sexta-feira, 15 de abril de 2016

Fazer-se instrumento

Impossível não se inspirar com a história de Giovanni di Pietro di Bernardone (1182-1226), uma vida de abnegação e pobreza, porém rica de amor e em comunhão com Deus. Francisco, Francesco em italiano, era o apelido pelo qual era conhecido por gostar da França. Ficou conhecido como São Francisco de Assis, considerado a maior personalidade cristã após Jesus Cristo, o fundador da Ordem Franciscana, uma das ordens católicas mais influentes e famosas, conhecida pelo seu voto de pobreza.

Nos últimos meses, além da vontade de rever o filme "Irmão Sol, Irmã Lua" (Fratello Sole, Sorella Luna, 1972, Franco Zeffirelli), tem me voltado ao pensamento uma das orações mais tocantes que já ouvi, cuja criação é erroneamente atribuída à São Francisco – vide google –, mas que foi, por causa de seu conteúdo, adotada oficialmente pelos Franciscanos. Ela também é conhecida como "Oração pela Paz":

"Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz; Onde houver ódio, que eu leve o amor; Onde houver discórdia, que eu leve a união; Onde houver dúvidas, que eu leve a fé; Onde houver erros, que eu leve a verdade; Onde houver ofensa, que eu leve o perdão; Onde houver desespero, que eu leve a esperança; Onde houver tristeza, que eu leve a alegria; Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, fazei com que eu procure mais consolar, que ser consolado; Compreender, que ser compreendido; Amar, que ser amado; Pois é dando que se recebe; É perdoando, que se é perdoado; E é morrendo que se vive para a vida eterna."

É sabido dos poderes dos mantras, meditações e das preces. Para nós, Cristãos, a oração do "Pai Nosso", ensinada, como dizem as tradições, pelo próprio Cristo, é a mais completa. Não se questiona tal completude e poder, entretanto, vale assinalar que é uma oração na voz passiva, onde, humildemente pedimos e deixamos tudo nas mãos de Deus. Com a mesma humildade e resignação, a oração franciscana nos coloca na voz ativa. Pede, mas pede forças para executar o plano, capacidade e proteção para colocar a mão na massa, como fez São Francisco, que abandonou o conforto para ajudar o próximo e não mediu esforços para uma real vivência cristã, conseguindo respeito e admiração da Igreja Católica, mesmo na idade média, período de difícil relação do clero com o povo, por causa de sua autoridade moral inatacável.

Evidente que a reflexão é sobre o trabalho. Se existe um mundo melhor a ser construído, a matéria-prima e os obreiros somos nós mesmos, no sacrifício cotidiano do supérfluo, dos vícios e das vaidades. Dizem que, no fim da vida, mesmo depois de tando desprendimento material, Francisco ainda não se sentia em paz consigo, pois estava decepcionado em ver, rica e cheia de posses, a ordem que havia criado para ser pobre. Foi durante uma conversa com Santa Clara, grande amiga e fundadora do ramo feminino dos Franciscanos, que ouviu ainda lhe faltar um último ato de desapego: liberar-se de toda a sua obra, que já não era mais sua. Entendendo o recado, Francisco finalmente encontrava a paz. Faleceu com com 44 anos de idade e, a seu pedido, foi sepultado nu.


segunda-feira, 11 de abril de 2016

sexta-feira, 8 de abril de 2016

"Meu tempo é quando..."

Dizem que o tempo é uma invenção do homem. Dizem que o tempo sequer existe. Dizem, outros, que o tempo é uma dimensão psicológica. Será mesmo que o tempo passou a existir por nossa causa, à partir do momento em que começamos a observá-lo e marcá-lo?

Observar o tempo nunca foi o suficiente, e desde que o percebemos pela primeira vez, também tentamos domá-lo, como fazemos com tudo o que conhecemos. Mas quem nunca teve a vontade de controlar o tempo? Domesticá-lo, viajar através dele, ao futuro para precaver-se dos golpes da vida, anotar os números da loteria; ou, quem sabe, voltar ao passado e refazer o curso das coisas, talvez até reencontrar um amor que se perdeu ou viver, por mais tempo, um amor que já se encontrou, como na deliciosa Valsa Brasileira, do Chico Buarque.

Apesar de tudo o que dizem, o tempo não parece tão abstrato assim, ele se manifesta fisicamente na natureza. Os corpos celestes em suas orbitas, as estações do ano, o crescer da árvore, o amadurecer dos frutos, o nosso envelhecer, tudo é resultado de um "sair daqui e chegar ali". O tempo é, de alguma forma, espaço. E Albert Einstein esteve aí para confirmar.

