sexta-feira, 22 de julho de 2016

Quem é você?

Mantenho o costume de encontrar amigos para tomar um café e conversar. Acredito que esse tempo ouvindo opiniões externas e revisitando as minhas, é um exercício importante para a manutenção da saúde mental e um fator inquestionável de melhoria na minha qualidade de vida. E espero que na dos amigos também! 

Num desses Cafés Filosóficos e Literários particulares, uma amiga, que é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e entusiasta do Budismo, contou-me de um estudo sobre os efeitos solidão nas pessoas, para o qual mantiveram alguns voluntários, por 55 minutos, sozinhos em uma sala completamente vazia, onde a única coisa que havia para fazer era apertar um botão que lhes daria um choque elétrico. Assustadoramente, após os 15 primeiros minutos, mais da metade dos voluntários preferiu passar o restante do tempo se eletrocutando a ficar quieto, em silêncio, a sós consigo mesmo.

As coisas só podem estar muito erradas quando tomar choques elétricos é melhor do que ficar a sós consigo mesmo. Shakespeare, em Hamlet, já alertava que o autoconhecimento é doloroso, e que, naturalmente, uma pessoa a desbravar seu mundo interior acaba desenvolvendo um certo tipo de dor e melancolia. Sim, é natural, inevitável e comum, é como a dor muscular que todos sentem após um exercício físico. E exercícios físicos são tão importantes para o corpo, evitando que definhemos, assim como os exercícios mentais. Portanto, diferente do que nos forçam a crer, sentir dor não é algo ruim, é apenas um alerta, um sinal de uso e convite para a reformulação de atitudes.

No mundo, fora do experimento, os nossos eletrochoques são os entorpecentes e as ressacas físicas e morais; a alienação pela TV, smartphones e excesso de informação inútil; o sofrimento do trabalho ininterrupto para suprir desejos infinitos e atingir metas impossíveis que nos impomos, tudo isso justamente para não termos tempo de nos encararmos e percebermos o quão vazio estamos. É claro que não se pode negar que as vis engrenagens do mundo nos levam a agir assim, elas nos maceram e nos coisificam, mas, também, é inegável a nossa responsabilidade em permitir chegarmos onde chegamos. Quem não se conhece não sabe do que precisa e aceita qualquer coisa.

Vejo o tantos sofrendo por terem desaprendido a ficar alguns segundos em silêncio. E, nesse mundo de estímulos múltiplos e simultâneos, que cobram respostas irrefletidas e imediatas, quase na velocidade da luz, só aumentamos, ainda mais, a quantidade de equívocos. É preciso frear. É preciso voltar a nos conectarmos com aquela voz interior que está soterrada sob um turbilhão de bilhões de ideias e sons, ruídos e pensamentos e ouvir o que ela tem a nos dizer.

Blaise Pascal alertou, há séculos atrás, que “todos os problemas da humanidade decorrem da incapacidade do homem de sentar-se calmamente em uma sala sozinho”. Imagino quanto sofrimento, pessoal e interpessoal, poderia ter sido evitado na nossa própria história e na história da humanidade, se utilizássemos melhor os nossos momentos de solidão para nos conhecermos e refletir sobre nossas atitudes conosco e com o mundo.


Bônus:
Gostou do assunto, ouça o que a Márcia Baja tem a dizer sobre a experiência dela com a Meditação.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Mulher-Lua




É impossível negar que toda música desperta algum sentimento, e pouca gente vai discordar de mim. Seja bom ou mal, seja nojo ou maravilhamento, não importa, toda música desperta algo na gente. Mas há algumas canções que vão mais fundo que outras e convulsionam áreas tão profundas que nem sabíamos existir. Uma dessas canções, na minha vida, é a Moon Woman 2, que faz parte do primeiro álbum do Elvis Perkins, chamado Ash Wednesday, lançado em 2007.

Num primeiro momento, a música me tocou pela sonoridade, timbres lindos de violão, bateria, violino e contrabaixo acústico; pela melancolia e por dois versos de efeito, que sozinhos já criaram um quadro lindo na minha imaginação: "It hasn't been this bright in a century and a third" (Não tem sido tão brilhante em um século e um terço) e "You've got this power over me" (Você tem esse poder sobre mim).

