sábado, 29 de julho de 2017

Mude!

Chega uma hora na vida de todos nós, quando o sofrimento é imenso; quando tudo parece não fazer mais sentido; quando reina na alma o sentimento de se estar perdido; quando o desconforto beira, ou até mesmo extrapola, o insuportável. Nessa hora é muito comum dizer que "a vida nos dá golpes fortes", como se ela fosse um tipo de entidade com vontade própria. Assim, usamos mais uma vez a nossa tradicional transferência de responsabilidades que deveriam ser nossas, mas legamos para a vida, para as pessoas, para as leis e, até mesmo para o clima.

Assim, nos enganando e falsamente isentos de responsabilidade, nos sentimos mais leves para continuar vivendo as mesmas ilusões, mantendo os mesmos comportamentos e nutrindo, inevitavelmente, os mesmos vícios até que se torne insuportável.

E é no insuportável que estamos chegando, mais uma vez, na história humana. O materialismo, relação primitiva que temos com as coisas já não é o suficiente para nos completar os anseios e nos dar o bem estar que procuramos, pelo contrário, atualmente só nos tem provocado o oposto: tristeza, dores, ansiedade, doenças psíquicas e físicas.

Tragédia atrás de tragédia. Mas todo sofrimento é um convite à mudança, insistir nos mesmos erros só perpetuará as dores. A ressaca vem para avisar que é pra beber menos da próxima vez; a gastrite vem pra avisar que é melhor comer menos e ficar menos nervoso. É nesta hora escura e difícil da existência, pela qual estamos passamos, que é preciso mudar a forma de agir e de pensar.

Enquanto for "a sociedade" que precisar mudar para o mundo melhorar, nada mudará. A sociedade não é ninguém, não é um ente que faz algo, ela não vai me ouvir, refletir e decidir se acata ou não o meu pedido. Quem muda e deve mudar sou eu. Sou eu que, mudando a mim mesmo, influencio os meus arredores e, após algum tempo, arrisco a perceber alguma mudança em maior escala.

Enquanto a mudança que desejo não acontecer, é sinal de que não mudei o suficiente ou não influenciei suficientemente os meus arredores. Então é preciso continuar o esforço, persistir infinitamente, até que o mundo se torne o bem que desejo, refletindo a mim o bem que eu faço a ele, conforme a Lei Universal que, invariavelmente e infelizmente, também vale para o mal. Portanto, vale sempre lembrar que o gatilho de qualquer mudança sou eu. E o mesmo se aplica a você. Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, já davam a dica: primeiro é "um por todos" para que, depois, possa haver o "todos por um".

E continuando entre as boas influências de grandes humanos que, no trabalho de evolução individual, mesmo em meio a tropeços e inúmeras dificuldades, o que certamente acontecerá com todos os que se dispuserem a viver melhor, tentaram sugerir caminhos e influenciar os seus arredores para o bem, lembrei da sugestão do Michael Jackson, na belíssima "Man in the Mirror" que, apesar de estar num disco de nome "BAD", tem uma mensagem muito bonita. Aqui vai um trecho:

Estou começando pelo cara do espelho
Estou pedindo para ele mudar suas maneiras
E nenhuma mensagem poderia ser mais clara:
Se você quer fazer do mundo um lugar melhor
Olhe-se a si mesmo e mude!
Mude!





sexta-feira, 28 de julho de 2017

Natureza Morta


Não suporto as questões do mundo!
E não me satisfazem todas as respostas
O peso que carrego são velharias rotas
Grilhões que me aprisionam rente ao fundo

Meus pés, tão podres, já não andam
E o corpo, apático, definha
O Espírito, triste, já não sonha
Satisfaz-se com o raso da rotina

Oh, imensa plantação de dores!
Inevitável que ceifemos dissabores...
E o que mais lançar à terra, então?
Se não há semente de mais nada em meu coração


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Falso soneto sobre verdades


Não sou eu quem descreve, sou tela
E mão oculta colore alguém em mim
Torna o canvas obscuro em fundo cor marfim
Que acolhe as tintas da auspiciosa tutela

Não sou eu quem verseja, sou nanquim
Sou tinteiro e pena nas mãos da poesia
Que, ao ferir, também anestesia
E deita poemas nos papéis de mim

São imensas as forças do universo
Transmutando o todo sideral
Na alquimia hermética inspiracional

Decantam imagens, sons e versos;
E da filosofia eterna, os aforismos
Sedimentos que preenchem meus abismos

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Refazendo as malas

Quem viaja bastante sabe como fazer as malas é chato e difícil. Mas, também, sabe que uma mala bem feita, a menor possível, pode transformar a viagem de inferno a paraíso. Na vida, que é viagem, tudo é bagagem.

