quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Álbum : A Love Supreme [1965, John Coltrane]



Desde os tempos imemoriais da humanidade a meditação e a oração são sugeridas como meio de contato do homem consigo mesmo e com o Cosmos, ou seja, orar ou meditar com energia proporciona a conexão entre a esfera mais íntima e minúscula de cada ser e a esfera mais exterior e infinita do Cosmos, unindo criatura e criador, a parte com o todo e, através dessa sintonia com todas as coisas, o praticante é iluminado e libertado.

Dos muitos seres de luz que já passaram pela história humana sugerindo a prática íntima e constante da oração ou meditação, podemos citar um que é, no mínimo, curioso: John Coltrane, saxofonista e lenda do Jazz.

Foi, coincidentemente, no dia de aniversário de sua morte (17 de Julho) que terminei de ler o livro "A Love Supreme" (Barracuda, 2007), escrito por Ashley Kahn e bem traduzido para o português por Patricia de Cia e Marcelo Orozco. O livro traz um panorama bem completo de todo o processo musical de Coltrane até chegar à criação, gravação e desdobramentos de uma das maioers obras primas do Jazz, de todos os tempos: a suíte A Love Supreme, lançada num álbum homônimo em 1965.

Acertadamente o livro não se prende apenas ao processo do disco, mas acompanha toda a trajetória musical de Coltrane, desde que saiu do Rehab e se tornou abstêmio de álcool e entorpecentes; sua passagem por diversas bandas, como a de Miles Davis, até formar a sua própria, com a qual disco a disco vai caminhando para libertar sua música das amarras estéticas e teóricas que tanto o incomodavam. Nele também encontramos depoimentos de amigos, parentes, parceiros musicais, produtores fonográficos, fãs e trechos de entrevistas que nos facilita visualizar, com mais amplitude, o que inspirava e movia Coltrane na sua busca que, além de músical, era evidentemente espiritual. 

O livro também não deixa de lado as informações sobre o music bussines da época, técnicas de gravação e mixagem. Assinalo a participação de Rudy Van Gelder, engenheiro de som do A Love Supreme e outras belas obras do jazz, que tem até capítulo à parte pela fundamental importância para a sonoridade do disco, bem como para que o livro se tornasse muito mais interessante. Foi uma surpresa colossal saber que vários discos de Miles Davis, Duke Ellington, Thelonious Monk e outros grandes nomes do Jazz dos anos 1950 foram gravados na sala de estar da casa dos pais de Rudy, à noite, após ele sair do trabalho em uma ótica e enquanto seus pais dormiam. Isso é algo que eu e muitos músicos fazemos e achamos uma incrível novidade. Doce ilusão, os grandes do Jazz (e não podemos esquecer do velho Les Paul) já tinham seu home studio e faziam obras primas atemporais. 

O que chama atenção no Rudy é que o som que ele conseguiu captar dessas gravações é de altíssima qualidade, sensacional até hoje. Enfim, há informações pra todos os níveis de interesse e, mesmo pra quem não "entende de música", Ashley Kahn coloca a informacão técnica de forma a fazer sentido para que qualquer interessado possa entender a influência de cada elemento, técnico ou artístico, na obra de Coltrane.

Durante a leitura do livro entendemos a dedicação quase monástica ao estudo e prática da música a que Coltrane se submetia, numa intenção nunca secreta de dominar a técnica e as linguagens para depois subvertê-las e expandí-las, como se emulasse Sidarta Gautama ou Jesus Cristo, em meditação e prática constante no deserto, buscando iluminação – que, de fato, como ouvimos no disco, conseguiu – e puxava para o mesmo caminho os músicos que o cercavam. Desta forma, como um Messias e seus seguidores, pregação após pregação pelos teatros e bares do mundo, o quarteto formado por Coltrane no sax (barítono e tenor), Mckoy Tyner no piano, Jimmy Garrison no Contrabaixo e Elvin Jones na Bateria, se transforma numa das maiores expressões do Jazz, referência não só da época, mas de tudo o que veio depois deles.

