terça-feira, 18 de novembro de 2014

Publicando um livro : o caminho das pedras


Publiquei o meu primeiro livro no início do mês de outubro. Fiz de maneira independente e aproveitei para aprender o máximo possível sobre todas as etapas do processo que dá origem a este objeto pelo qual sou apaixonado: o livro. As etapas não são muitas e nem muito difíceis, mas demandam atenção e carinho, para que o livro, ao final, não seja só um compêndio de textos, mas também seja um objeto bonito e agradável de se manusear, otimizando a experiência do leitor.

Publicar um livro de forma independente não é novidade. Em 1918, Monteiro Lobato financiou do próprio bolso e publicou seu primeiro livro "Sacy Pererê - O resultado de um inquérito"; em 1930, Carlos Drummond Andrade segue a mesma técnica e publica o "Alguma Poesia"; até mesmo o ícone do rock, o americano Jim Morrison, em 1969 'dá a luz' aos dois volumes de poesia "The Lords / Notes on Vision" e "The New Creatures", de forma independente.

Havendo esse respaldo histórico todo, não tive motivos para ter medo e segui o meu projeto. Inclusive, gostei tanto da experiência e já estou iniciando os preparativos para uma próxima publicação. Em tempo, quero lembrar que publicar um livro de forma independente nem sempre significa publicá-lo sozinho. Considere uma equipe, mesmo que mínima, para opinar e, talvez, até mesmo colocar a mão na massa, diagramando, ilustrando, revisando, editando... Enfim, durante o seu processo, você sentirá onde precisará de ajuda. E não tenha dúvidas de que precisará.

Durante minha saga, que da seleção final dos poemas até a aprovação final da arte para a gráfica durou um ano completo, perguntei pra muitos amigos e pesquisei em vários tutoriais sobre como dar cada passo e, da mesma forma, depois do lançamento, muitos amigos vieram me perguntar sobre como eu fiz. Portanto, nada mais justo do que fazer esse texto, no qual explico passo a passo, de forma rápida (juro que tentei ser objetivo) o caminho das pedras para se publicar um livro.

Boa sorte a todos.


1. O Texto
Antes de tudo é necessário ter um texto finalizado e revisado. É importantíssimo que esse texto esteja revisado, e para tanto, sugiro que, além de você e um revisor oficial (alguém que realmente entenda do português), escolha uns outros dois ou três amigos que gostem de ler para opinar sobre o texto e também ajudar na revisão.

Nunca confie apenas nos seus olhos de águia (no meu caso então, de águia miope, pior ainda!), pois durante as centenas de vezes que você já releu o seu texto enquanto o estava escrevendo, o costume, o cansaço, a interferência do que está na sua cabeça sobre o que realmente está no papel, pode facilitar para que erros simples de português, pontuação, concordância, etc passem sem que você perceba. Além do que, uma outra pessoa lendo o texto, pode indicar partes dele que não estão transmitindo a mensagem da forma que você imaginou. Não seja preciosista, mude o que tiver que ser mudado, melhore o seu texto para que o leitor o aproveite melhor.


2. Registro na Biblioteca Nacional
Com o seu texto devidamente revisado, é só seguir as instruções que estão bem detalhadas no site da Biblioteca Nacional e registrá-lo como seu. Resumidamente são: pagar a Guia de Recolhimento da União (GRU); imprimir uma cópia do texto com todas as páginas numeradas, rubricadas pelo autor e com índice; providenciar fotocópia dos seus documentos pessoais e comprovante de endereço; preencher o formulário de registro de obra e enviar tudo isso para o Escritório da Biblioteca Nacional mais próximo de você. E lembre-se, mantenha sempre uma outra cópia dos seu texto com você, pois a Biblioteca Nacional retém e arquiva permanentemente a cópia que você enviou para eles. A confirmação de registro demora até 90 dias pra chegar, por correio, até você. Então, não se desespere.

Esse passo, apesar de não ser obrigatório, é altamente recomendado. Pois, mesmo sendo o registro do texto na Biblioteca Nacional mero indício de prova de propriedade intelectual, ou seja, pode ser questionada à qualquer momento, ele é um argumento a mais, uma prova da sua autoria, com fé pública, a ser usada em algum processo de plágio ou coisas do gênero.


3. Capa e Diagramação
Agora é a hora de deixar o seu livro bonito, criar uma capa bonita, criativa, convidativa e deixar o texto com uma cara boa, gostoso de se ler. Contrate alguém de bom gosto para diagramá-lo (no meu caso foi a Letícia Junqueira, designer e escritora), troque uma idéia sobre o conceito estético que você procura, sobre a sensação que você quer passar para o leitor. Caso você entenda do assunto, vai com fé e faça você mesmo, entretanto, recomendo ter sempre um time de opinadores, para sugerir algumas alterações e melhorias que você, fechado no seu próprio universo, certamente não iria perceber.

Sugiro a diagramção para os formatos digitais como e-Books: Kindle, Kobo, LEV, iBooks Apple Store, ou ainda algum mais genérico, como o E-pub, e até mesmo fazer uma versão em PDF, aproveitando a diagramação para o livro impresso. Para cada e-reader existe um estilo diferente de diagramação e publicação, com tutoriais específicos, mas é só visitar os links que coloquei ali em cima, se informar e mãos à obra! Quanto mais formatos, mais alcance terá a sua obra publicada.

