sexta-feira, 11 de março de 2016

Por dias melhores


— Um bom dia.

Mal terminou a frase e foi metralhado. Ouviu sobre a vida difícil; o mundo medonho; os podres poderes; os direitos humanos; sobre a vida; sobre a morte e, por fim, sobre a insensibilidade de, em meio a tanto terror, alguém ter o desplante de desejar um bom dia.

Sorrindo, respondeu que eram por esses mesmos motivos os desejos de que, pelo menos hoje, o dia fosse bom.

— Um bom dia.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Ketèlbey : Bells Across the Meadows




Albert William Ketèlbey me lembra a infância. Meu pai sempre ouvia aquele LP de capa exótica, com um mercador oferecendo flores a um monge, enquanto estudava, à noite, após um dia de trabalho. Inclusive, dias desses me surpreendi fazendo o mesmo: estudando e ouvindo Ketèlbey, um grande flashback. E foi assim, ainda pequeno, através do meu pai, que ouvi pela primeira vez sobre como um compositor pode descrever uma cena, um cenário, através de uma música.

Com o Ketèlbey foi fácil de entender, ele é muito bom em cenas musicais. Tão bom ele era, que foi o primeiro músico britânico a ficar milionário através da música, principalmente através desses pequenos temas chamados de "light orchestral music", nos quais ele era especialista. O tema musical "Bells Across the Meadows" (pra ouvir aí embaixo) foi eleito pelos ingleses, em 2003, como a 36ª música mais memorável de todos os tempos.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Em caso de incêndio



"When your heart is on fire, you must realise, smoke gets in your eyes." - HARBACH, Otto.


Smoke Gets In Your Eyes é o nome de uma bela canção do The Platters, antigo grupo vocal norte-americano, cuja letra ensina a perceber se é amor ou é cilada dizendo que "quando nossos corações estão em chamas, preste atenção, a fumaça chega aos olhos". Parte da trilha sonora do filme Além da Eternidade (Always, 1989), ela é o tema de amor do casal protagonista, dois brigadistas aéreos da equipe anti-incêndio que toma conta de uma floresta. Peculiar, não é?

É claro que, como uma boa equipe anti-incêndios, a qualquer sinal de fumaça – não nos olhos, mas na floresta –, eles arriscam a vida e, com muita coragem e aventura, conseguem apagar os incêndios. Nada mais lógico pra quem foi exaustivamente treinado pra isso. Pra nós, que nunca quisemos ser Bombeiros, combater incêndios e salvar vidas, é uma luta bastante distante. 

Então vamos trazer isso mais pra perto. O que fazer no caso de um incêndio em nossa casa, local de trabalho, ou lugar no qual estivéssemos? Seguir as regras do protocolo anti-incêndio! Se for de grandes proporções, chamaríamos os Bombeiros e nos manteríamos em segurança; em casos de pequenas chamas é possível ajudar no pré-combate usando extintores de incêndio ou, pelo menos, retirando de perto do fogo objetos e seres vivos que nos são preciosos e que possam alimentar o incêndio, até que o socorro capacitado chegue. Agora, a missão já fica mais próxima de nós, não é mesmo?

Então, ouça o alarme. Olhe ao lado e veja por si mesmo: discussões inflamadas, relações faiscantes, cabeças quentes... e a fogueira das vaidades flamejante como nunca; milhares de homens e mulheres bomba, dizendo "que se exploda". Há um grande incêndio no mundo, nossos corações estão em chamas há fumaça nos olhos mas, infelizmente, não é pelo amor, como diz a canção dos Platters.

Queimar o filme dos desafetos, jogar o outro na fogueira, são expressões e atitudes ainda muito comuns entre nós, lembrando um costume do Sec. XVII quando, sem muitas opções de entretenimentos, as famílias – notem bem : fa-mí-li-as – amarravam um gato dentro de um saco e o jogavam na fogueira pra se divertirem vendo-o queimar e grunhir de dor. Pelo menos, com os gatos, fazemos cada vez menos desse tipo de coisa.

Ora, se o mundo está em chamas, que tal seguirmos as instruções de "em caso de incêndio", ajudando para que o estrago seja o menor possível? Estar atento para apagar incêndios nos amigos; vizinhos; família e em nós mesmos pode não ser nossa profissão, mas é um dever. Não há solução mais lógica e responsável pra quem está cercado por fogo de todos os lados que não seja esforçar-se para apagá-lo. Muitos, ainda hipnotizados pelas chamas, agindo como agíamos nas cavernas, irão repreender e atrapalhar para preservar o espetáculo.

