sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Cuide-se, bem


Pelo Universo, transitam os corpos celestes, cada um em sua trajetória, sempre cíclica. Alguns ciclos pequenos, perceptíveis a nós, como o do nosso planeta em relação ao sol, de 365 dias; outros, de tão imensos, passam quase que desapercebidos, como o do Sistema Solar em relação ao centro da Via Láctea, que dura em torno de 25.600 anos. É imenso! E sua imensidão não significa aleatoriedade.

É nessa imensidão que temos uma infinitude de corpos seguindo o seu trajeto, circulando uns ao redor dos outros. Atraem-se, encontram-se, impulsionam-se, combatem-se, chocam-se, aglutinam-se, estabilizam-se, unem-se, repelem-se, distanciam-se, numa dança marcada pelo sutil e monumental ritmo cósmico.

Tanto lá quando cá. Essa dança se replica em tudo, desde a infinitude imensa do universo, até a infinitude minúscula do subatômico. Se repete em toda a natureza que nos cerca, em todo átomo. Em nós, em nossas células e suas organelas; e por nós, em nossas relações sociais e afetivas. Não poderia ser de outra forma, fomos feito à imagem e semelhança da Inteligência Cósmica. Somos e compomos o Cosmos.

E seguindo nossa trajetória, encontros e desencontros nos causam leves desvios, alguns impulsionam, outros freiam, alguns apenas passam, outros desestabilizam. Desviamos, evitamos, mas, mesmo com nossa força de vontade, livre arbítrio e consciência, não nos furtamos de participar dessa dança maior, não escapamos das forças que nos colocam sempre de volta à órbita da nossa própria vida.

E por não sermos corpos inanimados, nos afeiçoamos, nos vinculamos, de forma mais ou menos profunda, a cada outro corpo que nos compartilha da rota, seja por muito ou pouco tempo. Trocamos forças e influências, sempre levamos algo conosco e oferecemos do que temos.

Mas, também é da dança o desencontro, o despedir-se, o ausentar-se. Disse Vinícius, com a autoridade que a poesia lhe concedeu: "A vida é arte do encontro. Embora haja tanto desencontro pela vida". Para todo encontro, sempre haverá a hora de partir, seja pelas estradas que se separam ou, até mesmo pela vida que se acaba. E cabe a nós estarmos atentos e preparados, de nos despedirmos sempre deixando gravados, da forma mais evidente e indelével, o amor e a gratidão por tudo o que foi compartilhado.

Guilherme Arantes, na canção "Cuide-se bem", canta o que seja, talvez, uma das mais bonitas mensagens de conforto e carinho que se pode deixar a quem segue, distanciando-se da nossa rota, para seguir a sua própria:


Cuide-se bem!
Perigos há por toda a parte
E é bem delicado viver
De uma forma ou de outra
É uma arte, como tudo

Cuide-se bem!
Tem mil surpresas à espreita
Em cada esquina mal iluminada
Em cada rua estreita do mundo

Pra nunca perder esse riso largo
E essa simpatia estampada no rosto

Cuide-se bem!
Eu quero te ver com saúde
E sempre de bom humor
E de boa vontade com tudo


Mas, sem nos esquecermos que tudo é sempre cíclico, toda tristeza pelas despedidas deve se converter em esperança, pois, em algum momento, depois do tempo que for, um novo encontro acontecerá. E que, nessa hora, estejamos bem. Enquanto isso, bailemos!



terça-feira, 1 de novembro de 2016

Gratidão


Estas são duas versões gráficas, feitas por Fábio Lonardoni, para o meu poema Gratidão, constante no livro O Pretérito Presente no Subjetivo. São sutilmente diferentes na interpretação e, como não consigo decidir qual é a melhor, publiquei as duas que estão lindas.










sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Inspirações


Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

                                                (Emergência, de Mário Quintana)



Tenho me voltado à poesia como quem se volta para a luz do sol após dias nublados. Como quem persegue aquele mísero raio de luz que, tímida, mas heroicamente, escapa por entre as nuvens e atinge a terra úmida e fria, que até então mortificava corpos e almas, para nele se aquecer, respirar fundo e, de braços abertos, peito estufado, deixar-se aconchegar em todas as dimensões do ser.

Insisto no poema como fator conectante entre o humano e o infinito; como uma estrada para o Belo, entre o que humanamente idealizo e o que infinitamente é; percurso que, em sinuoso aclive, descortina cada vez mais amplas e completas paisagens a se descrever; como construção íntima; como jornada de purificação.

Salvo-me nos versos como um naufrago em tudo o que flutua; como no colo de uma mãe, ou no abraço de um pai; na mão amiga que guia; na palavra de consolo que acalma; na brisa que acaricia a face; na segurança da chuva que disfarça a lágrima e lava a alma.

