terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Livro : Incidente em Antares [1971, Erico Veríssimo]


As famílias Campolargo e Vacariano lutam pelo domínio da pequena cidade de Antares, no Rio Grande do Sul, desde que foi fundada no quase imemorial passado dos pampas. Mas a situação política e social do Brasil inspiraram a classe operária a se rebelar contra a Burguesia local e declarar uma greve geral.

Para o azar de sete moradores da cidade: Quitéria Campolargo, a matriarca da cidade; Barcelona, o sapateiro anarquista; Cícero Branco, o poderoso advogado; João da Paz, jovem pacifista que foi torturado; o bêbado Pudim de Cachaça; o pianista suicida Menandro Olinda e a prostituta Erotildes, todos falecidos no mesmo dia, os coveiros da cidade também estão em greve e se aproveitam dos mortos insepultos para pressionar ainda mais os “donos da cidade”.

Apesar do desconforto, tudo correria normalmente se os sete mortos não resolvessem se levantar de seus caixões, deixados no portão do cemitério, e voltar à cidade para exigir um enterro descente e o descanso eterno. Aproveitando-se da liberdade que a morte lhes deu, se vingam dos desafetos e usam o coreto da cidade para revelar os podres dos cidadãos de Antares, de fatos políticos a aventuras sexuais e traições.

Esta história aconteceu em 1963, na fictícia cidade e Antares, local escolhido por Erico Veríssimo, para ser o cenário de seu livro “Incidente em Antares”. O livro já foi Mini-Série da Rede Globo em 1994, série que foi compilada num longa metragem que você pode assistir no final dessa resenha.

Erico Lopes Veríssimo, considerado um dos maiores romancistas do país, é pai do Luis Fernando Veríssimo, também famoso escritor brasileiro. Nascido em Cruz Alta, interior do Rio Grande do Sul, em 17 de dezembro de 1905, teve muitos empregos diferentes durante a juventude, até que em 1930 começa a publicar seus textos. Daí pra frente se dedica cada vez mais à literatura. De livros infantis à traduções de clássicos da literatura para o português; passando por coletâneas de contos seus, até ensinar literatura brasileira em Universidades Norte-Americanas, Erico sempre se mostrou apaixonado por seu trabalho, paixão que reflete diretamente na qualidade de seus textos e no capricho com o qual são feitos.



O Magnânimo Erico enquanto criava.

Em 1949 publica o primeiro volume da trilogia “O Tempo e o Vento”, um marco em sua carreira, considerado sua obra-prima. É uma trilogia com mais de 2.200 páginas, que consumiu quinze anos de trabalho. Esse ‘Senhor dos Anéis dos pampas’ conta a história do estado do Rio Grande do Sul de 1680 a 1945 (fim do Estado Novo), através da saga das famílias Terra e Cambará. É considerada a obra mais importante sobre o estado gaúcho e é dividida em três tomos: O Continente (1949), O Retrato (1951) e O Arquipélago (1962). Continuou produzindo muito e ganhando muitos prêmios nacionais e internacionais, mas em 28 de novembro de 1975, o escritor falece subitamente, deixando inacabada a segunda parte do segundo volume de suas memórias, além de esboços de um romance que se chamaria “A Hora do Sétimo Anjo”.

Incidente em Antares, publicado em 1971, foi o ultimo romance de Erico. Influenciado pelo ambiente criado pela ditadura que marcava o Brasil de Vargas, propõe uma crítica ao regime totalitário que valoriza a instituição em detrimento do homem. É sem dúvida um romance político, que narra a disputa pelo poder e critica a sociedade e seus conceitos de honra e exploração econômica.



Capa de uma edição antiga do Incidente em Antares.
Inclusive, foi essa que eu li.

O livro é dividido em duas partes. A primeira conta a história da fictícia cidade de Antares, desde os seus primeiros registros, quando ainda era apenas uma propriedade rural na margem esquerda do Rio Uruguai. A grande sacada desta parte do livro é a forma que o autor casa perfeitamente a evolução do “Povinho da Caveira” - que se tornará Antares - com a história real do Brasil e dos pampas, incluindo a presença de grandes autoridades políticas do pais na cidade. Aspectos geográficos, sócio-políticos, costumes e curiosidades, tudo está lá, o autor consegue trazer a fictícia Antares para a realidade de uma forma mágica.