Ignorar as chamas só aumenta o risco de nos queimarmos. Ao menos, chamemos os Bombeiros! E trabalhemos para a que fumaça em nossos olhos volte a ser apenas indício de amor, como diz aquela velha canção.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Leoncavallo : Pagliacci, Intermezzo

O intermezzo da Ópera "Pagliacci" de Ruggero Leoncavallo (minha ópera favorita, inclusive) é, sem dúvidas, umas das peças musicais mais belas que já ouvi. Ele é tocado no intervalo (intermezzo, em português) do primeiro para o segundo ato da ópera e consegue, ao mesmo tempo que emociona pela música, captar e sintetizar tudo o que aconteceu e sugerir o que acontecerá nas próximas cenas da trágica história do Palhaço que, mesmo com o coração partido pela Colombina, deve subir no palco e fazer o público rir. Mas, Leoncavallo alerta: o perdão não é tão fácil assim; e o orgulho, esse veneno que destilamos todos os dias, pode nos transformar em monstros ferozes. Cuidado!





Pra quem não conhece e quiser assistir à ópera inteira, tem essa versão dirigida pelo Franco Zeffirelli, com Placido Domingo e Teresa Stratas. A regência da orquestra é do Georges Petre que, inclusive, conquistou meu coração nessa super emotiva regência do já comentado Intermezzo:




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Aos sempre jovens poetas



Nos tempos da Faculdade, uma amiga, sabendo da minha inclinação à poesia, me emprestou o livro "Cartas a um Jovem Poeta". Uma compilação da pequena, mas bela correspondência entre o poeta tcheco Rainer Maria Rilke e o jovem austríaco Franz Kappus. Trocada vagarosamente entre 1903 e 1908, talvez seja uma das melhores coletâneas de conselhos a um jovem – ou a qualquer um com dúvidas e angústias, que dá no mesmo – que eu já tive notícias. Desnecessário dizer a gratidão que tenho a essa amiga e o quanto essa leitura me marcou e inspirou na poesia e na vida.

O jovem Kappus, aluno de um colégio militar, tinha dúvidas sobre se deveria seguir o seu coração e abraçar a carreira de poeta, que tanto lhe realizava a alma, ou se deveria seguir a militar, que lhe daria segurança financeira e agradaria a sua família – ora, a dúvida que nos une a todos! –. Ao saber que Rilke, o famoso poeta, também havia estudado no mesmo colégio, resolveu escrever-lhe uma carta na qual abria seu coração e perguntava se seus versos eram bons o suficiente para seguir o seu intento poético.

O poeta, mais experiente, entre rápidas digressões acerca do processo da escrita, da poética e dos versos de Kappus – que aparecem hora ou outra pelas cartas –, prefere aconselhá-lo para a vida, talvez a única forma de ajudá-lo de verdade, pois a vida não deve ser nada mais do que nossa melhor poesia. E, assim como na vida, o trabalho na poesia exige fé e análise constante de si mesmo, o poeta se destrói e se reconstrói dia a dia. É uma atividade que acontece pela necessidade de nascer do verso, e não o contrário. Por isso, deve o poeta, antes de tudo, estar em conexão consigo, com o que borbulha dentro de si, e ter forças para trazer isso à luz da melhor maneira. É o esforço hercúleo e inevitável de dar vida, da gestação e parto, tão comum e sagrado na natureza.

E não apenas se conhecer intimamente, mas ligar-se à natureza, inteirar-se do ritmo do mundo e saber deixar tudo amadurecer antes de colher. Ter paciência, viver plenamente o agora, como vivem todas as coisas no universo, entender as limitações inerentes ao humano na magnitude do infinito, perceber seu lugar e função no jogo. Isso acalenta a alma e afasta a angústia da criatividade e do próprio viver, pois “as coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível", senti-los pode ser mais importante do que entendê-los.

Por isso devemos amar as nossas dúvidas, vivê-las agora e sem medo, pois, talvez passemos, "gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas". Entender que "quase tudo que é sério é difícil, e tudo é sério", sem sentir medo, mas, pelo contrário, fazer disso um convite à introspecção e fortalecimento, pois, “talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo terror não passe, em última instância, do desamparo que requer nossa ajuda.”

Viver uma vida sincera em essência e meditativa pode nos fazer sentir solitários, distintos do mundo, mas, longe de nos desestimular, a dificuldade de encarar-se só deve nos impulsionar. Ser solitário é bom, "pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la".

Enfim, como já sugere Kappus, no prefácio do livro, o tom dessa correspondência ecoa tão universal que é impossível não a tomarmos como nossa. Nós, tão distintos e, ao mesmo tempo, tão semelhantes... E a cada leitura deste livro, nos tornarmos mais preparados para soltarmos as rédeas do mundo e segurarmos firmes as nossas, e entender a simplicidade funda destas últimas aspas de Rilke que vos trago:"De resto, deixe a vida acontecer. Acredite em mim: a vida tem razão, em todos os casos."