrial de Chicago chamado Henry Crown que nunca morou na propriedade, mas teve a ótima idéia de alugar a propriedade para os estúdios de cinema de Hollywood. Inclusive a família Crown vem sempre tendo ótimas idéias, hoje os herdeiros de Henry são donos de parte de times como o Chicago Bulls e o New York Yankies, de prédios como o Rockfeller Center de Nova York e de ações da Rede Hilton de hotéis.

Greystone quase foi demolida em 1963 para que Henry Crown pudesse subdividir e vender a propriedade (desta vez uma idéia não tão boa), e foi nessa hora que a Prefeitura de Beverly Hills entrou em negociações que duraram até 1965 quando, finalmente foi adquirida pelo município ao preço de U$ 1.300.000,00 (um milhão e trezentos mil dólares). Criou-se então um comitê para estudar os possíveis usos da propriedade. Esse comitê alugou a propriedade para o recém formado “American Film Institute”, por U$ 1,00 o ano (!), mas o instituto ficaria encarregado da reforma da propriedade – ora, na terra do capitalismo de verdade, tudo tem um preço que merece.

E foi assim que em 1971, a cidade de Beverly Hills finalmente dedicou Greystone como um parque municipal, que hoje é utilizado nas mais variadas atividades culturais, artísticas, cívicas e particulares. Você pode alugar um ou mais jardins para uma festa, pode alugar um ou todos os quartos para filmar cenas do seu longa ou curta-metragem, fotografar, lançar um livro, um jantar, casamentos, aniversários, enfim, Greystone é do povo de Beverly Hills e é também reconhecido oficialmente como um marco histórico norte americano pelo Departamento Nacional de Registro de Lugares Históricos. E convenhamos, é um belo dum lugar histórico, recomendo a visita.

Aqui vai a lista de alguns filmes rodados na propriedade de Greystone, tomadas internas ou externas. Muitos deles contribuíram para transformar essa mansão de Beverly Hills na mansão que ilustra o imaginário coletivo de muita gente: Jumping Jack Flash; Garfield 2; A Morte Lhe Cai Bem; Os Caça Fatasmas; Stigmata; As Bruxas de Eastwick; Homem-Aranha 1 e 3; Charlie’s Angels Potência Máxima; X-Men; A Hora do Rush; O Grande Lebowsky; Air Force One; O Guarda Costas; Do Que as Mulheres Gostam; Ricos Bonitos e Infiéis; Batman e Robin; Proposta Indecente; Linhas Cruzadas; As filhas de Marvin e milhare de outros que podem ser encontrados pela internet afora em sites especializados. Aqui tem a lista do site oficial, mas eu vi que foram muito mais.

Além dos filmes muitos ensaios fotográficos e clipes musicais foram gravados por lá, um exemplo é esse clipe lindão do Elton John, a música é uma maravila e se chama "I Want Love", está no ótimo álbum "Songs from the West Coast", de 2001. Clipe estrelado por Robert Downey Jr. A alguns anos atrás quando conheci esse vídeo, sempre quis saber onde ficava essa casa bonita. O déjà vu foi de arrepiar!

Olhem a foto que tirei do interior da casa.

Agora vejam o clipe !

Aqui vai uma foto, num outro ponto de vista, da mesma escada, também na época dos Doheny.

Incrível, não é? Como muita coisa que pode acontecer na ensolarada Califórnia. Agora deixo vocês com algumas fotos do belo lugar onde pude passar essa tarde ensolarada com minha amigona do coração e roomate Émelin. Devidamente registrada.

Um grande abraço a todos os amigos que ficaram por L.A. e os que estão pelo Brasil afora.

Visite o site oficial do parque: http://www.greystonemansion.org/

Foto Post do Greystone Park


Um belo jardim de entrada.

E mais um outro belo jardim, inspirado no romantismo.

É pra sentar e ler um livro, tomar um sol, pensar na vida...

Andar devagar...

Refletir mais um pouco, aproveitar a paisagem...

E pensar mais um tiquinho na vida e adjacências...

"Sonhos de uma Noite de Verão"

Mais uns detalhes internos da casa.

