terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O Covarde

Curtia o barulho da rua. Observava interessado o ir e vir caótico dos passantes, cada um em seu pequeno mundo particular. O chão, ainda molhado da rápida chuva de verão que a pouco havia caído, evaporava num hálito úmido e quente que envolvia minhas canelas. E, definitivamente, adorava aquele cheiro de rua rarefeita. Era ótimo participar, mesmo que só observando, daquela agitação toda.

Ao mesmo tempo em que me maravilhava, mirava aquele sujeito magrelo, sujo e descabelado, que pelo jeito não teve onde abrigar-se na hora da chuva. O cheiro incômodo de cachorro molhado me golpeou as narinas. 

Não era só o cheiro, era mesmo um cachorro molhado. Um igual. Igual? Nesse momento senti um golpe no pescoço, puxavam minha coleira. A voz de comando de minha jovem dona - “Vem, Tobias!” - me resgatou da divagação. Içado ao colo e embarcado no carro, só me restava olhar pela janela do veículo que rumava para casa. E dei graças a isso. 

No caminho, enquanto o vento me refrescava a fuça, agradeci pelos breves momentos encoleirados de liberdade que tinha. 

[originalmente em Culturanja, ano 01, #1 - Março 2008]

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Álbum : The Sot Bulletin [1999, The Flaming Lips]


Steven Drozd, Wayne Coyne e Michael Ivins.
Juntos eles são os Lábios Flamejantes!

Medo e superação, estes são os temas centrais de “The Soft Bulletin”, um álbum com mensagens densas e sonoridade rica, porém leve e aconchegante. Essa grande experiência sonora foi lançada em 1999 pelo Flamig Lips.

A banda iniciou suas atividades na cidade norte-americana de Oklahoma em 1983. Gravou diversos discos, participou de trilhas sonoras de filmes como Batman Forever, Austin Powers, Como Se Fosse a Primeira Vez e Spider-Man 3. Hoje, formada por Wayne Coyne (vocais, guitarra, teclados e theremin), Michael Ivins (baixo, guitarra, teclado e vocais) e Steven Drozd (guitarra, bateria, percussão, teclados e vocais) conta, nas apresentações ao vivo, com a ajuda de Kliph Scurlock na bateria e percussão. Por serem uma banda de multi-instrumentistas, a grande diversão do Flamming Lips é pilotar o estúdio, criando discos ousados, com uma sonoridade que se renova a cada álbum, muitas vezes ousados, como o “Zaireeka” de 1997, que consistia em quatro CD’s a serem tocados simultaneamente.

Após a aparentemente insuperável loucura do “Zaireeka”, Wayne Coyne, o frontman e principal compositor da banda, durante uma caminhada no silêncio da noite, resolve criar um álbum mais palatável, porém, sem perder a identitade sonora e psicológicamente complexa tão característica dos Flaming Lips. Nasce então esse “Dark Side of The Moon” dos anos 90. E a banda se supera novamente.

Todo o álbum gira em torno de experimentações sonoras, a marca registrada da banda, porém, no “The Soft Bulletin” elas estão mais contidas, pois a idéia agora é a de como fazer o sentimento da canção atingir o ouvinte sem que a mensagem se perca dentro da profusão de sons, muitas vezes caóticos. E conseguiram, com belas canções aliadas ao ótimo trabalho de produção e timbragem dos instrumentos, fizeram deste álbum um marco na carreira dos “Lips”. Há, inclusive, como é praxe para a banda, várias versões para este álbum, até mesmo uma mixagem em 5.1, que deve ser uma viagem linda.


Capa do Soft Bulletin.

A animada “The Race For The Prize”, magnífica faixa de abertura, conta a história de dois cientistas bastante dedicados ao trabalho de encontrar a cura para uma doença, podendo assim salvar o mundo. Mas até que ponto vale tanto esforço? Será que conseguirão manter seus afazeres da vida cotidiana enfrentando tamanha pressão e expectativas, correndo até mesmo risco de vida? Afinal de contas, como diz a canção, “eles são apenas humanos, com esposa e filhos”.

Nas demais faixas do álbum, os temas variam de outras epopéias científicas (A Spoonful Wheighs A Ton); auto-conhecimento (A Spark That Bleed); e como sua vida influencia a de outras pessoas (The Spiderbite Song). Quando o assunto são as reações humanas ao amor (Buggin’) chegam a questionar a hipótese – obviamente não comprovada – de que a reação química cerebral que nos permite apaixonar é a mesma que ocasionou o Big Bang (What’s The Light).

E as observações sobre a experiência humana não para por aí: a rapidez na qual o tempo passa e transforma o presente em passado, a maravilha de observar essa vida tão volátil e entender suas sutilezas (Suddenly Everything Has Changed). Seria a luta pela sanidade a batalha de nossas vidas? (The Gash). O medo, a fuga e a necessidade da morte e do amor, aparecem vestidos numa atmosfera tranqüila e colorida na indefectível "Feeling Yourself Disintegrate", possivelmente é assim que estes sentimentos se mostrariam para nós ao atingimos a plenitude na vida e começarmos a rumar para o inevitável fim. Do álbum e da vida.