Elvis Perkins dá à mulher amada os mesmo poderes da Lua sobre a terra. Ela ilumina as noites, tem grande influência nas marés e em tudo quanto é ciclo; na fertilidade, crescimento e colheita de todas as coisas; dos nossos fios de cabelo às grandes Secóias da Califórnia. Realmente, os mesmos poderes que quem amamos tem sobre nós.

Reconheço que não foi uma ideia muito inovadora comparar o ser amado com a Lua que, apesar de uma imagem muito bonita, também é bastante comum no universo lirico mundial. Mas, o que me me encanta é que, de alguma forma, mesmo não sendo tão original falar da mulher amada que, como a lua, intocável e inacessível, sequer sabe da sua existência, mas influencia e ilumina a escuridão que se fazia por mais de século em sua vida, Elvis me despertou algo que jazia muito profundo em mim, e tem me feito olhar, novamente, com mais atenção e reverência a beleza das pessoas que se orbitam e se influenciam, umas às outras outras, através dessa força gravitacional irresistível que é o amor.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O Arquipélago

Apesar de "O Arquipélago" ser, também, o nome da última parte da saga "O Tempo e o Vento", do Érico Veríssimo, que eu adoraria fosse o tema de hoje, ainda não tomei fôlego para lê-la, portanto, falaremos do arquipélago tradicional, o conjunto de ilhas, mesmo.

Desde que me entendo por gente ouço, soando pelas bocas do mundo todo, a frase "nenhum homem é uma ilha", máxima que nos lembra sobre nossa existência ser coletiva, conectada e interdependente, uns com os outros. Nos últimos anos, com a constante observação e, porque não, exploração de mim mesmo, me deparei com uma espécie ecossistema fisiopsicológico singular, complexo, quase autossuficiente  veja bem: quase  que existe dentro das minhas fronteiras. Então me veio a pergunta: será que não somos, mesmo, uma ilha?

Por curiosidade histórica, pesquisei sobre a tal frase que me provocou estas reflexões e descobri que ela foi cunhada por John Donne, um poeta inglês, e publicada, em 1624, na obra "Devoções para Ocasiões Emergentes”, composta por vários tomos  coincidentemente, também assim é o "Tempo e o Vento", do Veríssimo. Um desses tomos é o "Meditações XVII", no qual se lê a famosa: "Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo". Como bônus da pesquisa, também entendi o título do livro "Por quem os sinos dobram" do Ernest Hemingway, publicado em 1940. Inspirado por Donne, Hemingway usa o final da meditação sobre o homem-continente como ideia central, título e palavras de abertura do livro. Aí vai: "...a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.

Agora, voltando à questão da nossa solitude e conexões, é impossível negar natureza coletiva da nossa existência. Vivemos, sem sombra de dúvidas, em uma conexão inevitável uns com os outros, no mundo inteiro, com o universo todo, inclusive. E como alertou John Donne, devemos considerar toda interação como necessária, como mecanismo de evolução e crescimento individual e, por consequência, coletivo. Por isso escrevi o "quase" autossuficientes lá no segundo parágrafo.

Mas, ao mesmo tempo, não podemos negar a nossa natureza de ilhas, como seres completos em nós mesmos. Mesmo que, às vezes, meio desequilibrado, o nosso ecossistema pessoal é completo em si mesmo, complexo e feito para se sustentar, perfeitamente, quando sozinho. Exatamente como o ecossistema de uma ilha, cada um de nós tem as suas peculiaridades e a capacidade de permanecer em harmonia consigo mesmo, sem necessidades de grandes influências externas. 

Lembro, ainda, como me lembraram numa palestra que, apesar da aparência isolada, todas as ilhas estão fisicamente conectadas umas às outras pelas profundezas do mar. Elas também interagem e se influenciam pelas correntes marítima e, até mesmo, pelas correntes invisíveis de ar. Ou seja, não importa o quão fundo ou quão invisível esteja a conexão, ela existe e é real. John Donne estava parcialmente correto. Somos ilhas, sim! Completos em nós mesmos. Mas, independente se grandes e firmes porções de terra, ou minúsculos bancos de areia ou rocha, estamos inevitavelmente conectados, nos complementamos, formando um grande e belo arquipélago.

terça-feira, 21 de junho de 2016

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Temas Variados

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Dos Direitos

Fala-se muito sobre os vários de direitos que todos temos. Direito de ir e vir, de pensar, de se expressar, de ser feliz... enfim, de viver, e viver bem. Também se luta muito para que tais direitos sejam garantidos e praticáveis. A luta é boa, necessária, e deve se dar, principalmente, no campo da educação, único campo de batalha que permite sucesso na campanha.

