sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Críticas à crítica

Não sabemos quando na história humana atribuímos ao verbo "criticar" o aspecto exclusivamente negativo. Hoje, criticar significa falar mal, mas o dicionário sempre nos lembra que criticar é apenas avaliar, julgar. Ou seja, também é possível criticar, avaliar ou julgar algo positivamente.

O processo crítico depende de que quem critica tenha algum conteúdo, argumentos que dialoguem, que o conectem com o que está sendo avaliado, seja ele uma obra de arte, um costume, ou uma pessoa. Para avaliar algo é preciso compreendê-lo, entender o processo que o fez ser o que é e o onde ele pretende chegar. Assim, após entendido, refletido, digerido, emite-se o juízo positivo ou negativo.

Quando não entendemos o que estamos avaliando, achamos feio, falamos mal. E arrogantes que somos, concluímos que falar mal é mais fácil do que tentar entender e se conectar. Talvez seja daí, pela maior incidência de julgamentos negativos, pela facilidade de produzi-los, nos desacostumamos com a possibilidade da existência da crítica positiva e nos condicionamos de que crítica é algo sempre negativo.

Mas, sem remorsos! A culpa não é só nossa. Não nos preocupamos em entender o outro lado, porque não fomos treinados pra isso. Sócrates sugeria o uso de três filtros para averiguar se uma opinião merecia ser emitida: Bondade, Verdade e Utilidade. Ou seja, uma opinião só mereceria ser emitida se fosse para o bem, fundada na verdade e tivesse alguma utilidade. Desta forma, sem uma cultura crítica, que deveria nos ser ensinada nos bancos escolares, nem sequer sabemos da existência de Sócrates, quem dirá do que ele disse. E, assim, unindo desconhecimento com a impressão de que temos que emitir opinião sobre tudo, essa urgência opinativa que as redes sociais nos trouxeram, falamos muito e sem pensar, tanto que poucos se lembram das próprias opiniões, se afogando em um mar de contradições sem perceber.

É hora de despertar! A crítica negativa é o atalho do preguiçoso, o ato falho do desavisado, como também o são as atitudes negativas. É mais fácil desdenhar do que cogitar; jogar fora do que consertar, seja um eletrodoméstico ou um relacionamento; é mais fácil dizer que não gostei do que assumir não ter entendido e me esforçar para entender. Tudo sendo imperfeito, é mais fácil apontar alguns dos milhares defeitos, que obviamente existirão, do que analisar um pouco mais a fundo e identificar as exceções da regra, onde não há defeitos ou erros, e tecer algum elogio.

Criticar é um ato de conexão e só se conecta quem se coloca no mesmo nível, compartilha dos mesmos valores, mesmo que temporariamente e, por isso, é um exercício de humildade e empatia. A ausência de humildade e o orgulho nos faz sofrer e causar sofrimentos sempre que avaliamos ou somos avaliados, não importa se bem ou mal. Então, combater as fortificações o ego, que nos transformam em seres invencíveis e perfeitos, nos ajudaria a tecer e a receber críticas de uma forma mais madura, mais caridosa e humilde e, quem sabe, tomarmos providências para nos melhorar. Talvez, dessa forma, recolocaríamos no vocábulo "críticar" a sua tão bela e útil dualidade que, entre o bem e o mal, nos ajuda a chegar, sempre, num lugar melhor.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Quando o nome não importa

E se eu estiver errado? E se não existir nada disso em que acredito: Deus, Reencarnação, um sentido e um motivo pra tudo? E se for apenas o acaso, uma confluência de fatores aleatórios? É o que às vezes me perguntam e que, por exercício filosófico, também me pergunto de tempos em tempos.

Desde sempre tenta-se provar a existência de Deus. Vejo, semanalmente, circulando pela internet, várias matérias, estudos científicos ou não, sobre esse tema. Alguns comprovam a existência, outros comprovam a inexistência e, outros tantos, são inconclusivos. São, mesmo, desnecessários.

Então vamos, por exercício, imaginar um Universo sem Deus, sem causa e sem objetivo. Um universo cujas relações sejam resultado de encontros e desencontros, equilíbrio e desequilíbrio ao acaso, onde as questões materiais são as únicas existentes.