Lembro-me da infância com doçura. Eu e muita gente, sem dúvidas. Posso até sentir novamente a leveza daqueles dias, certamente geradas pela presença poderosa e segura do meu pai e de minha mãe, infalíveis. Tudo era sempre mágico e interessante e a mochila das experiências começa a ser enchida.

Passos além, na juventude adolescente, ainda crianças e pensando já sermos adultos, nos afastamos  alguns mais, outros menos  da segurança parental, e os dias pareciam ser os mais pesados de toda história humana e para sempre. Os revezes nos alcançam e as soluções estão cada vez mais em nossas mãos ainda inabilidosas. Sofremos, mas agregamos algum conhecimento de vida circulando entre ideias, processos e pessoas, aumentando o conteúdo da nossa mochila de viagem.

E o tempo continua a correr, e nós a envelhecer, ou melhor, amadurecer. Ainda estou longe de vestir as chinelas da senilidade e me despedir dos últimos resquícios de vigor, mas daqui, mais de perto dos 40 do que dos 20, com alguma experiência de vida a mais e capacidade de observação, mesmo que inconsciente, as ideias mudaram (inclusive na grafia), assim também os paradigmas de tudo, ou quase tudo, como os de qualidade, de bom e mal, de saúde e doença, de necessário e desnecessário. A mochila está cheia de souveniers da vida, está imensa e pesada, nada fácil de carregá-la, ainda mais para alguém, que apesar de insistir no contrário, já não é mais tão jovem.

Apesar da imagem física do envelhecimento que utilizei, o tempo aqui discutido não é o cronológico nem o biológico, mas o que se desenvolve na consciência. E nessa escala de tempo, que varia em cada um de nós, chegam momentos, sempre oportunos, quer gostemos ou não, de selecionarmos o que levamos a frente e o que fica pelo caminho. Aprender a manter o essencial, e apenas ele, evita carregarmos peso demais, que nos vai atrapalhar durante a próxima fase da caminhada. Então, antes escolher, em tempo oportuno, com calma, o que levar consigo, do que ter que se desfazer de toda a imensa e pesada mochila no meio de uma difícil escalada.

Quanto compôs "Monte Castelo", Renato Russo utilizou o Soneto V, de Luís de Camões, e trechos da primeira carta de Paulo aos Corintios. Nesta carta de Paulo há um trecho, que não foi utilizado na canção, que pode sintetizar bem a ideia desse necessário amadurecer, da necessidade de selecionar melhor o que se leva adiante, e adaptar-se às novas realidades que se apresentam, minimizando sofrimentos e facilitando a peregrinação pela vida. E com ele terminamos: "Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança. (1 Corintios, 13:11)".


quinta-feira, 15 de junho de 2017

Documentário : Chasing Trane [2016, John Scheinfeld]




"O que você faz é o motivo para você estar aqui". Essa frase soou feito uma bomba, mais uma que o contato com a vida e obra de John Coltrane me trouxe. Não me lembro quem disse, acho que foi o Jimmy Heath, durante uma de suas falas no documentário Chasing Trane, de John Scheinfeld.

Documentário carinhosamente criado e montado, que explicita ainda mais o processo de vida e criação de John Coltrane, que se misturam. Na verdade, são a mesma coisa. Na vida e na obra, Trane usa a música como instrumento de transformação, de superação do humano, em busca do sublime, do inefável; reflete sobre a responsabilidade do artista sobre o que ele transmite.

Curando-se a si mesmo pela música, e dando vazão à voz de seu espírito sempre pacífico, saiu dos labirintos dos vícios ao infinito de possibilidades que uma consciência integral permite. Quis curar o mundo. Tanto que, mesmo chegando no ápice da integração entre música e sentimento, com sua obra prima "A Love Supreme" (1965), não se deu por satisfeito e foi além, dando passos que poucos, ou até mesmo ninguém foi capaz de seguir.