Com a coesão do quarteto comprovada no álbum Crescent (1964), Cotrane sentiu-se seguro para dar o próximo passo de sua jornada libertadora das notas musicais e de sua alma, criando um álbum extremamente Espiritual. Em A Love Supreme, todos se expressam mais do que musicalmente, eles se conectam entre si e com o Universo tocando a música que ressoa em suas almas, livres, dando graças ao criador pela oportunidade de estarem vivos.

Os sons que estão imortalizados nos fonogramas são os que foram gravados na noite de 09 de Dezembro de 1964, já no estúdio construído por Rudy, em Englewood Cliffs (New Jersey), e não mais na casa de seus pais. E a notícia de que houve uma sessão extra, na noite seguinte, com um Sax extra (Archie Shepp) e um Baixista extra (Arthur Davis), que desapareceu pra sempre, vai me arrepiar pelas próximas vidas. Interessante, também que as únicas fotos existentes (muitas estão no livro) são da sessão do dia 10, pois dia 09 não houve fotografo registrando. Ou seja, temos as fotos de um dia e o som de outro dia.

Uma suíte é um formato da música clássica, um conjunto de músicas que giram em tordo de um mesmo tema, no caso de A Love Supreme é homenagear Deus. Coltrane mesmo define sua suíte como uma oração e, por ser músico, se expressa melhor usando notas musicais, facilitando assim a conexão com o criador e com o Amor Supremo no qual ele se sentia envolvido e reverberando. 

O nome das faixas, Acknowledgment (Reconhecimento), Resolution (Resolução), Pursuance (Busca, Persecussão) e Psalm (Salmo, Prece, Oração), mostram o caminho sugerido pelo Jazzman para que nos sintonizemos com Deus, ou seja: Reconhecer a existência Dele; Resolver-se como filho do Criador; buscá-Lo sem descanso até visualizá-Lo e agradecê-Lo, em oração sincera pela graça da existência e das possibilidades de trabalho, estudo e evolução que nos foram dadas.

Ashley Kahn nos presenteia com 40 páginas de descrição detalhada de como cada uma das quatro faixas da suite se desenvolvem, abrindo-nos uma outra gama de entendimento sobre cada segundo de música. Mas Psalm, o salmo de Coltrane, tem uma história à parte. Ele é um poema escrito pelo próprio músico que, ao invés de declamá-lo no disco, tocou sílaba a sílaba no seu sax barítono. De uma sinceridade ímpar, é o momento mais iluminado do disco, com notas arrepiantes e lindas de se acompanhar ao mesmo tempo em que se lê o poema.

Faça isso você, agora:



Ou por esse vídeo da própria Coltrane Church (sim, existe).






E pra facilitar de vez a experiência, uma versão cantada de um trecho do Salmo:



Em algum dia de 1964, durante sua pratica diária, John Coltrane entendeu algo, sentiu algo e, mais que isso, ele colocou em prática, gravou um disco e espalhou a idéia. Utilizou a sua melhor forma de agir para se comunicar e se conectar com o Deus e Cosmos, recebendo e enviando amor. Depois de ler o livro e ouvir atentamente ao disco, foi impossível não ficar tocado ou, ao menos, pensativo, sobre estar mergulhado num grande mar de Amor Supremo e de energia infinita, mas não estar acessando isso tudo. Se como Coltrane, eu também posso melhorar minha conexão com esta infinita reserva de energia boa usando a meditação e a oração. 

Se todos somos capazes de criar as melhores coisas quando nos esforçamos usando só a nossa própria força, imagino o quanto melhor faríamos se estivéssemos agindo movidos pelas forças de todo o Cosmo. Qual seria a minha obra prima?

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Sem Título

É deserta a realidade!
Sem poema que me sirva,
Sem palavra que me salve.
Se sou algo, sou saudade.


terça-feira, 28 de julho de 2015

Na vida, como no poema.

A vida é – ou deveria ser – o exercício de conjugar o sentir com o agir. Como é no poema. Ordinária é a vida sem auto-análise, sem alguma constrição voluntária, sem testar limites. Como é no poema. Infinitas possibilidades de significação de nada servem, senão para diluir a vida num grande oceano de nada e tédio. Como é no poema. A palavra exata, no momento correto, é a diferença entre mais uma palavra na vida e um ato único e memorável, como o abraço oportuno, o sorriso inesquecível ou o silêncio necessário. Como no poema.

