domingo, 27 de setembro de 2015

As 12 Estações

Nesta quarta-feira, dia 23, começou a Primavera e não resisti, coloquei o Vivaldi, na vitrola. Entre as suas "Quatro Estações", conjunto de quatro concertos que descrevem musicalmente, cada um, uma estação do ano, existe uma bela imagem musical da primavera.

Minha versão preferida destes concertos está no álbum Eight Seasons (Oito Estações), no qual também estão as Quatro Estações Portenhas, do mestre Astor Piazzolla. Excelente trabalho do violinista e maestro Gidon Kremer e sua orquestra de câmara, a Kremerata Báltica. Execução e sonoridade perfeitas.

Interessante perceber que tanto para Vivaldi do sec. XVIII, quanto para o Piazzolla do sec. XX, cada estação desperta o mesmo tipo de sentimentos, muito bem musicados, inclusive. Talvez por causa da universalidade dos sistemas da natureza, da invariabilidade dos ciclos naturais e essas coisas que a ciência sempre observou. Ora, se fazemos parte do mesmo sistema universal, a primavera, o verão, o outono e o inverno seriam, para a natureza, o mesmo que o nascer, crescer, envelhecer e morrer são para nós humanos. Foi assim que cheguei nas outras 4 estações, que completam as 12 do título: as quatro estações humanas.

Se a vida começa na fecundação, a primavera é a mãe fecunda, espalhando a vida. É gestação e nascimento. Quando os brotos se tornam flor e mostram suas cores ao mundo, prontos para os primeiros passos da jornada. É a infância de tudo, é vida nova pulsando alegre em todo canto, crescendo para enfrentar a próxima estação.

O verão, tempo pleno de energia, quando o sol e a vida estão em sua potência máxima. É juventude, aprendizado, luta e sobrevivência em meio a tanta abundância de sentidos e caminhos. Tudo brilha, tudo chama urgentemente, inclusive a irresponsabilidade.

Não tarda vir outono, quando a beleza é sutil. As folhas, adornos, agora secas e enrugadas, caem. A energia não é mais tanta, as cores e sabores não são mais tantos. É preciso saber escolher e economizar, é preciso ser maduro e ponderado, adulto. Hora de acertar as contas e perceber que o ciclo está perto do fim.

Chega o inverno com as noites mais longas e os dias mais frios. Menos luz, já não resta mais tanta vida, os frutos há muito já se desprenderam dos galhos, espalhando as sementes e a herança. Que germinem em terra boa para que a linhagem prossiga. Em breve, apenas lembrança da potência que existiu, galhos secos, nossos ossos.

Mas no ciclo infinito das estações também está a mensagem de esperança da Universo: se tudo é feito pra renascer, e em cada novo ciclo, a vida retorna à dança com a Primavera. Renasçamos com ela! Se o ciclo dos dias que, como as estações, vai da manhã das possibilidades à noite da exaustão, podemos renascer diariamente. Se o cosmos do qual fazemos parte permite tantas “mortes” e “vidas”, certamente nos cabem as mesmas oportunidades de renovação. Só é preciso que queiramos, que nos religuemos à essência universal e nos façamos melhores em cada renascer.


Aproveite para ouvir :

As Quatro Estações Portenhas, de Astor Piazzolla
(versão do álbum Eight Seasons, de Gidon Kremer e Kremerata Baltica)




As Quatro Estações, de Antonio Vivaldi
(não é a versão do Gidon Kremer, mas tá bonita também)

domingo, 20 de setembro de 2015

Reflexões aos Domingos

Este texto inaugura uma série que será publicada apenas aos domingos (o que não significa todos os domingos). Serão minhas reflexões e conclusões resultantes de alguns estudos sobre o Espiritismo, a Bíblia, a Filosofia e espiritualidades. Estes estudos, e a prática diária do aprendido, estão me ajudando a melhorar a qualidade da minha vida, por isso sinto essa vontade de compartilhar minhas descobertas e dúvidas com quem também se interessa nessa busca de uma equalização de si com o Universo. Talvez, não coincidentemente, tenho encontrado e conversado bastante com muitos amigos que dividem as mesmas preocupações, dúvidas e vontades. Então, acho que essa é uma forma de manter a minha conversa com esses amigos sem atrapalhar o ritmo literário do Lobservando (assim espero!).