Sabemos ser, o Universo, extremamente equilibrado, e isso científico. Já vi estudos dizendo que se houvesse uma diferença milimétrica no coeficiente de atração gravitacional – ou seja, na força que atrai e mantém nossas as moléculas unidas –, tanto pra mais quanto pra menos, tudo entraria em colapso e nenhum tipo do que chamamos de "matéria" conseguiria existir.

Portanto, equilíbrio me parece ser a palavra chave do Universo. E esse equilíbrio milimétrico pode ser observado em tudo. Na natureza, em tudo o que nos cerca, todos os minerais, fauna e flora se equilibram e se complementam na exata necessidade e possibilidade de cada um. Não vemos animais irem à caça sem fome, e se atacam é por necessidade imperiosa de manter-se vivo, jamais por esporte ou diversão. Uma árvore nunca acumula seus frutos só para si, pelo contrário! Ela oferece, além do alimento, abrigo, até mesmo praqueles que a destroem, como insetos ou humanos.

Notamos, então, que tudo o que existe se sustenta entre si e, se houvesse Deus no Universo que analisamos, diríamos que tudo se conecta de uma forma inteligente. Mas, inteligência depende de algum tipo de ente para se manifestar e, não o havendo este ente, chamaremos essa relação de dinâmica e equilibrada. 

Também sabemos que todo desequilíbrio nessa equação universal vem de um único fator: a ação humana. Nós, desavisados de que somos parte desse sistema, agimos como desconectados dele, criando desequilíbrios naturais e climáticos, pragas, epidemias e outras coisas do gênero e que nos trazem sofrimento. Ora, se somos parte do sistema, feitos da mesma matéria, através das mesmas "leis da física", o que nos permitiria agir sem considerar tais "leis"?

Matamos e nos alimentamos acima da necessidade; acumulamos nossos frutos até que nossos galhos se quebrarem; ingerimos veneno diariamente; vivemos a primavera durante inverno, o dia durante a noite, a vida na morte, a morte na vida. E nos achamos no direito de reclamar da dor, único resultado possível da nossa inconsequência.

Atração, caridade, progresso e amor são algumas das várias regras evidentes na natureza e a simples lógica sugere respeitá-las, independente do que as tenha definido, seja o acaso, o caos, o cosmo, a natureza ou, até mesmo, Deus.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Você mudou muito?

Vagava pela internet quando apitou o Facebook. Era uma pergunta: "você mudou muito?". Tão clara e objetiva mas, nos primeiros segundos, espantei-me por não saber a resposta. O outro lado esclarece que, lendo meus textos, me percebeu diferente.

Lembrei-me de como eu era, há anos atrás, quando nos encontramos pela última vez. Lembrei-me de como eu era o ano passado, e me vi agora, como estou. É, eu havia mudado, mas não tinha percebido que a mudança interior já estava se mostrando ao exterior. E um exterior distante, pois quem percebeu essa mudança mora na Alemanha. Devo ter mudado bastante mesmo!

Finalmente consegui a resposta e, com convicção, respondi: "Sim, mudei muito". E como foi bom poder responder isso! Imaginei a tristeza e a frustração se a resposta fosse um "mudei nada! Continuo na mesma vida chata de sempre". Que alívio! Que bom que eu mudei!

Então passei os dias seguintes tentando me lembrar quando essa difícil e prazerosa jornada pela mudança começou. Cheguei até 1994, quando eu tinha 14 anos de idade e, espantado com a "vida adulta" que meus colegas já viviam, comentei para um amigo: "Me sinto atrasado vendo eles fazendo todas essas coisas que eu ainda não faço”. E a resposta que esse amigo me deu - os amigos, sempre eles! - subverteu, pela primeira vez, a realidade à minha frente: "E quem disse que é você o atrasado? E se forem eles os adiantados?".

De queixo caído, com o cérebro faiscando como nunca, senti, pela primeira vez, que somos nós que significamos as coisas e não o contrário. Aceitar a vida, passivamente, sem qualquer processo crítico é criar um calabouço para si mesmo. Rompi, naquele momento, os grilhões e aceitei o chamado da consciência.

Embarquei numa aventura em busca da felicidade, da verdade das coisas, do auto-questionamento, auto-conhecimento e auto-superação, tão ou mais emocionante quanto a saga de um Hobbit pela Terra Média ou a de um jovem bruxo britânico. É uma jornada sem mapa, cujo caminho a seguir é revelado durante um percurso cheio de enfrentamentos interiores e exteriores, com altos e baixos, armadilhas, cativeiros e redenções, como em toda boa aventura.