Se na vida rimas ou não rimas, é opção que ela mesma traz, tanto faz. Mas o ritmo, esse sim, inevitável capataz, açoita quem destoa da cadência, sem não antes avisar. Mas por ser, também, amigo, premia sempre a quem souber dançar.

É por isso que a arte é necessária à vida, como a pausa à música e, ao texto, o ponto e a vírgula. É preciso despertar-se ao sensível, ao invisível, ao metafísico. Redescobrir o que não se vê, saber dizer o que não se diz, tocar o intangível. Reconectar-se com essa esfera sutil por onde comunicamos tanta coisa, mas que, num oceano de amor revolto, em meio a tantas e turbulentas ondas de rancor, as inúmeras marolas de carinho passam despercebidas.

Acalmemos os amores, meus amores. Controlemos os tsunamis da paixão, acabemos com os vendavais, os tremores e a gritaria. Atentemo-nos às leves marolas, à brisa carinhosa, aos suspiros pacíficos da paz que nos convida incansavelmente a comungá-la. Ela não está distante, ela fala baixo. Sejamos nós os poetas ou os poemas, os artífices ou a matéria-prima, inspiremo-nos! Ouçamos, em silêncio, o Universo a recitar-se amorosamente.

domingo, 23 de outubro de 2016

Rachmaninoff : Piano Concerto n.2 em Dó menor, Op.18


Após receber péssimas críticas ao o seu primeiro concerto, o russo Sergei Rachmaninoff (1873 - 1943) entra em uma profunda depressão e bloqueio criativo que duraram vários anos. Ao sair desse tenebroso ciclo, compõe essa excelente peça, que é o Concerto n.2 em Dó Menor que, inclusive, é dedicado ao médico Nikolai Dahl, figura importante na sua recuperação psicológica. Considerada uma de suas melhores e mais famosas peças, foi tão aclamada que colocou o compositor, finalmente, entre os grandes concertistas da história. 

O segundo movimento é uma das coisas mais lindas que já ouvi na vida. Imbatível, de tirar lágrimas e arrepiar até os mais embrutecidos, com um tema melancólico e leve, que começa na flauta, toma forma no clarinete e vai crescendo e respirando até contagiar toda a orquestra e cada célula de quem está ouvindo.

Na música, as tonalidades menores são consideradas tristes, enquanto as tonalidades maiores são consideradas felizes, ensolaradas. Então, também é muito simbólico o concerto ter sido escrito em Dó menor. Mas, o mais bonito de tudo, é que o concerto começa em Dó menor e termina em Dó maior, como se simbolizasse, no desenvolver da peça, a luta e a vitória do compositor sobre a sua depressão.

Nas primeiras apresentações desse concerto, entre 1900 e 1901, o próprio Rachmaninoff foi o solista, ao piano. Nesse vídeo podemos ver a destreza e a maravilhosa interpretação da Anna Fedorova, ao piano, com a Filarmônica do Noroeste Alemão (Nordwestdeutsche Philharmonie), com regência de Martin Panteleev.


Sério... durante o segundo movimento, separe um lenço.





sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Amor pelas paredes

Tarde da noite, voltando pra casa, cansado por um dia inteiro de trabalho, deparei-me com esse soneto em uma das paredes do metro Vila Madalena, aqui em São Paulo. Ele é nomeado pelo seu primeiro verso, pois o seu criador, o grande Luís Vaz de Camões (1524 - 1580), não colocava título em seus sonetos.


Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, é tudo vosso,
E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.


Depois de alguns minutos de maravilhamento, percebi que, sem mencionar sequer uma vez a palavra amor, Camões descreve o que seria o tipo de amor mais bonito, que poucos acreditam existir e, até mesmo, se aventurar a experimentar. É um patamar do sentimento quando ele subsiste por si, se retroalimenta, que é seu próprio motivo e finalidade. Amor que se dá pelo simples motivo de que se dar amor é bom, por isso não depende de qualquer tipo de retribuição, presente ou futura, de quem quer que seja.

Desvinculado de qualquer motivação externa a si mesmo, esse tipo de amor sobreviveria ao tempo, à inevitável hora quando a jovem e bela companhia se transformar no velho e retorcido transtorno; permitiria, mesmo ausente o companheiro, estar presente o carinho, a lealdade e a fidelidade; e, destituída a posse doentia, inexistiria o ciúmes venenoso.