Essa parte, provavelmente vai ser a mais demorada e trabalhosa. Não desanime.


4. ISBN e Prefíxo Editorial
O ISBN é um número mundial de identificação de livros. Ele é aquele código de barras que fica na contracapa e vai ajudar na hora de você colocá-lo à venda em qualquer livraria do mundo. Para pedir o ISBN você precisa de duas coisas: ter um prefixo editorial e ter a folha de rosto do livro.

O prefixo editorial é um número que identifica você (pessoa física ou jurídica) como um editor de livros, e é um dos custos mais altos dessa parte burocrática, mas você só o faz uma vez. Depois é só usá-lo para pedir o ISBN para suas outras obras, vinculando todas elas ao seu prefixo editorial.

Acessando site do ISBN, você poderá tirar mais dúvidas. Ao cadastrar o seu prefixo editorial, necessariamente terá que pedir um ISBN para o seu livro, gerar a GRU e pagá-la, senão o atendimento não será válido. Confira a tabela de preços do ISBN. Todo o atendimento é feito através de um formulário online, sem a necessidade de impressão ou envio de quaisquer documentos pelo correio. Você também pode escolher receber o ISBN no formato digital, em fotolito impresso ou nos dois. Aí vai depender do que o seu diagramador preferir.


5. Ficha Catalográfica
A ficha catalográfica é um descritivo que contém os dados bibliográficos da obra, que auxilia a sua identificação dentro de um acervo ou biblioteca. Eu (e pelo jeito muita gente) sempre achei que ela viria junto com o código de barras do ISBN. Mas, não, ela não vêm. A ficha catalográfica é feito por um bibliotecário devidamente cadastrado no CRB (Conselho Regional de Biblioteconomia) ou por alguma associação, como a Câmara Brasileira do Livro, que cobra um preço meio salgado pra fazer o serviço, por isso contratei a Janaína Ramos, bibliotecária, que confeccionou a minha ficha catalográfica por um preço muito mais justo.

O Bibliotecário irá pedir todos os dados técnicos da obra: nome da editora, nome do autor, local de publicação, numeração de páginas, dimensões físicas, primeiro capítulo, sumário, ISBN e etc. É por isso que é melhor pedir a ficha catalográfica quando a diagramação já estiver na reta final, para que se tenha a numeração correta das páginas, por exemplo.


6. Fechamento da Diagramação e Revisão Final
Depois dessa bela maratona burocrática, alguns bons merréis investidos, você está bem perto de publicar o seu livro. Agora que todos os elementos já estão em suas mãos, é só terminar a diagramação, dar a última revisão ortográfica (que nunca é demais), inserir uma página de créditos com o nome de todos que trabalharam nesta edição do livro, incluir a ficha catalográfica nessa página de créditos e aprovar a versão final da diagramação.


7. Impressão
Com a versão final da diagramação em mãos, você pode pedir orçamentos para diversas gráficas, negociando o tipo de papel pro miolo e pra capa e um monte de formas de impressão, encadernação e acabamento. Cada elemento pode baratear ou encarecer o livro, então tente equalizar as idéias do diagramador com as suas, peça dicas para o pessoal da gráfica e chegue num consenso sobre o melhor custo/benefício para você.


8. Lançamento, Divulgação e Vendas.
A emoção de ver os seus livros impressos, na sua frente, é indescritível. Aí você percebe que todo o esforço valeu muito a pena. Então agora que você tem a versão impressa e todas as versões digitais devidamente diagramadas e no gatilho, é hora de pensar num evento de lançamento bem bacana, convidando os amigos, jornalistas, agitadores culturais, publico em geral e demais pessoas interessadas em literatura da sua rede de conhecidos.

Faça um site, um blog ou uma página no facebook, ou todos eles. Monte um press release do seu livro, com texto explicativo, foto e alguma outra informação necessária e envie para a imprensa. Pense sobre onde ele estará a venda, se é no seu blog, na livraria, na loja de discos ou na padaria de um amigo seu ou em todos esses lugares ao mesmo tempo. Enfim, pense num jeito de espalhar a novidade para o maior número de pessoas possíveis e num jeito de receber os pagamentos e entregar o produto para os seus recém conquistados fãs.


9. Depósito Legal
Esse é o ultimo passo, mas não menos importante. É quando você faz com que seu livro exista oficialmente na Literatura Brasileira. Por lei, todos os que publicam um livro devem enviar um exemplar para a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, para que ele seja arquivado entre todas as obras publicadas no Brasil, ajudando, assim, a registrar a produção literária do nosso País. O não envio dessa cópia pode gerar uma multa de 10 vezes o valor de mercado da obra.

Você encontra as instruções para o Depósito Legal no site da Biblioteca Nacional. Você pode enviar, o exemplar por correio, direto ao Rio de Janeiro, ou ao Escritório da Biblioteca Nacional mais próximo de você.


10. Siga em frente!
Pronto! Com seu livro lançado e todo o sistema de atendimento e divulgação funcionando, é hora de preparar o próximo texto e começar tudo de novo. Afinal, a natureza e vida já provaram que as maiores e melhores colheitas são pra quem nunca para de plantar.

 Bem vindo à vida de escritor profissional!

Um comentário:

Anônimo disse...

Quanto folego!