A segunda  – e menor – parte do livro se chama “O Incidente” e ocupa, interessantemente, só o último terço do volume. É ela nela que está história dos mortos-vivos, iniciada no fatídico dia 13 de dezembro de 1963, sobre a qual comentei no começo desta resenha.

Sem dúvida alguma, é um livro delicioso, tradição da família Veríssimo. As duas partes são escrita com esmero e cuidado para que o leitor se mantenha atento, interessado e envolvido na narrativa. Para quem quiser algo mais, veja esse resumão do livro, mas eu recomendo firmemente a leitura da íntegra, é um prazer que você não pode negar a si mesmo.

E pra quem é cinéfilo, deixo aqui o longa-metragem feito à partir da mini-série Global:



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O Covarde

Curtia o barulho da rua. Observava interessado o ir e vir caótico dos passantes, cada um em seu pequeno mundo particular. O chão, ainda molhado da rápida chuva de verão que a pouco havia caído, evaporava num hálito úmido e quente que envolvia minhas canelas. E, definitivamente, adorava aquele cheiro de rua rarefeita. Era ótimo participar, mesmo que só observando, daquela agitação toda.

Ao mesmo tempo em que me maravilhava, mirava aquele sujeito magrelo, sujo e descabelado, que pelo jeito não teve onde abrigar-se na hora da chuva. O cheiro incômodo de cachorro molhado me golpeou as narinas. 

Não era só o cheiro, era mesmo um cachorro molhado. Um igual. Igual? Nesse momento senti um golpe no pescoço, puxavam minha coleira. A voz de comando de minha jovem dona - “Vem, Tobias!” - me resgatou da divagação. Içado ao colo e embarcado no carro, só me restava olhar pela janela do veículo que rumava para casa. E dei graças a isso. 

No caminho, enquanto o vento me refrescava a fuça, agradeci pelos breves momentos encoleirados de liberdade que tinha. 

[originalmente em Culturanja, ano 01, #1 - Março 2008]

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Álbum : The Sot Bulletin [1999, The Flaming Lips]


Steven Drozd, Wayne Coyne e Michael Ivins.
Juntos eles são os Lábios Flamejantes!

Medo e superação, estes são os temas centrais de “The Soft Bulletin”, um álbum com mensagens densas e sonoridade rica, porém leve e aconchegante. Essa grande experiência sonora foi lançada em 1999 pelo Flamig Lips.

A banda iniciou suas atividades na cidade norte-americana de Oklahoma em 1983. Gravou diversos discos, participou de trilhas sonoras de filmes como Batman Forever, Austin Powers, Como Se Fosse a Primeira Vez e Spider-Man 3. Hoje, formada por Wayne Coyne (vocais, guitarra, teclados e theremin), Michael Ivins (baixo, guitarra, teclado e vocais) e Steven Drozd (guitarra, bateria, percussão, teclados e vocais) conta, nas apresentações ao vivo, com a ajuda de Kliph Scurlock na bateria e percussão. Por serem uma banda de multi-instrumentistas, a grande diversão do Flamming Lips é pilotar o estúdio, criando discos ousados, com uma sonoridade que se renova a cada álbum, muitas vezes ousados, como o “Zaireeka” de 1997, que consistia em quatro CD’s a serem tocados simultaneamente.

Após a aparentemente insuperável loucura do “Zaireeka”, Wayne Coyne, o frontman e principal compositor da banda, durante uma caminhada no silêncio da noite, resolve criar um álbum mais palatável, porém, sem perder a identitade sonora e psicológicamente complexa tão característica dos Flaming Lips. Nasce então esse “Dark Side of The Moon” dos anos 90. E a banda se supera novamente.

Todo o álbum gira em torno de experimentações sonoras, a marca registrada da banda, porém, no “The Soft Bulletin” elas estão mais contidas, pois a idéia agora é a de como fazer o sentimento da canção atingir o ouvinte sem que a mensagem se perca dentro da profusão de sons, muitas vezes caóticos. E conseguiram, com belas canções aliadas ao ótimo trabalho de produção e timbragem dos instrumentos, fizeram deste álbum um marco na carreira dos “Lips”. Há, inclusive, como é praxe para a banda, várias versões para este álbum, até mesmo uma mixagem em 5.1, que deve ser uma viagem linda.


Capa do Soft Bulletin.