Como no poema, de que vale a vida que não se molda a cada momento, a cada lugar, para depois transcender-se continuamente? De que vale um sentimento que não se potencializa na melhor forma de expressão possível? Afinal de contas, o que é a boa vida – de todos, e não só a do poeta – senão viver um bom poema, fazer-se poesia?

terça-feira, 14 de julho de 2015

terça-feira, 23 de junho de 2015

Voyeur


São Paulo é sexo
Sadomasoquista
Excito-me, perplexo!
Mas quem goza é o analista...


terça-feira, 16 de junho de 2015

Filme : Um pombo pousou num galho de árvore, refletindo sobre a vida [Roy Anderson, 2014]


ou : não acredite nas sinopses.


"Comédia sobre dois vendedores ambulantes, Sam e Jonathan, que estão cansados do mundo.", era tudo o que me dizia o prospecto do Cine Belas Artes sobre o filme que eu iria assistir naquela noite. Miseráveis 86 caracteres, contando espaços e pontuação. Nem um filme ruim do Edie Murphie se explica em 86 caracteres! Que cilada! Já a sinopse do filme da sala ao lado, Winter Sleep, com seus três períodos e mais de duas centenas de caracteres, deixava o meu filme mais desinteressante ainda. E se não bastasse, eu me reconheci na história do concorrente, sobre um escritor de textos altruístas, que durante intrincada trama invernal se revelava um hipocrita maligno. Mas acabei reconhecendo que, na verdade da vida, eu deva estar mesmo mais próximo de um pompo sentado num galho e refletindo sobre a vida do que de um escritor de psique conturbada que suponho, ou adoraria, ser.

E agora, o que fazer se o trailer do Youtube foi convincente e os ingressos já estavam comprados? Bom, ainda me restava o benefício da dúvida, a esperança de que o autor da sinopse estivesse um tanto – melhor se completamente – enganado ou então eu teria de enfrentar uma simples comédia Sueca mesmo. De qualquer forma, já me sentia no lucro, afinal, o filme já tinha me jogado numa montanha-russa de sentimentos antes mesmo que eu entrasse na sala.

Resignado e instalado em minha poltrona, logo nas primeiras cenas do filme comprovo, aliviado, que o autor da Sinopse estava enganado e fui surpreendido por um ótimo filme de arte Sueco. Sei que a vida, por mais trágica que seja, tem seu lado cômico, mas denota-se uma certa falta de tutano classificar esse filme como uma simples comédia. E as pouquíssimas risadas que ouvi durante a projeção também comprovariam a minha teoria.

Como é de praxe nos filmes de arte, existe a intenção de se questionar os padrões e processos utilizados pelo cinema comercial, o tal Cinema Hollywoodiano. E essa mania começa na própria classificação do gênero do filme, que é feita baseada no estilo da narrativa e desenvolvimento da trama, que pode ser suspense, terror, aventura, romance, comédia e etc. 

Em algumas entrevistas, Roy Anderson, que é o diretor desse filme, já se dizia cansado de contrar histórias da forma tradicional, com começo-meio-fim, e daí veio a opção dele em filmar uma Antitrama, um roteiro sem narrativa, onde não se apresenta os poersonagens, nem a problemática, nem há desenvolvimento da história e muito menos resolução de qualquer questão levantada. Mas isso não significa que o filme seja sem sentido, a ausência de narrativa está apenas no filme, entretanto acontece dentro da cabeça de quem assiste. É o expectador o responsável integral por dar sentido ao emaranhado de cenas que o diretor nos apresenta, já que em momento algum ele nos sugere o que pensar ou como agir frente a tela.

Dessa forma, Roy consegue que a mesma película se transforme em diversos filmes diferentes, conforme são diferentes as pessoas e sesus universos simbólicos e culturais. Ele nos tira do papel de mero expectador e nos faz, de forma mais evidente e necessária do que outros filmes de arte aos quais assisti. Não sei se existe essa diferença na língua Suéca, mas em bom português, poderiamos dizer que Roy nos faz conjugar o verbo assistir em suas duas regências, simultaneamente assistimos ao filme e o filme.