E o pensamente voa longe...

...no pátio central.

Uma Charmosa Chaminé.

O telhado de Ardósia.

Detalhe lateral.

Mais um jardim.

Fauna e flora.

Lobservando...

O jardin lateral e a bela presença de Nini.

Hey! será que esse é o Rei?

O salão de festas.

A humilde vizinhança e a vista para Beverly Hills e Los Angeles.


A frente da casa, que confronta aquela vista alí de cima.

Pois no fim, o todo é um conjunto de detalhes.

Do Motivo


O ser humano é feito para procriar. Produz por hobby.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Quintanando-me

Foto mais recente possível: 5 min atrás. Santa tecnologia!

Estou na onda do Mário Quintana e suas Quintanares, um dia explico. Andei pensando em formas de justificar minha ausência. Bom, o Quintana me salvou. Se ele fosse eu, diria apenas:

“Se a digestão alimentar dura algumas horas, por que a da vida duraria menos do que alguns meses?”

E é no estilo objetivo de Mário Quintana que me justifico. Vamos ao trabalho!


Quem sabe um dia...


Ps: Pra quem gosta do tema e de futebol (ou o oposto) aqui tem mais um.

Deixem o Gerson e os Palhaços em Paz!



O Senado é uma instituição milenar. Foi a evolução dos Conselhos de Anciãos, que já davam as caras no oriente por volta do ano 4.000 a.C. Inclusive o nome da instituição se origina daí, Senatus em latin, origina-se da palavra senex, que significa velho, idoso.

Era uma assembléia de notáveis, composta por representantes das mais altas castas romanas, pessoas bastante instruídas. Naquele tempo supunha-se que idade era indicador suficiente de maturidade e sabedoria. Quem sabe um dia foi assim mesmo.

A instituição do Senado passou por mais de um milênio de história, foi evoluindo e tomou várias formas, adotou várias posturas ideológicas e políticas diferentes, nada mais justo e corriqueiro do que a evolução de uma instituição.

O Senado Brasileiro nasceu após a Declaração da Independência, em 1822. Foi criado pela “Constituição Política do Império do Brasil”, outorgada em março de 1824 pelo Imperador D. Pedro I e definia o Brasil como monarquia centralista e hereditária. Criou-se também a Câmara dos Deputados, que juntamente com o Senado formavam a “Assembléia-Geral”, nada mais do que o ancestral do nosso “Congresso Nacional”, a famosa “Casa do Povo”.

Colocando aqui extrato fac simile da página do Senado Federal, na internet, que demonstra direitinho a beleza disso tudo: “Nasceu assim o Senado brasileiro, com raízes na tradição greco-romana, inspirado na Câmara dos Lordes da Grã-Bretanha e influenciado pela doutrina francesa de divisão e harmonia dos poderes do Estado e dos direitos dos cidadãos.”. Uma beleza.

Como dito logo acima, a inspiração dos brasileiros para o Senado veio da Câmara dos Lordes (House of Lords) da Inglaterra, que também usava o sistema bicameral e tinha como contrapeso aos Lordes a Câmara dos Comuns (House of Commons), que representava o povão. Diziam que possuir o titulo de "Augusto e Digníssimo Senhor Representante da Nação", era tão importante e charmoso que o próprio Imperador Pedro II dizia que se ele não fosse o Imperador, queria ser um Senador.

O tempo passou, o Império caiu, veio a República, a Ditadura, a Republica novamente e nesse período o Senado foi fechado, reaberto, foi biônico, populista, militar. Veio o Vargas, o Juscelino, Jânio Quadros e as forças ocultas, os militares todos, até o Lula conseguiu. Enfim, nada mais justo e corriqueiro do que a evolução de uma instituição, não é?

No caso do Brasil não. Infelizmente evoluir por aqui dá errado. Sabendo “porcimamente” do que é a instituição Senado e o que ela deveria representar para a Nação, vejamos a última dos nossos "Augustos e Digníssimos Senhores Representantes da Nação”:

O chefe da casa, o Excelentíssimo Senhor Presidente do Senado foi pego fazendo suas falcatruas utilizando-se da posição de chefe dos "Augustos e Digníssimos Senhores Representantes da Nação”. Ganhou muito presente, muita grana e tudo de bom e de errado que poderia conseguir em virtude do poder que possui.

