sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Amor de pai


Ao voltar pra casa, de ônibus, sentei-me ao lado de um senhor que estava ao telefone. Tão próximos que foi impossível não ouvir a conversa que ele estava tendo com alguém que, pelo contexto deveria ser a sua filha.

- Olha, tá muito difícil pra mim. Tá muito pesado. Não estou conseguindo bancar essas compras que vocês me pedem. As coisa estão caras no mercado. Acho que a gente precisa rever essa lista. Eu sei... eu sei que vocês precisam comer, mas, poxa, certeza que vocês estão comendo melhor do que eu! Eu estou comprando, pra vocês, coisas que eu nem tenho na minha casa. Sabe, eu quero dar do bom e do melhor pra vocês, mas tá ficando difícil. As coisas estão difíceis, o dinheiro tá curto. Acho que vocês tinham que economizar um pouco mais, fazer render melhor o que vocês tem aí. Você tá me entendendo? Não precisa comer essa carne toda, todo dia. É, eu sei... claro... eu sei, vocês estão se esforçando também, eu sei. Mas, você me entende? Tem que reforçar isso aí, tá? Evitar desperdício, essas coisas. Sim, tudo bem. Tô, eu tô bem, só preocupado com isso aí, não tá fácil, né? Hum... e ele tá bem? Tá faltando alguma coisa? Uhum... leite em pó. Tá. Tá bom, eu levo o leite em pó. Tá, vou ver o que eu faço, eu dou um jeito, eu levo o leite em pó.

Cheguei ao meu ponto, desci. E levei comigo um nó na garganta.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Soneto ao amor ausente


Deito-me na tua ausência da minha cama
Transito na tua ausência da minha casa
Vivo nu sem tua pele, que eu vestia
Toda manhã, na presença consumada

Se teus olhos são ausentes, vejo nada!
E anoiteço, sem estrelas, toda noite
O silêncio das canções se faz açoite
Pois é ausente a tua boca enamorada...

É tamanha ausência tua na cidade
Que ela mesma clama, à mim, tua presença!
E, abraçados, nos consola o fim de tarde:

"Em verdade, nada nunca está ausente
Sempre fica um pouco da gente nas coisas
Sempre fica um pouco das coisas na gente"


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Um próximo passo e ainda no mesmo lugar

Hoje, damos o adeus, de certa forma doloroso, mas necessário que damos à Dilma Rousseff que, acorrentada à um presidencialismo de coalizão, uma horripilante invenção brasileira, e a um partido político desestruturado, não governava mais. E não governaria, independente dos esforços que fizesse, tendo em vista o ninho de víboras ancestral do qual estava cercada e que, juntamente com todos nós, também ajudou a alimentar. Infelizmente, mas de forma que se construiu inevitável, são tais víboras que voltam ao poder.

É pressuposto que um presidente consiga governar, assim como é pressuposto para um romance, que se consiga amar e, mesmo com as maiores dificuldades e desafios, os interessados no sucesso da empreitada, se esforcem para o seu sucesso. Infelizmente, não me lembro de ter visto isso em nenhum momento na história de qualquer governo brasileiro. O jogo sempre foi conquistar mais para si, em detrimento do outro, seja este o povo ou a coligação "inimiga". E não há relacionamento duradouro quando uma das partes quer levar a vantagem.

As máscaras caem, inevitavelmente, e todas elas cairão. E com elas, as expectativas criadas, os projetos articulados, o futuro que estava em construção vai por terra. É por isso que se termina, é por isso que qualquer fim dói.

Dilma não foi a primeira e não será a última, é tradição nacional trocar de Chefe de Estado de forma inconsequente e irresponsável, para assistir interesses particulares. Desde a nomeação de Dom Pedro II, um jovem de 14 anos de idade como Imperador do Brasil isso vem se repetindo através de golpes e complôs.

Mas é possível acabar com essa dança das cadeiras desgovernada. Começando agora, que o debate político está em todas as casas, pode demorar algumas décadas, mas é possível retomar as nossas responsabilidades, as rédeas das nossas instituições e restaurar a sua legitimidade e sua conexão com a vontade popular, o que hoje, definitivamente não existe.

Por agora, não tenhamos medo, o futuro próximo não será nenhum pouco diferente do que sempre vivemos, afinal são os mesmos governantes, nada mudou. O tempo provou que a "chance de mudança" oferecida era falsa. Sejamos mais atentos da próxima vez. Aproveitemos a chance de amadurecer politicamente que estamos tendo, aproveitemos para aguçar o nosso faro, o nosso tato. Assim como acontece em todo fim de relacionamento, nos coloquemos sob análise sincera e façamos o mea culpa.

Definitivamente, não é tempo de choro, não é tempo de desespero, é tempo de darmos o próximo passo, um passo mais seguro, mesmo que um tanto doloroso, do que todos os passos que já demos até hoje.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O Próximo Passo

Agora eu preciso que você vá
Caminhe segura e distante
Me deixe vazio, mas só
Temos muita vida adiante


Dói deixar partir
Transformar tesouro em passado
Mas precisamos novamente sorrir
E não o faremos lado a lado


Umuarama, Paraná, 1997