sexta-feira, 18 de março de 2016

Não nos percamos de nós mesmos

Chegamos ao ápice de um processo histórico importante, pelo qual viemos passando nas últimas décadas: o desmonte de uma era onde o processo político era feito descolado da vontade popular. Toda mudança de paradigma social é delicada, lenta e dolorosa, e é natural que partidários de ideias contrárias se debatam e desse debate surja, inevitavelmente, uma síntese. É o tal do processo dialético (Tese+Antítese=Síntese) de Georg W. F. Hegel. Sim, é aquele mesmo Hegel que voltou à fama por um deslize intelectual há alguns dias atrás e, pelo que me parece, não por acaso. Então é necessário paciência e conhecimento pra um correto agir nesses tempos de euforia e ansiedade à flor da pele quando estamos formando a nossa síntese social.

Uma das minhas matérias preferidas durante a faculdade de Direito foi e, ainda é, a Ciência Política e Teoria Geral do Estado, na qual se estuda o processo de criação e validade de um Estado Nacional. Nesses tempos de convulsão social, de ladainhas pra lá, falatórios pra cá, sempre bem munidos da terminologia, mas quase nunca do conteúdo, me lembrei de um conceito muito importante, aprendido do livro "Teoria Geral do Estado", do Sahid Mauf : o conceito de Nação, “um conjunto homogêneo de pessoas ligadas entre si por vínculos permanentes de sangue, idioma, religião, cultura e ideais” .

Entendendo esse conceito fica fácil perceber como estamos sendo atacados e onde estão mirando aqueles que deveriam estar nos ajudando e protegendo, os chamados representantes do poder público, nome que não faz muito sentido quando os tais não estão, de forma alguma, usando o poder que o povo os cedeu para melhoria da coisa pública mas, pelo contrário, estão representando, claramente, os próprios e privados interesses. Usam da técnica de "dividir para conquistar" e, nos subjugando, permanecem intocáveis na sua majestade. Há anos estão nos separando por etnia, religião, costumes e posição política, e já estão conseguindo. Só falta nos fazerem esquecer o nosso maior ideal comum que é "um país melhor, um lugar bom de se viver, para nós e nossos descendentes". Mas isso não podemos permitir, é preciso ficar atento, permanecermos fortes e unidos como povo, honestos e respeitosos uns com os outros. Conforme indicam os acontecimentos, qualquer bandeira partidária que se levante hoje em dia, é bandeira criminosa. Não há heróis, exceto nós mesmos, e nossos super-poderes são o amor e o bom-senso que, não duvide, todos nós temos, sim, mesmo que em quantidades diferentes.

Estão nos vendendo uma gerra particular pelo poder como se fosse uma campanha por um país melhor. Não caiamos nesta armadilha. Acatarmos irresponsavelmente os discursos fatalistas e viciados que nos oferecem é assinar sentença de subjugação e morte do sonho Brasileiro. Deixemos de lado as ideologias políticas que só nos separam, e nos apeguemos às poucas coisas que nos restaram em comum, o verdadeiro ideal que nos une, por esses mais de 500 anos, entre o Caburaí e o Chuí : fazer desse pedaço de chão um lugar de vida digna para todos, sem exceção.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Um apelo

São noites a esperar-te. Espero-te, fiel e infinitamente, pois sei que não vens se não quiseres e minha autoridade não te alcança de onde vens. Reconheço, às vezes deslizo e, impaciente, coloco-me a procurar-te. De nada adianta, é claro, é preciso esperar-te. Largo-me a observar os cantos vazios. Os da casa e os meus, que são tantos. Não, não me sinto só, jamais me senti. Pelo contrário, há fantasmas que não se calam; há vozes interiores; há pessoas, e se parecem tão vivas lá fora que não me deixam esquecer : não se trata apenas de mim, não se trata apenas de você; e, bem mais grave, não se trata apenas de mim e você.

Quando chegas, pisando leve, ofereço-te um sorriso e me respondes, semi-silente, um novo código para que eu decifre, ou me devoras. Lutamos madrugada afora, exploro o que me ofereces e sei que, traiçoeira, sempre escondes algo mais. Há armadilhas, há desencanto, há o capricho e o cuidado, e não há aurora que, apontando lá fora, nos arranque de nós.

E se nunca mais vieres? E se nunca mais nasceres em mim, como nascem as angustias e os medos e as saudades? Que desespero... sem você em contraponto é certo, tornar-me-ia apenas angustias, medos e saudades... e nada, nada mais. Quem me traria de volta ao prumo, me daria o necessário norte, me acompanharia até a morte? Ah, é mais do que certo! Coisificaria-me, imóvel e insensível, fim. Que desespero... que disparate...

