terça-feira, 14 de abril de 2015

'Cause we always have a story

Domingo, dia 12 de Abril, assisti à premiere brasileira do documentário "What Happened, Miss Simone?", biográfico de Nina Simone, grande pianista, vocalista e compositora do Jazz e do Soul, um mito da música contemporânea, além de influente ativista dos Direitos Civís nos EUA. Extremamente emocionante, o documentário me ajudou a entender de onde vinha tanta força e complexidade nas músicas de Nina, que não estava ali só fazendo um número. Ela insistia em agir e dizer o que sentia, e toda essa vontade de se fazer entender ressoava com sua música, inclusive, em uma entrevista ela disse querer que o público saísse aos pedaços de suas apresentações, feridas, emocionadas. E é o que ela faz.

Aí entendi o motivo de haver dias impossíveis de ouvi-la, apesar da vontade. Não estou na mesma freqüência que as canções e todo o seu conteúdo emocional. Ainda bem que há dias em que as mesmas músicas me abraçam e me preenchem com os melhores dos sentimentos. Entendi a complexidade da vida que construiu a artista, e fatos concretos que inspiraram as suas canções, pude ver o por que de "The Other Woman" e "He Needs Me", minhas preferidas dentre tantas dela, soarem tão sinceras e emocionantes. É que ela está realmente sentindo e cantando o que está nas canções. É a vida ela, sinceramente apresentada em música. Nina Simone não era só artista, ela era a sua própria arte, ela dava a si mesmo, integralmente para o público. Deixou muitos sonhos de lado, sofreu muito por isso, enlouqueceu por isso, mas também é imortal por isso.

Uma cena marcante do documentário: depois de muitos anos em auto-exílio na Libéria, ela volta a tocar e se apresenta no Festival de Jazz de Montreaux de 1976. No palco, questiona o que todos estão falando sobre ela desde que voltou a tocar: de que Nina Simone já foi uma grande estrela e agora está decaída e essas coisas. Resolveu, então, que tocar uma música seria o jeito mais fácil de explicar o que ela pensa e sente sobre isso tudo e, após chamar atenção de uma garota na platéia, para que se sente (percebe-se aí a importância do momento para Nina), toca uma versão da música Stars, da Ian Janis, música com uma letra muito pertinente sobre as engrenagens do showbiz, da vida de artista e a relação que existe entre ele, o público e as expectativas que todos criam. Não pôde ser diferente, como sempre, dá pra perceber em detalhes como ela se sente sobre a sua vida, dá pra ver nos olhos dela, dá pra sentir na voz e em cada nota do piano, ainda mais com as adaptações que ela faz na letra, aproximando-a da sua história.

Foi um prazer realmente conhecê-la, Nina Simone. Ou se você preferir, Eunice Kathleen Waymon.

Aqui vai o vídeo. A letra [tentei escrever os improvisos dela, que estão em itálico], segue abaixo:



Stars, they come and go.
They come fast, they come slow.
They go like the last light of the sun,
All in a blaze.
And all you see is glory.
But it gets loney there,
When there's no one here to share.
We can shake it away,
If you hear a story.

People lust for fame,
Like athletes in a game.
They break their collarbones,
And come up swinging.
Some of them are crowned
Some of them are downed,
Some are lost and never found.
But most have seen it all.
They live their lifes in sad cafes and music halls.
And they always have a story.

Some make it when they're young,
Before the world has done it's dirty job.
And later on, someone will say,
"You've had your day, now you must make way."
[...] always.
But you'll never know the pain
Of using a name you never owned.
Or the years of forgetting
What you know too well.
That the you who gave the crown,
Have been let down.
You try to make amends without defending.
Perhaps pretending.

You never saw the eyes
Of young men of twenty-five,
That follow as you walked,
Ask for autographs,
Or kiss you on the cheek.
And you never could believe he really loved you. Never.
Some make it when they're old
Perhaps they have a soul they're not afraid to bare.
Perhaps there's nothing there

But anyway that isn't what a meant to say.
I'd tell you about a story, since we all have stories
I can't remember it anyway
So I'm telling about I moved within the United States
Today and permanently, even in Switzerland, it goes...