Mas fala-se pouco, ou quase nada, dos deveres. Qualquer pessoa que se interessou, minimamente que seja, pela a Ética ou pelo Direito e adjacências, deve ter ouvido a célebre frase: "para todo direito existe um dever", sendo que o oposto também é válido, ou seja, pra todo dever existe um direito. E é assim, nesse mata-mata entre direitos e deveres ou, parafraseando Montesquieu, "nesse sistema de freios e contrapesos", que a sociedade vai caminhando equilibrada, sem pender pra lado nenhum, sem correr o risco de esmagar ninguém.

Por isso, é sempre interessante, ao exigir um direito, examinar muito bem se os deveres que o autorizam estão sendo cumpridos, sem jamais esquecer de que cumprir dever não é fazer favor.

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Dos Talentos

Vejo-me artista desde pequeno, e minha vida foi, por muito tempo, um exercício de reafirmação diária, para a sociedade e para mim mesmo, primeiro sobre o ser ou não ser artista e, depois, se fiz mesmo a escolha certa. Hoje, sou bem feliz por não ser mais assim. Tenho a certeza de estar fazendo a maioria das coisas que deveria estar fazendo, afinal, sempre tem algo a mais que vida pode nos apresentar.

Mas, ao meu redor, vejo um grande número de pessoas agoniadas, tristes por se negarem ou sequer se conhecerem direito, sofrendo como eu sofria antes de me reconhecer no que sou. O processo é difícil mesmo, demanda um mergulho fundo em si, diálogos internos e sinceros, estudo, trabalho, força e, nem todos tem disposição para tanto esforço. Existe, também, a pressão social e cultural que nos soterra e imobiliza sob toneladas escombros de preguiça, de leviandades e de medos. Nestas condições, me disse uma terapeuta: "Você tem apenas duas opções: ou aceita a vida que tem, pro estrago ser menor e colhermos alguns sorrisos; ou muda de vida, pra vida que realmente quer ter, e se realiza plenamente. A opção é inteira e somente sua."

Depois de me formar em Direito, ser bancário, segurança de eventos, lavador de pratos, balconista de lanchonete, garçom de churrascaria, me encontrei músico e escritor. Mas sempre executei muito bem todos os outros trabalhos e, assim, percebi que todos temos talento pra sermos o que quisermos. É só uma questão de conhecimento, escolha e dedicação.

Após encontrar-se no que se faz de melhor, a próxima fase é decidir como usar os talentos descobertos da melhor forma, sempre para o bem. Como, ganhando um martelo, escolhesse construir um abrigo ao invés de atacar um desafeto. É claro que, durante a construção da casa eu corro o risco de cometer equívocos, causar acidentes ou me machucar. O instrumento é o mesmo, mas a intenção, a meta final é tão nobre, que vale a pena por as mãos à obra e correr todo risco.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Ouvindo estrelas

Via Láctea - Soneto XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".


Este soneto, do Olavo Bilac (1865-1918), herdei da primeira namorada. Poderia ter sido das provas de poesia do colégio Alfa, lá em Umuarama, quando a professora Eny nos dava notas por decorar e declamar poemas na frente da sala. Lembro-me claramente das inúmeras vezes que ouvi estes versos sem arrepio qualquer. Sequer pensei em declamá-la, também. Mas foi ouvir, da primeira namorada, que essa era sua poesia preferida para que, imediatamente, me colocasse a decorá-la para poder declamá-la em qualquer situação que permitisse. O amor deixa a gente assim mesmo, tresloucado, como diz o poema, principalmente o amor primeiro, juvenil e explosivo.

O Soneto XIII, intitulado Via Láctea, também é conhecido como “Ouvir Estrelas”. Foi publicado, pela primeira vez, no livro "Poesias", o primeiro de Olavo Bilac, lançado quando ele tinha 23 anos de idade. Bilac, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, é considerado um dos expoentes do Parnasianismo, movimento poético que se preocupava mais com a forma e a objetividade do que com a parte subjetiva de um poema, mesmo tendo, grande parte de seus poemas, uma alta incidência de subjetivismo. Parnasiano na forma e romântico no conteúdo, uma mistura muito acertada.