Albert Einstein, Richard Matheson e o Iron Maiden! Os três pensaram o tempo de forma semelhante, em diferentes setores do pensamento. Einstein pela Teoria da Relatividade; Matheson, pelo livro e filme "Em Algum Lugar no Passado", cujo nome original é Somewhere in Time (Em Algum Lugar no Tempo); e o Iron Maiden, por um disco muito legal, que também se chama Somewhere in Time.

O filme "Em Algum Lugar no Passado" (1980, Jeannot Szwarc), é muito bonito e traz, no título, essa ideia de que o tempo  no caso, o passado  pode ser um lugar. A história de Richard Collier que ao se apaixonar pela mulher de um antigo retrato, tenta de tudo, até que viaja no tempo para encontra-la e mostrar o seu amor, é emocionante. E, tudo isso, somado com uma das trilhas sonoras mais lindas que já ouvi, composta por John Barry e reforçada pela inspiradíssima "Rapsódia Sobre um Tema de Paganini", do Sergei Rachmaninoff, tira lágrimas até das paredes. Mas se você não tem paciência para algo tão suave, pode ouvir o disco do Iron Maiden, que também é muito bom.

Enfim, desde sempre pensamos em formas de alterar o curso da história, em como seria bom refazer, melhores, muitos dos passos já dados. Mas, dada a impossibilidade física da viagem no tempo, ficamos nostálgicos e frustrados. Entretanto, esse pensar no tempo nos traz um bem inestimável: valorizamos o presente. No fim, não importa muito se o tempo é um lugar no espaço, um lugar psicológico, se não é lugar nenhum ou sequer existe, só temos a certeza presente é bem real. Fica claro, então, que, se o passado não se muda e o futuro não se alcança, só nos resta o agora como único momento de atuação, no qual temos total poder de verdadeira mudança. E se podemos e queremos mudar nossas vidas, a nossa história, que seja agora. Só pode ser agora.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Carta aos meus

Minha profissão me permite viajar muito pelo Brasil e, algumas vezes, para outros países. Isso me fez conhecer lugares, costumes e, principalmente, pessoas com as quais criei laços de amizade, admiração, respeito e amor. Sou muito feliz em dizer que tenho amigos espalhados, literalmente, pelo mundo inteiro; e ao mesmo tempo, um pouco triste por não poder alcançá-los sempre e demonstrar o afeto que cultivo por eles. E isso me incomodava até poucos meses atrás.

Estava na Sala São Paulo, assistindo a execução uma peça clássica tão bela que, às vezes, tinha vontade de aplaudir, no meio da música, de tão emocionado. Mas há um combinado nas salas de concerto: existe a hora certa pro aplauso. Num primeiro momento eu pensei em como isso era chato, e de que deveria ser mais legal ir à concertos antes de inventarem essa regra. Mas, também, pensei que, se cada um aplaudisse na hora que desse na telha, ninguém ouviria a música, só os aplausos, assobios e a gritaria de "Bravo!". Além do que, a raridade do aplauso aumenta o seu valor, assim como o silêncio oportuno, valoriza a palavra.

Lembrei-me, então, do que me disse uma amiga, que raramente encontro, pois moramos distantes: "Posso não me manifestar muito, diariamente, mas te acompanho de longe, sorrindo. Como naquela música do Milton Nascimento: calada, como quem ouve uma sinfonia".

O amor é o sentimento primordial, delicado e cheio de nuances como a música clássica. Há dias em que ele é prestíssimo, estrondoso e forte ; há dias em que ele é lento, brisa e carinho. Há os momentos de solo, há os momentos de harmonia. Há dias de dueto, há dias de sinfonia. Em pequenas salas ou em imensos teatros, há dias em que somos plateia, há dias em que estamos no palco. Percebi, naquele momento, que das várias formas de se apreciar o amor, havia uma até então desconsiderada: o Silêncio.

A Sinfonia do Amor é facilmente reconhecida pela paz inquestionável que nos traz; se não há paz, provavelmente não é amor. É por isso que, na vida, como nas salas de concerto, muitas vezes é preferível silenciar para melhor apreciar a música que nos é apresentada. Assim, afastamos os ruídos e evitamos que um pequeno detalhe passe desapercebido, mudando o nosso entendimento sobre o que ouvimos, julgando ser amor o que é, na verdade, paixão, amizade, carência, possessividade, orgulho, vaidade.

