segunda-feira, 10 de outubro de 2016

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Abençoados os ignorantes

Existe, na cultura popular, o ditado que diz ser, a ignorância, uma benção. Sempre achei um grande engodo, quase blasfêmia, um disparate propagar esse tipo de ideia. Imagino que tal conceito foi, certamente, criado por alguém muito esperto, que apresentou isso como uma verdade, mas com o escuso objetivo de manter-se no controle evitando o aumento de mentes questionadoras, que colocariam sua autoridade em risco.

Independente de quem e como essa ideia ganhou corpo e força, ela não resistiria tanto tempo no mundo se não existissem mentes que a acolhessem. Mentes preguiçosas ou covardes que preferem os cabrestos, os antolhos, que limitando o campo de visão e ação, deixariam a vida mais fácil, mais cômoda. É mais fácil ser guiado do que guiar dirão esses os partidários do saudoso carteiro Jaiminho, da Vila do Chaves, que vivia evitando a fadiga.

Do outro lado, temos Sócrates que, ao ser proclamado o homem mais sábio de toda a Grécia, concluiu que, se isso fosse a verdade, sua sabedoria só poderia vir da sua ignorância, respondendo ao título com um sonoro e sincero "Só sei que nada sei". E mais uma vez nos aparece a ideia da ignorância como algo bom.

Mas não podemos nos enganar, há aí uma armadilha conceitual entre as ignorâncias. Enquanto a ignorância de Sócrates vinha da humildade de, após muita reflexão e estudo, concluir nada saber por reconhecer-se mínimo frente ao infinito do conhecimento disponível no Universo; que cada nova resposta geraria uma nova pergunta, ad infinitum; a ignorância do homem comum vem da negação do conhecimento: por preguiça, fugindo do doloroso trabalho que é pensar; ou do orgulho, por achar que já sabe de tudo e nada mais precisa conhecer.

Essas duas ignorâncias são dois pontos opostos de um ciclo infinito que se inicia quando estamos humildemente ignorantes, como Sócrates, em busca de mais conhecimento, e atinge seu ápice quando dominamos o conhecimento. Entretanto, tendo em vista o infinito de coisas a conhecer que nos cerca, ao chegarmos ao ápice do ciclo, no pseudo-domínio do saber, é necessário perceber que há sempre muito mais a conhecer. Se não retomarmos a humildade e a percepção de que, apesar de tanto conhecimento já adquirido, existem muito mais coisas que desconhecemos do que coisas que conhecemos, estagnamo e, limitados, nos tornamos dogmáticos e arrogantes, brutos e interrompemos o processo de conhecer o universo, de evoluirmos, que deve ser continuo.

Então é verdade! A ignorância é, sim, uma benção! Quanto mais se sabe, menos se sabe, mais ignorantes nos tornamos. A ignorância pela preguiça ou medo de sofrimento, não traz paz alguma, apenas anestesia e, a longo prazo, inevitavelmente, trará as suas dores, multiplicadas, como uma ferida não tratada, que só vai aumentando e infeccionando mais e mais. É a ignorância pelo conhecimento a verdadeira ignorância abençoada do dito popular, é ela que nos faz humildes e nos dá a paz e a tranquilidade verdadeiras. 

Que bom, que benção é ser ignorante!

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Caro Data Vermibus


Vou deixar morrer, em mim, o amor
que por ti nasceu e hoje é triste.
Pois nem mesmo o encanto que em mim existe
tem a eternidade da tua fuga.
E ao peito calejado dar descanso
do constante flerte com o descaso.
Recostar o espírito no abraço manso
da solidão, e nunca mais no da saudade.
Assim, ao definhar-se por completo,
e desse amor não restar sequer o afeto,
me liberto da desventura que é te bem querer.
Pois, antes que irremediável e grave,
melhor do amor fazer cadáver
do que estar morto ao se viver.



Nota 1: A palavra "cadáver", segundo a etimologia popular, teria origem na inscrição latina Caro Data Vermibus ("carne dada aos vermes"), que supostamente seria inscrita nos túmulos. Na verdade não se encontrou até hoje nenhuma inscrição romana deste género. Os etimologistas defendem que a palavra deriva da raiz latina cado, que significa "caído". (Fonte: Wikipedia)

Nota 2: Leia também os meus comentários sobre este poema.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Quando vens


Visita-me, sempre tarde da noite, e me despertas do sono tranquilo para que eu admire tuas formas. Vaidosa. E a silhueta à meia luz se aconcreta em corpo, textura, cheiro e sabor. Serve-te de mim sem pejo! E como se fosse fina fazenda de cetim, embrulha-me por inteiro. Toca-me o peito, os ombros e o rosto; toca-me as narinas, as orelhas e os lábios; toca-me o ventre, as coxas e o sexo. Toca-me... toca-me...

E sorris! Ah, e como sorris! Uma imensidão! Feito o amor que evocas sempre quando vens. E se não vens, é com a saudade que o amor se enlaça e me lança num holocausto de mim mesmo, em teu favor. Clamo-te! Amo-te! Não durmo para acolher-te; traduzir-te; compreender-te as minúcias, até as entranhas; bem dizer-te, enfim.

Bendita! Por que me vens assim irresistível? Por que ecoas em mim feito a própria vida que, ao ver-te partir, contigo também se vai? Por quê? Bendita!

É porque te engano. Engano-te, bendita! Mesmo vitoriosa na peleja de nossas peles, não me tens domado, e tu bem sabes. Engana-te, bendita! Quem te doma sou eu. Pois é meu este ofício, quase heresia. Sou Poeta! Minha vida é fazer-te Poesia!

