terça-feira, 16 de junho de 2015

Filme : Um pombo pousou num galho de árvore, refletindo sobre a vida [Roy Anderson, 2014]


ou : não acredite nas sinopses.


"Comédia sobre dois vendedores ambulantes, Sam e Jonathan, que estão cansados do mundo.", era tudo o que me dizia o prospecto do Cine Belas Artes sobre o filme que eu iria assistir naquela noite. Miseráveis 86 caracteres, contando espaços e pontuação. Nem um filme ruim do Edie Murphie se explica em 86 caracteres! Que cilada! Já a sinopse do filme da sala ao lado, Winter Sleep, com seus três períodos e mais de duas centenas de caracteres, deixava o meu filme mais desinteressante ainda. E se não bastasse, eu me reconheci na história do concorrente, sobre um escritor de textos altruístas, que durante intrincada trama invernal se revelava um hipocrita maligno. Mas acabei reconhecendo que, na verdade da vida, eu deva estar mesmo mais próximo de um pompo sentado num galho e refletindo sobre a vida do que de um escritor de psique conturbada que suponho, ou adoraria, ser.

E agora, o que fazer se o trailer do Youtube foi convincente e os ingressos já estavam comprados? Bom, ainda me restava o benefício da dúvida, a esperança de que o autor da sinopse estivesse um tanto – melhor se completamente – enganado ou então eu teria de enfrentar uma simples comédia Sueca mesmo. De qualquer forma, já me sentia no lucro, afinal, o filme já tinha me jogado numa montanha-russa de sentimentos antes mesmo que eu entrasse na sala.

Resignado e instalado em minha poltrona, logo nas primeiras cenas do filme comprovo, aliviado, que o autor da Sinopse estava enganado e fui surpreendido por um ótimo filme de arte Sueco. Sei que a vida, por mais trágica que seja, tem seu lado cômico, mas denota-se uma certa falta de tutano classificar esse filme como uma simples comédia. E as pouquíssimas risadas que ouvi durante a projeção também comprovariam a minha teoria.

Como é de praxe nos filmes de arte, existe a intenção de se questionar os padrões e processos utilizados pelo cinema comercial, o tal Cinema Hollywoodiano. E essa mania começa na própria classificação do gênero do filme, que é feita baseada no estilo da narrativa e desenvolvimento da trama, que pode ser suspense, terror, aventura, romance, comédia e etc. 

Em algumas entrevistas, Roy Anderson, que é o diretor desse filme, já se dizia cansado de contrar histórias da forma tradicional, com começo-meio-fim, e daí veio a opção dele em filmar uma Antitrama, um roteiro sem narrativa, onde não se apresenta os poersonagens, nem a problemática, nem há desenvolvimento da história e muito menos resolução de qualquer questão levantada. Mas isso não significa que o filme seja sem sentido, a ausência de narrativa está apenas no filme, entretanto acontece dentro da cabeça de quem assiste. É o expectador o responsável integral por dar sentido ao emaranhado de cenas que o diretor nos apresenta, já que em momento algum ele nos sugere o que pensar ou como agir frente a tela.

Dessa forma, Roy consegue que a mesma película se transforme em diversos filmes diferentes, conforme são diferentes as pessoas e sesus universos simbólicos e culturais. Ele nos tira do papel de mero expectador e nos faz, de forma mais evidente e necessária do que outros filmes de arte aos quais assisti. Não sei se existe essa diferença na língua Suéca, mas em bom português, poderiamos dizer que Roy nos faz conjugar o verbo assistir em suas duas regências, simultaneamente assistimos ao filme e o filme.

Enfim, é esse tipo mais amplo de percepção que vai deixar a experiência do Um Pombo Pousou... mais emocionante. Caso contrário, se você é daqueles que pensa muito pouco sobre quase nada, prepare-se para assistir (se conseguir ficar até o final) ao filme mais chato da sua vida.