Assim, caiu por terra a ansiedade pela impossibilidade física de dar atenção a tanto que me é querido. Entendi que o amor também se manifesta no silêncio, que abster-se da palavra e de atos físicos não evita que o pensamento e a intenção chegue ao seu destino. Que quando os ruídos cessam, o mínimo detalhe, no momento oportuno, é o suficiente. Mais tranquilo, percebi que nunca estive ausente de tudo o que está distante. Que era possível, e às vezes ainda mais belo, amar em silêncio, e praticar esse amor indizível e inarticulável que acabara de descobrir. Percebi, então, que é esta a minha forma de amar tudo e todos: calado, como quem ouve uma sinfonia.

domingo, 27 de março de 2016

Wagner : Parcifal, Prelude (Vorspiel)

Foi um belo amanhecer da Sexta-Feira Santa de 1857 que decantou, da genialidade de Richard Wagner, finalmente, as primeiras anotações da ópera Parsifal, na qual já vinha pensando há alguns anos. Terminada 25 anos depois, esta foi a sua última ópera completa.

Numa ambientação medieval, como era de costume, Wagner conjuga temas cristãos como auto-renúncia, reencarnação e compaixão e símbolos como o Santo Graal e a lança que Longino, um soldado romano, usou para ferir o Cristo na cruz.

Bastante longa, solene e densa, a ópera causou, e ainda causa, grande emoção quando é assistida ou ouvida. E é preciso perseverança para completar essa missão nas quase 4 horas de duração da peça. À época do lançamento, em 1882, o filósofo Nietzsche, como de praxe, reclamou do conteúdo moral cristão; mas outros gênios, como Debussy e Mahler, mais sensíveis à mensagem, se manifestaram entorpecidos pelos belos sentimentos que a obra despertara em suas almas. Ouça e escolha o seu lado.

Para compreender conjugação entre leveza e densidade desta obra prima Wagneriana, aqui vai a minha parte preferida do Parsifal: o Prelúdio, lindamente executado pela Orquestra Sinfônica da Radio Frankfurt, dirigida pelo maestro Jérémie Rhorer.






Se quiser assistir a ópera toda, aqui vai uma versão legendada em inglês:





sexta-feira, 25 de março de 2016

Libertação

Após milênios de experiência humana, todos concordam que precisamos nos libertar dos grilhões que nos prendem a uma vida de sofrimento e frustrações. Características tão humanas como o orgulho, a vaidade, os vícios, o materialismo exagerado sempre foram chamadas ao expurgo, no difícil sacrifício de si mesmo, em nome do qual conquistaríamos a verdadeira paz interior, e uma vida exterior mais tranquila e leve, através do tal religare, palavra latina, origem do termo Religião, que significa religamento. Com Deus, o Cosmo, a Natureza... você escolhe. Tal conceito também está no Budismo, em outras religiosidades e demais áreas do pensamento humano, desde sempre, muito antes dos filósofos, cientistas, psicanalistas e tantos outros, já procurávamos essa conexão.

Nos Vedas hindus, a literatura espiritual mais antiga da qual se tem notícias, já existia o convite ao sacrifício de elementos amados, mas que nos fazem mal. No poema épico Bhagavad Gita, o Príncipe Arjuna enfrenta uma batalha contra sua família, que tenta derrubá-lo do poder. Aconselhado por Krishna entende que seria impossível lutar contra tantos que ama e que fazem parte do que ele é, sem sofrer; mas os sacrifícios eram necessários para seu crescimento e paz interior. É fácil tomar a família de Arjuna como simbolo dos seus sentimentos, da sua pluralidade interior, contra a qual ele tem que lutar e domar para evoluir.

A Páscoa Hebraica remonta à noite na qual o povo hebreu é libertado da escravidão do Egito. Como muito do antigo testamento, a passagem é cheia de símbolos que também nos dizem : para deixar a vida sofrida de escravidão, muitas vezes devemos sacrificar o que amamos. Simbolo maior, o cordeiro que se sacrificava para a refeição, convivia durante alguns dias junto com a família que, inevitavelmente criava afeição pelo bichinho, assim seu sacrifício e consumo, era uma experiência dolorosa, já antevendo as dores que todos passariam para se libertarem da pior escravidão de todas, a escravidão de si mesmos.

