sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Genealogia de Superação

Dizem que Nicolò Paganini (1782 - 1840) foi o maior virtuose do violino que já existiu. Possuía uma técnica e criatividade que jamais foi igualada por alguém. Também era muito feio, mas tinha uma boa visão de negócio. Ficou muito rico aproveitando-se de sua aparência soturna, cabelos longos, nariz pontudo, muito magro, usava sempre roupas escuras, fazia suas apresentações com pouca luz e teatralmente sombrias. As peças que executava, escritas por ele mesmo, desafiavam a técnica, necessitavam de movimentos de arco e de dedos jamais imaginados até então. Dentre essas peças, está o conjunto de "24 Caprichos" que são interessantíssimos, mas não muito fáceis de se ouvir.

Por todo o frisson que causou em sua época, Nicolò Paganini influenciou muitos outros músicos, seus contemporâneos de Romantismo, como Schubert, Chopin, Schumann e Liszt, que trouxeram para o piano – e para o pesadelo de quem estuda piano – aquele virtuosismo fenomenal que viam em Paganini, que era tanto que chegou a espalhar-se a lenda de que ele tocava daquele jeito por ter feito pacto com o diabo ou, ainda, de ser o filho do próprio tinhoso. 

Com todos esses predicados, se vivesse hoje em dia ele seria um desses guitarristas "fritadores" do Metal, que fazem muitas notas por segundo e, também, muitas caretas. Inclusive, há relatos de que Paganini conseguia executar, ao violino, a fantástica quantia de doze notas por segundo. É, talvez ele seja o "fritador" original.

Mas antes passar a "fritadeira" para gente mais moderna como Malmsteen ou Satriani, Paganini tocou os ouvidos e o coração de um outro cara: Sergei Rachmaninoff (1873 - 1943) que resolveu fazer uma Rapsódia com 24 variações sobre o "Capricho n. 24 em Lá menor" de Paganini, o Capricho mais famoso. É de uma dessas variações que quero falar.

Esse é o Capricho n. 24 :



A Rapsódia de Rachmaninoff, completa, deve durar entre 20 e 25 minutos e é considerada uma peça de dificílima execução, mantendo assim o nível Paganini de esmero técnico. E entre imensos exercícios de criatividade, inversões melódicas, rearranjos e contorcionismos musicais, surge o que, talvez, seja uma das músicas mais bonitas que já ouvi na vida: a "Variação n. 18 Andante cantabile em Ré bemol maior". É impressionante a metamorfose daquele tema tão espertalhão do Paganini em algo tão delicado, que beira o sublime.

Ouça:

Conheci a Variação n. 18 na trilha sonora do filme "Em Algum Lugar No Passado", um filme que gosto muito, e já falei dele por aqui. Penso o quanto não gostaria de estar na pele do John Barry, responsável pelo resto da trilha, que deve ter suado muito pra a música tema à altura dessa beleza de Rachmaninoff. John, você está de parabéns, pois ouvir o "Tema de Em Algum Lugar no Passado" é de um prazer indescritível.

Sinta:

Mas, por que toda essa história? Primeiro, para espalhar boas músicas, que deixam os humores mais relaxados. Precisamos muito. Segundo, para deixar a reflexão sobre coragem, criatividade e determinação; e de como tudo, por melhor que pareça, pode ser sempre melhorado ainda mais. Fiquemos atentos ao cotidiano e não percamos as chances de trabalho.


domingo, 29 de janeiro de 2017

Do bem e do mal


O bem é o progresso e a felicidade, a segurança e a justiça para todos os nossos semelhantes e para todas as criaturas de nossa estrada. O mal é o progresso e a felicidade, a segurança e a justiça só pra mim.

Adaptado da fala de Sanzio
no livro Ação e Reação, Capítulo 07, de André Luiz, psicografado por Chico Xavier


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Somos o que vivemos, seremos o que deixarmos

"A vida de cada um é a sua própria confissão pública. A conduta de cada crente é a sua verdadeira profissão de fé." - Emmanuel, no livro Vinha de Luz, psicografado por Chico Xavier.