Inquirido pelos retilíneos outros Senadores "Augustos e Digníssimos Senhores Representantes da Nação” sobre de onde havia saído tanto dinheiro, tanto boi, tanta mordomia, o Presidente do Senado justificou tudo com um bando de mentiras, só faltou dizer que “um dia acordei e estava tudo lá”. Então pediram pra ele provar o que havia dito.

Ora, provar uma mentira é infinitamente mais fácil do que comprovar a verdade. E foi simples assim. O Presidente do Senado, o chefe da casa, o exemplar máximo daquela espécie, apresentou documentos falsos, inventou mais lorotas e não arredou o pé da idéia do “sou inucente” (como ele mesmo diz). Quem já mentiu, nem que seja um pouquinho, sabe que o primeiro passo para que a mentira funcione é que o mentiroso acredite no que está falando. Parabéns para o grande ator.

Instaurou-se o caos, o escândalo estava em rede nacional. Sobrou pros nossos Digníssimos Senadores apurar se - dentre outras cositas - receber propina, ser favorecido em virtude do cargo público que ocupa, falsificar documentos, chantagear e ameaçar Senadores, mentir descaradamente ao Senado e ao povo Brasileiro é quebra de decoro parlamentar. Ninguém falou em julgar o Magnânimo Presidente do Senado pelos crimes, só estávamos apurando se o que ele fez era ético ou não.

Incrivelmente os sábios, esclarecidos e altamente éticos "Augustos e Digníssimos Senhores Representantes da Nação” concluíram que estava tudo bem. O que o chefe havia feito estava dentro dos parâmetros éticos do Senado, que não houve a quebra do decoro parlamentar. Mas é claro, vivemos num período de inversão dos valores, roubar, matar, acochar a vó no tanque e atear fogo na barraquinha de cachorro quente da esquina é perfeitamente aceitável. Os valores morais estão invertidos mesmo. Cuidar da infra-estrutura? Educação? Exemplo de honestidade? Pra que? Talvez isso sim seja anti-ético.

Um bando de covardes, isso sim. Com uma ficha criminal de alguns metros, indo de homicídio a multas de trânsito, ficaram presos aos próprios pecados, todos temendo serem puxados para o buraco junto com aquele que eles mesmos empurrariam. Pois é, não empurraram.

Bom para o Senado é bom para o povo. Agora sabemos que “tá tudo liberado”. Temos uma infinidade de crimes e contravenções penais para nos divertirmos, dá pra fazer algo diferente a cada dia sem se repetir por alguns meses. Se no Senado, lugar dos sábios exemplares pode, quem dirá aqui no mundo do Zé Povão. Isso me lembra o novamente ressuscitado Gerson, símbolo equivocado da malandragem nacional.

“Então você também gosta de levar vantagem em tudo, certo?” Diria Gerson de Oliveira Nunes, o Canhotinha de Ouro, campeão mundial de futebol pela Seleção Brasileira em 1970. A fatídica frase foi dita por ele num comercial para os Cigarros Vila Rica, melhores e mais baratos que os outros. Pois é, os cigarros não existem mais, mas a “Lei de Gerson” imortalizou-se. Coitado do Gerson, teve seu nome vinculado diretamente ao “jeitinho brasileiro”, à malandragem e à corrupção, e nem foi ele que inventou a bendita frase. Será que ela veio da “cachola dois” do Duda Mendonça, publicitário e canastrão de plantão? Não, não existem tantas coincidências felizes assim. O inventor do slogan foi um tal de Jacques Lewkowicz, hoje sócio da agência de publicidade LewLara.

