segunda-feira, 30 de maio de 2016

El Mapa de Todos


Emocionado pelo filme "Neruda - Fugitivo" (2014, Manoel Basoalto) e por todo o esforço poético, literário e de vida que o poeta teve na tentativa de unificar a América do Sul ou, pelo menos, criar um sentimento Sulamericano comum, senti-me envergonhado por ser um tanto alheio à cultura e, principalmente, à música tradicional desta fatia de continente que me cerca. Coloquei-me, então, numa jornada de reconhecimento da vizinhança, da qual, afora o Tango e a Música Contemporânea Argentina, do imbatível Astor Piazzolla, sei muito pouco. Saí, então, do Chile de Neruda, Violeta Parra e Atahualpa Yupanqui, passei pelo Paraguai, revisitei a Argentina e cheguei ao Uruguai, onde encontrei Daniel Viglietti (Montevideo, 1939).

Durante a segunda metade do Sec. XX, parecia que a America do Sul estava infectada pelo vírus dos governos ditatoriais e, naqueles tempos de terror, entre revoluções e governos totalitários, assim como no Brasil, haviam, em toda parte, movimentações estudantís, artísticas e políticas que lutavam por libertar o povo do estado repressor. Pelo que entendi, Daniel Viglietti foi como o nosso Geraldo Vandré, que armado com seu violão, música e poesia, cantava a liberdade durante os duros anos da década de 1960.

Minha canção preferida de Viglietti é "Milonga de Andar Lejos", do disco "Canciones para el Hombre Nuevo", de 1968. Nessa milonga, um tipo de canção que adoro, por ser lenta e melancólica, Viglietti canta o amor pela sua terra cujo sangue é mestiço e que, apesar de muitas e diferentes bandeiras, tem a mesma pobreza. Por isso, cantava ser preciso derrubar as fronteiras, expandir o mapa, criando "el mapa de todos", uma América do Sul unida. Independente do posicionamento político de Viglietti, sinto que esta canção transcende a política e a própria América do Sul na luta contra os "invasores" ou "colonizadores"; ela fala de um anseio humano universal, de nos transformar-nos em algo maior do que um mero conjunto de nações, que nos transformemos apenas em humanos num mesmo planeta, criando uma grande terra de todos, sem fronteiras, um corpo único e complexo do qual todos são parte essencial. É uma luta solitária, mas como diz a canção, "uma gota faz pouco, muitas gotas fazem tempestade".

E foi há dias atrás que uma bela coincidência me fez reviver essa viagem espiritual pela Sudamérica. Meu amigo-irmão Nevilton, ao regressar de Montevideu, trouxe-me, de presente, um livro que sempre quis ter na língua original: Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, do Pablo Neruda. Além da emoção pelo presente em sí, um desejo antigo realizado, logo vi o grande círculo simbólico que estava em minhas mãos: Foi Neruda quem me levou do Chile ao Uruguai de Viglietti e, dias atrás, o Uruguai de Viglietti me trouxe de volta ao Chile de Neruda. E com o tempero extra do livro ter sido publicado na Espanha, um dos grandes e cruéis colonizadores da América Latina. Que grande viagem, funda na alma Sulamericana, em apenas um livro de poemas! Obrigado, Nevilton!






Qué lejos está mi tierra
Y, sin embargo, qué cerca 
O es que existe un territorio 
Donde las sangres se mezclan.

Tanta distancia y camino,
Tan diferentes banderas 
Y la pobreza es la misma 
Los mismos hombres esperan. 

Yo quiero romper mi mapa, 
Formar el mapa de todos, 
Mestizos, negros y blancos, 
Trazarlo codo con codo. 

Los ríos son como venas 
De un cuerpo entero extendido, 
Y es el color de la tierra 
La sangre de los caídos. 

No somos los extranjeros 
Los extranjeros son otros; 
Son ellos los mercaderes 
Y los esclavos nosotros. 

Yo quiero romper la vida, 
Como cambiarla quisiera, 
Ayúdeme compañero; 
Ayúdeme, no demore, 
Que una gota con ser poco 
Con otra se hace aguacero. 


sexta-feira, 20 de maio de 2016

Nevilton : Noite Alta [EP, 2016]




Na hora de acordar, difícil é ficar de pé. O mundo inteiro cheira café e a gente vai trabalhar". Todos os que ouvem se identificam com o refrão da música Noite Alta, do Nevilton, segunda faixa do disco Sacode. Se você ainda não o conhecia, prepare-se para, à partir de agora, nunca mais esquecê-lo!