Mas não há jornada se há medo, e não há vivencia sem erros. Se há um fim, existe um começo e, principalmente, um meio, um caminho, um processo. Desde aquele início, em 1994, já andei por vários caminhos diferentes, montando acampamento em lugares que é melhor nem mencionar, de tão horripilantes. Mas o desconforto que ali encontrava me fazia mudar, seguir adiante, para qualquer outro lugar, se melhor ou pior, não importava, desde que diferente. Importava era tentar algo melhor.

E a cada novo caminho, a cada novo lugar visitado, uma nova paisagem se agrega e traz, melhor do que respostas, mais perguntas, mais fome, mais sede, mais motivos para seguir. Ser perseverante é uma virtude essencial para o aventureiro nesse tipo de peregrinação. Que por ser longa, possivelmente eterna, não haverá vitória apenas ao final, mas a cada passo dado, a cada vez que a resposta for "sim" para quando te perguntarem se você mudou. E você, mudou muito?

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Nos olhos de quem vê


"As pessoas são bonitas quando se presta atenção nelas, né?". Foi o que Mônica me disse, durante uma das aula sobre Espiritismo que frequento. Já se passaram meses e tal frase ainda me comove todas as vezes nas quais me volta à mente.

Eu não sabia pra quem a colega estava olhando quando lhe assucedeu tal pensamento, mas olhei ao redor, agora com mais atenção, pra cada uma das pessoas que dividiam aquela fatia de espaço-tempo comigo. Tantas feições, tantas histórias diferentes. Era impossível mensurar o que continha cada ruga, cicatriz ou fio de cabelo que estavam diante dos meus olhos. E quantos olhos! Que olhares! Felizes, tristes, cansados, esperançosos, curiosos... resultados de aventuras tão secretas, até pra elas mesmas. E esse enigma, esse segredo inacessível, revestia tudo com a aura mágica da beleza que a colega me assinalava.

Perceber, com mais atenção, as pessoas ao meu redor lembrou-me dum exercício que fazia quando adolescente, lá em Umuarama. Tinha o costume de andar, durante o por-do-sol ou alta noite, pela avenida Getúlio Vargas, tentando sentir as pessoas dentro de cada casa em frente da qual passava. Quantas eram? O que estariam fazendo? O que estariam sentindo? Algumas estariam no quarto, outras na sala de TV. Alguém na cozinha? Algumas felizes; outras amarguradas; outras apaixonadas, esperando o telefonema que lhes acalentaria o coração; outras dormindo, se preparando para o próximo dia. Eram tantos os sentimentos e, mesmo que imaginários, os sentia bem reais e me conectava com a vizinhança toda, me tornava parte daquilo tudo.

Mas, como diz meu amigo Nevilton, "o mundo se pôs a girar", e cada vez mais rápido. O tempo para esse capricho, esse exercício de se conectar às outras pessoas se dissolveu na rotina e, só ali, naquela sala de aula, notei que raramente voltava a essa prática que tanto gostava e tanto me fazia bem. Antes eu prestava atenção nas pessoas até mesmo sem vê-las, e isso havia se tornado raro até com elas na minha frente.

Agora, sempre que caminho pela rua, dou mais atenção a quem passa ao meu redor e vejo que a Mônica estava certa. Há muita beleza em todo lugar. Até tentei refazer o exercício adolescente, ontem à tarde, no meio da Avenida Paulista. Quase caí em convulsão quando senti as milhares de pessoas que estavam ali, num raio de 100 metros de mim, pela rua; pelo metro; nos ônibus e carros; espalhadas pelos andares de tantos prédios; descansando; trabalhando; comprando livros, roupas; tomando café; comendo macarronada; apressados; tristes; contentes; preocupados; realizados; vazios... 

É, sim, muita coisa pra se dar atenção. Assusta. Mas a vida é esse plural magnífico mesmo, é cheia de coisas pra se dar atenção, conectar-se e sentir, enriquecer-se. Com prática e foco, tudo fica mais seguro e saudável. Não é preciso criar barreiras, mas, sim derrubá-las. Só assim será possível perceber que não só as pessoas são bonitas quando se presta atenção nelas, mas que tudo é bonito quando se presta atenção.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Quem é você?