No fim das contas sempre coroamos a malandragem. Dia-a-dia somos nós do povo que enterramos a ética e malandramente passamos os mais desavisados pra trás, mas desta fez as instituições políticas nos superaram. Percebeu que a culpa por isso tudo bate marota em nossas portas? O que nos resta então? Diria o coletivo: “Vamos nos vestir de palhaços e sair nas ruas”, como muitos já fizeram por essas semanas. Não entendo o que o palhaço tem a ver com a história. Eles são profissionais do riso, nos divertem nesse mundo amargo, nos fazem sorrir e gargalhar. São seres tão respeitáveis quanto o respeitável público.

Definitivamente não devemos, e muito menos precisamos nos vestir de palhaços, eles são baluartes da felicidade e já são tão injustiçados pela vida de arte que levam. Enfim, se você ainda não percebeu, o Senado acabou de incluir mais um sinônimo no verbete "idiota" dos dicionários: a palavra “brasileiro”.

Agora, voltando à questão filosófico-existencial que nos abala o espírito: O que nos resta? Ora, nos resta nos vestirmos de brasileiros. Isso sim dá uma vergonha danada.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

O Futebol


Vários indivíduos correndo atrás de algo que, ao ser alcançado, é chutado para longe.

Definitivamente o futebol é a melhor metáfora para que se pode encontrar para o Brasil. Talvez isso explique essa paixão alucinada que os compatriotas têm pelo esporte bretão.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

"...from Los Angeles, California...The Doors!!!"


Vir a Los Angeles e não mencionar The Doors, no meu caso, é missão impossível. Essa banda é trilha sonora da minha vida desde os 13 anos de idade até hoje, com uma enorme importância nos seis primeiros anos desse período. Quando completei 19 anos de idade, meu leque musical se abriu tanto que ficou impossível eleger a música do momento desde então.

A mística da banda me afetou a alma. O interesse por poesia e pelo sentido maior das coisas, escondido em seus detalhes, surgiu daí. O reconhecimento de que em tudo existe um lado negro que merece se conhecido e testado, a mensagem de rebeldia pacífica e irromper para o outro lado até hoje fazem parte do meu espírito. Hoje moro na cidade deles, visito seus lugares e santuários, vejo o que os inspirou. Agora, a cada novo lugar, a cada nova paisagem de Los Angeles, sua música faz mais sentido.

A banda nasceu nas areias de Venice Beach, uma praia maravilhosa aqui em Los Angeles, de um encontro ao acaso, entre Ray Manzarek e Jim Morrison, que já se conheciam da faculdade de cinema da UCLA (University of Califoria Los Angeles), onde haviam se graduado. Na ocasião Morrison comentou com Ray que vinha escrevendo canções e poesias. Ao ouvir a criação do amigo, Ray instantaneamente o convidou para entrar em sua banda Rick and The Ravens.

Tempos depois, trocando os outros integrantes (irmãos de Manzarek) por John Desmore na bateria e Robbie Krieger na guitarra a banda se rebatizou de "The Doors" - pra quem não sabe inglês: "As Portas". Esse nome foi retirado do título do livro "As Portas da Percepção" de Aldous Huxley (que já morou e morreu em Los Angeles), que por sua vez foi inspirado em um verso do texto "O Casamento do Céu e do Inferno" de Willian Blake, um poeta do séc. XVIII, onde se lê: "Se as portas da percepção forem abertas, os homens verão as coisas como realmente são: Infinitas".

Com essa base filosófica complexa, de base beatnik e ideal libertário - tanto no plano sensitivo quanto no político e moral - os Doors criavam seu estilo, uma mistura de Jazz, Blues, Rock and Roll, Música Clássica e Poesia.

A carreira da banda foi bastante turbulenta, Jim Morrison, o vocalista, estava cada vez mais imprevisível no palco e fora dele, bebendo excessivamente e tomando atitudes extremas, muitas vezes chocando o público e os membros da banda. Tudo isso apenas aumentou a mística de rebelde e obscura que a banda já tinha por causa de sua música.

Depois do lançamento de seu primeiro disco, chamado apenas "The Doors", em 1996, a banda consolidou-se como uma das mais controvertidas e revolucionárias do rock naquela época, juntando-se a grupos como Jefferson Airplane, Gratefull Dead e outras da cena roqueira Los Angeles - San Francisco nos anos 60, o berço do movimento Hippie norte-americano, participando ativamente desse período que ficou conhecido como o "Summer of Love". Durante sua curta existência de 5 anos, entre 1965 e 1970, a banda viajou pela América do Norte, Europa e México.