Há pouco mais de um ano, em abril de 2015, foi publicado um videoclipe super especial pra essa música, idealizado por Leo Longo e Diana Boccara, o casal maravilha do projeto Around The World In 80 Music Videos, pelo qual estão rodando o mundo gravando clipes, e mais, unindo e divulgando artistas, países e culturas sob as asas dessa bela ideia.

Aproveitando o aniversário do clipe, Nevilton preparou um EP com 5 versões diferentes de Noite Alta, além da versão original. Novas abordagens e experiências pra uma canção que é sempre recebida com muito carinho pelo público. Carinho que, certamente, será quintuplicado.

A versão 1972 é inspirada na sonoridade da Motown Records e da Stax Records, gravadoras norte-americanas que definiram o som dos anos 70, com seus belos discos cheios de groove e alma. A versão Semi-acústica foi como despir a canção, aproximando-a do espírito das rodas de violão, dos bares e pubs, pra todo mundo cantar e bater o pé no chão. A versão original vem pra matar a saudade e a versão ao vivo pra trazer toda a energia dos shows, que até então só quem viu podia se gabar. Inclusive, esse é o primeiro registro oficial em áudio ao vivo, lançado pela banda. Fecham o EP dois remix, o "NEV Remix" produzido para um projeto do site MúsicaPavê e o Fabz Zonatti Remix produzida pelo DJ da cena indie-rock e eletrônica paulistana. A capa no melhor clima amanhecer-hora de acordar é ilustração de Pietro Domiciano.

Cheio de surpresas e carinho, Nevilton lança mais esse trabalho, preparando os fãs para o um próximo álbum que está em fase de gravação. E como diz o próprio Nevilton: "É um EP de versões. De versões e diversões!". Divirtam-se.


Ouça ou compre no Spotify | Itunes | Deezer | OneRPM | Google Play


sexta-feira, 6 de maio de 2016

Desencontro : Primeiro Ato

Uma crônica em dois atos.
(podem ser lidas simultaneamente)


Primeiro Ato: O Homem

Pontualmente, como em todos os dias, ele entra na padaria. Enquanto se aproxima do balcão, seus olhos ansiosos vasculham cada rosto para encontrá-la. Assim que se acomoda em um dos bancos, voilà! Sua atendente preferida salta diante dele, linda como sempre, e diz:

– Olá, senhor Álvaro! Como vai?

Instantaneamente, acolhendo uma das mãos da jovem balconista entre as suas, responde:

– Olá, Regina! Vou muito bem, obrigado, mas quantas vezes terei que insistir? “Senhor” é aquele nosso amigo lá no céu. (tô perdido mesmo...) Por favor, apenas Álvaro. E pelo o que vejo você está ótima (e linda de morrer) como sempre! – completa com um sorriso, prontamente correspondido pela moça.
– Tudo bem sim, “Álvaro”. – responde ela recitando molengamente seu nome enquanto se debruça no balcão e se aproxima – em que posso lhe ser útil hoje?
– Adivinha?! (hum... esse perfume...que tal um beijo?... isso sim seria muito útil!).

Se entreolham e:

– Me vê aquele café! – dizem ao mesmo tempo.
– É pra já! – diz a moça.
– Ah! E não se esqueça de, depois de vê-lo, trazer uma xícara cheia dele pra mim, heim! (mas que piada idiota! Como eu sou idiota!).

Ela se afasta e vai cuidar do pedido. “Que doce de garota", ele pensa com seus botões. Mas, em segundos, pensamentos amargos do cotidianos invadem sua mente e a divagação vai longe. O que só é interrompido com a voz de Regina:

– Está aqui seu café, Álvaro.
– Ah! Obrigado, meu anjo! Muito obrigado mesmo.
– Precisa de mais alguma coisa?
– Não, (só de você, um quarto, um canto qualquer que seja, uma noite...) obrigado. Vou seguir a tradição e ficar só com o café (mas, um dia, fico é com você).
– Álvaro, você me dá licença, hoje o movimento está grande e vai ser difícil da gente conversar como de costume.
– Claro, fique à vontade!

Enquanto no balcão, ele não tira os olhos da atendente e, por algumas vezes, seus olhares se encontram, como que brincando de esconde-esconde. Ao terminar seu ritual do café, ele se despede, envolvendo novamente a mão de Regina entre as suas, com muita delicadeza.