A animada “The Race For The Prize”, magnífica faixa de abertura, conta a história de dois cientistas bastante dedicados ao trabalho de encontrar a cura para uma doença, podendo assim salvar o mundo. Mas até que ponto vale tanto esforço? Será que conseguirão manter seus afazeres da vida cotidiana enfrentando tamanha pressão e expectativas, correndo até mesmo risco de vida? Afinal de contas, como diz a canção, “eles são apenas humanos, com esposa e filhos”.

Nas demais faixas do álbum, os temas variam de outras epopéias científicas (A Spoonful Wheighs A Ton); auto-conhecimento (A Spark That Bleed); e como sua vida influencia a de outras pessoas (The Spiderbite Song). Quando o assunto são as reações humanas ao amor (Buggin’) chegam a questionar a hipótese – obviamente não comprovada – de que a reação química cerebral que nos permite apaixonar é a mesma que ocasionou o Big Bang (What’s The Light).

E as observações sobre a experiência humana não para por aí: a rapidez na qual o tempo passa e transforma o presente em passado, a maravilha de observar essa vida tão volátil e entender suas sutilezas (Suddenly Everything Has Changed). Seria a luta pela sanidade a batalha de nossas vidas? (The Gash). O medo, a fuga e a necessidade da morte e do amor, aparecem vestidos numa atmosfera tranqüila e colorida na indefectível "Feeling Yourself Disintegrate", possivelmente é assim que estes sentimentos se mostrariam para nós ao atingimos a plenitude na vida e começarmos a rumar para o inevitável fim. Do álbum e da vida.

A oitava faixa, “Waiting’ for the Superman (Is it gettin’ heavy???)”, merece destaque. É a melhor mensagem de “agüente as pontas” que eu já ouvi. O timbre encorpado da bateria, que já impressiona durante todo o álbum, ganha um bumbo profundo, que vibra surdo como um coração. Aliando essa bateria com um vocal melancólico, com um arranjo de cordas flutuante, com um piano triste e alguns sinos, cria-se o ambiente perfeito para o apelo do refrão:

“Tell everybody waitin' for Superman
 That they should try to hold on the best they can
 He hasn't dropped them, forgot them, or anything
 It's just too heavy for Superman to lift.”

Portanto, cada pessoa que cuide de si da melhor forma possível, pois o “Superman”, que sempre nos tirou dos apuros, está um tanto mais ocupado hoje em dia. Vamos dar uma força ao moço?

Depois de tantos estímulos e mensagens, a instrumental "Sleeping On The Roof" (12ª faixa) é o momento de reflexão solitária que o álbum pede. Os ruídos noturnos e a música que os acompanha, remetem à idéia do título: observar a noite, do telhado de casa, sozinho com seus fantasmas e conclusões. Se você conseguir passar por este momento de auto-análise e manter sua sanidade intacta, terá se tornado uma pessoa melhor.

Já que tudo é cíclico na vida e a jornada do auto-conhecimento é eterna, as duas últimas faixas deste trabalho são remixes de “The Race For The Price” e “Waitin’ for a Superman”. Que tal, após terminar a jornada, olhar o mesmo mundo com outros olhos? E, quem sabe, recomeçar essa "corrida pelo prêmio", esse contínuo e valioso exercício de evoluir.

Aproveitem o embalo e vejam o belo clipe de “Waintin’ for a Superman”.




Tracklist
1. race for the prize
2. spoonful weighs a ton
3. spark that bled
4. slow motion
5. spiderbite song
6. buggin
7. what is the light
8. observer
9. waitin for a superman
10. suddenly everything has changed
11. the gash
12. feeling yourself disintegrate
13. sleeping on the roof
14. race for the prize [remix]
15. waiting for a superman [mokran remix]




Originalmente publicado no Culturanja de 25 de janeiro de 2008.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Livro : Moby Dick [1851, Herman Melville]

ou "As Aventuras de Herman, o Marinheiro".



Herman já tinha sido bancário, professor e fazendeiro, tudo para ajudar sua mãe e sete irmãos a não passarem muito aperto depois que o pai morreu. Um dia resolve ser marinheiro e, à bordo vários navios, vive muitas aventuras pelo oceano pacífico, participa de motins e chega até mesmo a viver alguns meses com a tribo de canibais Typee, das Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa. (um pouco mais sobre as Ilhas Marquesas)

Em 1844 abandona a vida de homem do mar. Casa-se, em 1847, com Elizabeth e aproveita a bagagem cheia de histórias para escrever alguns livros, que foram grandes sucessos na segunda metade dos anos de 1840, o que garantiu a Herman e sua família algum status e conforto.


