sexta-feira, 10 de março de 2017

Resistência

Resistência é a característica de quem resiste. Vem do Latim resistentia que, por sua vez, se origina do verbo, também latino resistere, formado pelo prefixo re (para trás, contra) somado ao radical sistere (ficar firme, manter posição). Portanto, resistir, o verbo de quem oferece resistência, significa: "conservar-se firme; não sucumbir, não ceder".

Longe de ser algo ruim, a resistência é parte fundamental de qualquer processo. A resistência das pedras, das irregularidades do solo e demais obstáculos criam as ondas dos rios e mares, que ajudam na oxigenação da água. Graças à resistência do ar é que temos as ondas sonoras, que me permite estar ouvindo, enquanto escrevo, essa coisa linda que é o Improviso n.3, do Franz Schubert. E, no plano das ideias, é graças às resistências ideológicas que concebemos ideias melhores. Enfim, resistir é dar cores, sons e velocidades diferentes ao mundo, enriquecendo a existência.

Mas vale observar que resistir não é atacar, é permanecer forte e convicto perante a força contrária. E a sabedoria da resistência está na resiliência, outra palavra originada no Latim, pela soma, do nosso já conhecido prefixo re com salire (pular), significando "pular de volta, ricochetear". E foi na física que encontrei o melhor conceito de resiliência: "propriedade do material de retornar à forma ou posição original uma vez cessada a tensão sobre o mesmo".

Por séculos, muitos disseram, e muitos ainda dizem, que resiliência é coisa para fracos. Entretanto, conhecendo melhor o significado das palavras, a lógica nos mostra que, o nosso conceito de forte está equivocado, pois a questão não é simplesmente aguentar um golpe, mas, sim, suportar uma infinidade deles e continuar em pé, e se restabelecer por completo. Como num exemplo muito utilizado pelos orientais: uma vara de bambu, fina e delicada, por se balançar a cada brisa é julgada, por muitos, como mais fraca do que uma frondosa árvore de largo tronco, que permanece sempre firme, imóvel. Mas é o bambu, com sua delicadeza e maleabilidade que sobreviverá às grandes tempestades, pois se adapta à força do golpe até conseguir restabelecer-se na posição original; ao contrário da "forte" árvore que, por não saber curvar-se, desviar, adaptar-se, extenuada, inevitavelmente virá ao chão.

Ataque gera contra ataque, numa guerra que só termina quando uma das partes for eliminada. A resistência sábia, através da resiliência, geram adaptação, elevando os lados conflitantes a novos patamares, e mesmo que sejam, ainda, conflituosos, serão níveis mais elevados de contenda.

O importante aqui é observar que o movimento que fazemos contra o que nos incomoda não precisa ser duro, belicoso, inflexível, pois esse tipo de movimento, como comprova a física e a vida, só termina com a eliminação dolorosa de um dos oponentes. Entretanto, resistir resilientemente, com flexibilidade e paciência, tomando ações firmes quando necessário, mas inteligentes e suaves sempre, nenhum dos oponentes será eliminado, mas ambos se adaptarão ao convívio, se complementando e se auxiliando nesse processo inevitável, irresistível.

domingo, 5 de março de 2017

Sideral


Por não mais ir amar-te
Fiquei, destarte, soturno
Sem brilho, sem vida, o só
Que sem rumos se enterra

Por tão triste que isto seja
Ver-nos juntos, na memória, ainda dói
Já optei pela distância
Me curo, assim, melhor

E sigo, mesmo com a alma urrando
Ainda que me faça chorar o céu noturno
Pois, enquanto busco outras estrelas,
Ofuscando a todos os corpos celestes, ainda vejo-a nua

sábado, 4 de março de 2017

Sonhava...

Sonhava...
Com ternura nos devorávamos
Em carícias desconcertantes
Entre gozos nos beijávamos
Ruidosos gemidos
Incontroláveis espasmos
Enganchavam-nos pele e pelos
E juras de eterno amor e zelo

Acordei esbaforido, em desespero...
Ai, meu deus, que pesadelo!

sexta-feira, 3 de março de 2017

Quitação


Pelas cobranças que me chegam
E os cobradores que se me mostram
Tenho certo: é alta a dívida!

Adquirida pelos séculos desregrados
Do viver desequilibrado
De paixões insubmetidas

Por isso o trabalho constante
Do muito dar sem nada em troca querer
Pois recebido, sei, já tenho bastante

A eterna moratória
Eterna misericórdia
Pelo eterno trabalho do amor e do perdão

É a paga jubilosa
Chance nova e grandiosa
Para todo coração


quarta-feira, 1 de março de 2017

Sobre compreender


"Os que envelhecem não compreendem o valor das ilusões que perderam; os jovens não dão valor à experiência que ainda não tem."


Em discurso na sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras, no dia 20 de Junho de 1897.




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Consciência limpa

Um sono e um despertar tranquilo é o resultado de uma série de pensamentos e atitudes positivas na vida. Quem não deve, não teme! Inclusive à própria consciência, o maior e pior carrasco que qualquer um de nós pode ter. Não gostaria de estar na pele de quem passa por cima das próprias verdades, das verdades da vida e das Leis, para conquistar um naco a mais de poder ou status, como andam fazendo a nossa classe política.