But I'll continue it anyway and [...] it together

Some women have a body men will want to see
And so they put it on display
Some people play a fine guitar
I could listen to them play all day
But anyway
I'm trying to tell you my story
Janis Ian told it very well
Janis Jopplin told it even better
Billie Holliday told it even better

We always, we always, we always have a story
And the latest story that I know
Is the one I'm suposed to go out with.


domingo, 5 de abril de 2015

Um desabafo

Independente da opção política, um bom estadista, um líder de verdade, deveria unir o Povo em torno de ideais comuns e guiá-lo através das dificuldades, sempre preservando a união e o sentimento de nação.
Me decepciona – apesar de saber que não deveria, já que isso não é nada novo – ver que o que temos é exatamente o oposto. Não se une para fortalecer e evoluir, mas divide-se para enfraquecer e dominar.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Da Honestidade


Do mundo, que eu exija apenas o que eu faça. Ao mundo, que eu faça tudo o que eu exijo.

terça-feira, 31 de março de 2015

Reflexões Sobre Papel Almaço


Fazia tempo que não olhava para uma resma de papel almaço, mas não existem muitas opções quando se fica quatro meses sem um computador. Pra alguns, mais jovens, até mesmo a palavra resma já parece sair de alguma filosofia hermética e antiga. E, pensando bem, até que faz sentido que pensem assim. Mas ela existe, e está aqui na minha frente, cheia de folhas brancas com linhas azuis me indicando o caminho a percorrer com minhas ideias e aguardando, imóvel e pacientemente, enquanto eu as formulo. À mão, preencho cada letra, folhas e folhas de trabalho hercúleo. Mas o resultado compensa e vai além da poética dessa forma tão solene de criação que é a analógica. E, graças à tecnologia de reciclagem do papel, nem é mais tão ecologicamente incorreta assim.

Pensei nos antigos. Eles sim que tinham um trabalhão! Um mesopotâmio, ao ter uma ideia, refletia antes se valia realmente a pena registrá-la, afinal, antes do registro, tinha que preparar a argila e colocá-la no molde. Mesmo se a ideia fosse ótima, durante o processo de preparação da placa e a gravação dos caracteres cuneiformes, dava tempo de meditar e aprimorar bem o que escreveria, sem espaço pra bobagem. Imagino que um caderno de páginas de pedra não deveria ser nada fácil de carregar, mas já era mais plausível e tranquilo do que carregar as paredes das cavernas.

Mesmo com a invenção do papiro, do pergaminho e, posteriormente do papel, ainda havia algum ritual de preparação. Apontava-se a pena, diluía-se a tinta, e tínhamos aí mais uma última chance de amadurecer a ideia antes de sair rabiscando o suporte que, passivo, apenas recebia a informação. Jazia ali, plácido e puro, aguardando que o mestre o gravasse, letra a letra, calmamente. Até mesmo com a máquina de escrever havia esse momento quebra-gelo e maturação da mensagem. Inseria-se o papel, ajustava-se a tabulação e margens, conferia-se se o papel estava horizontalmente alinhado e, só então, datilografava-se (atenção ao verbo, quase extinto), pressionando com cuidado e firmeza aquelas teclas pesadas, ritmada e atentamente, para que os tipos imprimissem bem o papel sem se enroscar, ou algum erro grave de grafia colocasse a página inteira em risco de ir pro lixo e ter que ser redatilografada (e temos aí um outro verbo quase extinto).

Enfim, temos novamente um computador nas mãos. Me estranho com o cursor que pisca insistentemente na tela, me desafiando. Por mais que eu digite, ele continua a piscar, a pedir mais, e mais, e mais palavras. Tento mostrar quem manda, quem dá o ritmo. Paro de escrever, levanto e vou fazer um café, tento criar um método pra nos deixar mais íntimos novamente, recuperar o respeito, aquela química de antes, tirar nossa relação dessa ansiedade juvenil, desse gozo precoce, que me parece epidêmico em todos os setores da vida. Tem sido uma boa luta de readaptação e, felizmente, posso dizer que estamos obtendo algum sucesso. E o café, no fim das contas, só tem servido pra atrapalhar minhas noites de sono.


terça-feira, 24 de março de 2015

Álbum : Meio Desligado [1994, Kid Abelha]

Em 07 de Novembro de 2014, o álbum Meio Desligado completou 20 anos. É um álbum marcante na minha história pessoal por motivos tantos e impossíveis de enumerar. Por ser um registro sonoro que admiro em vários quesitos, resolvi revisar e reescrever essa publicação feita originalmente para o Culturanja de 18 de abril de 2008.