Que fique claro: passo longe de querer solucionar as grande dúvidas filosóficas que acompanham a humanidade por toda sua história, e há anos-luz de querer criar uma síntese perfeita e cientificamente irrefutável de argumentos. A intenção é apenas, humildemente, plantar as poucas melhores sementes que me cabem para uma melhor colheita que, mesmo minúscula, não me desanimará do cultivo. Acredito, cada vez mais, que na vida a qualidade é preferida à quantidade, e seu puder ajudar uma pessoa sequer, além de mim mesmo, já posso considerar o esforço mais do que válido.

Que haja força para suportar as provas e sabedoria para aprender as lições.

O Melhor 7 de Setembro

Nos meus 35 anos de vida, nunca presenciei um 7 de Setembro tão melancólico e distante das imagens que guardo na memória, das várias vezes que o brasileiro, orgulhoso, celebrava a pátria pelas ruas.

Toda a melancolia gerou páginas de anotações, julgamentos, generalizações e preconceitos que nada fariam para a construção do texto que inicialmente eu me propunha. Queria pacificar a alma e, como nos outros anos todos, orgulhar-me da Pátria que me acolhe. Queria um texto útil.

Quando me vi refletido no espelho da razão, veio-me à mente a frase de um antigo sábio: "Aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra" e, depois, a segunda chave para minhas questões: "Não faça ao outro o que não queres que te façam". Esta última é uma das regras de ouro de Confúcio (551 - 479 a.C), muito utilizada por Jesus Cristo (0 - 33 d.C), autor da primeira frase que citei. Se o teor das minhas anotações era o pedido pela Justiça, Honestidade e fim da Hipocrisia, eu não deveria, ao pedir, ser injusto em julgar sem conhecer; desonesto ao me isentar das minhas responsabilidades e hipócrita ao me considerar perfeito.

Eu estava exigindo honestidade, probidade, respeito e outras tantas coisas, mesmo tendo eu sido, muitas vezes, desonesto, improbo, preconceituoso e inconsequente com meus atos. Um ser notoriamente imperfeito cobrando perfeição de seres também imperfeitos. Que autoridade moral eu tenho para agir de forma tão injustiça? Restou-me o envergonhado exame do meu orgulho e vaidade.

Finalmente me enxerguei, mudei minha relação com tudo: país, povo e governantes. De um ilusório ser perfeito e "inoxidável" – como diria um criativo compatriota –, passei a um realista igual, fraco e falível frente paixões e vícios, carcomido pela ferrugem do ego, como somos todos os seres humanos.

Mudar a si mesmo já é esforço enorme, mas certo de que sou o único ser o qual posso efetivamente mudar, ficou evidente a desnecessidade do desgaste e lutas extras para se mudar os outros à força. Se a nação é um conjunto de indivíduos, a diferença no todo só se fará pessoa a pessoa.

Sobre os nossos líderes, não posso garantir que não erraria tanto ou mais se estivesse em seus lugares. Mas, se cabe exclusivamente a mim o exame da minha consciência e a lide com a culpa dos meus atos, cabe a eles fazer o mesmo. E da mesma forma em que nas situações difíceis eu preciso de ajuda para perceber o erro, me levantar da lama e repará-lo, eles também precisam. Desconheço as guerras internas que cada um enfrenta diariamente. Por isso não serei eu quem tornará ainda mais pesado o imenso fardo que eles já carregam em suas próprias consciências, assim como não gostaria de ter alguém que multiplicasse o peso do meu. Pelo contrário, agradeço as lições, exemplos e reflexões que me trouxeram e me tornaram uma pessoa melhor nesse Dia da Pátria.

Inocentes ou culpados, não me cabe julgar. Confio na justiça humana e, ainda mais, na de Deus. Se quero um Brasil melhor, serei eu, antes de tudo, um melhor brasileiro.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Soneto à Incompletude

Te encontrava em mim e me bastava
Era são e bom meu pensamento
Da minha alma, eras o alimento
E, por eras, foste a mim tão cara

Pois, se minha, já não mais buscava
Me julgava, então, um ser completo
Não supunha o que me reservava
o Futuro, grão-senhor do incerto

Deparei-me contigo apartada
de mim. Desvelou-se a realidade
Não foste, do meu ser, retirada
Jamais te possuí, na verdade

Eu, incompleto me percebia
Sentia, sem ti, não mais vivia

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Prosseguir

Durante a queda, saber cair
E encontrar chão firme pra ficar em pé
Se no escuro da vida, armar-se da fé
Pra candeia da alma se fazer luzir

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Filme : Neruda - Fugitivo [2014, Manuel Basoalto]



Memórias. Cheiros, sabores, cores e texturas, a vida está guardada aí. É o que nos constrói, é o que, somado, somos. E quanto mais próximos da infância voltamos, mas próximos chegamos da nossa alma pura, da nossa essência, escondida sob cascas e mais cascas de vida vivida, gasta e endurecida.