Mas não me prives de ti. Aceita-me, sinceramente. Aceita-me. Não me prives de ti. Venha, sempre, mesmo que ininteligível, desconexa, em língua desconhecida. Venha antiquada, avant-garde ou pós-moderna. Venha, mesmo que eu não te compreenda tão bem, como hoje. Não me evite por isso, não fique nervosa. Sonhei-te poesia, mas encontrei-te prosa.

Por dias melhores


— Um bom dia.

Mal terminou a frase e foi metralhado. Ouviu sobre a vida difícil; o mundo medonho; os podres poderes; os direitos humanos; sobre a vida; sobre a morte e, por fim, sobre a insensibilidade de, em meio a tanto terror, alguém ter o desplante de desejar um bom dia.

Sorrindo, respondeu que eram por esses mesmos motivos os desejos de que, pelo menos hoje, o dia fosse bom.

— Um bom dia.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Ketèlbey : Bells Across the Meadows




Albert William Ketèlbey me lembra a infância. Meu pai sempre ouvia aquele LP de capa exótica, com um mercador oferecendo flores a um monge, enquanto estudava, à noite, após um dia de trabalho. Inclusive, dias desses me surpreendi fazendo o mesmo: estudando e ouvindo Ketèlbey, um grande flashback. E foi assim, ainda pequeno, através do meu pai, que ouvi pela primeira vez sobre como um compositor pode descrever uma cena, um cenário, através de uma música.

Com o Ketèlbey foi fácil de entender, ele é muito bom em cenas musicais. Tão bom ele era, que foi o primeiro músico britânico a ficar milionário através da música, principalmente através desses pequenos temas chamados de "light orchestral music", nos quais ele era especialista. O tema musical "Bells Across the Meadows" (pra ouvir aí embaixo) foi eleito pelos ingleses, em 2003, como a 36ª música mais memorável de todos os tempos.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Em caso de incêndio



"When your heart is on fire, you must realise, smoke gets in your eyes." - HARBACH, Otto.


Smoke Gets In Your Eyes é o nome de uma bela canção do The Platters, antigo grupo vocal norte-americano, cuja letra ensina a perceber se é amor ou é cilada dizendo que "quando nossos corações estão em chamas, preste atenção, a fumaça chega aos olhos". Parte da trilha sonora do filme Além da Eternidade (Always, 1989), ela é o tema de amor do casal protagonista, dois brigadistas aéreos da equipe anti-incêndio que toma conta de uma floresta. Peculiar, não é?

É claro que, como uma boa equipe anti-incêndios, a qualquer sinal de fumaça – não nos olhos, mas na floresta –, eles arriscam a vida e, com muita coragem e aventura, conseguem apagar os incêndios. Nada mais lógico pra quem foi exaustivamente treinado pra isso. Pra nós, que nunca quisemos ser Bombeiros, combater incêndios e salvar vidas, é uma luta bastante distante. 

Então vamos trazer isso mais pra perto. O que fazer no caso de um incêndio em nossa casa, local de trabalho, ou lugar no qual estivéssemos? Seguir as regras do protocolo anti-incêndio! Se for de grandes proporções, chamaríamos os Bombeiros e nos manteríamos em segurança; em casos de pequenas chamas é possível ajudar no pré-combate usando extintores de incêndio ou, pelo menos, retirando de perto do fogo objetos e seres vivos que nos são preciosos e que possam alimentar o incêndio, até que o socorro capacitado chegue. Agora, a missão já fica mais próxima de nós, não é mesmo?

Então, ouça o alarme. Olhe ao lado e veja por si mesmo: discussões inflamadas, relações faiscantes, cabeças quentes... e a fogueira das vaidades flamejante como nunca; milhares de homens e mulheres bomba, dizendo "que se exploda". Há um grande incêndio no mundo, nossos corações estão em chamas há fumaça nos olhos mas, infelizmente, não é pelo amor, como diz a canção dos Platters.

Queimar o filme dos desafetos, jogar o outro na fogueira, são expressões e atitudes ainda muito comuns entre nós, lembrando um costume do Sec. XVII quando, sem muitas opções de entretenimentos, as famílias – notem bem : fa-mí-li-as – amarravam um gato dentro de um saco e o jogavam na fogueira pra se divertirem vendo-o queimar e grunhir de dor. Pelo menos, com os gatos, fazemos cada vez menos desse tipo de coisa.