Sei que tenho que parar com essa mania de "microondas" requentador de textos, mas em tempos que me recupero de uma revolta tecnológica aqui em casa, não vi ponto negativo em ressugerir aos amigos a audição deste álbum enquanto preparo mais coisas inéditas para as próximas semanas.

Bruno Fortunato, George Israel e Paula Toller, o Kid Abelha.


“Kid Abelha, Lobão?!” Muitos me recriminarão, mas o álbum é bom sim e merece uma resenha.

A idéia deste álbum surgiu de um set de versões acústicas das músicas do primeiro disco do Kid Abelha, que a banda tocava nos Bis dos shows normais. Gostaram da idéia e começaram a acrescentar ao Bis outras canções que combinassem com esse formato. Registradas ao vivo, em shows realizados entre março e julho de 1994, nas cidades Curitiba, Belo Horizonte, Crisciúma, Concórdia, Venâncio Aires e Santa Bárbara. Depois acrescentaram alguns instrumentos e arranjos a mais em seu home-studio, o Som de Neguin’ (também chamado por eles de "casa").

O resultado final é surpreendente: nitidez e uniformidade nos sons dos instrumentos captados ao vivo e nos acrescentados posteriormente, em estúdio. O toque especial na sonoridade fica com a participação do público e o ambiente de show - preservados da captação ao vivo - o que cria a impressão de um show acústico completo e esquenta o disco feito um abraço carinhoso. Infelizmente, por ser resultado de diversos registros de áudio ao vivo e overdubs em estúdio, não foi possível preparar uma versão em vídeo deste álbum que, se existisse, estou certo de que seria uma beleza.

“Meio desligados, mas totalmente antenados” é como a banda, pertinentemente, se descreve no encarte do CD (que também foi o último álbum da banda a ser lançado em vinil), o Kid Abelha consegui a criar um clima aconchegante e sofisticado que pouca gente conseguiu fazer em um Acústico. As versões de Como Eu Quero, com a participação de Ritchie, de Solidão Que Nada, do Cazuza e Grand’ Hotel, esta com arranjos de cordas do mestre Wagner Tiso, ou até mesmo a simples e aconchegante Seu Espião, são realmente muito bonitas.

Com 600 mil copias vendidas, ganhando disco de ouro, de platina e o primeiro disco duplo de platina da banda, o Meio Desligado é um álbum muito bem feito. Bem arranjado; rico em instrumentação, com participações muito pertinentes, como Lulu SantosRitchie e até mesmo o Mutante Sérgio Dias, que toca uma Cítara na faixa de abertura Deus; o álbum possui versões muitas vezes mais interessantes às do Acústico MTV Kid Abelha de 2002, que atualmente é o Acústico MTV mais vendido da história do projeto, com 2 milhões de cópias vendidas, superando o ótimo Acústico dos Titãs, que vendeu 1,7 milhões de cópias.

Penso que a idéia do acústico é mostrar a real força de uma boa canção, aquela que funciona independente da forma que é apresentada, que tem força por si só, que tocada num violão solitário também é capaz de emocionar. Esse disco é a demonstração que as canções do Kid Abelha, em grade parte escritas pelo Leoni, um compositor de mão cheia, funcionam, sim, muito bem e em vários formatos.

Então, está aí a sugestão: deixe o preconceito de lado e ouça esse álbum com carinho.




Tracklist

01. Deus (Apareça Na Televisão)
02. Alice
03. Gosto De Ser Cruel
04. Como Eu Quero
05. Por Que Não Eu
06. Seu Espião
07. Eu Tive Um Sonho
08. O Beijo
09. Cristina
10. No Meio Da Rua
11. Nada Por Mim
12. Grand' Hotel (Introdução)
13. Grand' Hotel
14. Solidão Que Nada
15. Canário Do Reino


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O pé de valsa





Essa história aconteceu em meados dos anos 70, numa pequena cidade ainda jovem, muito religiosa e conservadora, no interior do Paraná, algo bem comum naqueles tempos da colonização do estado. Era época de quaresma, período de quarenta dias após o carnaval, no qual os católicos ficam em resguardo, orando. Nesse período a igreja não aconselha festas, pois os santos, os anjos e demais elementos do exército celeste também estão em resguardo ou ocupados com outras coisas e deixam de cuidar de nós, os mortais, ficando livre o caminho para as forças do mal irem à forra com os descuidados.