A oitava faixa, “Waiting’ for the Superman (Is it gettin’ heavy???)”, merece destaque. É a melhor mensagem de “agüente as pontas” que eu já ouvi. O timbre encorpado da bateria, que já impressiona durante todo o álbum, ganha um bumbo profundo, que vibra surdo como um coração. Aliando essa bateria com um vocal melancólico, com um arranjo de cordas flutuante, com um piano triste e alguns sinos, cria-se o ambiente perfeito para o apelo do refrão:

“Tell everybody waitin' for Superman
 That they should try to hold on the best they can
 He hasn't dropped them, forgot them, or anything
 It's just too heavy for Superman to lift.”

Portanto, cada pessoa que cuide de si da melhor forma possível, pois o “Superman”, que sempre nos tirou dos apuros, está um tanto mais ocupado hoje em dia. Vamos dar uma força ao moço?

Depois de tantos estímulos e mensagens, a instrumental "Sleeping On The Roof" (12ª faixa) é o momento de reflexão solitária que o álbum pede. Os ruídos noturnos e a música que os acompanha, remetem à idéia do título: observar a noite, do telhado de casa, sozinho com seus fantasmas e conclusões. Se você conseguir passar por este momento de auto-análise e manter sua sanidade intacta, terá se tornado uma pessoa melhor.

Já que tudo é cíclico na vida e a jornada do auto-conhecimento é eterna, as duas últimas faixas deste trabalho são remixes de “The Race For The Price” e “Waitin’ for a Superman”. Que tal, após terminar a jornada, olhar o mesmo mundo com outros olhos? E, quem sabe, recomeçar essa "corrida pelo prêmio", esse contínuo e valioso exercício de evoluir.

Aproveitem o embalo e vejam o belo clipe de “Waintin’ for a Superman”.




Tracklist
1. race for the prize
2. spoonful weighs a ton
3. spark that bled
4. slow motion
5. spiderbite song
6. buggin
7. what is the light
8. observer
9. waitin for a superman
10. suddenly everything has changed
11. the gash
12. feeling yourself disintegrate
13. sleeping on the roof
14. race for the prize [remix]
15. waiting for a superman [mokran remix]




Originalmente publicado no Culturanja de 25 de janeiro de 2008.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Livro : Moby Dick [1851, Herman Melville]

ou "As Aventuras de Herman, o Marinheiro".



Herman já tinha sido bancário, professor e fazendeiro, tudo para ajudar sua mãe e sete irmãos a não passarem muito aperto depois que o pai morreu. Um dia resolve ser marinheiro e, à bordo vários navios, vive muitas aventuras pelo oceano pacífico, participa de motins e chega até mesmo a viver alguns meses com a tribo de canibais Typee, das Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa. (um pouco mais sobre as Ilhas Marquesas)

Em 1844 abandona a vida de homem do mar. Casa-se, em 1847, com Elizabeth e aproveita a bagagem cheia de histórias para escrever alguns livros, que foram grandes sucessos na segunda metade dos anos de 1840, o que garantiu a Herman e sua família algum status e conforto.


As Ilhas Marquesas. Aí até eu, heim Herman!

Apesar de parecer, o Herman de quem falamos não é um personagem fictício, ele é o escritor norte-americano Herman Melville, que em 1851, escreveu Moby Dick, ou A Baleia. O livro, publicado em três fascículos, foi um fracasso na época e levou nosso amigo Herman ao ostracismo. Quando ele faleceu, em 28 de setembro de 1891, há exatos 117 anos atrás, o obituário do New York Times registrava o nome de Henry Melville e ninguém se importou, de tão apagada estava sua fama.

Entretanto, o maior fracasso de critica e público de Herman Melville é o livro pelo qual ele é mais lembrado hoje em dia. O romance Moby Dick conta a história do jovem Ismael que, decidido a trabalhar na marinha mercante embarca no Pequod, navio baleeiro do capitão Ahab e o desenrolar da história transforma o livro numa obra de arte, que eu, sem titubear, coloco entre os 10 melhores livros da minha lista pessoal.

Talvez as divagações de Ismael (personagem narrador do livro), as significações metafóricas de cada personagem e o viés psicológico que permeia todo o texto, tenham deixado o pessoal de 1851 – ainda não apresentado à Psicanálise, pois Freud nasceria apenas em 1856 – bastante entediado e por fora do assunto. O desinteresse causado pela distância entre a obra e o público pode explicar o grande fracasso, naquela época, de um livro tão interessante e tão bem escrito que é, nos dias de hoje, um marco na literatura ocidental.


Arte para a capa e contra-capa da primeira edição de Moby Dick.

A riqueza de detalhes sobre barcos, métodos de pesca de baleias e curiosidades marítimas em geral, escrito com total domínio de causa – já que, como dito antes, Melville passou anos de sua vida trabalhando na marinha mercante dos Estados Unidos –, somada com a atemporariedade do tema, cria uma relação de credibilidade entre o autor e o leitor, que se torna sedento por cada nova página de Moby Dick.

A vontade doente de vingança do Capitão Ahab; a tripulação alucinada que entra na onda do chefe, colocando em risco a própria vida; as opiniões de Ismael, que dentre todos é o mais bem nutrido de razão, tudo isso se apodera do leitor e o leva junto à caça daquele feroz diabo branco, que pode ser uma simples baleia albina, ou o símbolo das mais variadas obsessões humanas. E cabe ao leitor, munido da sua própria história de vida, decidir quem é  quem.





Originalmente publicado no Culturanja de 3 de outubro de 2008.