O filme, acertadamente, se inicia com três cenas (reflexões) sobre a Morte, a mais antiga e universal reflexão da história humana que, como diriam os Unidos do Caralhaquatro, "desde os tempos mais primórdios", ela está aí, despertando desde a mais minúscula migalha de filosofia que cada um de nós carrega até a nossa mais evidente angústia. Isso já sensibiliza a todos da platéia sobre abordagem filosófica necessária para aproveitar o filme. Além do mais, as três cenas trazem consigo as chaves mestras para interpretar o restante das cenas: a Rotina, a Ganância e a Solidão. E é por essa lupa que Roy Anderson sugere interpretarmos o filme e, não só o filme, mas também as nossas próprias vidas.

Altamente simbólico, prato cheio pra quem gosta de semiótica, tudo no filme pode ser interpretado em muitos níveis, o que me impossibilita de descrever e comentar as cenas em mais detalhes, já que elas terão significados e impacto diferentes em pessoas diferentes, mas posso fazer um esforço sobre alguns aspectos:

Os cenários de aparencia artificial, em cores pastel e sem graça, com poucos detalhes e objetos de cena, tão sem graça quanto a vida da maioria das pessoas do filme (e por que não do mundo real também?); A cara extremamente pálida dos adultos, entediados e doentes, em contraponto com as feições mais rubras das poucas crianças que aparecem usando cores ao seu redor e se divertindo, alheias à realidade sombria e às frustrações da vida adulta; A camera estática, nos colocando como o tal pombo do título (com direito a arrulhadas em cena ou outra), simplesmente observando o desenrolar da vida daqueles humanos que passam, como as pessoas que dizem "Que bom saber que você está bem.", que em geral não estão bem, muito menos felizes, ou, no mínimo com inveja; Enfim, luzes, cores e movimentos onde a vida pulsa e penumbra, morbidez e estaticidade onde a vida já não existe mais com tanto vigor. É assim que se desenvolve o filme, num surrealismo delicioso pra quem aceita o convite à reflexão.

E os dois vendedores da sinopse aparecem onde, afinal? Eles são os personagens que mais aparecerem no filme. Moram num hotel que vezes parece um hospício, vezes um presídio, e insistem em vender artigos engraçados que não tem graça para pessoas tristes que não tem mais interesse em diversão. Vale citar uma passagem próxima do final do filme, na qual um deles, o mais sentimental, levanta uma questão existencial profunda e importante no meio da noite: "É correto usarmos outras pessoas para a nossa própria diversão?" e é dissuadido de continuar a pensar nisso, pois já é tarde e todos ali tem que dormir para poder acordar cedo e ir trabalhar. Nada mais contemporâneo e verdadeiro do que a triste realidade na qual a maioria das pessoas no planeta vive: deixando as próprias verdades de anseios de lado para poder, no outro dia, acordar cedo e cair na rotina robótica do trabalho que não as realiza como pessoa nem como ser humano.

E há mais, muito mais reflexões que se despertam das nossas profundezas, para a luz de nós mesmos durante esse filme. No fim das contas, até entendi os motivos do sujeito que fez a sinopse esconder a natureza filosófica do filme. Ele sabia que, certamente, espantaria muita gente que preferiria voltar para o sossego do lar, pois tem coisa mais importante pra fazer do que refletir sobre a própria vida: trabalhar logo cedo no dia seguinte, como todo mundo faz, desde sempre.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Eu te amo

Amada, minha amada
Que por outro enamorada
Voôu longe, foi se embora
Sem deixar rastro ou pegada

Fiquei nu, sem ti, sem nada!
Não vi mais teu riso largo
Teu cabelo de luar
Nem tua pele de alvorada

Nos meus braços fazem falta
O teu cheiro e colorido
Mas não ouso ficar triste
Se não bailas mais comigo

Pois, sei bem, amada, e te entendo
Não te sintas tão culpada!
O amor nasce sem avisos, assim sendo,
Vá! Vá colher os teus sorrisos!

terça-feira, 26 de maio de 2015

Edu Franz : Before You Go

No início destes ano, recebi o convite para me juntar a um time de grandes amigos músicos que, unidos dariam forma à banda de apoio de Edu Franz, jovem compositor, multi instrumentista de Cianorte (PR) e, também, um grande amigo.