Mas o Manoel, também conhecido como Mané, dono do salão de baile mais famoso da cidade, não dava a mínima pra isso de igreja e também não achava a idéia de ficar quarenta dias sem abrir seu salão de balei muito boa. “Quem vai pagá o meu feijão, pô?!” – dizia ele.

Então Mané resolveu fazer o baile, normalmente, naquela primeira sexta-feira de quaresma. O padre excomungou, as beatas esconjuraram, todo mundo olhou torto pra ele. Mesmo assim o Bailão do Mané lotou e o rastapé comeu solto a noite toda... ou quase toda. Dizem que por volta das onze da noite apareceu um forasteiro, um cara elegante, de paletó claro, camisa branca sem gravata, sapatos brancos lustrosos, bigode charmoso e babosa no cabelo penteado pra trás. O sujeito chegou calado e foi direto ao bar tomar um trago, e cada movimento seu era acompanhado pela atenta vigilância dos homens do salão. Os olhos de todas as garotas brilharam de desejo.

Não demorou muito e o forasteiro pé de valsa estava rodando o salão, dançava com uma, com outra, mais outra... estava literalmente dando um baile no pessoal e deixando as moças ouriçadas, que o cercavam querendo mais. Chegou um ponto em que todas elas só queriam dançar com o tal cara do bigode, deixando os homens do recinto tão indignados, que foram tirar satisfação. Aí a coisa ficou feia. O Ademar da quitanda, um cara enorme e esquentado, já chegou empurrando o forasteiro de lado e perguntou:

– Quem diabos é você, cumpadi? Vai chegando e atrapalhando o nosso baile, pegando nossas garotas... Cê acha que é quem?

O forasteiro, deixando educadamente de lado a moça com a qual dançava, olha firmemente para Ademar durante uns 5 segundos, sem esboçar qualquer reação. Então responde, sorrindo:

– Quem diabos, Ademar? Quem diabos?!?! E começa a rir.

A risada vai aumentando cada vez mais até ecoar por todo o salão e encobrir a música. A banda para de tocar e todos, assustados, olham para o risonho forasteiro. As luzes então começam a piscar desordenadamente; apagam e acendem ao som daquela gargalhada ameaçadora até que, finalmente, tudo escurece. 

Ao acender das luzes o forasteiro não está mais ali na frente do Ademar, mas em cima das caixas de som ao lado do palco, e continua rindo. Enquanto gargalha feito um lunático levanta suas duas mãos para cima, se consome numa labareda de fogo e desaparece. Todos que estavam no salão imediatamente saem correndo desesperados, deixando na sala apenas um forte cheiro de enxofre e um Ademar preocupadíssimo, repetindo sem parar enquanto também fugia : "Ele sabia o meu nome... Ele sabia o meu nome... Ele sabia o meu nome..."

Dias depois tomaram coragem para voltar ao salão, foram acompanhados pelo delegado e pelo padre que, armado de água-benta e crucifixo, ia benzendo o caminho à frente. Revistaram todo o salão, mas a única coisa que encontraram como prova daquela noite sinistra foram as marcas de dois cascos de bode queimadas sobre a caixa de som de onde sumiu o forasteiro. No jornal do dia seguinte, na primeira página, publicaram a foto das marcas e a seguinte manchete: “Baile do Demônio - o dia em que o Capeta veio pra dançar.".

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Com amigos, num bar.

ou Lição do Folião Antigo.


Lugar bom pra conversar, o meio-fio!
Democrático, popular.
Em pé ou sentado. É decente evitar se deitar.

Mas seja alta-noite-fervente ou calma-tarde-de-frio,
Meio fio não é lugar de deixar
Um copo de vidro, vazio.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015