– Bom... é... (ai meu Deus, falo ou não falo?) - ...o café estava ótimo, e mesmo se não estivesse, o que é impossível, já teria valido a pena só pela sua companhia.
– Que é isso, senh...digo, Álvaro! Conversar com você sempre me deixa muito feliz.
– Que bom! (por que diabos não te encontro fora daqui?) Mas tenho que ir (você deve ser mais linda ainda sem esse uniforme). Nos veremos amanhã então, como sempre (droga...).
– Ótimo! Nos veremos amanhã, até lá – responde com um leve sorriso.

Álvaro solta a mão de Regina, desalinha seu olhar com o dela e se dirige até a porta, de onde dá um último aceno de mão, assistindo à moça desaparecendo por detrás da parede e da distância que agora os separa. Enquanto caminha, puxa a carteira do bolso de seu paletó, da qual tira um guardanapo carinhosamente dobrado no qual se lê um número de telefone. “Um dia desses ainda ligo pra ela”, pensa consigo “Que mulher incrível! Mas o que ela iria querer comigo, esse velhaco? É... uma pena”.


Desencontro : Segundo Ato

Uma crônica em dois atos.
(podem ser lidas simultaneamente)


Segundo Ato: A Mulher

Pontualmente, como em todos os dias, ela respira fundo e olha para o relógio. “Faltam dez minutos” pensa, e prontamente se dirige ao banheiro para retocar o visual. Logo que sai, seus olhos ansiosos vasculham cada rosto da panificadora. Assim que mira a porta o vê entrar. Assiste seu cliente preferido se acomodando em um dos bancos do balcão, enquanto se aproxima sorrateiramente e, sorrindo, diz:

– Olá, senhor Álvaro! Como vai?

Instantaneamente após a saudação sente sua jovem mão ser acolhida entre as mãos altivas do moço, que com seus mais-do-que-quarenta de idade lhe trazem segurança e causam um calafrio estranho.

– Olá, Simone! Vou muito bem, obrigado, mas quantas vezes terei que insistir? “Senhor” é aquele nosso amigo lá no céu. Por favor, apenas Álvaro. E pelo que vejo você está ótima como sempre! – completa, mostrando um riso maroto, prontamente correspondido pela moça.
– Tudo bem sim, “Álvaro”. – responde ela recitando molengamente o nome do cliente enquanto se debruça no balcão e se aproxima – (isso... o perfume...) em que posso lhe ser útil hoje?
– Adivinha?!

Os dois se olham e:

– Me vê aquele café! – dizem ao mesmo tempo.
– Pois não, só um minutinho! – diz a moça. (hunf, café! Será o Benedito que ele não vai se tocar?).
– Ah! E não se esqueça de depois de vê-lo, me trazer uma xícara cheia dele, heim! – Álvaro ri e deixa entrever um sorriso amarelo.

Simone se afasta para atender ao pedido de seu cliente. “Que piada idiota! Mas ele é tão gracinha... uma doce.”, pensa ela com seus botões. Vai até a máquina de expresso, faz o café pensando em mil coisas, se perde entre pensamentos cotidianos e fantasias de amor. Assim que o pedido fica pronto, retorna até Álvaro e diz:

– Está aqui seu café, Álvaro.
– Ah! Obrigado, meu anjo! Muito obrigado mesmo.
– Precisa de mais alguma coisa? (uma namorada, esposa, amante, que seja eu de preferência...).
– Não, obrigado. Vou seguir a tradição e ficar só com o café.
– Álvaro, (só o café, é?) você me dá licença, hoje o movimento está grande (um dia eu te ganho e você vai ver só!) e vai ser difícil da gente conversar como de costume.
– Fique á vontade!

Durante o tempo em que o rapaz permanece na panificadora, Simone não perde os pequenos intervalos entre um atendimento e outro para olhá-lo. Por algumas vezes seus olhares se encontram, como que brincando de esconde-esconde.

Simone estava concentrada terminando de servir um milk-shake quando ouve a seu nome ser chamado. Era Álvaro, ele queria se despedir. A moça achegou-se bem próximo do cliente que imediatamente apanhou sua mão e, novamente, a envolveu entre as suas com extrema delicadeza.