Em 5 anos, os Doors lançaram seis álbuns: The Doors (1966); Strange Days (1967); Waiting for the Sun (1968); Morrison Hotel (1970); L.A. Woman (1971).

A banda se dissolveu no final de 1970, após gravarem o album L.A. Woman, lançado no início de 1971. Morrison mudou-se para Paris, França, em março do mesmo ano, para tentar se reestabelecer como um poeta, o que era seu desejo desde o princípio. Infelizmente, no dia 3 de julho daquele mesmo ano ele foi encontrado morto por sua namorada Pamela, na banheira de seu apartamento, no terceiro andar da Rue Beautreillis No. 17. Apesar de não ter havido autópsia, dizem os registros da polícia francesa que a causa mortis foi ataque cardíaco. Morrison tinha apenas 27 anos de idade, entrou para o roll dos jovens roqueiros mortos aos 27, junto com Janis Joplin, Jimi Hendrix e outros.

Após a morte de Morrison, os rapazes do Doors ainda lançaram dois discos entre 1971 e 1972: Other Voices e Full Circle, nos quais Robbie e Ray revezavam os vocais, mas o mito de Jim Morrison não deixou que estes álbuns fossem bem aceitos. Em 1978 a banda lança o que seria seu último trabalho com Jim Morrison, chamado de "American Prayer". Esse álbum é uma compilação de poesias recitadas por Morrison que a banda musicou após sua morte, um trabalho muito interessante pra quem gosta de poesia.

Desde então os membros da banda e de sua gravadora a Elektra Records vêm relançando material remasterizado e muita coisa inédita da banda. Vou contar um detalhe interessante sobre a música Glória, que aparece no álbum Alive She Cried, lançado em 1983, uma compilação de músicas ao vivo, gravadas em vários shows da banda: Essa música foi composta pela banda norte-irlandesa "Them", cujo vocalista e compositor se chamava Van Morrison. Os Doors e Van Morrison se apresentaram muitas vezes juntos, o que resultou na amizade que levou os meninos a tocarem e gravarem essa versão.

Os outros membros da banda continuam na ativa. Ray Manzarek é produtor musical, cineasta e escritor. Em 1998 publicou sua biografia chamada: Light My Fire - My Life With The Doors e está sempre envolvido com novas produções ou cuidando dos relançamentos de material do Doors.

Robby Krieger, o guitarrista e compositor de alguns dos maiores hits da banda como Light My Fire, Love me Two Times, Touch Me e outros mais, durante os anos 70 e 80, gravou alguns discos com sua "Robby Krieger Band". Hoje em dia participa, vez ou outra, de álbuns de artistas locais de Los Angeles. Junto com Manzarek, Robby continua a difundir a música do Doors, eles têm o projeto "Riders on The Storm", no qual revezam baterista e vocalista. Nesse projeto já estiveram figuras como Ian Astbury do The Cult nos vocais e Stewart Copeland do The Police na bateria.

John Desmore, o baterista, sempre interessado no Jazz, também tem seu livro sobre o período no qual tocava no Doors: Riders On The Storm - My life with Jim Morrison, que inclusive estou lendo. Um ótimo livro. Como todo baterista de Jazz, esteve sempre envolvido em jam sessions e participou em inúmeros álbuns de muitos músicos. Atualmente é professor no Santa Monica City College, um colégio municipal profissionalizante da cidade de Santa Monica, na região de Los Angeles. Em 2006 lançou seu primeiro trabalho de música própria, o "Tribaljazz", uma mistura de jazz americano com percusão africana.

Agora que já falei quem foram esses caras, vou poder mostrar pra vocês todos os "hot-spots" deles que visitei aqui em Los Angeles. Mas isso fica para o próximo post. Obrigado pela paciência...divirtam-se, pois agora tem um monte de informação pra ser digerida.

Aquele abraço.