Se o que fazem não lhes gera problemas na consciência, é uma questão de tempo para que venham a tê-los pois, no mínimo, estão plantando, eu seus inconscientes, uma semente de sofrimento ou, no mínimo, de uma bela insônia. Por mais mal intencionados que sejamos, todos temos, no fundo de nosso ser, a noção do que é certo e o que errado. E a alma vai gritar e doer até que a ouçamos e mudemos nossas atitudes.

Combater e eliminar o que gera a culpa em nós mesmos é uma questão de esforço pessoal, de controle todo nosso. Faz tempo que não são mais segredos os benefícios do auto-conhecimento. Há tempos recebemos tais recomendações; há tempos yoguis, monges, filósofos, místicos, homens santo e comuns colocam-se em exílio do mundo para a meditação e melhoria de si.

Entretanto, mesmo saneado o nosso espírito, não há pessoa justa que permaneça em verdadeira paz quando olha para fora de si e vê o resto mundo longe de estar no mesmo processo. E isso também nos tira o sono.

Como expandir a paz interior que tenho e que me faz tão bem a todos aqueles que amo e ao ambiente que me cerca? Como fazer isso e não perder a calma que conquistei com tanto trabalho, ao me expor à essa enxurrada de golpes que o mundo diariamente nos aflige?

No livro "Vinha de Luz", no capítulo 86, Emmanuel, através de Chico Xavier dá a dica, citando Jesus Cristo: "Não andeis, pois, inquietos.” (Mateus, 6.31). E continua:


"Jesus não recomenda a indiferença ou a irresponsabilidade. O Mestre, que preconizou a oração e a vigilância, não aconselharia a despreocupação do discípulo ante o acervo do serviço a fazer. Pede apenas combate ao pessimismo crônico.
 ... 
Ainda nos defrontaremos, inúmeras vezes, com pântanos e desertos, espinheiros e animais daninhos. Urge, porém, renovar atitudes mentais na obra a que fomos chamados, aprendendo a confiar no Divino Poder que nos dirige.

Em todos os lugares, há derrotistas intransigentes. Sentem-se nas trevas, ainda mesmo quando o Sol figura no zênite. Enxergam baixeza nas criaturas mais dignas. Marcham atormentados por desconfianças atrozes. E, por suspeitarem de todos, acabam inabilitados para a colaboração produtiva em qualquer serviço nobre.

Aflitos e angustiados, desorientam-se a propósito de mínimos obstáculos, inquietam-se, com respeito a frivolidades de toda sorte e, se pudessem, pintariam o firmamento à cor negra para que a mente do próximo lhes partilhe a sombra interior."

Combatamos o pessimismo crônico! Não nos rendamos, muito menos sejamos os derrotistas de plantão. Unamo-nos e nos inspiremos uns aos outros com nossas boas atitudes. Desta forma, inspiraremos ao próximo com bons exemplo. Os bons não somos poucos, só precisamos deixar de ser tímidos.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

No Interior


Cheguei na beira do porto onde as ondas se 'espaia'
As 'garça' da meia-volta e senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia

Quando eu vim da minha terra, despedir da 'parentaia'
Eu entrei no Mato Grosso, bem em terras Paraguaias
Lá tinha revolução, enfrentei forte 'bataia' 

A tua saudade corta como aço de 'navaia' 
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia' 
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia' 


Cuitelinho é como se chama o Beija-flor em algumas partes do Brasil interiorano, e também é o nome dessa belíssima canção, composta por Bento Costa, em 1932. Dizem que ganhou notoriedade depois que Paulo Vanzolini, famoso biólogo e compositor (de "Ronda", "Volta Por Cima") a trouxe para os holofotes. Disse o próprio Vanzoline que, durante uma pescaria na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, seu amigo Antônio Xandó chamou sua atenção para a bela canção que um barqueiro cantava. Inspirado pelo primeiro verso que ouvira, compôs os outros dois. Do Bento Costa, pouco se sabe.

Não escondo o sentimentalismo, e fica cada vez mais evidente que a saudade é um dos meus temas favoritos. Na Cuitelinho as saudades vêm de um soldado brasileiro que abandona a família para ir lutar na gerra do Paraguai (1864-1870) ou, pelo menos, é o que se dá a entender.

No meio das saudades todas que ele carrega, surge o que, na minha opinião é a melhor descrição dos efeitos da saudade que já constou no cancioneiro popular brasileiro. Falo do terceiro verso, que repito aqui:

A tua saudade corta como aço de 'navaia'
O coração fica 'afrito', bate uma e a outra 'faia'
E o 'zoio' se enchem d'água que até a vista se 'atrapaia'

A beleza poética da imagem é imensa, mas é delicadamente escondida atrás da linguagem simples. Simples, como é simples sentir saudades; como é simples o personagem que entoa os versos. O dialeto caipira e, em algumas versões da música, o som choroso do ponteado da viola caipira, potencializam muito as emoções dos versos. A soma disso tudo me remete às minhas próprias saudades dos tempos passados no interior, nas casas e sítios da 'parentaia' do Norte Pioneiro do Paraná.

Me emociona, também, como graças à poesia e a cultura popular, conseguimos acessar esse microuniverso sentimental de um evento gigantesco que foi a gerra do Paraguai, considerada, inclusive, o maior conflito armado que já houve na América do Sul. Também foi o mais sangrento. Entretanto, no meio de tiros de canhão e gritaria, havia ali, num coração surpreendido pela batalha, decerto aflito, um santuário de calmaria e saudade, um relicário, um altarzinho aconchegando tudo aquilo que se ama.