- Bom...- dois segundos de silêncio, o rapaz inspira ar para os pulmões - ...o café estava ótimo, e mesmo se não estivesse, o que é impossível, já teria valido à pena só pela sua companhia.
- Que é isso, Senh...(ái!) digo, Álvaro! Conversar com você sempre me deixa muito feliz (mas você não dá bola pra mim e isso me deprime...).
- Maravilha, que bom ouvir isso! Mas tenho que ir. Nos veremos amanhã então, como sempre.
- Ótimo! Nos veremos amanhã, até lá (tsk, tsk, tsk...).

Álvaro solta a mão de Simone, desalinha seu olhar com o dela e se dirige até a porta enquanto ela fica detrás do balcão, assistindo ele desaparecer por trás dá parede. O último gesto do rapaz foi o início de um aceno de mão.

Voltando ao batente a moça pensa consigo: “Um dia desses ainda ligo pra ele... mas porque ele não me liga? Ele é tão meigo, mas tão lento! Pensando bem, o que ela iria querer comigo? Uma balconista de padaria vinte anos mais nova... Uma pena. Peraí, ele não pagou o café!”.


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Retratos Poéticos


São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.


Os versos acima são a fala de abertura para o primeiro ato da peça o "Orfeu da Conceição" (1956), escrita por Vinícius de Moraes e musicada por Tom Jobim. Foi primeira parceria entre os dois, parceria que, mais tarde, geraria uma revolução na história da música popular Brasileira. Posteriormente, em 1967, foram publicados como "Soneto do Corifeu", na segunda edição ampliada, do Livro de Sonetos, como um dos 25 poemas acrescentados aos 35 da primeira edição, de 1957. Ambas as edições foram organizadas pelo próprio Vinícius de Moraes. Mais tarde, pelas mãos de Toquinho, outro parceiro do poeta, o soneto se transformou em música e, sob o título de "São Demais os Perigos Dessa Vida", dá nome ao disco de 1971 de Toquinho e Vinícius.

Minha história com o Vinícius de Moraes é antiga. Ele se ausentou do mundo um mês antes do meu nascimento, em 1980 e, mesmo não tendo compartilhado o palco da existência com ele, desde a mais longínqua memória de infância, me recordo do sentimento de carinho que despertava em mim aquela gravura que o retratava, grisalho e calvo, com um nariz de batata, no encarte do disco "A Arca de Noé". E, enquanto crescia, continuei a descobrir, em sua obra, ecos perfeitos para os meus sentimentos, o que fez com que o carinho infantil se tornasse a admiração e respeito de um pupilo pelo mestre. Inevitável, tornei-me poeta.

Há semanas atrás, através de um exercício para um curso de poética que estou fazendo, procurando meus poemas preferidos para montar uma antologia, reencontrei o Soneto do Corifeu. Diria que ele não é só um dos meus poemas preferidos; ele é o mais importante deles. Foi o primeiro que, lá longe, na tenra juventude, me tocou fundo na alma; foi o primeiro que decorei e, sem jamais esquecê-lo, ainda o declamo decor. Hoje, menos leigo sobre a língua portuguesa e a poética, me espantei ao perceber que herdei, dos versos do Corifeu, importantes elementos líricos da minha poesia: a lua, testemunha silenciosa de todos nós, pura, intocável e inevitável; a solidão da noite, cuja calma, silêncio e solidão amplificam as mínimas e mais íntimas marolas sentimentais em tsunamis invencíveis; os perigos da paixão; a beleza constante da mulher e uma tristeza inerente a todo ser vivente, mas que é leve, expressa na cadência melancólica de cada palavra versificada.

E você, tem algum poema preferido, ou que foi importante na sua história? Que tal eleger alguns e aproveitar o acesso a regiões interiores, que só a poesia dá, para se conhecer ou se reencontrar? Faça a sua antologia de poemas e surpreenda-se quando vir, nela, um belo retrato seu.


Aproveite e ouça a canção "São Demais os Perigos Dessa Vida", de Toquinho e Vinícius, com direito ao Vinícius declamando o Soneto do Corifeu logo na introdução.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Culturanja : o fim de um ciclo.


Nota de despedida da Culturanja, por Ângela Russi,
publicada na coluna do Aragão Filho.

