sexta-feira, 25 de março de 2016

Libertação

Após milênios de experiência humana, todos concordam que precisamos nos libertar dos grilhões que nos prendem a uma vida de sofrimento e frustrações. Características tão humanas como o orgulho, a vaidade, os vícios, o materialismo exagerado sempre foram chamadas ao expurgo, no difícil sacrifício de si mesmo, em nome do qual conquistaríamos a verdadeira paz interior, e uma vida exterior mais tranquila e leve, através do tal religare, palavra latina, origem do termo Religião, que significa religamento. Com Deus, o Cosmo, a Natureza... você escolhe. Tal conceito também está no Budismo, em outras religiosidades e demais áreas do pensamento humano, desde sempre, muito antes dos filósofos, cientistas, psicanalistas e tantos outros, já procurávamos essa conexão.

Nos Vedas hindus, a literatura espiritual mais antiga da qual se tem notícias, já existia o convite ao sacrifício de elementos amados, mas que nos fazem mal. No poema épico Bhagavad Gita, o Príncipe Arjuna enfrenta uma batalha contra sua família, que tenta derrubá-lo do poder. Aconselhado por Krishna entende que seria impossível lutar contra tantos que ama e que fazem parte do que ele é, sem sofrer; mas os sacrifícios eram necessários para seu crescimento e paz interior. É fácil tomar a família de Arjuna como simbolo dos seus sentimentos, da sua pluralidade interior, contra a qual ele tem que lutar e domar para evoluir.

A Páscoa Hebraica remonta à noite na qual o povo hebreu é libertado da escravidão do Egito. Como muito do antigo testamento, a passagem é cheia de símbolos que também nos dizem : para deixar a vida sofrida de escravidão, muitas vezes devemos sacrificar o que amamos. Simbolo maior, o cordeiro que se sacrificava para a refeição, convivia durante alguns dias junto com a família que, inevitavelmente criava afeição pelo bichinho, assim seu sacrifício e consumo, era uma experiência dolorosa, já antevendo as dores que todos passariam para se libertarem da pior escravidão de todas, a escravidão de si mesmos.

A morte e a ressurreição de Jesus Cristo, ocorridas durante as festividades pascais hebraicas, motivam a Páscoa Cristã. Os mesmos símbolos, mas, desta vez, chamando a atenção para que o sacrifício passasse de exterior para interior, Jesus se coloca como o próprio cordeiro a ser sacrificado. Imagino que, após trinta e tantos anos de convívio, muitos também se afeiçoaram a Ele que sacrificou seu corpo machucado, quase desfigurado pelo ódio, vaidade e orgulho – dos outros – para conquistar um corpo renovado, mais próximo do divino. 

Jesus usou a Páscoa para reforçar um símbolo antigo e constante na humanidade: é inevitável evoluir, e evoluir é sacrificar-se. Mostrou na carne o que deveríamos fazer em espírito. Portanto, neste fim de semana, independente da confissão religiosa, ou não, que tenhamos, reflitamos sobre como sacrificar os velhos costumes, a velha vida de escravidão à qual estamos apegados. Pois, não é novidade, vai doer, mas só assim viveremos a tão sonhada paz dos verdadeiros libertos.

Um comentário:

Erika disse...

Evoluindo a cada dia...parabéns! Boas leituras e reflexões!
Beijos