Foi impossível negar a chance de ser baixista numa banda que contaria com o Éder Chapolla (velho companheiro de estrada) na bateria e Johnny Monster (um artista que admiro muito, há tempos) nas guitarras. Com três músicos tão diferentes em seus referenciais, o resultado imprevisível dessa mistura é sempre excitante. E pudemos comprovar que a química funcionou durante as sessões no Estudio Costella, para a preparação e gravação das 7 músicas que vão fazer parte de um EP a ser lançado em breve.

Good vibes at Costella's

O primeiro single foi lançado no dia 08 de Abril de 2015 e se chama Before You Go. Dançante e inspirado num rock mais moderno, já está sendo bem tocada nas rádios do interior do Paraná, e logo atingirá mais e mais lugares. O EP completo e mais outros materiais saem em breve, é só se manter conectado através do facebook para não perder as futuras boas notícias.

Bom, é isso. É com muita satisfação que apresento mais esse trabalho que pude colaborar como músico, produtor e tudo mais que foi preciso. Divirtam-se!





domingo, 17 de maio de 2015

Embrassez-moi

Depois de uma noite à francesa, acordar num domingo pela manhã, com versos em francês escorrendo pela cabeça é uma experiência deveras doida. Saltei da cama, pesquei-os e, duas horas depois, esse foi o resultado:


Embrassez-moi


Embrassez-moi!
Urgemment
La nuit est trop courte
Et la vie encore plus

Embrassez-moi!
Depuis la nuit jusqu'au matin
Aujourd'hui et etèrnellement
À l'infini et au-delà

Je suis déjà votre
Mais si vous êtes mienne, je ne sais pas
Voilà pourquoi je vous demande
Ce soir, embrassez-moi!



Mas, o difícil mesmo, foi fazer uma versão em Português. Outras duas horas para conseguir este resultado très charmant.



Me Beija


Me beija!
Urgentemente
A noite é tão breve
Mais breve ainda é a vida da gente

Me beija!
Pela noite, até o sol surgir
De hoje em diante, ao eterno porvir
Pelo infinito e mais, além

À ti já me dei
Mas se és minha, eu não sei
Por isso peço-te a certeza
Esta noite, amor, me beija!



Ps: Obrigado à prof. Karina Beniacar, pela consultoria en français.

terça-feira, 12 de maio de 2015

O quanto carregamos, o quão longe vamos.

Inspirado numa versão de um conto de Eckhart Tolle que Leandro Karnal contou em uma palestra do Café Filosófico.





Dois monges budistas caminhavam pela floresta e, ao chegarem à beira de um rio, encontraram uma garota muito bonita, vestida com pouco pano e exalando sensualidade. E ela pedia ajuda para atravessar o rio.

Ambos haviam feito voto de castidade, e o monge mais novo, ainda na punjança hormonal da juventude, sentindo-se ofendido pela presença e atitude da moça, negou a ajuda. Mas, para o espanto do mais novo, o monge mais velho, caridosamente e de muito bom grado, ofereceu-se para ajudar e, colocando a moça nas costas, a levou até o outro lado do rio, seca e em segurança. Despediram-se todos, e a viagem prosseguiu normalmente.

Quilômetros depois, o jovem monge, remoendo o acontecido e ainda revoltado com a atitude mundana de seu companheiro mais velho, perguntou-lhe, indignado:

– Como é que você cedeu àquela tentação? Como ousou envolver-se na luxuria dessa forma, arriscando seus votos, e ainda continuar calmo e tranquilo?

Com um sorriso amigável e sincero, o monge mais velho responde:

– Estou tranquilo e em paz porque eu carreguei a moça apenas até o outro lado do rio; mas, pelo jeito, você ainda a está carregando.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Café Filosófico : Hamlet, o anti-facebook e algumas reflexões sobre todos nós.


"Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre em nosso espírito sofrer pedras e setas com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, ou insurgir-nos contra um mar de provocações e em luta pôr-lhes fim?" - Hamlet


Tomar consciência de si e do próprio lugar no mundo, do vazio que tomou conta da nossa existência, não é tarefa simples e, certamente, gera grande parte da angústia que temos e as fugas que usamos para não lidarmos com essa questão. Tão antiga, que perturba desde Platão (e é, certamente, anterior à ele), o conheça-te a ti mesmo no desafia a olhar por detrás das nossas máscaras independentemente da dor que isso causa e, além disso, nos convida a empregarmos esse auto-conhecimento em atitudes condizentes com a realidade na qual queremos existir.