Neste fim de semana, recebi a notícia de que a Culturanja deixaria de ser publicada no jornal Umuarama Ilustrado, após 9 anos de história. Lembrei me da madrugada em que criamos o conceito Culturanja. Eu, Nevilton e Bruno Peguim, reunidos no saudoso depósito da Papelaria Aquarela, em Umuarama, escrevendo um manifesto para a juventude umuaramense e confabulando sobre formas de fortalecer e divulgar a cultura local, seja ela música, literatura, fotografia, teatro e tudo o mais que aparecer. Nascia daí o selo Culturanja, que arregimentaria tudo e todos que quisessem unir-se a esse processo de fortalecimento da cultura independente e local. Tivemos fanzine, blog, podcast, programa de rádio e página de jornal. E é desta última que falarei.

Ao conseguirmos espaço no jornal de maior circulação da região, o Umuarama Ilustrado, fiquei responsável pelo braço jornalístico do projeto. Iniciado com o nome de Cultura & Arte, foi publicada, pela primeira vez, no dia 18 de maio de 2008. Um ano depois, em 09 de agosto de 2009, resolvemos assumir o nome Culturanja para a página que, desde 2010, ano em que me mudei para São Paulo, se transformou em coluna e foi belamente mantida pela Ângela Russi, sempre aos domingos.

Além da Ângela, muitos amigos também contribuíram com seu talento para manter as coisas funcionando, então também quero agradecer aos Culturangers Nevilton, Bruno Peguim, Caroline Gil, Ane Carolina Pacola, Thiago Calixto, Lisiê Ferré Loti, Jair Junior Monteiro Solin e a todos que também participaram e a memória falha não me permitiu lembrar. Também agradeço ao time do Umuarama Ilustrado: Osmar Nunes (Editor Chefe), Magrão (Diagramador) e Ilídio Coelho Sobrinho (Diretor Geral), pela paciência e carinho dedicados à nossa causa.

Foi uma experiência que mudou minha vida. Pela primeira vez tive a demanda por uma produção contínua de textos e, não poderia ser diferente, viciei-me nessa rotina. Textos jornalísticos, resenhas, poemas e crônicas, de tudo um pouco e, mesmo com os altos e baixos da produtividade a que todos estamos sujeitos, consegui semear e colher bons frutos dessa atividade, como lançar um livro de poemas (outros mais já estão a caminho) e alimentar meu blog, o Lobservando. Enfim, conseguir realizar-me escritor, cronista e poeta graças a esse impulso bem aproveitado.

Sem me esquecer de agradecer a todos os leitores que nos acompanharam, aos domingos, por quase uma década, convidamos todos a continuar conosco. A Ângela Russi continua suas publicações em sua página no facebook; e eu, aqui, no Lobservando e, também, na Gazeta do Iguaçu. Fica a satisfação de saber que uma atitude criativa e firme de alguns caras do interior do Paraná gerou frutos por quase uma década, e muitos foram tocados por isso. Divulgou-se a arte e inspirou-se para a arte. E só podemos e devemos continuar.


Muito obrigado.



sexta-feira, 22 de abril de 2016

Abraçar o mundo.

Lembro-me da tristeza que senti durante a primeira vez em que mudei de cidade. Eu tinha quase 9 anos de idade, e sai da pequena Cruzeiro do Oeste, para a ainda menor Altônia, ambas no Noroeste do Paraná. Deixaria os meus primeiro amigos, meus primeiros romances infantis, meus primeiros lugares cativos e tudo o que me era valioso. Minha vida estava toda ali, mesmo que poucos anos, mas naquele tempo era toda a vida que eu tinha. Ao contrário do que pensei, foram poucos dias de tensão e. nos rápidos 2 anos nos quais morei em Altônia, fiz novos e valiosos amigos, novos amores não mais tão infantis, e vivi, por conta deles e do novo cenário, novas experiências que eu jamais viveria se não tivesse me mudado de cidade.

E já era hora de mudar de novo, dessa vez para a grande Umuarama, polo da região. Novamente tive que lidar com os "adeuses", as saudades e a sensação de planos frustrados, interrompidos. Foi menos dramático, com 11 anos de idade, eu achava ótima a ideia de ter amigos em duas cidades diferentes e conquistar mais alguns em uma terceira. Me senti até especial quando descobri que a maioria dos meus amigos jamais tinham sequer saído da cidade.

Dos 11 aos 26 anos de idade me envolvi profundamente com Umuarama, e meu círculo de amizade e conhecimento aumentaram em proporção geométrica. Sem perder contato com os antigos amigos, sempre presentes, eu compreendia, na prática, que amizade e afeto reais são coisas que, uma vez conquistadas, jamais se perdem.