Zigmund Freud, com sua Psicanálise, já nos atentava que olhar para o nosso passado, não é só olhar pra trás, é olhar para dentro e para o fundo, é reencontrar-nos nus e castos, curiosos e impressionáveis. É autoentendimento, oportunidade de resgatar verdades e sonhos, de nos realinharmos com a pureza original e com quem realmente somos. Sabendo disso, Manuel Basoalto tentou, em filme, revelar a essência de um parente seu, por parte de mãe: Neftali Ricardo Reyes Basoalto, o maior poeta da Sudamérica, conhecido pelo pseudônimo Pablo Neruda.

O filme Neruda – fugitivo não é uma biografia ou filme histórico. Basoalto (o Manuel), deixa de lado a história política do Chile e os esquemas intrincados da fuga de Pablo Neruda para a Argentina, à cavalo, através dos Andes, por motivo de perseguição política; ignora o antes, o durante e o depois da vida de Neruda e dos outros personagens da trama e nos mostra o que pra ele é o real tema do filme: de onde vem, como sobreviveu e como se expandiu a poesia de Neruda após tão traumático e difícil período de clandestinidade de quase seis meses (setembro de 1948 à março de 1949), dos quais boa parte foram passados às margens do Lago Huishue, no Chile. O importante aqui, como já disse o principezinho de Sain-Exupéry, "não se vê com os olhos". O importante para Manuel Basoalto, me parece, é entender como, durante a fuga, Pablo Neruda se tornou uma força da natureza, uma entidade Sulamericana, como a própria Cordilheira dos Andes.

O filme retrata o íntimo do poeta em seu mergulho na America do Sul e em si mesmo, revisitando os lugares onde passou a infância, nos arredores de Temuco, onde ainda muito jovem aprendeu a amar a vida e a poesia. Durante todo o filme vemos ecos de seus versos nas pessoas que o acolhem em suas casas; caminhando por entre as florestas que ele atravessa; transpirando pelo seu corpo cansado ou pela vegetação andina; derretendo feito a neve dos andes e escorrendo pelo curso dos rios que ele cruza; sussurando em seus ouvidos feito brisa ou ventando em tormenta nos vales que o escondem; cantados nas canções, ao lado das fogueiras gauchas, nas noites frias dos acampamentos; chovendo torrencialmente e trovejando ou pingando em lágrimas de saudade da sua amada esposa "Hormiguita" e da vida tranquila que abdicou por um bem maior, um Chile livre do autoritarismo e da violência estatal.


Pablo Neruda às marges do lago Huishue, no Chile.

Neruda vivia poesia, que para ele era uma coisa da vida como todas as outras, como a política, o trabalho, o dormir ou acordar. Nunca deixou de escrever (e carregava sempre consigo sua máquina datilográfica portátil), criando, durante os quase seis meses de fuga, a maior parte do livro de poemas "Canto Geral", publicado em 1950, uma espécie de Livro do Gênesis da América do Sul, versejando, nos 231 poemas divididos em 15 Seções (Cantos), sobre a identidade Sulamericana. Percebe-se mais a influência do Canto X  que, não coincidentemente, se chama "O Fugitivo (1948)"  do já citado Canto Geral no roteiro de Manuel Basoalto, do que do livro histórico/biográfico Neruda : Clandestino, de José Miguel Varas, citado como referência pela maioria da crítica especializada. Talvez por isso o filme soe mais como um poema do que como um filme biográfico normal.

Assistir ao Neruda - fugitivo é como ler os poemas de Pablo Neruda, vendo seus versos saltarem incontáveis vezes nas falas e imagens do filme. É sentir a granulação da película, que envelhece e deixa tudo com cara de memória, de página de livro; é entender o faixo de sol que surge por entre as árvores enquanto poeta abraça sua amada "Hormiguita"; é encarar com reverência a Cordilheira que, imponente, abençoa o continente, mas, vilã, afasta o poeta da liberdade e da vida; é ouvir o canto dos rios, que correm feito sangue, o sangue latino, pelas veias abertas da América do Sul, entidade materna, de cujo barro foi forjado o povo Sulamericano. E, talvez, o mais importante: é, não só vislumbrar o íntimo do poeta Neruda, mas também sentir, lá no fundo de nós mesmos, debaixo de camadas de corpo e rocha, os chamados do Continente e da Poesia de que somos feitos.


Ps: Tocou-me tanto esse filme, que me inspirou o texto de semanas atrás, escrito na noite e dia seguinte à sessão de cinema.