Num mundo de facebook, época de informação tão veloz, a dificuldade de significar as experiências e a falta de capacidade (muitas vezes medo) de mergulhar em si mesmo e se assumir como se é e não como dizem que devemos ser, nos torna escravo da chancela social. Aguardamos que o mundo aprove a nossa vida, dizendo se ela é ou não tão interessante quanto suspeitamos que ela seja, já que não temos mais capacidade ou coragem para comprovar por nós mesmo. Preferimos ser vigiados e julgados pelos outros do que aprender a sermos honestos conosco em momentos solitários que deveriam ser naturais e não sintomas de doença mental.

O drama do príncipe Hamlet pode ser mais contemporâneo do que parece. Reconhecer que "há algo de podre no reino da Dinamarca", utilizando as palavras do próprio Hamlet, é só o primeiro passo para uma grande e difícil obra de melhorias no reino interior de cada um de nós. Tal reflexão é um ato corajoso e necessário para o humano moderno que procura alternativas para libertar-se.

Então, aproveite mais esta ótima palestra de Leandro Karnal, feita para o Café Filosófico, da CPF CulturaNum retrato do hoje, o reflexo do ontem. Zygmunt Bauman e Willian Shakespeare. Somos um Hamlet Liquido? Enfim, se há mais coisas no céu e na terra do que sonha nossa filosofia, então, mãos à obra!



hamlet de shakespeare e o mundo como palco, com leandro karnal from cpfl cultura on Vimeo.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Filme : O Ladrão de Sonhos [1995, J.P. Jeunet e M. Caro]



Quanto nos custa sonhar? Qual o valor desses sonhos? Uma vida sem sonhos não deve ser fácil, a imagino árida. Krank, um velho rabugento e sem alma, criado por um cientista louco, sabe muito bem o que é uma vida sem sonho, pois ele não os tem. Ele, o próprio ladrão de sonhos, é que dá o título em português para o filme La Cité des Enfants Perdus, pois em desespero, tenta roubar os sonhos das crianças que sequestra para sua fortaleza isolada em alto mar. Mas só consegue pesadelos. Pobre Krank, desesperado, envelhece a cada sonho que não tem. E deve funcionar assim conosco também.

Mas essa não é a única referência à nossa psique existente nesse excelente filme, dirigido pela dupla J.P. Jeunet e Marc Caro e lançado em 1995. No mundo sombrio que eles criaram, cercados de água por todos os lados, desfilam personagens estranhos: aberrações de freak show com suas paranóias, guerreando entre si; um cérebro preso num aquário, dotado de sabedoria e enxaquecas, mas sem membros, depende dos outros para agir no mundo; uma trupe de clones que, juntos, não valem por uma pessoa sequer (como toda massa popular cheia de "iguais"); adultos infantilizados e/ou neuróticos; crianças sérias, com comportamentos bastante adultos; e até mesmo uma seita que prefere cegar-se ao ver os problemas do mundo e resolvê-los, aguardando algum messias que vá colocar tudo em ordem para, aí sim, eles voltarem a abrir os olhos e desfrutarem do paraíso. São todas caricaturas de nós mesmos, ou quem sabe, uma reprodução do caos interior de cada um de nós e de todos os elementos que o compõe. E não posso deixar de lembrar da figura da princesa anã, nada mais do que a imagem do amor artificial que, prisioneiro, escravizado e servil não cresceu, se deformou.

Com uma ambientação tão bonita, que conta, inclusive, com figurinos de Jean Paul Gaultier, uma cenografia tão importante quanto uma personagem da trama e um universo subjetivo complexo, atraente e rico – o que é bem comum no cinema de arte europeu – a busca do herói One e sua parceira Miette, por seu irmãozinho sequestrado pelo Ladrão de Sonhos é um mero detalhe, é só mais um dos elementos desse conto de fadas para adultos que conspiram para que, assim como aquele velho rabugento do Krank, nós também percebamos que sonhar é necessário para se viver e que até mesmo as aberrações têm esse direito.