Então apareceu a oportunidade de mudar de país. Era imperdível a chance de expandir minha experiência e conhecer mais pessoas e lugares. Dessa vez, deixaria a família, os amigos, os amores, os projetos e, enfim, toda a minha história, mas sair da zona de conforto não doeria mais tanto. Eu me colocaria à prova outra vez e só havia um resultado possível: me transformar em alguém melhor. 

Mudei-me e renasci em Los Angeles, Califórnia. Foi como me despir de uma roupa velha, fora de moda e vestir uma nova, que coubesse melhor em mim. E foi tudo muito fácil sem a bagagem daquela vida antiga. Ao mesmo tempo, senti que, mesmo há milhares de quilômetros de distância, as relações já construídas continuavam firmes, enquanto as novas se expandiam para o mundo, me relacionando com gente de outros países. Pela minha coragem e desprendimento, de cidadão de Cruzeiro do Oeste, eu havia me tornado um cidadão do mundo, de verdade.

Hoje, moro na cidade de São Paulo, minha quinta e, certamente, não a última cidade. Desnecessário falar das conexões que acontecem aqui. Também não mencionei os amigos que fiz por causa da minha carreira como músico, pela qual já passei por todas as regiões do Brasil.

Mais do que lugares, conquistei amigos verdadeiros, que estão espalhados ao redor do mundo, com os quais posso contar; pedir e oferecer abrigo e ombro amigo. Esse mundo que me recebe com carinho em toda parte, só foi possível pela coragem e receptividade aos convites da vida para ir cada vez mais longe. O conhecimento da vida, das paisagens, dos mistérios dos lugares e das pessoas, compõem quem eu sou, e farão parte de mim pra sempre, fazendo com que o quando mais longe eu vá, maior e mais plural eu me torne, e, quem sabe, me transformando de um cidadão do Mundo em um cidadão do Universo.

domingo, 17 de abril de 2016

Livro : A Caminho da Luz [1939, Emmanuel e Chico Xavier]

Comentário aos capítulos XVI ao XX - da queda do Império Romano ao Renascimento.

Link para download gratuito do livro completo.



Capa da primeira edição do livro, de 1939.

Francisco Cândido Xavier, famoso médium espírita, psicografou 412 livros durante os mais de 70 anos de trabalho ininterrupto pelo espiritismo. Isso dá uma média de 6 livros por ano, uma produção impossível para um homem comum, ainda mais se considerarmos sua pouca formação escolar; doenças oculares como o estrabismo no olho direito, o deslocamento do cristalino no esquerdo; a profundidade filosófica e científica dos textos; além do tempo utilizado em outras atividades como a psicografia das famosas cartas, as viagens, as palestras, entrevistas, o trabalho nos Centros Espíritas e as coisas naturais da vida como dormir, comer e tomar um banhozinho, pois ninguém é de ferro.

Um desses livros, publicado em 1939, é o "A Caminho da Luz". Psicografado por Chico Xavier e ditado pelo espírito de Emmanuel, o livro conta, pela ótica Espírita, o desenrolar dos fatos desde a criação do planeta Terra até o advento da Doutrina Espírita, em 1857, através de Allan Kardec e, ainda, aponta o trajeto a seguir, dando elementos para entendermos a história contemporânea e o nosso futuro. Como explica o próprio Emmanuel, no Antelóquio do livro : "Não deverá ser este um trabalho histórico. A história do mundo está compilada e feita. Nossa contribuição será à tese religiosa, elucidando a influência sagrada da fé e o ascendente espiritual, no curso de todas as civilizações terrestres.".

Entendo que a intenção maior do livro é chamar a atenção para a existência da providência divina e nos lembrar que ela age, amorosa e incessantemente, através dos tempos, por meio de uma equipe espiritual, formada por entidades muitíssimo evoluídas, que agem em nome de Deus, e cuidam para que os planos Dele se mantenham no eixo. Ainda melhor nas palavras de Emmanuel, registradas nos primeiros parágrafos do capítulo "I - A Gênese Planetária": "Rezam as tradições do mundo espiritual que na direção de todos os fenômenos do nosso sistema existe uma Comunidade de Espíritos Puros e Eleitos pelo Senhor Supremo do Universo, em cujas mãos se conservam as rédeas diretoras da vida de todas as coletividades planetárias. Essa Comunidade de seres angélicos e perfeitos, da qual é Jesus um dos membros divinos...".