Enfim, é esse tipo mais amplo de percepção que vai deixar a experiência do Um Pombo Pousou... mais emocionante. Caso contrário, se você é daqueles que pensa muito pouco sobre quase nada, prepare-se para assistir (se conseguir ficar até o final) ao filme mais chato da sua vida.

O filme, acertadamente, se inicia com três cenas (reflexões) sobre a Morte, a mais antiga e universal reflexão da história humana que, como diriam os Unidos do Caralhaquatro, "desde os tempos mais primórdios", ela está aí, despertando desde a mais minúscula migalha de filosofia que cada um de nós carrega até a nossa mais evidente angústia. Isso já sensibiliza a todos da platéia sobre abordagem filosófica necessária para aproveitar o filme. Além do mais, as três cenas trazem consigo as chaves mestras para interpretar o restante das cenas: a Rotina, a Ganância e a Solidão. E é por essa lupa que Roy Anderson sugere interpretarmos o filme e, não só o filme, mas também as nossas próprias vidas.

Altamente simbólico, prato cheio pra quem gosta de semiótica, tudo no filme pode ser interpretado em muitos níveis, o que me impossibilita de descrever e comentar as cenas em mais detalhes, já que elas terão significados e impacto diferentes em pessoas diferentes, mas posso fazer um esforço sobre alguns aspectos:

Os cenários de aparencia artificial, em cores pastel e sem graça, com poucos detalhes e objetos de cena, tão sem graça quanto a vida da maioria das pessoas do filme (e por que não do mundo real também?); A cara extremamente pálida dos adultos, entediados e doentes, em contraponto com as feições mais rubras das poucas crianças que aparecem usando cores ao seu redor e se divertindo, alheias à realidade sombria e às frustrações da vida adulta; A camera estática, nos colocando como o tal pombo do título (com direito a arrulhadas em cena ou outra), simplesmente observando o desenrolar da vida daqueles humanos que passam, como as pessoas que dizem "Que bom saber que você está bem.", que em geral não estão bem, muito menos felizes, ou, no mínimo com inveja; Enfim, luzes, cores e movimentos onde a vida pulsa e penumbra, morbidez e estaticidade onde a vida já não existe mais com tanto vigor. É assim que se desenvolve o filme, num surrealismo delicioso pra quem aceita o convite à reflexão.

E os dois vendedores da sinopse aparecem onde, afinal? Eles são os personagens que mais aparecerem no filme. Moram num hotel que vezes parece um hospício, vezes um presídio, e insistem em vender artigos engraçados que não tem graça para pessoas tristes que não tem mais interesse em diversão. Vale citar uma passagem próxima do final do filme, na qual um deles, o mais sentimental, levanta uma questão existencial profunda e importante no meio da noite: "É correto usarmos outras pessoas para a nossa própria diversão?" e é dissuadido de continuar a pensar nisso, pois já é tarde e todos ali tem que dormir para poder acordar cedo e ir trabalhar. Nada mais contemporâneo e verdadeiro do que a triste realidade na qual a maioria das pessoas no planeta vive: deixando as próprias verdades de anseios de lado para poder, no outro dia, acordar cedo e cair na rotina robótica do trabalho que não as realiza como pessoa nem como ser humano.

E há mais, muito mais reflexões que se despertam das nossas profundezas, para a luz de nós mesmos durante esse filme. No fim das contas, até entendi os motivos do sujeito que fez a sinopse esconder a natureza filosófica do filme. Ele sabia que, certamente, espantaria muita gente que preferiria voltar para o sossego do lar, pois tem coisa mais importante pra fazer do que refletir sobre a própria vida: trabalhar logo cedo no dia seguinte, como todo mundo faz, desde sempre.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Eu te amo

Amada, minha amada
Que por outro enamorada
Voôu longe, foi se embora
Sem deixar rastro ou pegada

Fiquei nu, sem ti, sem nada!
Não vi mais teu riso largo
Teu cabelo de luar
Nem tua pele de alvorada

Nos meus braços fazem falta
O teu cheiro e colorido
Mas não ouso ficar triste
Se não bailas mais comigo

Pois, sei bem, amada, e te entendo
Não te sintas tão culpada!
O amor nasce sem avisos, assim sendo,
Vá! Vá colher os teus sorrisos!