A morte e a ressurreição de Jesus Cristo, ocorridas durante as festividades pascais hebraicas, motivam a Páscoa Cristã. Os mesmos símbolos, mas, desta vez, chamando a atenção para que o sacrifício passasse de exterior para interior, Jesus se coloca como o próprio cordeiro a ser sacrificado. Imagino que, após trinta e tantos anos de convívio, muitos também se afeiçoaram a Ele que sacrificou seu corpo machucado, quase desfigurado pelo ódio, vaidade e orgulho – dos outros – para conquistar um corpo renovado, mais próximo do divino. 

Jesus usou a Páscoa para reforçar um símbolo antigo e constante na humanidade: é inevitável evoluir, e evoluir é sacrificar-se. Mostrou na carne o que deveríamos fazer em espírito. Portanto, neste fim de semana, independente da confissão religiosa, ou não, que tenhamos, reflitamos sobre como sacrificar os velhos costumes, a velha vida de escravidão à qual estamos apegados. Pois, não é novidade, vai doer, mas só assim viveremos a tão sonhada paz dos verdadeiros libertos.

terça-feira, 22 de março de 2016

Dia Mundial da Poesia

Ontem, 21 de março, foi dia mundial da poesia. Procurando poesia por aí, encontrei esse projeto, o Toda Poesia, que me lembrou da possibilidade de encontrar, até em maior escala, poesia fora dos poemas. Na prosa, na música, até em tese científica e sociológica. 

Ver que poesia é algo maior, nos faz perceber-nos mergulhados nela. E já que estamos cercados, deixemo-la fluir!

sexta-feira, 18 de março de 2016

Não nos percamos de nós mesmos

Chegamos ao ápice de um processo histórico importante, pelo qual viemos passando nas últimas décadas: o desmonte de uma era onde o processo político era feito descolado da vontade popular. Toda mudança de paradigma social é delicada, lenta e dolorosa, e é natural que partidários de ideias contrárias se debatam e desse debate surja, inevitavelmente, uma síntese. É o tal do processo dialético (Tese+Antítese=Síntese) de Georg W. F. Hegel. Sim, é aquele mesmo Hegel que voltou à fama por um deslize intelectual há alguns dias atrás e, pelo que me parece, não por acaso. Então é necessário paciência e conhecimento pra um correto agir nesses tempos de euforia e ansiedade à flor da pele quando estamos formando a nossa síntese social.

Uma das minhas matérias preferidas durante a faculdade de Direito foi e, ainda é, a Ciência Política e Teoria Geral do Estado, na qual se estuda o processo de criação e validade de um Estado Nacional. Nesses tempos de convulsão social, de ladainhas pra lá, falatórios pra cá, sempre bem munidos da terminologia, mas quase nunca do conteúdo, me lembrei de um conceito muito importante, aprendido do livro "Teoria Geral do Estado", do Sahid Mauf : o conceito de Nação, “um conjunto homogêneo de pessoas ligadas entre si por vínculos permanentes de sangue, idioma, religião, cultura e ideais” .

Entendendo esse conceito fica fácil perceber como estamos sendo atacados e onde estão mirando aqueles que deveriam estar nos ajudando e protegendo, os chamados representantes do poder público, nome que não faz muito sentido quando os tais não estão, de forma alguma, usando o poder que o povo os cedeu para melhoria da coisa pública mas, pelo contrário, estão representando, claramente, os próprios e privados interesses. Usam da técnica de "dividir para conquistar" e, nos subjugando, permanecem intocáveis na sua majestade. Há anos estão nos separando por etnia, religião, costumes e posição política, e já estão conseguindo. Só falta nos fazerem esquecer o nosso maior ideal comum que é "um país melhor, um lugar bom de se viver, para nós e nossos descendentes". Mas isso não podemos permitir, é preciso ficar atento, permanecermos fortes e unidos como povo, honestos e respeitosos uns com os outros. Conforme indicam os acontecimentos, qualquer bandeira partidária que se levante hoje em dia, é bandeira criminosa. Não há heróis, exceto nós mesmos, e nossos super-poderes são o amor e o bom-senso que, não duvide, todos nós temos, sim, mesmo que em quantidades diferentes.

Estão nos vendendo uma gerra particular pelo poder como se fosse uma campanha por um país melhor. Não caiamos nesta armadilha. Acatarmos irresponsavelmente os discursos fatalistas e viciados que nos oferecem é assinar sentença de subjugação e morte do sonho Brasileiro. Deixemos de lado as ideologias políticas que só nos separam, e nos apeguemos às poucas coisas que nos restaram em comum, o verdadeiro ideal que nos une, por esses mais de 500 anos, entre o Caburaí e o Chuí : fazer desse pedaço de chão um lugar de vida digna para todos, sem exceção.