Há uma semana faleceu minha avó. Enquanto a olhava no esquife, durante o velório, me veio uma frase que ouvi numa palestra do Leandro Karnal, que disse, não exatamente nessas palavras, algo como "é com a morte que a vida passa a fazer sentido". Na ideia de que só se consegue entender o arco dramático de uma vida com o final dela, pois, enquanto o final não chega, reviravoltas podem acontecer e mudar toda a história. É como numa peça de teatro, filme ou romance, só se consegue dizer sobre o que realmente trata a história, quem a conhece até o final.

Então, me coloquei no final da história de minha avó, olhando para o passado, para o começo, tentando montar o seu arco dramático e colher o enredo dos quase 97 anos daquela história.

Nasceu em berço humilde e durante a infância, como muitos filhos de imigrantes italianos, passou por muitas cidades por causa do trabalho do pai, que ajudava na construção da estrada de ferro pelo norte pioneiro do Paraná. Na vida adulta, escolheu como profissão acolher e alimentar as pessoas e, junto com o meu avô, cozinheiro, teve hotel e restaurante. Mas não era apenas com quartos e panelas que executava o trabalho que amava. Acolhia os aflitos com boa vontade e caridade, e também  acolhia e alimentava suas almas com boas palavras e bons exemplos.

Além dos filhos biológicos, tinha filhos adotivos e de criação. Dividia o pão que tinha, sendo ele muito ou pouco. E nunca faltava, porque ela sabia que a caridade, mesmo dividindo, sempre multiplica. Pagava escola pra quem precisasse, não queria criança sem estudo; ajudava na manutenção de vários lares. Trabalhou além do que seu corpo conseguia, ganhou dois joelhos de titânio e continuou trabalhando. Os joelhos de titânio não aguentaram, mas ela continuava na lida. Enviuvou, foram 20 anos de saudades, mas sem esmorecer. Já com mais de 90 anos, seu corpo não aguentou e foi a uma cadeira de rodas, mas com a cabeça sadia e atenta. Leituras diárias, conversas, conselhos e atitudes amorosas constantes. Confirmava sempre se todos os que ela ajudava continuavam bem e felizes. 

Sei que a vida de ninguém é fácil. Todos passamos por grandes problemas, provações e dilemas. Ninguém é perfeito e todos, inclusive a minha avó, erram, e muito. A diferença está em como passamos por isso, e é com isso que vai se construindo o sentido de nossas vidas, que se completará com a morte. Católica ferrenha, minha avó mostrou-se verdadeiramente cristã, pois é disso que se tratava a sua história: de como ser verdadeiramente cristã, ser forte no que acreditava. Ela quis provar ser possível. Provou. Teve, na sua vida, o mesmo enredo do Cristo: de uma infância humilde, uma vida de muito trabalho, sempre pautada na honestidade, no amor e na caridade e, no final, também teve o seu calvário. Foi um final sofrido, mas sofrido com resignação e fé, como o do Cristo. E, por isso pode despedir-se, também, em paz.

Foi-se a vida, ficou a lição. Obrigado, Vó Ida. E, sim, estamos todos bem e felizes. E continuaremos.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Carta a mim mesmo

Admiro a imensa cidade e toda a vida que, mesmo agora, na alta madrugada, pulsa em tantas janelas acessas, pelas infinitas ruas, até onde meus olhos podem alcançar. E, apesar dos muitos anos comungando dessa vida na alta noite, hoje, eu sou um estranho por aqui. Mas a insônia, que tem sido tão rara que nem sei mais como me comportar nessas horas, me traz aqui à mesa de trabalho. Aproveito-a, então, para escrever-te.

É verdade e notório que os tempos andam difíceis, mas tens te saído bem, não te esqueças disso. Aliás, nunca te esqueças disso. Manter o foco nos bons trabalhos enquanto o mundo desaba ao teu redor não é nada simples. Não é fácil caminhar no chão lodoso e inconstante. Mas, lembra-te, antes nem se movias; passaste a rastejar. Hoje, que caminhas, continua! Logo pisarás em terra firme e, quem sabe, mais adiante, voarás.