Na emoção do reencontro com esta figura tão elevada, recupero uma publicação antiga, mas que pode dar alguma dimensão, se é que isso é possível, à transcendência de John Coltrane. Elevem-se.



sexta-feira, 19 de maio de 2017

Sem festas, amigos! Ainda é preciso mais.

O movimento "Diretas Já", de 1984, apesar de ter sido a maior manifestação popular da história do Brasil, só não foi um fracasso completo porque gerou lideranças populares que conseguiram se articular politicamente e conquistar alguma representatividade na assembleia constituinte que geraria a Constituição Federal de 1988.

Sim, a PEC nº05/1983, que criaria as eleições diretas no Brasil, conhecida como Emenda Dante de Oliveira, mesmo com a massiva participação popular e com 84% de aprovação nas pesquisas de opinião, não foi aprovada; não passou nem na primeira votação na Câmara dos Deputados. Vale lembrar, também, que a maioria dos envolvidos na constituinte, os mais poderosos, ainda eram os mesmos de sempre, representantes do poder que já estava lá desde antes mesmo da fundação da República. E ainda são.

O ex-presidente Figueiredo, último dos militares, declarou posteriormente que o sistema militar estava insustentável e a única solução foi acabar com aquilo tudo. A nova constituinte chegou em boa hora. Numa grande encenação, mudariam o regime político, se garantiriam no poder, e ainda ganhariam aplausos do povo sempre desatento e deixado de lado. Sim, a ditadura militar acabou por que eles quiseram, para a sobrevivência deles mesmos.

Por isso, em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves, o grande articulador do desmonte do regime militar por ter acesso e diálogo com os dois lados do poder, foi eleito presidente do Brasil em eleições indiretas. Jamais deixariam que fosse diferente, era preciso alguém de confiança. Mas, acometido por grave doença "inoportuna", Tancredo foi o boi de piranha, faleceu antes de assumir o cargo, ficando para o seu vice, José Sarney, do, vejam só: PMDB.

Eleições diretas para presidente do Brasil só ocorreriam em 1989, após ser estabelecida na Constituição de 1988, e com as rédeas da carroça garantidamente nas mãos dos mesmos dirigentes de sempre. O vencedor desta foi Fernando Collor de Mello, com grande apoio popular em virtude da campanha contra "os Marajás" e a corrupção que fazia. Foi o boi de piranha da vez, atrairia votos e cairia, sofrendo impeachment, deixando a presidência para seu vice, Itamar Franco, do PMDB, é claro.

Semelhança com algum fato recente? É claro! A novela, o enredo, os personagens e problemas são os mesmos de sempre. Nós, o povo, é que não podemos mais ser os mesmos. O momento é delicado e, anotem: nos será oferecido um belíssimo teatro da democracia, muito em breve. Não podemos mais nos contentar com a encenação que sempre nos oferecem nessa hora. Devemos parar de gastar a nossa energia em lutas entre nós mesmos, isso cansa e enfraquece. Nossa energia e atenção deve ser canalizada para o acompanhamento minucioso e sério dos fatos que estão para se desenrolar na política nacional. Pedir "Diretas Já" é válido, mas é muito pouco. Ter eleições diretas é muito pouco. É preciso mais, é preciso usar o processo democrático de forma eficaz na renovação total dos agentes e dos valores políticos do Brasil. Atenção e serenidade é o que precisamos agora. A vida adulta da Nação se aproxima.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Do alto de nossas torres


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...


As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...



Nesta semana, por acaso, esbarrei nesta bela peça de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), conhecida desde minha já distante juventude. Ismália é um dos poemas mais emblemáticos da literatura brasileira e Alphonsus um grande nome da poesia nacional. Não pude, então, deixar de alimentar a minha antologia de poemas preferidos com ele, que já é o oitavo. Os outros todos estão aqui.

Apesar de ter vivido Afonso Henrique da Costa Guimarães, Juiz de Direito, com a esposa e os quinze filhos na, hoje calamitosa, cidade de Mariana (MG), carregava Alphonsus Guimaraens a alcunha de "o solitário de Mariana", dado a grande carga de solitude, tristeza e misticismo em seus versos, tanto que costumavam encomendar-lhe os epitáfios dos amigos. Tal discrepância entre a vida de Afonso e poesia de Alphonsus sugere, ou melhor, comprova que a persona do poeta não é a mesma do humano que a carrega.