Mantenho o costume de encontrar amigos para tomar um café e conversar. Acredito que esse tempo ouvindo opiniões externas e revisitando as minhas, é um exercício importante para a manutenção da saúde mental e um fator inquestionável de melhoria na minha qualidade de vida. E espero que na dos amigos também! 

Num desses Cafés Filosóficos e Literários particulares, uma amiga, que é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e entusiasta do Budismo, contou-me de um estudo sobre os efeitos solidão nas pessoas, para o qual mantiveram alguns voluntários, por 55 minutos, sozinhos em uma sala completamente vazia, onde a única coisa que havia para fazer era apertar um botão que lhes daria um choque elétrico. Assustadoramente, após os 15 primeiros minutos, mais da metade dos voluntários preferiu passar o restante do tempo se eletrocutando a ficar quieto, em silêncio, a sós consigo mesmo.

As coisas só podem estar muito erradas quando tomar choques elétricos é melhor do que ficar a sós consigo mesmo. Shakespeare, em Hamlet, já alertava que o autoconhecimento é doloroso, e que, naturalmente, uma pessoa a desbravar seu mundo interior acaba desenvolvendo um certo tipo de dor e melancolia. Sim, é natural, inevitável e comum, é como a dor muscular que todos sentem após um exercício físico. E exercícios físicos são tão importantes para o corpo, evitando que definhemos, assim como os exercícios mentais. Portanto, diferente do que nos forçam a crer, sentir dor não é algo ruim, é apenas um alerta, um sinal de uso e convite para a reformulação de atitudes.

No mundo, fora do experimento, os nossos eletrochoques são os entorpecentes e as ressacas físicas e morais; a alienação pela TV, smartphones e excesso de informação inútil; o sofrimento do trabalho ininterrupto para suprir desejos infinitos e atingir metas impossíveis que nos impomos, tudo isso justamente para não termos tempo de nos encararmos e percebermos o quão vazio estamos. É claro que não se pode negar que as vis engrenagens do mundo nos levam a agir assim, elas nos maceram e nos coisificam, mas, também, é inegável a nossa responsabilidade em permitir chegarmos onde chegamos. Quem não se conhece não sabe do que precisa e aceita qualquer coisa.

Vejo o tantos sofrendo por terem desaprendido a ficar alguns segundos em silêncio. E, nesse mundo de estímulos múltiplos e simultâneos, que cobram respostas irrefletidas e imediatas, quase na velocidade da luz, só aumentamos, ainda mais, a quantidade de equívocos. É preciso frear. É preciso voltar a nos conectarmos com aquela voz interior que está soterrada sob um turbilhão de bilhões de ideias e sons, ruídos e pensamentos e ouvir o que ela tem a nos dizer.

Blaise Pascal alertou, há séculos atrás, que “todos os problemas da humanidade decorrem da incapacidade do homem de sentar-se calmamente em uma sala sozinho”. Imagino quanto sofrimento, pessoal e interpessoal, poderia ter sido evitado na nossa própria história e na história da humanidade, se utilizássemos melhor os nossos momentos de solidão para nos conhecermos e refletir sobre nossas atitudes conosco e com o mundo.


Bônus:
Gostou do assunto, ouça o que a Márcia Baja tem a dizer sobre a experiência dela com a Meditação.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Mulher-Lua




É impossível negar que toda música desperta algum sentimento, e pouca gente vai discordar de mim. Seja bom ou mal, seja nojo ou maravilhamento, não importa, toda música desperta algo na gente. Mas há algumas canções que vão mais fundo que outras e convulsionam áreas tão profundas que nem sabíamos existir. Uma dessas canções, na minha vida, é a Moon Woman 2, que faz parte do primeiro álbum do Elvis Perkins, chamado Ash Wednesday, lançado em 2007.

Num primeiro momento, a música me tocou pela sonoridade, timbres lindos de violão, bateria, violino e contrabaixo acústico; pela melancolia e por dois versos de efeito, que sozinhos já criaram um quadro lindo na minha imaginação: "It hasn't been this bright in a century and a third" (Não tem sido tão brilhante em um século e um terço) e "You've got this power over me" (Você tem esse poder sobre mim).