Este deveria ser, e talvez seja, o amor ao qual todos deveríamos buscar. Esse que, quanto mais se dá, mais se quer dar, como se vertesse de uma fonte infinita. É claro que nessa busca é preciso atenção e coragem. Sentimentos e necessidades psicológicas e físicas podem nos enganar, e nos levar a perceber, tarde demais, pelas dores, que o que achávamos amor não era nada além de tesão e vaidades, que os amores eram, na verdade troféus. Para que isso não aconteça, sugere-se sempre, antes de tudo, conhecer-se e saber sobre o que se passa dentro de si, o que se deseja da vida. Nada mais do que o exercício básico de um viver consciente.

Mas, independente dos riscos que corremos, das maldades do mundo, e da inevitabilidade dos tropeços, a mensagem primordial que me tocou fundo o coração através do soneto de Camões, é que ser amado é secundário, é resultado. O que não se pode, nunca, de forma alguma, por motivo algum, é ter medo de amar.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Comentário sobre o poema Caro Data Vermibus


Este é um poema que gosto muito. Primeiro, por ser bonito; segundo, pela sua feitura ter sido um processo longo. Finalizá-lo foi uma alegria imensa.

Da sua concepção, num papel rascunho do "Ministério Público do Paraná, em 2001, ao seu fechamento, para o livro, em 2013, descontados uns prováveis e não mais do que 4 anos de gaveta, foi quase uma década. Sim, talvez o poema mais demorado que já fiz. Mas foi realmente preciso vivenciar muitas coisas para condensar as idéias e imagens que ele me pedia. Foram anos de tentativas e retomadas e desistências na lida com estes versos.

É um poema que retrata um amadurecimento: do desespero do jovem desiludido ao racionalismo do quase adulto, ainda desiludido, mas um tanto mais forte.

Quase 10 anos em 14 versos. Até eu mesmo fico espantado!

Aproveite e leia o poema: Caro Data Vermibus

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A vida como obra de arte


No recém formado Estado Alemão, oficialmente unificado em 1871, surgiu a necessidade de se criar uma cultura em comum para que houvesse uma ligação cultural entre todos os territórios e, assim, surgisse o sentimento de nação entre todos. Para esse esforço se colocaram ao trabalho grandes intelectuais e artistas alemães, dentre eles, Friedrich Nietzsche e Richard Wagner.

Apesar da imagem de velho ranzinza que criaram de Nietzsche, havia na sua filosofia essa busca pela perfeição do homem e das ideias, de equalizar o que se pensa com o que se faz. Nada de novo! Afinal, desde que a humanidade descobriu o pensamento que se busca esse caminho para uma vida mais confortável e justa, mais perfeita o possível. E, para Nietzsche, essa busca pela perfeição da vida, era a mesma busca do artista. O que Wagner fazia na arte, tentando criar a arte completa, onde música, teatro, literatura e o que mais existisse, pudessem, unidos, se potencializar, criando uma forma de arte perfeita e potente, era o que todos deveriam fazer na vida, através do pensamento, unificar e dar coerência às ideias e atitudes, transformar o homem comum no Além-Homem, ou Super-Homem (Übermensch), perfeito e potente, como deveria ser a Nação Alemã.

Apesar de controversos os conceito do belo e do perfeito, podemos senti-los em intuições, na alma ou no subconsciente, quem sabe até mesmo no inconsciente. Por mais que busquemos realizar estes sentimentos e intuições, jamais conseguimos reproduzi-los na matéria que manipulamos, pois o perfeito e o belo são intangíveis. E a beleza dessa busca está justamente nessa intangibilidade, na impossibilidade de se materializar o objetivo, pois o esforço nunca termina, há sempre algo mais a melhorar.

Nietzsche, o velho ranzinza, se iguala, então, aos poetas como Neruda, Rimbaud, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e, também, aos profetas, como Confúcio, Lao Zi, Buda, Jesus Cristo (que ele tanto combatia) na campanha por essa busca do melhorar-se e melhorar o mundo e, como ele mesmo disse, de considerar a "vida como obra de arte". 

Como não lhe dar razão? O processo da arte é um eterno revisar, aparar de arestas, repensar e refazer. Transpor isso para a vida é maravilhoso, dá ânimo. Considerar a vida como uma obra de arte à caminho do belo, eternamente a se melhorar, em busca da atitude perfeita no melhor lugar, feito palavras de um poema, ou cores e curvas mais bem distribuídas, feito em escultura ou pintura, ou ainda cuidar atentamente da nossa história, como as narrativa em literatura.

Construir a vida como uma obra de arte nos coloca em uma relação mais atenta e amorosa com a nossa existência e escolhas. Além de que entender do nosso processo, das dificuldades que temos, nos coloca atentos às dificuldades que os outros também têm. Atenção à nós e empatia com o próximo. Quem diria que um conceito tão bonito pudesse vir de Friedrich Nietzsche?