O poema Ismália foi publicado no livro "Pastoral aos crentes do amor e da morte", póstumo, organizado por seu filho João Alphonsus e publicado pela editora Monteiro Lobato & Cia em 1923. Percebe-se, em seus versos, magicamente equilibrados a leveza da descrição com o peso da cena descrita. Ismália, louca, coloca-se no alto da torre, símbolo de inflexibilidade e arrogância, e sofre com a dúvida entre os tantos quereres; entre a real, mas intocável lua do céu, e a ilusória, e também intocável, lua refletida no mar; entre o possível e o impossível. Sofre tanto, tão imensamente, mas prefere abster-se da necessária escolha e, na tentativa de ter tudo sem desfazer-se de nada, põe fim à própria vida.

É interessante ver que, por causa da tamanha leveza com a qual foram construídos os versos, pela genialidade do poeta, a agonia da personagem jamais será alcançada completamente pelo leitor. Ao final do poema é difícil ficar tão pesaroso com o corpo que jaz no mar, pois o alívio com a alma que sobe ao céu é inevitável. Parece-me que, mesmo quando o corpo escolhe mal, preferindo o ilusório, a alma sabe fazer a melhor escolha, sabe onde está a verdade.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Não nos desanimemos

Conversando entre amigos, um deles disse que estava preocupadíssimo com o futuro e sem esperanças de melhoria da situação pela qual passamos. Tudo parece indicar que a humanidade saiu dos trilhos para nunca mais voltar e está em vias de acidentar-se fatalmente. E, triste, acrescentou que esses pensamentos o estavam minando sua fé, o fazendo se sentir de mãos atadas, desanimado, cansado, já que os esforços que vem fazendo parecem não surtir efeito na escala em que deveriam, afinal, é a humanidade toda pra se mudar, e o tempo pra que isso aconteça antes de um cataclismo, uma grande guerra ou coisa pior, parece bastante curto.

Foi quando uma amiga interveio e, diferente das respostas espiritualistas que costumamos ter na ponta da língua nessas hora, apresentou uma solução bastante pragmática. Disse ela: "Eu também já passei por isso, mas um amigo me ensinou algo que me ajudou a vencer esse sentimento ruim, essa tristeza que olhar o mundo tem nos causado. Ele me sugeriu, nessas horas, descobrir o meu "raio de ação".

E continuou: "Pra todo problema que você enfrentar, a primeira coisa é perceber até onde as suas mãos alcançam e o quanto seu braço aguenta, ou seja, o tamanho do seu raio de ação, até onde você consegue interferir no mundo. Dando preferência para as coisas próximas e conhecidas, é mais provável que elas respondam melhor às suas ações, e são mais fáceis de observar, passando a sensação de que algo está mudando. É mais eficiente do que esperar alguma coisa do outro lado do mundo perceber o seu movimento e correspondê-lo."

Na hora me lembrei do filme "A Corrente do Bem" (Pay It Forward; 2000), cuja ideia principal é basicamente a mesma sugerida pela minha amiga: faz-se algo bom para quem está próximo de você e esta pessoa faz o mesmo com quem estiver próximo dela, e assim adiante, até que, tempos depois, um maior número de pessoas estarão participado de um ciclo virtuoso de bem-fazer e bem viver.

Não é nada nova e muitos ainda dizem ser utopia, mas eu acho a ideia bastante plausível e inspiradora. E que, se fosse realmente praticada pela parte significativa de pessoas que assistiram ao filme e se sentiram tocadas, o mundo já estaria colhendo melhores resultados do que aqueles que deprimem o meu amigo e um grande número de pessoas.

Então, não é preciso imensas elocubrações filosóficas para entender a moral cósmica; não é preciso criar grandes planos de alcance mundial, movimentando as pesadíssimas engrenagens do mundo sozinhos. É gasto energético desnecessário, ficaremos cansados antes do tempo. 

Preocupar-se com o futuro é importante, mas ele é resultado do presente. Dividindo as responsabilidades entre todos, ninguém fica sobrecarregado, facilitamos o trabalho e diminuímos o peso, principalmente na consciência, dando o exemplo a quem pode nos ver e seguir. As pequenas atitudes, com seus resultados facilmente visíveis e palpáveis, além de cansar menos, nos animam a continuar agindo. Por isso não há motivos para desânimo. A solução está mais perto do que pensamos. Façamos!