As Ilhas Marquesas. Aí até eu, heim Herman!

Apesar de parecer, o Herman de quem falamos não é um personagem fictício, ele é o escritor norte-americano Herman Melville, que em 1851, escreveu Moby Dick, ou A Baleia. O livro, publicado em três fascículos, foi um fracasso na época e levou nosso amigo Herman ao ostracismo. Quando ele faleceu, em 28 de setembro de 1891, há exatos 117 anos atrás, o obituário do New York Times registrava o nome de Henry Melville e ninguém se importou, de tão apagada estava sua fama.

Entretanto, o maior fracasso de critica e público de Herman Melville é o livro pelo qual ele é mais lembrado hoje em dia. O romance Moby Dick conta a história do jovem Ismael que, decidido a trabalhar na marinha mercante embarca no Pequod, navio baleeiro do capitão Ahab e o desenrolar da história transforma o livro numa obra de arte, que eu, sem titubear, coloco entre os 10 melhores livros da minha lista pessoal.

Talvez as divagações de Ismael (personagem narrador do livro), as significações metafóricas de cada personagem e o viés psicológico que permeia todo o texto, tenham deixado o pessoal de 1851 – ainda não apresentado à Psicanálise, pois Freud nasceria apenas em 1856 – bastante entediado e por fora do assunto. O desinteresse causado pela distância entre a obra e o público pode explicar o grande fracasso, naquela época, de um livro tão interessante e tão bem escrito que é, nos dias de hoje, um marco na literatura ocidental.


Arte para a capa e contra-capa da primeira edição de Moby Dick.

A riqueza de detalhes sobre barcos, métodos de pesca de baleias e curiosidades marítimas em geral, escrito com total domínio de causa – já que, como dito antes, Melville passou anos de sua vida trabalhando na marinha mercante dos Estados Unidos –, somada com a atemporariedade do tema, cria uma relação de credibilidade entre o autor e o leitor, que se torna sedento por cada nova página de Moby Dick.

A vontade doente de vingança do Capitão Ahab; a tripulação alucinada que entra na onda do chefe, colocando em risco a própria vida; as opiniões de Ismael, que dentre todos é o mais bem nutrido de razão, tudo isso se apodera do leitor e o leva junto à caça daquele feroz diabo branco, que pode ser uma simples baleia albina, ou o símbolo das mais variadas obsessões humanas. E cabe ao leitor, munido da sua própria história de vida, decidir quem é  quem.





Originalmente publicado no Culturanja de 3 de outubro de 2008.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Publicando um livro : o caminho das pedras


Publiquei o meu primeiro livro no início do mês de outubro. Fiz de maneira independente e aproveitei para aprender o máximo possível sobre todas as etapas do processo que dá origem a este objeto pelo qual sou apaixonado: o livro. As etapas não são muitas e nem muito difíceis, mas demandam atenção e carinho, para que o livro, ao final, não seja só um compêndio de textos, mas também seja um objeto bonito e agradável de se manusear, otimizando a experiência do leitor.

Publicar um livro de forma independente não é novidade. Em 1918, Monteiro Lobato financiou do próprio bolso e publicou seu primeiro livro "Sacy Pererê - O resultado de um inquérito"; em 1930, Carlos Drummond Andrade segue a mesma técnica e publica o "Alguma Poesia"; até mesmo o ícone do rock, o americano Jim Morrison, em 1969 'dá a luz' aos dois volumes de poesia "The Lords / Notes on Vision" e "The New Creatures", de forma independente.

Havendo esse respaldo histórico todo, não tive motivos para ter medo e segui o meu projeto. Inclusive, gostei tanto da experiência e já estou iniciando os preparativos para uma próxima publicação. Em tempo, quero lembrar que publicar um livro de forma independente nem sempre significa publicá-lo sozinho. Considere uma equipe, mesmo que mínima, para opinar e, talvez, até mesmo colocar a mão na massa, diagramando, ilustrando, revisando, editando... Enfim, durante o seu processo, você sentirá onde precisará de ajuda. E não tenha dúvidas de que precisará.