Introduzido o contexto do livro, passo aos fatos.

Para o curso regular de Espiritismo da Federação Espírita do Estado de São Paulo, o qual estou cursando, a sala foi dividia em grupos e cada qual cuidou de resumir e explicar, num seminário de 15 minutos, um conjunto de capítulos. O grupo no qual participei cuidou dos capítulos XVI ao XX, que falam desde a do Império Romano até a chegada do Renascimento, passando pela Idade Média.

Durante quase um mês de conversas e troca de informações com os companheiros do grupo, tentei, sem sucesso, ordenar as informações pra que pudéssemos apresentar o trabalho, com clareza, frente à sala. Mesmo tendo sido a segunda vez que lia o livro, a linguagem complexa e o grande número de nomes, datas e referências me embaralhavam  como sempre  as idéias. Até que chegou a manhã do inevitável dia da apresentação, resolvi, então, anotar alguns tópicos para, pelo menos, não me perder durante a fala.

Sentei-me, armei-me de uma folha de almaço e uma caneta, pedi ajuda e, por alguns minutos, olhei para índice do livro, aos capítulos referentes ao meu grupo, enquanto tentava, mais uma vez, organizar as idéias. Iniciei a primeira anotação e, o que deveria ser alguns lembretes se transformou em vários parágrafos de um texto no qual tudo fazia um sentido que até minutos atrás não existia. Depois de 30 minutos, escrevendo sem parar, sentindo as idéias se ajuntarem na cabeça e escorrerem até o papel, eu tinha duas páginas e meia de almaço, resumindo todo o conteúdo referente aos capítulos do meu grupo de trabalho. Inspiração. Agradeço aos amigos invisíveis pela ajuda. Algumas leves correções estilísticas depois, o texto me pareceu tão bom que resolvi publicá-lo aqui no blog para quem, assim como eu, teve dificuldades no entendimento destes capítulos ou precisa de alguma chave a mais para entender um pouco mais do livro todo. Porém, aviso que o mergulho aqui não é fundo, ainda não tenho essa capacidade.

Antes, vale lembrar que, de acordo com o livro, nos planos de Deus para a humanidade, a missão do Império Romano era de ser um facilitador para a disseminação do Evangelho, a Boa Nova que facilitaria a religação do homem materialista com a espiritualidade universal e as Leis do Criador. Depois de várias tentativas durante os tempos, contando com a ajuda de outros emissários como Zoroastro, Confúcio, Buda, etc, desta vez, a Mensagem seria trazida pelo próprio Cristo, o Espírito mais evoluído da Terra, o Governador Planetário. Por isso, através da ajuda invisível e da encarnação de grandes espíritos, Roma consegui se expandir através da quase totalidade do mundo ocidental antigo e conhecido, tornando-se o maior império em abrangência geográfica e organização estrutural que havia existido até então.

Segue, daqui, o texto apresentado em sala:

Tendo em vista a falha de Roma em cumprir sua missão de ser a base social para a expansão das ideias cristãs, principalmente por causa de se vincularem e promoverem ideias materialistas como a vaidade, o orgulho, a sensualidade e a belicosidade, os espíritos encarregados, da mesma forma que auxiliaram na formação do Império Romano, tomaram providências para que ele fosse desmontado, cessando com a ajuda. Além do mais, há de se considerar que atitudes materialistas e não cristãs, como as de Roma, só poderiam resultar na instabilidade social e na impossibilidade da manutenção da ordem política em uma área tão grande. Afinal, é natural a instabilidade e a destruição de tudo o que não segue as Leis Divinas, que também podem ser chamadas de Leis Naturais, por serem perfeitas e imutáveis através da eternidade.

A Igreja Católica, nascida do Cristianismo, vinculou-se ao estado romano e foi infectada pelos mesmos valores e costumes distorcidos, que gerariam muitos problemas para a instituição no futuro. Mas tais problemas, como as atitudes autoritárias e centralizadoras, também trariam coisas boas para a humanidade, séculos depois. Como, por exemplo, o Protestantismo, que veio por Lutero, movido pela insatisfação com as posturas dogmáticas católicas, libertou a Bíblia dos armários secretos dos mosteiros e a colocou nas mesas do povo.