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Pelo amor à vida

*texto para o setembro amarelo, campanha mundial de prevenção ao suicídio.


É muito comum alguma melancolia na vida, é natural. Se não o fosse, não a sentiríamos. Mas é importante estar atento quando um quadro de melancolia atravessa as fronteiras da normalidade e se transforma em uma tristeza constante, viciante, paralisante.

Exitem muitas causas para as tristezas que nos levam a vários estados psicológicos mais extremos e perigosos como a depressão, nos quais a vida, que já não é fácil, fica exponencialmente mais difícil e pesada, ainda mais num mundo onde todos os paradigmas são materialistas. 

Não aceitar-se fisicamente; frustrações pessoais ou sociais; acúmulo de remorsos e culpas por atitudes impensadas e seus desdobramentos ruins; quando nada mais faz sentido; quando acabam-se todas as esperanças de que, através de um próximo passo, de um movimento seguinte da vida, as coisas vão começar a melhorar. Quando não resta mais força para resistir e continuar ou a esperança de receber qualquer tipo de auxílio exterior, nos sentimos marginais e inúteis. Desencadeamos, assim, processos de auto-punição consciente ou inconsciente; o auto-boicote e a falta amor e de cuidado conosco mesmos.

A consequência deste estado de lástimas e desespero pode ser o simples isolamento e o silêncio ou algo mais drástico como o desistir da própria vida, praticando o suicídio voluntário e imediato ou, ainda, uma outra forma de suicídio, inconsciente, a longo prazo: os vícios químicos e psicológicos que nos intoxicam e desgastam o corpo até que se acabem as possibilidades dele permanecer vivo.

Ou seja, resultado de diversos fatores e processos que culminam na perda do amor e da confiança em si mesmo, suicidar-se é um ato de desespero, mas que pode ser evitado. Conforme a OMS, mais de 90% dos suicídios poderiam ser evitados se fossemos mais atentos aos sintomas e cuidadosos no tratamento. Por isso é importante pedir ajuda e ajudar-se, sem medo de julgamentos.

Por isso, entender-se merecedor de ajuda é fundamental. O Perdão e o Autoperdão são remédios que combatem diretamente os mal-estares que criamos conosco e com os outros. Com eles, os rancores, os ódios, as tristezas e o sentir-se desconectado e marginalizado da sociedade são afastados, pois se entende que todo mundo é tão imperfeito quanto nós mesmos, e é muito normal falhar, não atingir o nível de perfeição que se sonhava.

Erramos ontem, erramos hoje e erraremos amanhã. A paciência com nossas próprias limitações é exercício de humildade, que pode melhorar nosso nível de paciência com as limitações dos outros que convivem conosco. Perdoar-se é entender-se humano, falível. Perdoar o outro é entendê-lo humano e falível também.

Assim, nos entendendo, nos amamos com mais facilidade. E, participando desse amor que nos exime da culpa, damos uma nova chance para, uma outra vez, mais fortes, humildes e pacientes vivenciar todas as experiências e oportunidades que a vida nos trará para fazermos, de cada dia, um dia melhor. E nunca mais restará dúvidas de que a vida sempre vale a pena, sempre.


Mais sobre isso:




sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Amor de pai


Ao voltar pra casa, de ônibus, sentei-me ao lado de um senhor que estava ao telefone. Tão próximos que foi impossível não ouvir a conversa que ele estava tendo com alguém que, pelo contexto deveria ser a sua filha.

- Olha, tá muito difícil pra mim. Tá muito pesado. Não estou conseguindo bancar essas compras que vocês me pedem. As coisa estão caras no mercado. Acho que a gente precisa rever essa lista. Eu sei... eu sei que vocês precisam comer, mas, poxa, certeza que vocês estão comendo melhor do que eu! Eu estou comprando, pra vocês, coisas que eu nem tenho na minha casa. Sabe, eu quero dar do bom e do melhor pra vocês, mas tá ficando difícil. As coisas estão difíceis, o dinheiro tá curto. Acho que vocês tinham que economizar um pouco mais, fazer render melhor o que vocês tem aí. Você tá me entendendo? Não precisa comer essa carne toda, todo dia. É, eu sei... claro... eu sei, vocês estão se esforçando também, eu sei. Mas, você me entende? Tem que reforçar isso aí, tá? Evitar desperdício, essas coisas. Sim, tudo bem. Tô, eu tô bem, só preocupado com isso aí, não tá fácil, né? Hum... e ele tá bem? Tá faltando alguma coisa? Uhum... leite em pó. Tá. Tá bom, eu levo o leite em pó. Tá, vou ver o que eu faço, eu dou um jeito, eu levo o leite em pó.

Cheguei ao meu ponto, desci. E levei comigo um nó na garganta.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Soneto ao amor ausente


Deito-me na tua ausência da minha cama
Transito na tua ausência da minha casa
Vivo nu sem tua pele, que eu vestia
Toda manhã, na presença consumada

Se teus olhos são ausentes, vejo nada!
E anoiteço, sem estrelas, toda noite
O silêncio das canções se faz açoite
Pois é ausente a tua boca enamorada...

É tamanha ausência tua na cidade
Que ela mesma clama, à mim, tua presença!
E, abraçados, nos consola o fim de tarde:

"Em verdade, nada nunca está ausente
Sempre fica um pouco da gente nas coisas
Sempre fica um pouco das coisas na gente"