Durante minha saga, que da seleção final dos poemas até a aprovação final da arte para a gráfica durou um ano completo, perguntei pra muitos amigos e pesquisei em vários tutoriais sobre como dar cada passo e, da mesma forma, depois do lançamento, muitos amigos vieram me perguntar sobre como eu fiz. Portanto, nada mais justo do que fazer esse texto, no qual explico passo a passo, de forma rápida (juro que tentei ser objetivo) o caminho das pedras para se publicar um livro.

Boa sorte a todos.


1. O Texto
Antes de tudo é necessário ter um texto finalizado e revisado. É importantíssimo que esse texto esteja revisado, e para tanto, sugiro que, além de você e um revisor oficial (alguém que realmente entenda do português), escolha uns outros dois ou três amigos que gostem de ler para opinar sobre o texto e também ajudar na revisão.

Nunca confie apenas nos seus olhos de águia (no meu caso então, de águia miope, pior ainda!), pois durante as centenas de vezes que você já releu o seu texto enquanto o estava escrevendo, o costume, o cansaço, a interferência do que está na sua cabeça sobre o que realmente está no papel, pode facilitar para que erros simples de português, pontuação, concordância, etc passem sem que você perceba. Além do que, uma outra pessoa lendo o texto, pode indicar partes dele que não estão transmitindo a mensagem da forma que você imaginou. Não seja preciosista, mude o que tiver que ser mudado, melhore o seu texto para que o leitor o aproveite melhor.


2. Registro na Biblioteca Nacional
Com o seu texto devidamente revisado, é só seguir as instruções que estão bem detalhadas no site da Biblioteca Nacional e registrá-lo como seu. Resumidamente são: pagar a Guia de Recolhimento da União (GRU); imprimir uma cópia do texto com todas as páginas numeradas, rubricadas pelo autor e com índice; providenciar fotocópia dos seus documentos pessoais e comprovante de endereço; preencher o formulário de registro de obra e enviar tudo isso para o Escritório da Biblioteca Nacional mais próximo de você. E lembre-se, mantenha sempre uma outra cópia dos seu texto com você, pois a Biblioteca Nacional retém e arquiva permanentemente a cópia que você enviou para eles. A confirmação de registro demora até 90 dias pra chegar, por correio, até você. Então, não se desespere.

Esse passo, apesar de não ser obrigatório, é altamente recomendado. Pois, mesmo sendo o registro do texto na Biblioteca Nacional mero indício de prova de propriedade intelectual, ou seja, pode ser questionada à qualquer momento, ele é um argumento a mais, uma prova da sua autoria, com fé pública, a ser usada em algum processo de plágio ou coisas do gênero.


3. Capa e Diagramação
Agora é a hora de deixar o seu livro bonito, criar uma capa bonita, criativa, convidativa e deixar o texto com uma cara boa, gostoso de se ler. Contrate alguém de bom gosto para diagramá-lo (no meu caso foi a Letícia Junqueira, designer e escritora), troque uma idéia sobre o conceito estético que você procura, sobre a sensação que você quer passar para o leitor. Caso você entenda do assunto, vai com fé e faça você mesmo, entretanto, recomendo ter sempre um time de opinadores, para sugerir algumas alterações e melhorias que você, fechado no seu próprio universo, certamente não iria perceber.

Sugiro a diagramção para os formatos digitais como e-Books: Kindle, Kobo, LEV, iBooks Apple Store, ou ainda algum mais genérico, como o E-pub, e até mesmo fazer uma versão em PDF, aproveitando a diagramação para o livro impresso. Para cada e-reader existe um estilo diferente de diagramação e publicação, com tutoriais específicos, mas é só visitar os links que coloquei ali em cima, se informar e mãos à obra! Quanto mais formatos, mais alcance terá a sua obra publicada.

Essa parte, provavelmente vai ser a mais demorada e trabalhosa. Não desanime.


4. ISBN e Prefíxo Editorial
O ISBN é um número mundial de identificação de livros. Ele é aquele código de barras que fica na contracapa e vai ajudar na hora de você colocá-lo à venda em qualquer livraria do mundo. Para pedir o ISBN você precisa de duas coisas: ter um prefixo editorial e ter a folha de rosto do livro.

O prefixo editorial é um número que identifica você (pessoa física ou jurídica) como um editor de livros, e é um dos custos mais altos dessa parte burocrática, mas você só o faz uma vez. Depois é só usá-lo para pedir o ISBN para suas outras obras, vinculando todas elas ao seu prefixo editorial.