Ora, se o mundo está em chamas, que tal seguirmos as instruções de "em caso de incêndio", ajudando para que o estrago seja o menor possível? Estar atento para apagar incêndios nos amigos; vizinhos; família e em nós mesmos pode não ser nossa profissão, mas é um dever. Não há solução mais lógica e responsável pra quem está cercado por fogo de todos os lados que não seja esforçar-se para apagá-lo. Muitos, ainda hipnotizados pelas chamas, agindo como agíamos nas cavernas, irão repreender e atrapalhar para preservar o espetáculo.

Ignorar as chamas só aumenta o risco de nos queimarmos. Ao menos, chamemos os Bombeiros! E trabalhemos para a que fumaça em nossos olhos volte a ser apenas indício de amor, como diz aquela velha canção.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Leoncavallo : Pagliacci, Intermezzo

O intermezzo da Ópera "Pagliacci" de Ruggero Leoncavallo (minha ópera favorita, inclusive) é, sem dúvidas, umas das peças musicais mais belas que já ouvi. Ele é tocado no intervalo (intermezzo, em português) do primeiro para o segundo ato da ópera e consegue, ao mesmo tempo que emociona pela música, captar e sintetizar tudo o que aconteceu e sugerir o que acontecerá nas próximas cenas da trágica história do Palhaço que, mesmo com o coração partido pela Colombina, deve subir no palco e fazer o público rir. Mas, Leoncavallo alerta: o perdão não é tão fácil assim; e o orgulho, esse veneno que destilamos todos os dias, pode nos transformar em monstros ferozes. Cuidado!





Pra quem não conhece e quiser assistir à ópera inteira, tem essa versão dirigida pelo Franco Zeffirelli, com Placido Domingo e Teresa Stratas. A regência da orquestra é do Georges Petre que, inclusive, conquistou meu coração nessa super emotiva regência do já comentado Intermezzo:




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Aos sempre jovens poetas



Nos tempos da Faculdade, uma amiga, sabendo da minha inclinação à poesia, me emprestou o livro "Cartas a um Jovem Poeta". Uma compilação da pequena, mas bela correspondência entre o poeta tcheco Rainer Maria Rilke e o jovem austríaco Franz Kappus. Trocada vagarosamente entre 1903 e 1908, talvez seja uma das melhores coletâneas de conselhos a um jovem – ou a qualquer um com dúvidas e angústias, que dá no mesmo – que eu já tive notícias. Desnecessário dizer a gratidão que tenho a essa amiga e o quanto essa leitura me marcou e inspirou na poesia e na vida.

O jovem Kappus, aluno de um colégio militar, tinha dúvidas sobre se deveria seguir o seu coração e abraçar a carreira de poeta, que tanto lhe realizava a alma, ou se deveria seguir a militar, que lhe daria segurança financeira e agradaria a sua família – ora, a dúvida que nos une a todos! –. Ao saber que Rilke, o famoso poeta, também havia estudado no mesmo colégio, resolveu escrever-lhe uma carta na qual abria seu coração e perguntava se seus versos eram bons o suficiente para seguir o seu intento poético.

O poeta, mais experiente, entre rápidas digressões acerca do processo da escrita, da poética e dos versos de Kappus – que aparecem hora ou outra pelas cartas –, prefere aconselhá-lo para a vida, talvez a única forma de ajudá-lo de verdade, pois a vida não deve ser nada mais do que nossa melhor poesia. E, assim como na vida, o trabalho na poesia exige fé e análise constante de si mesmo, o poeta se destrói e se reconstrói dia a dia. É uma atividade que acontece pela necessidade de nascer do verso, e não o contrário. Por isso, deve o poeta, antes de tudo, estar em conexão consigo, com o que borbulha dentro de si, e ter forças para trazer isso à luz da melhor maneira. É o esforço hercúleo e inevitável de dar vida, da gestação e parto, tão comum e sagrado na natureza.

E não apenas se conhecer intimamente, mas ligar-se à natureza, inteirar-se do ritmo do mundo e saber deixar tudo amadurecer antes de colher. Ter paciência, viver plenamente o agora, como vivem todas as coisas no universo, entender as limitações inerentes ao humano na magnitude do infinito, perceber seu lugar e função no jogo. Isso acalenta a alma e afasta a angústia da criatividade e do próprio viver, pois “as coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível", senti-los pode ser mais importante do que entendê-los.