Com o desmonte do império, a força política que unia aquele emaranhado de nações e culturas cessou, fazendo com que cada um procurasse o seu lugar ao sol e sua própria organização, mas sem a estrutura e a cultura romana, que foi abnegada, deixada de lado, pois ela simbolizava o antigo algoz, do qual todos queriam manter distância e, se possível, esquecer para sempre. Este movimento levou a humanidade tempos de ignorância, a Idade Média, Idade das Trevas, a Era do Feudalismo. E sem a visão Espírita é impossível de explicar o infinito amor e a misericórdia divina frente a tão obscuro período.

Apesar de ter sido quase uma volta ao total primitivismo, tudo sempre acontece sob a vigilância misericordiosa da equipe espiritual que, entre várias ações, enviou o espírito que foi um dos mais nobres imperadores romanos, leal trabalhador do Cristo, que reencarnou como Carlos Magno, e reorganizou a estrutura do mundo ocidental, tão fragmentada após a queda do império romano. Durante os 46 anos de seu governo, Carlos Magno deixou uma nova base cultural e administrativa que possibilitaria a continuidade dos planos divinos.

Portanto, durante o período da Idade Média, sem a refinada estrutura cultural e social de Roma, a humanidade voltou à lida diária com a terra, o que gerou a valorização do trabalho e a conexão, novamente, e de forma mais fundamental, com a natureza. E através dessa existência mais humilde e sem qualquer conforto, ressurgiu, no coração dos homens, de forma mais forte, o sentimento da existência de um deus que a tudo rege. Foram, assim, a fé e a resignação retrabalhadas íntima e profundamente na humanidade, através das dores, doenças e outras inumeráveis dificuldades comuns àqueles tempos.

Nessa época, a Igreja Católica estava cada vez mais poderosa e parecia intocável. Era manipulada por espíritos infelizes e ignorantes que, tentando a todo custo evitar a expansão do Amor e da Caridade pelo mundo, usaram a instituição como protagonista de atividades bárbaras e reprováveis pela Lei de Deus, como as Cruzadas e a Inquisição. Todo o esforço era válido para abafar as verdades que colocariam a humanidade à caminho da luz e, em xeque, tudo o que alimentava seus vícios e desvios morais que tanto lhes davam prazer.

Entretanto, como já dito, os trabalhadores espirituais do Cristo se mantiveram sempre vigilantes e ativos, enviando, de tempos em tempos, emissários do alto para auxiliar a humanidade a manter-se no caminho, ou, pelo menos, não se afastar muito dele durante esta parte escura e difícil da jornada. Para isso, encarnaram, tanto na sociedade civil, quanto entre os nobres e o clero, baluartes da mensagem cristã que, munidos de amor e misericórdia, traziam ideias e métodos novos para melhorar as condições de vida material e espiritual das pessoas. Religiosos, Filósofos, Inventores, todos de coração e alma iluminados, mantiveram vivos o pensamento e as atitudes benéficas. Vide Santo Agostinho, São Francisco de Assis, São Tomás de Aquino, Roger Bacon, entre outros.

Se é através das limitações que temos as melhores inspirações, durante as provas e expiações da estreitíssima Idade Média, a humanidade se desarmou das vaidades de outrora e se colocou novamente sensível aos pequenos detalhes da vida e do Universo, despertando, mais um vez, como não acontecia desde os gregos, a curiosidade que motivaria as descobertas, as invenções, os questionamentos e demais eventos que desaguariam no Renascimento. Transformando, até mesmo, o próprio corpo humano, objeto tão cotidiano, em algo sublime, divino.

Assim sendo, com uma nova base social e espiritual instalada, à partir do Sec. XIV, vários espíritos iluminados começaram a reencarnar trazendo novos e mais avançados conhecimentos em todas as áreas. Ciência, Filosofia, Religião sofreriam à partir daí, grandes revoluções e, auxiliado pela invenção da imprensa, por Guttemberg e pelas grandes navegações da Escola de Sagres, que possibilitariam o intercambio e a colonização do novo mundo, o conhecimento se espalharia sem fronteiras.

Tal cenário preparou a humanidade, principalmente a europeia, para receber os espíritos que pavimentariam a estrada até o Iluminismo, a grande era das luzes, cujo ápice foram os séculos XVIII e XIV. Estava, enfim, todo o planeta, novamente preparado para uma nova fase, uma nova tentativa de instalar, no coração da humanidade, o Evangelho.