Acessando site do ISBN, você poderá tirar mais dúvidas. Ao cadastrar o seu prefixo editorial, necessariamente terá que pedir um ISBN para o seu livro, gerar a GRU e pagá-la, senão o atendimento não será válido. Confira a tabela de preços do ISBN. Todo o atendimento é feito através de um formulário online, sem a necessidade de impressão ou envio de quaisquer documentos pelo correio. Você também pode escolher receber o ISBN no formato digital, em fotolito impresso ou nos dois. Aí vai depender do que o seu diagramador preferir.


5. Ficha Catalográfica
A ficha catalográfica é um descritivo que contém os dados bibliográficos da obra, que auxilia a sua identificação dentro de um acervo ou biblioteca. Eu (e pelo jeito muita gente) sempre achei que ela viria junto com o código de barras do ISBN. Mas, não, ela não vêm. A ficha catalográfica é feito por um bibliotecário devidamente cadastrado no CRB (Conselho Regional de Biblioteconomia) ou por alguma associação, como a Câmara Brasileira do Livro, que cobra um preço meio salgado pra fazer o serviço, por isso contratei a Janaína Ramos, bibliotecária, que confeccionou a minha ficha catalográfica por um preço muito mais justo.

O Bibliotecário irá pedir todos os dados técnicos da obra: nome da editora, nome do autor, local de publicação, numeração de páginas, dimensões físicas, primeiro capítulo, sumário, ISBN e etc. É por isso que é melhor pedir a ficha catalográfica quando a diagramação já estiver na reta final, para que se tenha a numeração correta das páginas, por exemplo.


6. Fechamento da Diagramação e Revisão Final
Depois dessa bela maratona burocrática, alguns bons merréis investidos, você está bem perto de publicar o seu livro. Agora que todos os elementos já estão em suas mãos, é só terminar a diagramação, dar a última revisão ortográfica (que nunca é demais), inserir uma página de créditos com o nome de todos que trabalharam nesta edição do livro, incluir a ficha catalográfica nessa página de créditos e aprovar a versão final da diagramação.


7. Impressão
Com a versão final da diagramação em mãos, você pode pedir orçamentos para diversas gráficas, negociando o tipo de papel pro miolo e pra capa e um monte de formas de impressão, encadernação e acabamento. Cada elemento pode baratear ou encarecer o livro, então tente equalizar as idéias do diagramador com as suas, peça dicas para o pessoal da gráfica e chegue num consenso sobre o melhor custo/benefício para você.


8. Lançamento, Divulgação e Vendas.
A emoção de ver os seus livros impressos, na sua frente, é indescritível. Aí você percebe que todo o esforço valeu muito a pena. Então agora que você tem a versão impressa e todas as versões digitais devidamente diagramadas e no gatilho, é hora de pensar num evento de lançamento bem bacana, convidando os amigos, jornalistas, agitadores culturais, publico em geral e demais pessoas interessadas em literatura da sua rede de conhecidos.

Faça um site, um blog ou uma página no facebook, ou todos eles. Monte um press release do seu livro, com texto explicativo, foto e alguma outra informação necessária e envie para a imprensa. Pense sobre onde ele estará a venda, se é no seu blog, na livraria, na loja de discos ou na padaria de um amigo seu ou em todos esses lugares ao mesmo tempo. Enfim, pense num jeito de espalhar a novidade para o maior número de pessoas possíveis e num jeito de receber os pagamentos e entregar o produto para os seus recém conquistados fãs.


9. Depósito Legal
Esse é o ultimo passo, mas não menos importante. É quando você faz com que seu livro exista oficialmente na Literatura Brasileira. Por lei, todos os que publicam um livro devem enviar um exemplar para a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, para que ele seja arquivado entre todas as obras publicadas no Brasil, ajudando, assim, a registrar a produção literária do nosso País. O não envio dessa cópia pode gerar uma multa de 10 vezes o valor de mercado da obra.

Você encontra as instruções para o Depósito Legal no site da Biblioteca Nacional. Você pode enviar, o exemplar por correio, direto ao Rio de Janeiro, ou ao Escritório da Biblioteca Nacional mais próximo de você.


10. Siga em frente!
Pronto! Com seu livro lançado e todo o sistema de atendimento e divulgação funcionando, é hora de preparar o próximo texto e começar tudo de novo. Afinal, a natureza e vida já provaram que as maiores e melhores colheitas são pra quem nunca para de plantar.

 Bem vindo à vida de escritor profissional!