Para os problemas pequenos, simples, é provável que a solução esteja perto, logo ao teu alcance. Mas, para os problemas maiores, complexos, não percas tempo procurando a solução ao teu redor. Pois, para resolver questões maiores é preciso, primeiro, tornar-te maior ainda. E não sou eu quem digo. Várias das grandes mentes da humanidade diziam – não nessas palavras, é claro – que a solução para os problemas só poderiam ser encontradas no universo além do universo do próprio problema. Por isso é preciso estar sempre expandindo o próprio universo, para poder ser sempre maior do que qualquer problema te apareça e, desta forma, vencê-los com o mínimo de sofrimento.

Sim, ainda há muito a ser feito. Pelo mundo? Não. Por ti mesmo. Lembre-se que todo coletivo é um conjunto de indivíduos. E o mundo é um coletivo de indivíduos bastante distintos uns dos outros. Por isso, por maior que sejam os esforços que faças, jamais mudarás, pelo seu esforço, um centímetro do caminho de outrem. A única esfera na qual tens autoridade e força real de mudança é na tua própria esfera íntima e os únicos resultados que colherás serão em ti mesmo. Portanto, não te desgastes pelo mundo que não responde aos teus comandos, pois ele, com seu peso imenso, apenas servirá para te deixar exausto.

A responsabilidade é coletiva, mas o esforço é individual. A força que tens, usa em ti e faça com que teu exemplo inspire o próximo, que também fará por si, e assim por diante. Assim, cansa menos. Permita-te errar e, sempre humilde, repara o erro. Perdoa e deixa-te perdoar. Ama, ama muito, ama todos, ama tudo, ama sempre. Persista. Continue. Não pare. Por tudo. Por ti.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Foi o que me disse o Rio Grande

Passei o fim de ano num pesqueiro às margens paulistas do Rio Grande. Do outro lado da ponte, em terras Sul Matogrossenses, a mitológica cidade de Aparecida do Taboado, que pude visitar rapidamente, porém, sem encontrar qualquer morena, ainda mais alguma que me deixasse 60 dias apaixonado, como na canção de Constantino Mendes e Darcy Rossi. Mas o que eu nunca mais vou esquecer são as lições que a natureza de lá me deu. Essa, por exemplo:

Com a construção da represa de Ilha Solteira, no meu querido Rio Paraná, que se forma há poucos quilômetros de onde eu estava, onde o Rio Grande e o Rio Paranaíba se encontram, formou-se um grande alagado, deixando submersa grande área que antes era floresta. E os resquícios dessa mata podem ser vistos através dos vários galhos das árvores submersas que surgem do meio das águas, algo natural em rios e lagoas de represas.

Mas o espanto veio ao perceber que, mesmo com a maior parte da árvore submersa, vários desses galhos estavam floridos na pequena porção deles que estava fora da água. Com folhas e flores.

Sabe-se lá quantos metros de água turva, fria, separam as raízes dessa árvore das primeiras réstias de sol que ela alcança acima do espelho d’água; quantos golpes e fortes correntes enfrentam o seu tronco submerso. É, mesmo assim, ela resiste, não se faz de rogada e faz o que deve ser feito, a coisa mais bonita que pode, sua razão de ser: ao ser tocada pela luz do sol, florescer.

Que lição de resiliência recebi da natureza! Uma árvore, que não pode se mover e nem raciocinar para contornar os desafios, se mantém firme e não perde a chance de executar os planos para os quais foi feita. Lição que sempre me lembrarei, emoldurada pelo fim da tarde e a brisa úmida do Rio Grande eo barulho das ondas atingindo o casco do barco: não importam os obstáculos, é preciso fazer o que nascemos pra fazer. E não tenho dúvidas de que tudo nasceu para, lindamente, florescer.