Às vezes, penso que este soneto seja "o pequeno príncipe dos poemas", que quase todo mundo encontra cedo na vida e, alguns mais sensibilizados, o acolhem por motivos muitos. E, assim como a fábula de Saint-Exupéry, ele tem imagens tão bem construídas que, até mesmo uma interpretação superficial, quase literal, é agradável. Receita óbvia pra alguns, enigmático para outros – como todo bom poema – o Via Láctea descreve a imagem com bastante clareza, desenha o simbolo em detalhes, mas deixa uma interpretação ampla quem o lê.

Até hoje, ao olhar as estrelas no céu noturno, ou procurar por elas durante o dia – no sentido literal ou figurado –, ouço, lá do fundo da alma, o cético a me chamar de "tresloucado amigo", mas o poeta que ali também está, sempre mais sensível, logo rebate, com toda a razão e certeza do universo: "só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas".

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Pequenos Pensamentos

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Mudei-me

Mudei-me de endereço aqui em São Paulo. Não resido mais na saudosa Consolação, vim para o Bela Vista. Como já disse pra alguns amigos: "não sei se subi de vida, mas o morro eu sei que subi! E os aclives todos estão aí pra confirmar."

Após a carga do carreto, já passado o horário de encerramento do turno do zelador, combinei com o síndico que deixaria o chão da entrada do edifício limpo, pois o dia era chuvoso e a sujeira foi grande. Pequei o esfregão e fiz o serviço. Quando estava próximo à porta de entrada, faltando alguns degraus, dei-me conta de que estava limpando local que poderia ter sido o último que vistei, por conta de um encontro um tanto perigoso. Continuei a limpeza agradecendo, sinceramente todo o local, degrau por degrau, soleira, porta e tudo mais que, mesmo nas horas difíceis, me trouxe coisas boas. Saí deixando os degraus do Edifício Ninfa e a minha alma bem limpas.

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Processo

Dia desses me perguntaram se tinha sido difícil perdoar a pessoa que me feriu, gravemente, em frente ao meu antigo endereço, na Rua da Consolação, aqui em São Paulo. Respondi que, no início, como em qualquer início, foi difícil, mas os 4 dias no hospital, olhando o ferimento, me deram tempo de sobra para refletir sobre o caso. E que, agora, tem sido a cada dia mais fácil. 

Sim, tem sido. Pois perdão, pra mim, tem se mostrado um processo contínuo e não uma única atitude. Não é esquecer, sob pena lembrar quando não deve; não é relevar, sob pena de guardar rancor eterno. Perdoar é não revidar uma atitude maléfica com outra, é compreender, mesmo através do pequeno recorte da realidade que dispomos, a parcela de responsabilidade que nos coube na história. E sempre existe uma, mesmo que minúscula.

Mesmo que encerrado o ciclo vicioso de rancores, as cicatrizes são inevitáveis e seguem sempre conosco, por isso, é necessário o reexame diário e amoroso de cada uma delas. Se despertarem sentimentos ruins, o perdão ainda não está por perto; se bons, o perdão já está mais próximo. E é só a prática que leva à perfeição.

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Colheita

Muitos ainda se assustam com as pessoas, hoje em dia. Atitudes bárbaras, violentas, sexistas e materialistas. Agem como um agricultor que plantou sementes de cebola e se entristece ao ver que a horta não gerou morangos. Na natureza as regra são claras: colhe-se o que se planta. Durante décadas plantamos ideias mesquinhas e conceitos deturpados sobre como deveríamos nos relacionar com a vida e entre nós mesmos. Plantamos ganância, egoismo, vaidade, sensualidade desregrada, materialismo excessivo, ao ponto de, em pleno 2016, com tanto conhecimento e possibilidades disponíveis para a felicidade, ainda encontramos pessoas que se dizem vazias, tristes, e que não dão valor à vida própria ou alheia. 

Entretanto, apesar do quadro triste, dessa colheita sombria da maioria, outros tantos estão colhendo o amor, as alegrias e a gratidão que plantaram. É a prova de que é possível encontrar e cultivar as boas sementes nessa mesma terra que tentam nos fazer desacreditar. Então, aproveitemos que, como na lavoura, após cada colheita, se prepara a velha terra para novo plantio, e preparemos a terra da nossa alma, da nossa sociedade e plantemos, agora atentos, as boas sementes que, certamente, todos trazem no coração.