Elvis Perkins dá à mulher amada os mesmo poderes da Lua sobre a terra. Ela ilumina as noites, tem grande influência nas marés e em tudo quanto é ciclo; na fertilidade, crescimento e colheita de todas as coisas; dos nossos fios de cabelo às grandes Secóias da Califórnia. Realmente, os mesmos poderes que quem amamos tem sobre nós.

Reconheço que não foi uma ideia muito inovadora comparar o ser amado com a Lua que, apesar de uma imagem muito bonita, também é bastante comum no universo lirico mundial. Mas, o que me me encanta é que, de alguma forma, mesmo não sendo tão original falar da mulher amada que, como a lua, intocável e inacessível, sequer sabe da sua existência, mas influencia e ilumina a escuridão que se fazia por mais de século em sua vida, Elvis me despertou algo que jazia muito profundo em mim, e tem me feito olhar, novamente, com mais atenção e reverência a beleza das pessoas que se orbitam e se influenciam, umas às outras outras, através dessa força gravitacional irresistível que é o amor.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O Arquipélago

Apesar de "O Arquipélago" ser, também, o nome da última parte da saga "O Tempo e o Vento", do Érico Veríssimo, que eu adoraria fosse o tema de hoje, ainda não tomei fôlego para lê-la, portanto, falaremos do arquipélago tradicional, o conjunto de ilhas, mesmo.

Desde que me entendo por gente ouço, soando pelas bocas do mundo todo, a frase "nenhum homem é uma ilha", máxima que nos lembra sobre nossa existência ser coletiva, conectada e interdependente, uns com os outros. Nos últimos anos, com a constante observação e, porque não, exploração de mim mesmo, me deparei com uma espécie ecossistema fisiopsicológico singular, complexo, quase autossuficiente  veja bem: quase  que existe dentro das minhas fronteiras. Então me veio a pergunta: será que não somos, mesmo, uma ilha?

Por curiosidade histórica, pesquisei sobre a tal frase que me provocou estas reflexões e descobri que ela foi cunhada por John Donne, um poeta inglês, e publicada, em 1624, na obra "Devoções para Ocasiões Emergentes”, composta por vários tomos  coincidentemente, também assim é o "Tempo e o Vento", do Veríssimo. Um desses tomos é o "Meditações XVII", no qual se lê a famosa: "Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo". Como bônus da pesquisa, também entendi o título do livro "Por quem os sinos dobram" do Ernest Hemingway, publicado em 1940. Inspirado por Donne, Hemingway usa o final da meditação sobre o homem-continente como ideia central, título e palavras de abertura do livro. Aí vai: "...a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.

Agora, voltando à questão da nossa solitude e conexões, é impossível negar natureza coletiva da nossa existência. Vivemos, sem sombra de dúvidas, em uma conexão inevitável uns com os outros, no mundo inteiro, com o universo todo, inclusive. E como alertou John Donne, devemos considerar toda interação como necessária, como mecanismo de evolução e crescimento individual e, por consequência, coletivo. Por isso escrevi o "quase" autossuficientes lá no segundo parágrafo.

Mas, ao mesmo tempo, não podemos negar a nossa natureza de ilhas, como seres completos em nós mesmos. Mesmo que, às vezes, meio desequilibrado, o nosso ecossistema pessoal é completo em si mesmo, complexo e feito para se sustentar, perfeitamente, quando sozinho. Exatamente como o ecossistema de uma ilha, cada um de nós tem as suas peculiaridades e a capacidade de permanecer em harmonia consigo mesmo, sem necessidades de grandes influências externas. 

Lembro, ainda, como me lembraram numa palestra que, apesar da aparência isolada, todas as ilhas estão fisicamente conectadas umas às outras pelas profundezas do mar. Elas também interagem e se influenciam pelas correntes marítima e, até mesmo, pelas correntes invisíveis de ar. Ou seja, não importa o quão fundo ou quão invisível esteja a conexão, ela existe e é real. John Donne estava parcialmente correto. Somos ilhas, sim! Completos em nós mesmos. Mas, independente se grandes e firmes porções de terra, ou minúsculos bancos de areia ou rocha, estamos inevitavelmente conectados, nos complementamos, formando um grande e belo arquipélago.

terça-feira, 21 de junho de 2016