Por isso devemos amar as nossas dúvidas, vivê-las agora e sem medo, pois, talvez passemos, "gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas". Entender que "quase tudo que é sério é difícil, e tudo é sério", sem sentir medo, mas, pelo contrário, fazer disso um convite à introspecção e fortalecimento, pois, “talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo terror não passe, em última instância, do desamparo que requer nossa ajuda.”

Viver uma vida sincera em essência e meditativa pode nos fazer sentir solitários, distintos do mundo, mas, longe de nos desestimular, a dificuldade de encarar-se só deve nos impulsionar. Ser solitário é bom, "pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la".

Enfim, como já sugere Kappus, no prefácio do livro, o tom dessa correspondência ecoa tão universal que é impossível não a tomarmos como nossa. Nós, tão distintos e, ao mesmo tempo, tão semelhantes... E a cada leitura deste livro, nos tornarmos mais preparados para soltarmos as rédeas do mundo e segurarmos firmes as nossas, e entender a simplicidade funda destas últimas aspas de Rilke que vos trago:"De resto, deixe a vida acontecer. Acredite em mim: a vida tem razão, em todos os casos."

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Ressaca

(ou reflexões pós-carnaval)


Está lá, ou pelo menos estava há séculos antes de Cristo, nas paredes do Templo de Apolo, em Delphos, na Grécia, a frase: "Nada em Excesso". Talvez esse seja um dos registros mais antigos dos efeitos de uma ressaca no homem. Imagino aquele grego, acordando no dia seguinte da esbornia, cheio do mal estar e, através da filosofia – super novidade da época , chegou a esta magnífica conclusão de que o excesso não tá com nada. Resolveu gravar a conclusão na parede do templo de Delphos pra alertar os convivas, já que aquele era um dos lugares mais movimentados da região.

Ao lado desta salutar máxima está uma outra, que ficou mais famosa ainda, pois foi citada por Sócrates, Krishna, Jesus Cristo, outros avatares cósmicos e, também, por filósofos mais recentes : "Conhece-te a ti mesmo". Na realidade a frase completa é "Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo". Mesmo resumido, o enunciado se mantém forte através dos tempos e há muitos motivos para desconfiar que o "conhece-te a ti mesmo", apesar de ser a mais famosa das frases de Delphos, se originou de desdobramentos filosóficos do "nada em excesso", ou seja, da ressaca.

Logo após descobrir que excessos não são bons pra vida, nosso amigo grego deve ter pensado: "mas como vou saber se é excesso ou não? A medida do excesso para um gigante seria o mesmo para um homem normal? O excesso para um homem seria o mesmo para uma mulher?". Sabendo o óbvio de que cada um é cada um, chegou facilmente na conclusão de que só vai perceber o excesso quem se conhecer bem. Pronto! O Templo de Apolo ganhou mais uma anotação nas suas paredes.

Pelo jeito que levamos a vida parece que não, mas todo mundo sabe que a ressaca é causada por desequilíbrio fisiológico do corpo, ou seja, ingestão de toxinas, desidratação e outros desdobramentos físicos. E expandindo o mesmo conceito para além do físico, temos a "ressaca moral".

A ressaca física é de fácil diagnóstico e cura, há remédios e métodos que são tiro e queda na diminuição dos sintomas até que o próprio corpo se cure. Entretanto, contra a ressaca moral, ainda não inventaram nada muito eficiente. Mesmo com os ansiolíticos e antidepressivos, não existe cura efetiva, mas só o alívio dos sintomas, pois a causa da dor pode durar anos e, muitas vezes a vida toda se não houver uma mudança profunda no modo de vida do enfermo. Por isso muitos passam o toda a vida sedados das mais diversas formas, pois ao parar com o sedativo, a causa da dor moral continua lá e volta a doer. É mais difícil curar o espírito.

Perdemos o fio da meada. É evidente que não nos conhecemos bem e que o excesso é uma das únicas formas de felicidade que, erroneamente, supomos dispor. Guerreamos a vida toda para conquistar o excesso de conforto, de dinheiro, de comida, de experiências; mas só conseguimos a ausência de saúde, de dinheiro, de tempo, ausência de nós mesmos na nossa vida. Acho que é hora de voltarmos a pensar no assunto e voltarmos a saber quem realmente somos e tomar controle sobre nossos desejos e nossas atitudes, mirando um futuro realmente feliz, sem amanheceres insalubre, dolorosos e desidratados, física e espiritualmente.